O Primeiro Homem na Lua
Capítulo 18: Sem asas no Luna
CAPÍTULO 18
Sem asas no Luna
Armstrong tinha começado a estudar os problemas relacionados
ao pouso de uma máquina voadora na Lua sete anos e meio
antes de se tornar comandante da Apollo 11. “Sabíamos que a
gravidade lunar era bem diferente [cerca de um sexto da
gravidade da Terra]”, disse Armstrong, comentando sobre o
trabalho de engenharia iniciado em Edwards após o
compromisso assumido pelo presidente Kennedy em maio de
1961. “Sabíamos que todo o nosso conhecimento aerodinâmico
não era aplicável no vácuo. Tínhamos ciência de que as
características de voo desse veículo seriam totalmente diferentes
de qualquer outro com o qual estávamos acostumados.”
Os astronautas tiveram que lidar com os problemas singulares
de estabilidade e controle de uma máquina voadora em ausência
de atmosfera, em um campo de gravidade inteiramente diferente.
“Era algo natural para nós”, talvez especialmente para Neil,
“porque a simulação de voo era nossa especialidade em
Edwards. Usávamos simulações em voo para tentar replicar
outros veículos, ou replicar as trajetórias”.
O diretor-assistente de pesquisa do Centro de Pesquisa de
Voo, Hubert Drake, organizou o pequeno grupo. No início da
década de 1950, Drake também teve um papel fundamental na
concepção de meios para atingir velocidades Mach 3 e altitudes
acima de trinta mil metros em um avião de pesquisa, iniciativa
que resultou no programa supersônico X-15. Os engenheiros de
pesquisa e seus frequentes colaboradores Gene Matranga,
Donald Bellman e Neil Armstrong, o único piloto de testes
envolvido, também lidavam com o problema a respeito de um
veículo de pesquisa para pouso lunar.
A primeira ideia que o grupo de Drake considerou foi algo
semelhante a um helicóptero, devido a sua capacidade de voo
estacionário e de decolagem e pouso verticais. Infelizmente, os
helicópteros não poderiam replicar os efeitos da gravidade lunar.
Outra possibilidade seria um pequeno veículo de pesquisa de
pouso lunar suspenso sob um pórtico gigante para “voar”
amarrado. Uma opção ainda mais segura seria seguir o caminho
de um simulador eletrônico fixo. No fim, a NASA usou os três
métodos — helicópteros, a Unidade de Pesquisa de Pouso Lunar
(LLRF, na sigla em inglês) construída em Langley e diferentes
simuladores eletrônicos fixos — para estudar os problemas do
pouso lunar e treinar os astronautas. O grupo de Drake optou
pela tecnologia VTOL (sigla em inglês para “decolagem e pouso
verticais”). Com ela, uma aeronave equipada com motores
móveis voava de modo parecido ao dos helicópteros.
O grupo de Drake montou um motor a jato em um gimbal
instalado embaixo do veículo de teste, de modo que a propulsão
produzida pelo jato sempre apontasse para cima. O jato levaria o
veículo de teste até a altitude desejada, onde o piloto
desaceleraria o motor para que ele suportasse cinco sextos do
peso do veículo, simulando a gravidade encontrada na Lua. A
velocidade de descida e o movimento horizontal do dispositivo
seriam administrados pelo disparo de dois foguetes de
sustentação de peróxido de hidrogênio. Uma bateria de
pequenos propulsores de peróxido de hidrogênio daria ao piloto
controle de atitude em relação à rolagem, à arfagem e à guinada.
Se o principal motor falhasse, foguetes de propulsão auxiliares
assumiriam a função de sustentação, estabilizando
temporariamente a máquina. O mais radical nesse conceito é que
a aerodinâmica — a ciência aplicada a tudo o que voa na Terra
— não tem influência alguma. Nesse sentido, o veículo de teste
para pouso lunar, cujo conceito Armstrong ajudou a criar em
1961, foi a primeira máquina voadora no mundo projetada para
operar no contexto de outro corpo celeste, embora fosse capaz
de voar aqui na Terra também.
Dada a complexidade do projeto, Armstrong disse que eles
decidiram que “o que precisávamos fazer primeiro era construir um dispositivo para um operador só que se limitasse a investigar
as características e os requisitos de um voo em ambiente lunar.
