O Primeiro Homem na Lua
Capítulo 16: Pelas Américas
CAPÍTULO 16
Pelas Américas
Antes mesmo de completar seus relatórios sobre o voo da
Gemini VIII, no final de março de 1966, Armstrong já tinha sido
escolhido para comandante reserva da Gemini XI. Ele iniciou o
treinamento tão rápido e com tanta dedicação que nem
conseguiu passar uma noite com a família em Wapakoneta, no
dia da festa em sua homenagem.
As missões Gemini IX e Gemini X foram executadas com um
intervalo de sete semanas entre si, em junho e julho de 1966,
repetindo o padrão de uma aproximação relativamente simples
seguida de um acoplamento problemático. O Agena projetado
para a Gemini IX nunca chegou ao espaço. Desceu em espiral e
mergulhou fundo no oceano Atlântico, após uma falha em seu
propulsor Atlas, pouco depois do lançamento. Para o voo da
Gemini X, de 18 a 21 de julho, Armstrong serviu como CapCom,
em Houston. Dessa vez, o acoplamento funcionou, pois o
comandante John Young acomodou sua máquina em um engate
sólido com um Agena completamente novo. Foi a primeira vez
que uma espaçonave tripulada se acoplou por completo a um
veículo-alvo desde o voo da Gemini VIII com Armstrong. E, pela
primeira vez, a nave continuou acoplada. Mais tarde, na mesma
missão, o piloto Mike Collins executou uma atividade
extraveicular inesquecível, que durou uma hora e meia. O
resultado foi muito bem recebido.
Para Armstrong, o treinamento como comandante reserva se
resumia muito mais a ensinar do que aprender, já que a Gemini
XI seria sua terceira experiência, depois da V e VIII. O que mais
interessava e preocupava Armstrong em relação à Gemini XI
eram os aspectos da missão que não haviam sido testados, em particular os que eram relacionados às manobras do piloto. A
aproximação com o Agena deveria se dar na primeira revolução
da espaçonave em volta do planeta, com uma janela de
lançamento de dois segundos. Essa manobra simulava o tipo de
aproximação que deveria ser feita entre um módulo lunar e um
módulo de comando depois que o primeiro voltasse da superfície
da Lua. A aproximação devia ser rápida por conta das limitações
do estágio de ascensão por causa do abastecimento do módulo
lunar. Alguns dos planejadores de missão deram à técnica o
nome de “força bruta”, já que a espaçonave estaria se
aproximando do veículo-alvo em alta velocidade enquanto todos
os voos anteriores de aproximação tinham mirado o alvo com
certa calma, esperando até o início da quarta órbita antes de
começar a manobra de manutenção orbital. A outra grande
novidade na Gemini XI foi a ancoragem experimental da
espaçonave Gemini com o Agena através de uma corda Dacron
de trinta metros. Uma meta do experimento de ancoragem,
segundo Armstrong, era “descobrir se conseguiríamos manter
dois veículos em formação sem ter informações sobre
combustível ou ação de controle”. Outro objetivo era saber se a
ancoragem conseguiria melhorar a estabilidade das
espaçonaves, diminuindo o risco de colisão entre elas.
No verão anterior ao lançamento, Armstrong e Anders
ajudaram Pete Conrad e Dick Gordon, a tripulação principal, a
trabalhar nas técnicas requeridas para realizar todos os aspectos
da missão Gemini XI. Por muito tempo, os quatro ficaram
hospedados juntos em uma casa de praia no Cabo. Segundo
Neil: “Íamos à praia e ficávamos trabalhando em procedimentos
de trajetória e de aproximação, desenhando diagramas na areia
e caminhando em volta de nossos desenhos. Interpretávamos os
procedimentos e trabalhávamos nas partes difíceis que não
entendíamos muito bem. Era um método relaxante e muito útil.
Às vezes, pedíamos ao cozinheiro do alojamento dos astronautas
que preparasse um piquenique para levarmos para o almoço.
Passávamos algumas horas sem telefone para nos incomodar e
nos concentrávamos profundamente nas coisas.”
