O Primeiro Homem na Lua
Capítulo 12: Dias de treinamento
CAPÍTULO 12
Dias de treinamento
Quando a NASA anunciou Armstrong como um de seus nove
novos astronautas, em setembro de 1962, a ideia de um pouso
lunar tripulado parecia provável. Desencadeando essa
transformação, havia uma confluência turbulenta de eventos
geopolíticos importantes na primavera de 1961 que
enfraqueceram o respeito pelo jovem presidente John F. Kennedy
e o levaram a assumir o surpreendente compromisso com um
pouso tripulado na Lua.
Em 12 de abril de 1961, pouco menos de três meses depois
da posse de JFK, a União Soviética chocou o mundo com um
novo pioneirismo espacial. Assim como ocorrera em 1957 com o
Sputnik, os soviéticos se mostraram mais rápidos que os Estados
Unidos quando o cosmonauta Yuri Gagarin se tornou o primeiro
humano no espaço. Três dias depois, o plano de invadir Cuba e
derrubar o regime comunista de Fidel Castro fracassou
miseravelmente na Baía dos Porcos.
As críticas internacionais consequentes desse fato fizeram
com que JFK percebesse que apenas uma medida drástica
recuperaria o respeito dos Estados Unidos. Kennedy, então,
apelou para o programa espacial tripulado. O presidente viu na
NASA e em seus astronautas um meio de alcançar um propósito
político. “Este é o momento de darmos passos mais largos — o
momento de um novo grande empreendimento americano —, o
momento de esta nação ocupar um papel claro de liderança na
conquista espacial, que de muitas maneiras pode conter a chave
para nosso futuro na Terra.” Com essas palavras históricas, ditas
antes de uma sessão conjunta do Congresso em 25 de maio de
1961, o presidente lançou o desafio: “Acredito que esta nação deva se comprometer com a meta de ajudar o homem a pousar
na Lua e retornar com segurança para a Terra antes do fim da
década.”
Muito pouco depois de sua seleção, os New Nine (exceto Elliot
See, que não pôde comparecer) analisaram em detalhe tudo o
que a NASA estava fazendo para levar a termo o Programa
Apollo. Compareceram ao lançamento do terceiro voo orbital
tripulado do Programa Mercury, realizado por Wally Schirra em 3
de outubro de 1962. A maior parte do grupo nunca havia visto o
lançamento de um foguete na vida. Nove horas e seis órbitas
depois, a Sigma 7 de Schirra mergulhava no oceano Pacífico
próximo ao porta-aviões USS Kearsarge.
Três semanas depois, o novo grupo de astronautas partiu
rumo à primeira de uma série de visitas ao Pratt & Whitney
Engine Facility, em West Palm Beach, na Flórida, onde a célula
de combustível para a espaçonave Apollo estava sendo
desenvolvida; a Baltimore, onde a Martin Company estava
montando os foguetes Titan II para o Programa Gemini; e à
planta da Martin em Denver, onde a versão míssil balístico
intercontinental do Titan II estava sendo construída. Seguiram
depois para a Aerojet-General Corporation, em Sacramento,
fabricante do motor à propulsão do módulo de serviço do Apollo;
para o Centro de Pesquisa Ames, da NASA, ao sul de São
Francisco; e, finalmente, para a Lockheed Aircraft Corporation,
em Los Angeles. Construtora do foguete do sistema de escape
no lançamento para o Programa Apollo, a Lockheed se
preparava para concorrer à licitação do módulo de excursão lunar
do projeto, mas a Grumman acabou levando o contrato. As
viagens eram extenuantes. Os astronautas viajavam em voos
comerciais, quatro em um voo, cinco em outro. “Eles levavam
muita comida e muito álcool”, relembra Tom Stafford, “mas a
bebedeira nunca saiu do controle.” A maior parte dos prédios no
Centro de Espaçonaves Tripuladas ainda estava em construção,
e por isso, durante vários meses, os astronautas trabalharam em
escritórios alugados no centro de Houston. Toda segunda-feira
ocorria uma reunião de pilotos, presidida por Slayton, na qual
eles recebiam sua agenda semanal.
Os New Nine passavam a maior parte do tempo na estrada.