Com isso, teríamos um banco de dados a partir do qual
construiríamos um veículo maior que carregaria a réplica da
espaçonave real”. No verão e no outono de 1961, a equipe de
Drake desenvolveu esse dispositivo. Segundo Neil, “parecia uma
gigantesca lata de sopa Campbell com pernas e um motor
suspenso por gimbal”.
O grupo de Drake não sabia, mas uma equipe de engenheiros
da Bell Aerosystems, em Buffalo, Nova York, também estava
explorando o projeto de um simulador de pouso lunar em voo
livre. Subsidiária da empresa que construiu a aeronave X-1 e as
anteriores da série X, a Bell era a única fabricante de aeronaves
no país com experiência em projeto e construção de uma
aeronave VTOL que usasse sustentação a jato para decolagem e
pouso. Drake ouviu falar da iniciativa da Bell por intermédio de
um funcionário da NASA, e enviou Bellman e Matranga para
Buffalo, onde eles testaram os helicópteros modelo 47 da
empresa em simulações de pouso lunar. O que os engenheiros
do Centro de Pesquisa de Voo viram confirmou suas suspeitas
de que os helicópteros não podiam assumir a trajetória
descendente nem a razão de mergulho para um pouso na Lua.
A NASA contratou a Bell para produzir um modelo de veículo
de teste para pouso lunar relativamente barato, cujo design fosse
independente da configuração do Programa Apollo, já que ela
ainda não havia sido decidida. O trabalho da Bell seria projetar
uma máquina com a qual a NASA pudesse investigar os
problemas inerentes ao pouso lunar em altitudes de até
seiscentos metros com velocidades verticais de até sessenta
metros por segundo.
Até 1962, a NASA ainda não tinha decidido como iria à Lua.
Muitos engenheiros e cientistas competentes vislumbraram um
modo de ir e voltar em um imenso foguete, mais ou menos do
tamanho do Empire State Building. Ele voaria até a Lua, desceria
de ré até pousar e se lançaria de volta para casa em um modo de
missão chamado “ascensão direta”. Com propulsão de doze
milhões de libras, o foguete Nova foi, de longe, o propulsor mais poderoso já construído até então. Uma segunda opção relevante
para o pouso lunar — que agradou muitos especialistas em voos
espaciais, incluindo o dr. Wernher von Braun — era o “encontro
em órbita terrestre” (Earth Orbit Rendezvous), ou EOR. Segundo
esse plano, alguns propulsores da classe Saturno, que estavam
sendo projetados pela equipe de Von Braun no Centro de Voo
Espacial Marshall, no Alabama, lançariam componentes da
espaçonave destinada à Lua para uma órbita da Terra, onde as
peças seriam montadas e o veículo seria abastecido para uma
viagem de ida e volta à Lua. O EOR requeria foguetes de
propulsão muito menos complicados, já quase prontos para voar.
Para surpresa de muita gente, a NASA não escolheu nenhuma
das duas abordagens. Em 11 de julho de 1962, seus porta-vozes
anunciaram que seria usado um conceito chamado “encontro em
órbita lunar” (Lunar Orbit Rendezvous), ou LOR. O LOR era o
único modo de missão dentre as possibilidades que requeria um
módulo de excursão lunar adaptado para realizar o pouso.
A decisão em favor do LOR foi tomada mesmo com fortes
objeções do assessor de ciência do presidente Kennedy, o dr.
Jerome Wiesner. Assim como outros céticos, Wiesner achava
que o encontro deveria ser parte da missão lunar e ser
experimentado somente na órbita terrestre. Se o encontro
falhasse na órbita da Terra, os astronautas poderiam voltar
simplesmente permitindo que a espaçonave descesse da órbita.
Os planejadores de missão da NASA enfim determinaram que o
LOR não era mais perigoso que os outros dois sistemas — era
até menos —, e foram muito criticados. O LOR exigia menos
combustível, o equivalente a apenas metade da carga útil, e uma
tecnologia um pouco menos recente. Dispensava o monstruoso
Nova, e requeria apenas um lançamento, a partir da Terra,
enquanto o EOR precisaria de pelo menos dois. Tentar levar um
mastodonte como o estágio superior do Nova até a superfície
cheia de crateras da Lua seria quase impossível. Um pouso lunar
com o EOR parecia apenas ligeiramente mais fácil. Depois de
alguns meses de estudo, o escolhido foi o LOR.