A Gemini XI foi lançada em 12 de setembro de 1966. A técnica
de aproximação funcionou bem. A espaçonave quebrou o
recorde mundial de altitude — 760 quilômetros, marcado dois
meses antes por John Young e Collins na Gemini X — ao atingir
o apogeu orbital em 1.360 quilômetros. O exercício de
ancoragem causou vários momentos de nervosismo. A manobra
de Dick Gordon para conectar a Gemini ao Agena por ancoragem
em sua primeira atividade extraveicular se transformou em uma
prova atlética. Quase cego pelo suor, Gordon montou no nariz da
espaçonave, tentando realizar a conexão com o veículo-alvo ao
qual ela estava acoplada. Conrad mandou que Dick voltasse
depois de transcorridos apenas trinta dos 107 minutos
planejados, de tão cansado que ele parecia. Até mesmo a
retirada da corda de trinta metros de seu contêiner de
armazenamento foi uma tarefa difícil, porque a Dacron ficou
presa em um pedaço de velcro. Uma vez conectada, ela
começou a girar fortemente e causou oscilações eventuais a
ponto de Conrad precisar estabilizar o veículo com seus
controles. Depois de ficarem presos ao Agena por três horas,
Conrad e Gordon, com alegria, encerraram o experimento
complicado, descartando a barra de acoplamento. Na Gemini XII,
Buzz Aldrin e Jim Lovell concluíram com sucesso o experimento
com a corda e provaram que a gravidade diferencial entre dois
veículos em órbita conectados em altitudes levemente diferentes
permitia a manutenção orbital da estação sem o uso de
combustível.
Neil acompanhou a missão da Gemini XI no posto de CapCom
no controle da missão em Houston. Com a conclusão bem-
sucedida do voo em 15 de setembro e depois da apresentação
de diversos relatórios seus, as responsabilidades de Neil no
Programa Gemini chegaram ao fim.
Haveria um último voo do programa, com a Gemini XII, de 11 a
15 de novembro de 1966. Jim Lovell, o comandante, e Buzz
Aldrin, o piloto, executaram uma manobra de aproximação e um
voo de acoplamento impressionantes com 59 revoluções
planetárias. A realização mais notável do voo foi a atividade extraveicular de Aldrin, com cinco horas de duração e muito bem-
sucedida.
A maior parte dos analistas do programa espacial concluiu que
o Programa Gemini foi uma ponte fundamental entre o Mercury e
o Apollo. De fato, todas as metas especificadas pelo Gemini
tinham sido alcançadas, além de algumas outras, como:
demonstração da capacidade de aproximação e acoplamento
com veículo-alvo; demonstração do valor de uma espaçonave
tripulada para experimentos científicos e tecnológicos; o
desempenho do trabalho dos astronautas no espaço; o uso de
um satélite movido a combustível para fornecer propulsão
primária e secundária para uma espaçonave acoplada; voos
espaciais de longa duração sem efeitos colaterais extraordinários
para os astronautas; e o pouso preciso de uma espaçonave.
Grandes recordes foram batidos durante o Programa Gemini,
incluindo o voo espacial tripulado mais longo (330 horas e 35
minutos), a maior altitude (1.530 quilômetros), o maior tempo de
atividade extraveicular realizado por um astronauta (5 horas e 28
minutos, acumulado por Aldrin em suas três atividades
extraveiculares na Gemini XII). Quando Lovell e Aldrin
reentraram na atmosfera, levando a Gemini XII e todo o projeto a
uma conclusão, espaçonaves americanas pilotadas tinham
passado 1.993 horas no espaço.
Neil Armstrong ficou magoado ao se dar conta de que, com
seu voo abreviado na Gemini VIII, contribuiu com apenas dez de
todas essas horas.
* * *
Tal decepção foi trivial se comparada às perdas pessoais trágicas
que Neil e Janet continuavam a sofrer. Em 8 de junho de 1966, o
chefe e melhor amigo de Neil nos tempos de Edwards, Joe
Walker, morreu em uma colisão bizarra ao sobrevoar o deserto
de Mojave. Inexplicavelmente, o Starfighter F-104N de Walker se
aproximou demais de um avião com o qual voava em formação
— o Valkyrie XB-70A, um bombardeiro experimental de 500 milhões de dólares que a North American Aviation projetara para
alcançar velocidades superiores a Mach 3 — e ficou preso no
extraordinariamente poderoso e imenso vórtice de ponta da asa
do avião. Walker morreu na hora. Um dos pilotos do Valkyrie, o
major da Força Aérea, Carl S. Cross, morreu nos escombros do
bombardeiro. O outro piloto do XB-70A, Al White, piloto de teste
da North American, sobreviveu usando a cápsula de ejeção do
avião, mas sofreu ferimentos graves. Para piorar a tragédia, as
mortes ocorreram durante uma sessão de fotos publicitárias para
a General Electric.
Em Houston, Armstrong recebeu um telefonema de Edwards
pouco depois do acidente. Tinham se passado apenas três
meses desde o acidente fatal que matara seu bom amigo Elliot
See em companhia de Charlie Bassett. Entre esses dois
acidentes fatais com aviões, Neil sobreviveu ao próprio quase
acidente na Gemini VIII. Neil e Janet estavam entre as
setecentas pessoas presentes no emocionante funeral de
Walker. “Toda a minha vida adulta foi interrompida pela perda de
amigos”, comentou Neil.