Para se familiarizarem com o veículo de lançamento do
Programa Apollo — que seria o foguete lunar Saturno V —, eles
visitaram o Centro de Voo Espacial Marshall da NASA em
Huntsville, Alabama. Foi lá que se encontraram pela primeira vez
com o especialista em foguetes dr. Wernher von Braun. Alguns
meses antes, Von Braun chocou a própria equipe do NASA
Marshall trocando seu apoio ao Earth Orbit Rendezvous
(encontro em órbita terrestre [EOR]) pelo polêmico Lunar Orbit
Rendezvous (encontro em órbita lunar [LOR]), considerando esta
última a melhor maneira de pousar na Lua. Depois, os
astronautas passaram alguns dias na McDonnell Aircraft
Corporation, em St. Louis. Viram como a espaçonave Mercury foi
construída e como a McDonnell planejava projetar e construir a
nova espaçonave Gemini. Os New Nine receberam informações
técnicas sobre o Programa Apollo por meio do Departamento de
Sistemas Espaciais e de Informação da North American Aviation,
Inc., em Downey, na Califórnia, a principal contratada para o
desenvolvimento dos módulos de comando e de serviço do
Programa Apollo. Nas instalações da Douglas Aircraft Company,
em Huntington Beach, eles viram como o estágio superior S-IVB
estava sendo moldado para os Saturnos IB e V.
Os anos de 1963 e 1964 se resumiram a um treinamento
básico intensivo. Como comentou Armstrong: “Não havia
ninguém que já tivesse feito isso e pudesse nos dizer como
proceder, porque ninguém tinha essa experiência.” Especialistas
nas diversas áreas relacionadas a viagens espaciais “podiam
compartilhar conosco o que sabiam”, e aqueles que se tornaram
especialistas em sistemas explicariam “os detalhes de como
funcionavam o sistema de navegação inercial, ou o computador,
ou certos tipos de válvulas do motor etc., e como poderíamos
lidar com falhas de funcionamento”.
“A parte inicial do treinamento para astronautas era similar ao
treinamento de voo da Marinha”, explicou Armstrong. “A NASA
sentiu que seus novos astronautas pouco experientes nos
requintes da astrodinâmica ou nas diferenças entre aeronave e
espaçonave precisavam de uma rápida preparação.
“Eu já estava bastante familiarizado com alguns dos
assuntos”, afirmou Armstrong. “Astrodinâmica, por exemplo, eu já
havia estudado. No geral, não achei a parte acadêmica um fardo
muito pesado.”
Juntamente com a formação acadêmica, Armstrong e seus
colegas de classe passaram por vários outros programas formais
de treinamento. Em Familiarização com Operações, eles
visitaram todas as instalações de lançamento mais relevantes e
estudaram os rigorosos procedimentos pré-lançamento no Cabo
Canaveral e no novo Centro de Controle de Missão em Houston.
Em Treinamento Ambiental, foram expostos a aceleração,
ausência de peso, vibração e ruído, simulação de gravidade lunar
e passaram pela experiência de usar um traje pressurizado. O
Treinamento de Contingência envolvia não só aulas de
sobrevivência no deserto e na selva, mas também lições sobre
como usar assentos ejetáveis e paraquedas. O Treinamento em
Projeto e Desenvolvimento de Veículos de Lançamento e
Espaçonaves consistiu em consultas com engenheiros e
simulações.
Para manter a prática em pilotagem e a capacidade de
decisão na cabine de comando o mais aguçadas possível, os
astronautas também foram submetidos a um programa de
Treinamento de Voo em Aeronaves. Eles realizaram voos
regulares utilizando aeronaves modelos T-33, F-102 e T-38
cedidas ao Comando Militar de Transporte Marítimo (MSC, na
sigla em inglês), na base aérea de Ellington. Testaram inclusive
trajetórias parabólicas no “avião de gravidade zero” (também
conhecido como “cometa do vômito”), uma aeronave KC-135
modificada que simulava condições de gravidade zero por
aproximadamente trinta segundos. Neil “passou dos limites” em
incursões com o Starfighter F-104A, mas os voos em condições
de ausência de peso não provocavam o mesmo enjoo causado
pelas mudanças abruptas na gravidade devido à queda
parabólica. Durante quatro dias no Programa de Doutrinação em
Gravidade Zero, realizado na base aérea de Wright-Patterson
durante a última semana de abril de 1963, Armstrong foi
apresentado a flutuação livre, acrobacias, giros e voos pela cabine, empurrando as paredes e anteparas, comendo, bebendo
e aprendendo a usar ferramentas em gravidade próxima de zero.
No fim de setembro de 1963, os New Nine frequentaram a
Escola de Segurança e Sobrevivência na Água, localizada na
Escola Naval de Pré-Voo em Pensacola. Para os quatro
aviadores navais do grupo — Armstrong, Lovell, Conrad e Young
—, a maior parte desse treinamento, incluindo outro confronto
com Dilbert Dunker, não era novidade. O novo para todos os
astronautas era aprender a boiar e depois ser içado para fora da
água em uma eslinga por um helicóptero de resgate e ainda
usando o enorme traje pressurizado (o voo do Programa Mercury
com Gus Grissom em 21 de julho de 1961 demonstrou até que
ponto pode ser perigoso um resgate aquático). Nenhum dos
novos astronautas tinha a experiência de Armstrong no uso de
uma centrífuga; muitos deles nem sequer tinham visto uma. O
especialista em aerodinâmica e projetista de veículos
aeroespaciais da NASA, Max Faget, desafiou os astronautas do
Mercury: “Se conseguirem sobreviver a vinte g, serão os heróis
da minha vida.” Em 1959, Armstrong já havia sobrevivido a forças
de até quinze g.