A maior vantagem tecnológica do LOR era que ele
transformava o dispositivo de pouso em um “módulo”. Somente o módulo lunar, leve e pequeno, e não a espaçonave Apollo inteira,
faria o pouso na Lua. Além disso, como o módulo de pouso seria
descartado após o uso e não retornaria à Terra, a NASA poderia
adaptar seu projeto somente para a manobra de voo em
ambiente lunar e para um pouso lunar controlado. Na realidade,
com o LOR, a NASA poderia adaptar independentemente todos
os módulos da espaçonave do Projeto Apollo — o módulo de
comando, o módulo de serviço e o módulo lunar. Este último
seria um veículo de dois estágios que desceria à superfície
usando um motor de foguete de impulso variável. Mas o módulo
inferior, que continha os pés de fixação, o motor de descida e o
tanque de combustível próprio, permaneceria na superfície lunar
e funcionaria como plataforma de lançamento para o estágio
superior, com seu motor de propulsão independente, tanque de
combustível, foguetes de controle de atitude e cabine.
O mais importante é que o LOR foi o único modo de missão
com o qual o pouso na Lua poderia ser realizado dentro do prazo
determinado por Kennedy. Para a NASA, esta era a meta
principal. Armstrong relembrou a frase: “O LOR economiza dois
anos e 2 bilhões de dólares.” Da noite para o dia, o módulo de
pouso havia se tornado um dos sistemas mais fundamentais do
programa. O grande foguete Saturno V era capaz de propulsionar
os astronautas dentro de seu módulo de comando para a órbita
lunar, mas o Programa Apollo estava todo dedicado ao pouso.
Sem demora, um trabalho muito sério relacionado ao módulo
lunar foi iniciado. Em novembro de 1962, a Grumman
Corporation, de Long Island, Nova York, venceu a licitação. O
caminho até um módulo lunar pronto teve muitas alterações.
Uma grande sequência de falhas nos testes manteve a equipe da
Grumman ocupada por quase sete anos consertando e
aperfeiçoando sua máquina extraordinária. O primeiro módulo
lunar só ficou pronto para seu voo de teste em março de 1969. O
voo foi realizado na órbita da Terra, e era a principal tarefa da
Apollo 9.
Com a decisão tomada em favor do LOR, os requisitos para a
construção do veículo de pesquisa de pouso lunar (LLRV, na
sigla em inglês) no Centro de Pesquisa de Voo se tornaram muito mais claros. Por puro acaso, as características, o tamanho e a
inércia do projeto original do LLRV eram bem parecidos com os
do módulo lunar que a Grumman precisava construir. Com base
no mesmo projeto, a Bell Aerosystems começou a fabricar dois
LLRVs em fevereiro de 1963. Em 15 de abril de 1964, as
máquinas chegaram a Edwards desmontadas e encaixotadas,
porque os técnicos do Centro de Pesquisa de Voo queriam
instalar pessoalmente seus instrumentos de pesquisa. Com três
metros de altura e 1.680 quilos, o LLRV tinha quatro pernas de
fixação extensíveis que chegavam a quatro metros de
comprimento. O piloto se sentava a céu aberto, atrás de um
escudo de acrílico, em um assento ejetor a foguete construído
pela Weber Aircraft. O assento era tão eficaz que funcionava
bem até mesmo em “zero-zero”, o ponto mais baixo do envelope
de ejeção, e era seguro até quando o LLRV descia a uma
velocidade de nove metros por segundo. Nenhum outro assento
ejetor tivera um desempenho tão bom, o que era ótimo, já que
seria usado mais de uma vez no programa do LLRV.
O primeiro piloto a pilotar o LLRV foi o ex-chefe de Neil, Joe
Walker. Walker fez o voo inaugural em 30 de outubro de 1964. A
operação consistiu em três breves decolagens e pousos,
totalizando menos de um minuto de voo.
