O Primeiro Homem na Lua

James R. Hansen · Capítulo 22 de 42

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O Primeiro Homem na Lua

Capítulo 16: Pelas Américas

CAPÍTULO 16

 

 

Pelas Américas

 

Antes mesmo de completar seus relatórios sobre o voo da

Gemini VIII, no final de março de 1966, Armstrong já tinha sido

escolhido para comandante reserva da Gemini XI. Ele iniciou o

treinamento tão rápido e com tanta dedicação que nem

conseguiu passar uma noite com a família em Wapakoneta, no

dia da festa em sua homenagem.

As missões Gemini IX e Gemini X foram executadas com um

intervalo de sete semanas entre si, em junho e julho de 1966,

repetindo o padrão de uma aproximação relativamente simples

seguida de um acoplamento problemático. O Agena projetado

para a Gemini IX nunca chegou ao espaço. Desceu em espiral e

mergulhou fundo no oceano Atlântico, após uma falha em seu

propulsor Atlas, pouco depois do lançamento. Para o voo da

Gemini X, de 18 a 21 de julho, Armstrong serviu como CapCom,

em Houston. Dessa vez, o acoplamento funcionou, pois o

comandante John Young acomodou sua máquina em um engate

sólido com um Agena completamente novo. Foi a primeira vez

que uma espaçonave tripulada se acoplou por completo a um

veículo-alvo desde o voo da Gemini VIII com Armstrong. E, pela

primeira vez, a nave continuou acoplada. Mais tarde, na mesma

missão, o piloto Mike Collins executou uma atividade

extraveicular inesquecível, que durou uma hora e meia. O

resultado foi muito bem recebido.

Para Armstrong, o treinamento como comandante reserva se

resumia muito mais a ensinar do que aprender, já que a Gemini

XI seria sua terceira experiência, depois da V e VIII. O que mais

interessava e preocupava Armstrong em relação à Gemini XI

eram os aspectos da missão que não haviam sido testados, em particular os que eram relacionados às manobras do piloto. A

aproximação com o Agena deveria se dar na primeira revolução

da espaçonave em volta do planeta, com uma janela de

lançamento de dois segundos. Essa manobra simulava o tipo de

aproximação que deveria ser feita entre um módulo lunar e um

módulo de comando depois que o primeiro voltasse da superfície

da Lua. A aproximação devia ser rápida por conta das limitações

do estágio de ascensão por causa do abastecimento do módulo

lunar. Alguns dos planejadores de missão deram à técnica o

nome de “força bruta”, já que a espaçonave estaria se

aproximando do veículo-alvo em alta velocidade enquanto todos

os voos anteriores de aproximação tinham mirado o alvo com

certa calma, esperando até o início da quarta órbita antes de

começar a manobra de manutenção orbital. A outra grande

novidade na Gemini XI foi a ancoragem experimental da

espaçonave Gemini com o Agena através de uma corda Dacron

de trinta metros. Uma meta do experimento de ancoragem,

segundo Armstrong, era “descobrir se conseguiríamos manter

dois veículos em formação sem ter informações sobre

combustível ou ação de controle”. Outro objetivo era saber se a

ancoragem conseguiria melhorar a estabilidade das

espaçonaves, diminuindo o risco de colisão entre elas.

No verão anterior ao lançamento, Armstrong e Anders

ajudaram Pete Conrad e Dick Gordon, a tripulação principal, a

trabalhar nas técnicas requeridas para realizar todos os aspectos

da missão Gemini XI. Por muito tempo, os quatro ficaram

hospedados juntos em uma casa de praia no Cabo. Segundo

Neil: “Íamos à praia e ficávamos trabalhando em procedimentos

de trajetória e de aproximação, desenhando diagramas na areia

e caminhando em volta de nossos desenhos. Interpretávamos os

procedimentos e trabalhávamos nas partes difíceis que não

entendíamos muito bem. Era um método relaxante e muito útil.

Às vezes, pedíamos ao cozinheiro do alojamento dos astronautas

que preparasse um piquenique para levarmos para o almoço.

Passávamos algumas horas sem telefone para nos incomodar e

nos concentrávamos profundamente nas coisas.”