Os New Nine foram apresentados a esse terrível instrumento
durante uma visita de quatro dias a Johnsville, no fim de julho de
1963. Durante a estadia, Neil passou por oito “voltas dinâmicas”
na centrífuga, com tempo total de cinco horas. Os astronautas
também realizaram vários saltos de paraquedas na terra e na
água, pulando de uma altura de noventa metros de aviões na
base aérea de Ellington. Além disso, todos os astronautas
tiveram de acatar a diretiva da NASA de aderir a um voo de
helicóptero para os preparativos de simulações de pouso lunar.
Ao fim de um período de duas semanas em novembro, Neil já
tinha voado em diversos tipos de helicópteros e contava com três
horas de voos solo. Neil e Jim Lovell voltaram para Houston do
treinamento com helicópteros em Pensacola em 22 de novembro
de 1963, dia em que o presidente Kennedy foi assassinado.
Armstrong não foi ao funeral de Kennedy; John Glenn foi como
representante oficial dos astronautas.
* * *
A experiência de Armstrong superava a de todos os demais
astronautas no que se referia à área crítica de simuladores de
voo. No início de 1963, Deke Slayton designou Neil para os
simuladores quando distribuiu tarefas técnicas especializadas.
Nos programas Gemini e Apollo, astronautas e espaçonaves
passaram por manobras inéditas, grandes e complexas que
necessariamente tinham que ser realizadas até o fim e em geral
na primeira tentativa. A simulação era crucial para o sucesso
dessas manobras. Foi necessária pouquíssima simulação para o
Programa Mercury, que tinha como objetivo específico pôr um
homem em órbita e trazê-lo de volta. Já o Gemini, executado em
1962 como ponte entre o Mercury e o Apollo, incluía
aproximações e acoplamentos orbitais. Essas manobras eram
mais perigosas e complexas do que o envio de uma cápsula para
a órbita. Conseguir perseguir outro objeto no espaço e acoplá-lo
para obter combustível ou outros componentes vitais era um
requisito indispensável. Por esse motivo, aprender sobre
aproximação e acoplamento, acima de qualquer outra coisa, era
o propósito principal do Gemini. Sem essa habilidade, os outros
objetivos principais — em particular os voos de longa duração e a
atividade extraveicular — não faziam sentido para o Programa
Apollo.
Nenhum astronauta desempenhou papel mais importante no
desenvolvimento de simuladores de voo para os programas
Gemini e Apollo do que Armstrong. Com frequência, ele percebia
que um simulador não se comportava como se fosse de fato uma
espaçonave em voo: “Uma das coisas que fiz especificamente
com todos os simuladores foi descobrir se os projetistas do
simulador haviam mecanizado de maneira apropriada as
equações de movimento. Assim, eu sempre voava com o
simulador em áreas onde a maioria das pessoas nunca iria, para
me certificar de que, ao surgir uma descontinuidade na equação,
não houvesse um erro matemático que levasse o simulador a se
comportar indevidamente. Descobri, para minha surpresa, que
muitas vezes as equações não tinham sido mecanizadas de modo adequado. Essa responsabilidade era natural para mim,
porque eu havia feito o mesmo trabalho em Edwards.”
Como ocorreu em Edwards, as perspectivas de Armstrong
como piloto deram a ele ideias decisivas para o desenvolvimento
do simulador. “Os funcionários que mecanizavam as equações —
às vezes, terceirizados; outras, funcionários da NASA — em
geral não tinham a perspectiva de um piloto”, explica Neil. “Eles
não conseguiam visualizar se você estava se impulsionando para
uma posição vertical e depois girando a noventa graus, e então
embicando para a frente em direção ao solo; não sabiam o que
isso significaria para o piloto — o que o piloto estaria vendo de
verdade. Muitas vezes, mecanizavam as equações sem levar em
conta o que era adequado.” Armstrong fez contribuições
significativas para o treinador de lançamento-abortagem do
Programa Gemini, um simulador fixo construído no prédio de
treinamento coletivo dos astronautas, no Centro de Espaçonaves
Tripuladas.