De 1964 até o encerramento do programa de testes do LLRV,
no fim de 1966, duzentos voos de pesquisa foram realizados em
Edwards. Os pilotos podiam operar o veículo de duas maneiras:
no “modo de Terra”, com o motor travado em uma posição e
provendo toda a sustentação, como uma VTOL “convencional”;
ou no “modo lunar”, em que o motor poderia ser ajustado em voo
para reduzir o peso aparente do LLRV em relação a seu
equivalente lunar. No modo lunar, a sustentação era
proporcionada por dois foguetes controláveis de quinhentas libras
de empuxo, afixados à fuselagem à frente do anel do gimbal. O
piloto poderia modular o ângulo e o empuxo do motor para
compensar o arrasto aerodinâmico em todos os eixos. Em geral,
os pilotos preferiam voar no modo de Terra. Por outro lado, o
acelerador sensível do motor de foguete melhorou muito o
controle de altitude na simulação lunar.
O LLRV emulava em detalhes a experiência de voar sobre a
Lua, ainda que a maior altitude alcançada ficasse abaixo de 250
metros, e seu voo mais longo tivesse durado menos de nove
minutos e meio. Por incrível que pareça, nenhum acidente grave
ocorreu durante o programa LLRV.
Armstrong tinha saído de Edwards com destino a Houston em
setembro de 1962, por isso não estava tão ciente do programa
LLRV quanto gostaria. No entanto, foi escolhido por Houston
para ser o ponto de contato entre pilotos e engenheiros, para
garantir que o LLRV satisfizesse as necessidades dos
astronautas. A NASA não queria que os astronautas corressem
riscos naquela máquina perigosa. Por isso, os simuladores de
campo foram de muita ajuda. Como Neil explicou, “descrever
grandes ângulos de rolagem ou arfagem exigia mais tempo ou
maior poder de controle. Era de esperar que as características de
controle ideais na Terra não fossem absolutamente viáveis na
Lua”. Os astronautas descobriram que poderiam obter um bom
controle com foguetes “liga-desliga” que haviam sido
mecanizados para comando viável — ou seja, para que a taxa de
variação angular (ou razão de mudança) do veículo fosse
proporcional à deflexão —, mas, nas palavras de Neil, eles ainda
tinham “algumas dificuldades para fazer pousos precisos e com a
supressão de velocidades residuais depois do toque na
superfície, provavelmente devido à relutância natural do piloto a
mudar a atitude estando muito baixo”.
A Unidade de Pesquisa de Pouso Lunar (LLRF), em Langley,
era uma estrutura imponente de 75 metros de altura e 120
metros de comprimento, que entrou em operação em junho de
1965 a um custo de cerca de 4 milhões de dólares. “Funcionou
surpreendentemente bem”, afirmou Armstrong. “O volume voador
— com cinquenta metros de altura, cem metros de comprimento
e treze de largura — era (...) adequado para oferecer aos pilotos
uma boa introdução às características do voo lunar.” Para tornar
os pousos simulados mais autênticos, os projetistas preencheram
a base da enorme estrutura vermelha e branca de oito colunas
com terra, modelada de modo a imitar a superfície da Lua. Como
os testes noturnos eram muito frequentes, acendiam-se holofotes em determinados ângulos para simular a iluminação lunar, e
instalava-se uma tela preta para mimetizar o “céu” lunar sem ar.
Os técnicos pintaram de preto as crateras falsas, para que os
astronautas vissem as sombras que presenciariam durante o
pouso lunar. Ainda que “os engenheiros da Langley tenham feito
um trabalho incrível tentando criar um sistema flexível [composto
de cabos e polias] que dava a perfeita sensação de se estar em
uma espaçonave em voo”, o controle da rolagem e da arfagem
acabou sendo, nas palavras de Neil, “excessivamente lento”. “A
LLRF era um dispositivo inteligente”, na opinião de Armstrong.
“Podíamos fazer coisas com ele que não arriscaríamos em um
veículo de voo livre, porque estávamos protegidos de erros.”
Em 1964, o Escritório de Astronautas procurou saber quais
máquinas VTOL poderiam ser usadas como simuladores de
pouso lunar. Deke Slayton pediu que Armstrong observasse o
potencial da Bell X-14A, a pequena e versátil aeronave que os
engenheiros do Centro de Pesquisa Ames da NASA estavam
usando para simular as trajetórias de descida lunar. Em fevereiro
de 1964, ele realizou dez voos de avaliação, mas concluiu que
precisariam de outro tipo de veículo de treinamento.