A Gemini XI foi lançada em 12 de setembro de 1966. A técnica

de aproximação funcionou bem. A espaçonave quebrou o

recorde mundial de altitude — 760 quilômetros, marcado dois

meses antes por John Young e Collins na Gemini X — ao atingir

o apogeu orbital em 1.360 quilômetros. O exercício de

ancoragem causou vários momentos de nervosismo. A manobra

de Dick Gordon para conectar a Gemini ao Agena por ancoragem

em sua primeira atividade extraveicular se transformou em uma

prova atlética. Quase cego pelo suor, Gordon montou no nariz da

espaçonave, tentando realizar a conexão com o veículo-alvo ao

qual ela estava acoplada. Conrad mandou que Dick voltasse

depois de transcorridos apenas trinta dos 107 minutos

planejados, de tão cansado que ele parecia. Até mesmo a

retirada da corda de trinta metros de seu contêiner de

armazenamento foi uma tarefa difícil, porque a Dacron ficou

presa em um pedaço de velcro. Uma vez conectada, ela

começou a girar fortemente e causou oscilações eventuais a

ponto de Conrad precisar estabilizar o veículo com seus

controles. Depois de ficarem presos ao Agena por três horas,

Conrad e Gordon, com alegria, encerraram o experimento

complicado, descartando a barra de acoplamento. Na Gemini XII,

Buzz Aldrin e Jim Lovell concluíram com sucesso o experimento

com a corda e provaram que a gravidade diferencial entre dois

veículos em órbita conectados em altitudes levemente diferentes

permitia a manutenção orbital da estação sem o uso de

combustível.

Neil acompanhou a missão da Gemini XI no posto de CapCom

no controle da missão em Houston. Com a conclusão bem-

sucedida do voo em 15 de setembro e depois da apresentação

de diversos relatórios seus, as responsabilidades de Neil no

Programa Gemini chegaram ao fim.

Haveria um último voo do programa, com a Gemini XII, de 11 a

15 de novembro de 1966. Jim Lovell, o comandante, e Buzz

Aldrin, o piloto, executaram uma manobra de aproximação e um

voo de acoplamento impressionantes com 59 revoluções

planetárias. A realização mais notável do voo foi a atividade extraveicular de Aldrin, com cinco horas de duração e muito bem-

sucedida.

A maior parte dos analistas do programa espacial concluiu que

o Programa Gemini foi uma ponte fundamental entre o Mercury e

o Apollo. De fato, todas as metas especificadas pelo Gemini

tinham sido alcançadas, além de algumas outras, como:

demonstração da capacidade de aproximação e acoplamento

com veículo-alvo; demonstração do valor de uma espaçonave

tripulada para experimentos científicos e tecnológicos; o

desempenho do trabalho dos astronautas no espaço; o uso de

um satélite movido a combustível para fornecer propulsão

primária e secundária para uma espaçonave acoplada; voos

espaciais de longa duração sem efeitos colaterais extraordinários

para os astronautas; e o pouso preciso de uma espaçonave.

Grandes recordes foram batidos durante o Programa Gemini,

incluindo o voo espacial tripulado mais longo (330 horas e 35

minutos), a maior altitude (1.530 quilômetros), o maior tempo de

atividade extraveicular realizado por um astronauta (5 horas e 28

minutos, acumulado por Aldrin em suas três atividades

extraveiculares na Gemini XII). Quando Lovell e Aldrin

reentraram na atmosfera, levando a Gemini XII e todo o projeto a

uma conclusão, espaçonaves americanas pilotadas tinham

passado 1.993 horas no espaço.

Neil Armstrong ficou magoado ao se dar conta de que, com

seu voo abreviado na Gemini VIII, contribuiu com apenas dez de

todas essas horas.

 

* * *

 

Tal decepção foi trivial se comparada às perdas pessoais trágicas

que Neil e Janet continuavam a sofrer. Em 8 de junho de 1966, o

chefe e melhor amigo de Neil nos tempos de Edwards, Joe

Walker, morreu em uma colisão bizarra ao sobrevoar o deserto

de Mojave. Inexplicavelmente, o Starfighter F-104N de Walker se

aproximou demais de um avião com o qual voava em formação

— o Valkyrie XB-70A, um bombardeiro experimental de 500 milhões de dólares que a North American Aviation projetara para

alcançar velocidades superiores a Mach 3 — e ficou preso no

extraordinariamente poderoso e imenso vórtice de ponta da asa

do avião. Walker morreu na hora. Um dos pilotos do Valkyrie, o

major da Força Aérea, Carl S. Cross, morreu nos escombros do

bombardeiro. O outro piloto do XB-70A, Al White, piloto de teste

da North American, sobreviveu usando a cápsula de ejeção do

avião, mas sofreu ferimentos graves. Para piorar a tragédia, as

mortes ocorreram durante uma sessão de fotos publicitárias para

a General Electric.

Em Houston, Armstrong recebeu um telefonema de Edwards

pouco depois do acidente. Tinham se passado apenas três

meses desde o acidente fatal que matara seu bom amigo Elliot

See em companhia de Charlie Bassett. Entre esses dois

acidentes fatais com aviões, Neil sobreviveu ao próprio quase

acidente na Gemini VIII. Neil e Janet estavam entre as

setecentas pessoas presentes no emocionante funeral de

Walker. “Toda a minha vida adulta foi interrompida pela perda de

amigos”, comentou Neil.