Ao configurar o sistema de especialização, Slayton percebeu
que havia coisas demais acontecendo muito depressa no
programa para que os astronautas conseguissem aprender
individualmente mais do que uma pequena fração da parte
técnica. Ele queria que os astronautas compartilhassem
livremente conhecimento e experiência entre suas diversas
tarefas. Outra responsabilidade que os astronautas
compartilhavam era a publicidade da NASA, o comparecimento
ante plateias de profissionais, coletivas de imprensa e
admiradores. Os encarregados de relações públicas da NASA
aceitaram logo de início a ideia de uma agenda rotativa para a
publicidade. Em geral, o período das aparições públicas durava
uma semana e ficou conhecido entre a equipe de astronautas
como “a semana na mira”.
A primeira semana de Armstrong na mira da imprensa
começou em 6 de julho e teve paradas na Virgínia, em
Washington, D.C., na Feira Mundial de Nova York e em Iowa,
onde ele fez cinco apresentações para sociedades científicas em
um só dia. Exausto depois de tantos apertos de mão, ele pegou um avião de volta para Houston na manhã seguinte. Esse era um
aspecto da vida de astronauta que ele dispensaria se pudesse.
* * *
Armstrong achou relativamente fácil e cômoda a transição de
piloto de testes e pesquisador para astronauta — exceto no que
dizia respeito a se tornar uma celebridade. Com o passar do
tempo, durante o treinamento, os colegas de Armstrong
respeitavam cada vez mais sua competência como piloto,
engenheiro e astronauta, admiravam sua inteligência e ficavam
encantados com os traços de sua personalidade peculiar.
“Minha primeira impressão de Neil foi que ele era muito
quieto”, afirmou Frank Borman. “Sendo ele tão quieto e
pensativo, quando dizia algo, valia a pena parar e escutar. Quase
todos nós fazíamos parte da área operacional e gostávamos de
pôr a mão na massa. É claro que Neil também era bom na parte
operacional, mas se interessava mais em tentar entender
exatamente quais eram os mecanismos internos do sistema.
Quase todos nós tínhamos saído do mesmo molde. Mas Neil era
diferente.” “Neil era uma pessoa muito reservada”, lembrou Mike
Collins. “Acho que ele era mais pensativo do que os pilotos de
teste normais. Se o mundo fosse dividido entre pensadores e
realizadores — os pilotos de teste costumam ser realizadores e
não pensadores —, Neil seria um dos poucos pilotos de teste que
ficariam do outro lado.”
“Neil não era um cara expansivo”, opinou Bill Anders. “Era
absolutamente profissional — não muito acolhedor, mas também
não era frio. Não me lembro de me sentar com ele e ter uma
conversa informal do tipo ‘como vão seus filhos?’. Não que Neil
não saísse para tomar um ou dois drinques com os outros. Mas
era um cara muito objetivo em todas as situações. Em minha
opinião, o caráter de Neil Armstrong se sobressaía muito mais do
que a maioria dos colegas.”
“Neil foi o cara mais acessível que já encontrei”, disse John
Glenn. “Era descontraído, amistoso, um cara legal, que vinha de cidade pequena, assim como eu. Acho que nenhum de nós
tentava ser melhor do que realmente era.” No começo de junho
de 1963, Glenn e Armstrong formaram uma dupla para o
treinamento de sobrevivência na selva organizado pela Escola de
Sobrevivência Tropical da Força Aérea dos Estados Unidos, na
base aérea Albrook, na Zona do Canal do Panamá.
Glenn e todos os que tiveram a chance de passar um bom
tempo com Armstrong gostavam dele e ficavam surpresos com
seu senso de humor maroto. John Glenn relembrou: “Eu sempre
morria de rir com a teoria de Neil sobre os exercícios.” Armstrong
brincava com os amigos dizendo que os exercícios eram um
desperdício de uma cota preciosa de batimentos cardíacos. Dave
Scott, colega de Neil na Gemini VIII, lembra-se de um dia em que
Armstrong entrou na sala de exercícios dos astronautas no MSC
e viu Scott suando, levantando peso. Neil subiu na bicicleta
ergométrica, ajustou a roda na menor tensão possível e sorriu
para Dave, dizendo: “Muito bem, Dave! É isso aí!”
Dave Scott contou: “Era muito fácil trabalhar com ele. Era um
cara muito inteligente. Conseguia analisar um problema com
muita rapidez e mantinha a calma quando estava sob pressão.”
Nas palavras de Buzz Aldrin, “Neil não era encrenqueiro como
Pete Conrad nem autoritário como Frank Borman. A gente só
tinha que esperar que ele tomasse uma decisão. Em geral, não
dava para ter a menor ideia do que se passava na cabeça dele
quando estava pensando. Ele não era transparente. Mas até
mesmo essa característica obscura o ajudava a ser um ótimo
comandante.”