“Não ter máquinas de voo para simular características de
controle lunar era uma frustração”, lembra Armstrong. A única
possibilidade seria tentar o LLRV do Centro de Pesquisa de Voo,
apesar dos riscos apontados por alguns. À frente do programa do
LLRV, em Houston, estava Dick Day, especialista em simulações
do Centro de Pesquisa de Voo que, em 1962, ajudou Neil a se
tornar astronauta.
A decisão de transformar o LLRV em veículo de treino, ou
LLTV, foi tomada no início de 1966, pouco antes do voo de
Armstrong na Gemini VIII. Nessa época, a Grumman tinha
percorrido um longo caminho até finalizar o projeto do módulo
lunar. Ainda que tivesse surgido cinco anos antes do módulo
lunar, o LLRV não era muito diferente em tamanho e geometria
de controle de foguete do veículo da Grumman. A NASA pediu à
Bell que produzisse uma versão avançada do LLRV,
relativamente rápida e barata, que combinasse melhor com as características do módulo lunar, cujo primeiro teste de voo, na
missão Apollo 5, tinha sido programado para janeiro de 1968.
A construção do LLTV fez com que Neil voltasse aos estudos
de pouso lunar. No verão de 1966, enquanto ele se preparava
para integrar a tripulação reserva da Gemini XI, Houston
encomendou três LLTVs, ao preço de 2,5 milhões de dólares a
unidade. Ao mesmo tempo, o Centro de Aeronaves Tripuladas
solicitou que o Centro de Pesquisa de Voo preparasse seus dois
LLRVs para serem enviados a Houston assim que os
engenheiros do Centro de Pesquisa de Voo tivessem terminado o
trabalho. Neil participou de discussões com a Bell sobre o que
não podia faltar no projeto do LLTV e estava presente quando o
LLRV número 1 chegou a Houston vindo de Edwards em 12 de
dezembro de 1966. Quando Jack Kleuver, piloto de testes do
Centro de Pesquisa de Voo, foi a Houston para verificar se a
máquina estava funcionando, Armstrong também acompanhou o
processo. Quando os primeiros voos de familiarização foram
realizados na base aérea de Ellington, Neil assistiu às operações
e estudou suas regras básicas. Passou de 5 a 7 de janeiro de
1967 na Bell, participando da inspeção da engenharia do projeto.
Alguns dias depois, ajudou a revisar os resultados finais do
programa LLRV. Enquanto esteve na Califórnia, Neil executou
algumas trajetórias do módulo lunar em um helicóptero Bell H-13
e assistiu a um voo do LLRV. Logo após os funerais dos três
membros da tripulação da Apollo 1, no fim de janeiro, Armstrong
e Buzz Aldrin foram com um T-38 até Langley para fazer
simulações de pousos lunares na LLRF. Foi a primeira vez de
Neil no dispositivo de Langley, e não seria a última. Em 7 de
fevereiro de 1967, ele e Buzz foram a Los Angeles com um T-38
para que nele fosse instalado um assento ejetor de LLRV na
Weber Aircraft. Ainda em fevereiro, ele voltou a Los Angeles para
visitar a North American (com Bill Anders) e revisar o projeto do
túnel através do qual os astronautas transitariam entre o módulo
de comando e serviço da Apollo e o módulo lunar. Em março de
1967, ele revisou o programa do radar de pouso do módulo lunar
na Ryan Aircraft em Los Angeles e San Diego. Durante esses
meses, também passou um bom tempo voando em helicópteros de modo a se preparar para o treinamento no LLTV. Ajudar a
transformar o veículo de pesquisa em um veículo de treinamento
foi um desafio para o qual Armstrong, como engenheiro, piloto de
testes e astronauta, estava muito bem preparado. Em 1961, ele
tinha participado da concepção original da máquina. A Bell
construiu o LLTV basicamente na mesma estrutura que o LLRV,
mas agora a principal meta era replicar com o máximo de
fidelidade possível os sistemas de trajetória e controle do módulo
lunar. No entanto, certas características de voo do módulo lunar
não puderam ser replicadas. Por exemplo, seria pouco prático, se
não impossível, projetar o LLTV de maneira que tivesse a mesma
velocidade de descida que o módulo lunar.