 

* * *

 

No início de outubro de 1966, Neil e Janet partiram para uma

turnê de 24 dias pela América Latina. Com Armstrong, viajavam

Dick Gordon, logo depois de seu voo com a Gemini XI, e o dr.

George Low, ex-vice-diretor para voos espaciais tripulados na

sede da NASA que, alguns meses depois, se tornaria chefe do

Escritório do Apollo Applications Program (Programa de

Aplicações do Apollo) no Centro de Espaçonaves Tripuladas.

Junto deles viajavam suas esposas, além de funcionários da

NASA e membros de outras agências, como o Departamento de

Estado. A equipe percorreu mais de 24 mil quilômetros por onze

países e fez aparições em quatorze grandes cidades. Aonde quer

que os astronautas fossem, as ruas se enchiam de gente. As

multidões avançavam para os visitantes. Por toda a América Latina, eles encontraram pessoas “espontâneas, amistosas e

extremamente acolhedoras”.

A viagem foi o primeiro contato de Neil com a condição de

ícone que mais tarde mudaria tão drasticamente a sua vida. Na

Colômbia, o segundo país visitado por eles, “a recepção foi

deslumbrante”, escreveu George Low em seu diário. Em Quito,

capital do Equador, as pessoas “não ficavam satisfeitas em se

limitar às calçadas” e deixavam à carreata “um espaço pequeno

que mal dava para os carros passarem”. Em São Paulo, o grupo

viu gente debruçada em praticamente todas as janelas. Em

Santiago do Chile, senhoras batiam palmas e gritavam “Viva!”.

Mais de 2.500 convidados compareceram ao jantar formal no Rio

de Janeiro, e cada um deles esperava trocar apertos de mão com

os astronautas. Na Universidade de Brasília, 1.500 pessoas se

reuniram em um auditório de quinhentos lugares para ouvir os

astronautas. Nessa viagem de três semanas e meia, milhões de

pessoas conseguiram ver os astronautas americanos. “Sempre

que possível”, escreveu Low, “Neil e Dick saíam dos carros e

distribuíam apertos de mão, davam autógrafos e proporcionavam

um contato bem pessoal.” Em toda a América do Sul, a turnê saiu

nas manchetes dos jornais e em rede nacional. O presidente da

Venezuela, Raúl Leoni, e seus filhos deram as boas-vindas aos

americanos em La Casona, o palácio presidencial nas

proximidades de Caracas. Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e

Bolívia montaram um grande esquema de segurança. Em La

Paz, na Bolívia, havia soldados armados a cada quatrocentos

metros, do aeroporto até o centro da cidade. No Brasil, no

Paraguai e no Uruguai, não havia quase nenhuma segurança

militar, mas uma escolta policial controlava as multidões. Em

alguns lugares, como Buenos Aires, a quantidade de gente

deslumbrava os visitantes americanos. Em várias situações, os

homens do Departamento de Estado, da Agência de Informação

dos Estados Unidos (da sigla em inglês USIA, United States

Information Agency) e da NASA se viram forçados a cuidar da

segurança.

Além do assédio normal dos caçadores de autógrafos e dos

muitos protestos contra a Guerra do Vietnã, surpreendentemente houve bem poucos incidentes. Neil, assim que foi notificado da

viagem, tinha se matriculado em um curso de conversação em

espanhol. Passou muitas noites com enciclopédias aprendendo

tudo que podia sobre as diferenças entre os onze países que

visitaria. Ele e os outros astronautas fizeram apresentações de

slides e responderam a perguntas sobre tudo, de temas técnicos

a dúvidas sobre se voar no espaço tinha mudado a opinião que

tinham sobre Deus.

O que mais impressionava George Low em relação a Neil não

era o sucesso de suas apresentações. “Neil tinha talento para

fazer pequenos discursos em resposta a brindes e quando

recebia medalhas, ou em resposta a perguntas de qualquer tipo”,

lembra Low. “Ele nunca deixou de escolher as palavras corretas.”

Em seu diário de viagem, Low concluiu: “Só posso dizer que

estou impressionado. Neil fez um tremendo sucesso com o

povo.”

Dada a importância que George Low teria nas futuras

discussões sobre a escolha da tripulação para o Programa Apollo

e mais tarde na decisão sobre qual astronauta seria o primeiro

homem a pisar na superfície da Lua, sua avaliação

extremamente positiva influenciou as realizações seguintes de

Neil como astronauta.

Dentro do Departamento de Estado, da USIA e da NASA,

autoridades com mentalidade política perceberam que a turnê

pela América Latina tinha marcado um gol em favor do “estilo de

vida americano”.