* * *
No início de outubro de 1966, Neil e Janet partiram para uma
turnê de 24 dias pela América Latina. Com Armstrong, viajavam
Dick Gordon, logo depois de seu voo com a Gemini XI, e o dr.
George Low, ex-vice-diretor para voos espaciais tripulados na
sede da NASA que, alguns meses depois, se tornaria chefe do
Escritório do Apollo Applications Program (Programa de
Aplicações do Apollo) no Centro de Espaçonaves Tripuladas.
Junto deles viajavam suas esposas, além de funcionários da
NASA e membros de outras agências, como o Departamento de
Estado. A equipe percorreu mais de 24 mil quilômetros por onze
países e fez aparições em quatorze grandes cidades. Aonde quer
que os astronautas fossem, as ruas se enchiam de gente. As
multidões avançavam para os visitantes. Por toda a América Latina, eles encontraram pessoas “espontâneas, amistosas e
extremamente acolhedoras”.
A viagem foi o primeiro contato de Neil com a condição de
ícone que mais tarde mudaria tão drasticamente a sua vida. Na
Colômbia, o segundo país visitado por eles, “a recepção foi
deslumbrante”, escreveu George Low em seu diário. Em Quito,
capital do Equador, as pessoas “não ficavam satisfeitas em se
limitar às calçadas” e deixavam à carreata “um espaço pequeno
que mal dava para os carros passarem”. Em São Paulo, o grupo
viu gente debruçada em praticamente todas as janelas. Em
Santiago do Chile, senhoras batiam palmas e gritavam “Viva!”.
Mais de 2.500 convidados compareceram ao jantar formal no Rio
de Janeiro, e cada um deles esperava trocar apertos de mão com
os astronautas. Na Universidade de Brasília, 1.500 pessoas se
reuniram em um auditório de quinhentos lugares para ouvir os
astronautas. Nessa viagem de três semanas e meia, milhões de
pessoas conseguiram ver os astronautas americanos. “Sempre
que possível”, escreveu Low, “Neil e Dick saíam dos carros e
distribuíam apertos de mão, davam autógrafos e proporcionavam
um contato bem pessoal.” Em toda a América do Sul, a turnê saiu
nas manchetes dos jornais e em rede nacional. O presidente da
Venezuela, Raúl Leoni, e seus filhos deram as boas-vindas aos
americanos em La Casona, o palácio presidencial nas
proximidades de Caracas. Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e
Bolívia montaram um grande esquema de segurança. Em La
Paz, na Bolívia, havia soldados armados a cada quatrocentos
metros, do aeroporto até o centro da cidade. No Brasil, no
Paraguai e no Uruguai, não havia quase nenhuma segurança
militar, mas uma escolta policial controlava as multidões. Em
alguns lugares, como Buenos Aires, a quantidade de gente
deslumbrava os visitantes americanos. Em várias situações, os
homens do Departamento de Estado, da Agência de Informação
dos Estados Unidos (da sigla em inglês USIA, United States
Information Agency) e da NASA se viram forçados a cuidar da
segurança.
Além do assédio normal dos caçadores de autógrafos e dos
muitos protestos contra a Guerra do Vietnã, surpreendentemente houve bem poucos incidentes. Neil, assim que foi notificado da
viagem, tinha se matriculado em um curso de conversação em
espanhol. Passou muitas noites com enciclopédias aprendendo
tudo que podia sobre as diferenças entre os onze países que
visitaria. Ele e os outros astronautas fizeram apresentações de
slides e responderam a perguntas sobre tudo, de temas técnicos
a dúvidas sobre se voar no espaço tinha mudado a opinião que
tinham sobre Deus.
O que mais impressionava George Low em relação a Neil não
era o sucesso de suas apresentações. “Neil tinha talento para
fazer pequenos discursos em resposta a brindes e quando
recebia medalhas, ou em resposta a perguntas de qualquer tipo”,
lembra Low. “Ele nunca deixou de escolher as palavras corretas.”
Em seu diário de viagem, Low concluiu: “Só posso dizer que
estou impressionado. Neil fez um tremendo sucesso com o
povo.”
Dada a importância que George Low teria nas futuras
discussões sobre a escolha da tripulação para o Programa Apollo
e mais tarde na decisão sobre qual astronauta seria o primeiro
homem a pisar na superfície da Lua, sua avaliação
extremamente positiva influenciou as realizações seguintes de
Neil como astronauta.
Dentro do Departamento de Estado, da USIA e da NASA,
autoridades com mentalidade política perceberam que a turnê
pela América Latina tinha marcado um gol em favor do “estilo de
vida americano”.