Outro objetivo era tornar o LLTV semelhante ao módulo lunar
quanto a seus recursos essenciais. Por exemplo, a Bell construiu
os novos LLTVs com uma cabine fechada que tinha a mesma
visibilidade do módulo lunar. Para replicar a configuração, eles
também passaram o painel de controle do centro da cabine para
o lado direito, e o mesmo foi feito com os visores. O LLTV
recebeu um controle analógico lateral de três eixos comparável
ao que a Grumman estava instalando no módulo lunar, bem
como um sistema de controle de razão de comando/manutenção
de atitude. O LLTV incorporou também um sistema de
compensação sensível a forças e momentos aerodinamicamente
induzidos, que garantia a correção automática por meio do
sistema de foguete de motor e atitude. Dessa forma, os
movimentos do LLTV se aproximaram mais de um voo no vácuo.
O sistema eletrônico foi aperfeiçoado para aproveitar os mesmos
componentes leves e miniaturizados que estavam sendo usados
no módulo lunar. Entre outras melhorias, havia um assento ejetor
aperfeiçoado, mais peróxido para que os foguetes aumentassem
sua duração, um motor de jato ligeiramente melhorado, e uma
atitude modificada para se assemelhar mais ao módulo lunar.
Dois LLRVs modificados mais antigos, apelidados de A1 e A2,
também foram usados no treinamento dos astronautas. As três
novas máquinas, as primeiras que chegaram da fábrica da Bell,
em dezembro de 1967, foram chamadas de LLTV B1, B2 e B3.
Antes de serem autorizados a voar em qualquer uma delas, os astronautas passaram por um treinamento de alguns meses. Os
astronautas escolhidos por Slayton como possíveis membros da
equipe do módulo lunar, incluindo Armstrong, frequentaram aulas
de voo em helicópteros durante três semanas, voaram na LLRF
da Langley por uma semana e, finalmente, tiveram quinze horas
de treinamento em um simulador de solo antes de voar em um
LLTV, sempre na Ellington, que ficava perto. Como já tinha feito o
curso de pilotagem de helicóptero na Marinha em 1963 e
acumulara uma boa quantidade de horas de voo nos quatro anos
seguintes, Neil precisou apenas praticar um pouco. Ainda que
não fosse o treinamento ideal para o voo lunar, pilotar
helicópteros ainda era útil para entender as trajetórias e rotas de
voo.
Armstrong, um experiente piloto de testes de engenharia
aeronáutica, fez um excelente trabalho na determinação, por
vezes de maneira contraintuitiva, do que seria necessário para
voar no ambiente lunar, sem deixar que o treinamento em
helicóptero dominasse suas decisões como piloto. Por fim, todos
os comandantes principais e reservas das missões lunares do
Programa Apollo praticaram no LLTV. Com o avanço do
programa, o tempo para uso no LLTV ficou escasso, e os
comandantes da reserva tiveram seu treinamento reduzido. Além
de Armstrong, os astronautas Borman, Anders, Conrad, Scott,
Lovell, Young, Shepard, Cernan, Gordon e Haise pilotaram o
LLTV.
Neil voou pela primeira vez no LLTV em 27 de março de 1967,
quando a máquina chegou ao campo de pouso de Ellington. Fez
dois voos no LLTV A1 nesse dia. Depois de mais alguns voos, a
máquina deixou de ser pilotada por causa de problemas técnicos.
(Os três novos LLTVs só ficaram prontos para testes de voo no
verão de 1968.) Quando o LLTV voltou à ativa, Armstrong foi o
primeiro a entrar no A1. Entre 27 de março e 25 de abril de 1968,
Neil fez dez voos no LLRV convertido. O LLTV era uma máquina
perigosa. “Sem asas”, como notou Buzz Aldrin, “ele não
conseguia planar em um pouso seguro se o motor principal ou os
propulsores falhassem. E, para um treinamento eficaz, era
preciso chegar a altitudes superiores a 150 metros. Nessa altura, um lapso poderia ser fatal”. Em 6 de maio, somente quatorze
meses antes do pouso da Apollo 11, Armstrong descobriu como a
máquina podia ser implacável.
“Eu não chamaria aquilo de rotina, porque nada que tivesse a
ver com um LLTV era rotineiro, mas naquela tarde eu estava
realizando trajetórias normais de pouso e, perto do fim de uma
delas, após uma descida de trinta metros, já quase no pouso,
notei que estava perdendo o controle. Em pouco tempo, não
havia mais nenhuma condição de pilotar o LLTV. O veículo
começou a virar. Não havia um sistema de controle secundário
que pudesse ser acionado — nenhum sistema de emergência
que nos permitisse recuperar o controle. Então, quando a
aeronave chegou a trinta graus de inclinação, ficou claro que eu
não seria capaz de pará-la. Tinha muito pouco tempo para
abandonar o veículo, então ejetei, usando o assento alimentado
pelo foguete. A ejeção ocorreu a cerca de quinze metros de
altitude, muito baixa, mas o foguete me lançou para cima. O
veículo caiu primeiro, e puxei o paraquedas para longe das
chamas, pousando em um matagal no meio da Base Aérea de
Ellington.”
Foi a primeira vez que Neil ejetou desde que abandonou seu
jato Panther na Coreia, dezessete anos antes. Acidentalmente,
deu uma mordida forte na língua, única consequência da ejeção,
além de uma infestação de carrapatos que ele pegou no local da
queda. Mas poderia ter sido pior.
Os que presenciaram o acidente ou ouviram falar do que
aconteceu depois acharam que Armstrong teve muita sorte por
ter sobrevivido. A causa do acidente acabou sendo um
vazamento no tanque de combustível causado por um propulsor
mal projetado. A perda da pressão do hélio no tanque de
combustível fez com os foguetes de controle de atitude
desligassem, causando a perda de controle. O fato de a NASA
permitir o uso do veículo em condições adversas de vento
contribuiu e muito para o acidente. Os engenheiros do Centro de
Pesquisa de Voo de Edwards tinham fixado um limite de quinze
nós de velocidade do vento para voar com o LLRV, mas a equipe de Houston achou que precisava aumentar esse limite para trinta
nós a fim de poder usar a máquina regularmente.
Logo após o acidente, Armstrong se comportou com seu jeito
típico, como se absolutamente nada fora do comum tivesse
acontecido. Ao voltar do almoço, o astronauta Al Bean viu Neil
trabalhando em sua mesa no escritório que os dois dividiam.
Pouco depois, Bean foi até o corredor, encontrou um grupo de
colegas conversando e achou que tinha ouvido dizer que alguém
tinha acabado de se acidentar com o LLTV. “Perguntei: ‘O que
aconteceu?’ E eles responderam: ‘Bem, o vento estava forte, Neil
ficou sem combustível e ejetou no último minuto. O assento
funcionou, e ele sobreviveu.’ Perguntei: ‘Quando isso
aconteceu?’ E eles responderam: ‘Acabou de acontecer, há uma
hora.’ Eu disse: ‘Uma hora? Que mentira! Acabei de sair do
escritório e Neil está lá, sentado à mesa. Ele está com traje de
voo, mas está mexendo em uns papéis.’ E eles responderam
que, sim, tinha sido Neil. Eu disse: ‘Esperem aí!’ Voltei para o
escritório. Neil olhou para mim, e eu disse: ‘Acabei de ouvir uma
história muito boa!’ Ele perguntou qual era e eu respondi:
‘Disseram que você conseguiu escapar do LLTV há uma hora.’
Ele refletiu por um segundo e disse: ‘Sim, fui eu.’ Perguntei o que
tinha acontecido e ele respondeu: ‘Perdi o controle e tive que sair
daquela porcaria.’”
Bean continuou a história: “Cá para nós, não consigo me
lembrar de outra pessoa, que dirá outro astronauta, que tivesse
voltado ao escritório depois de ejetar a uma fração de segundo
da morte certa. Ele nunca se manifestou em algum bate-papo
para nos contar nada disso. Esse acidente mudou minha opinião
sobre o Neil desde então. Ele era totalmente diferente das outras
pessoas.” Mais uma vez, como no caso do voo da Gemini VIII,
Armstrong saiu da experiência com uma reputação melhor, e que
lhe faz justiça, por ser capaz de lidar com uma emergência.
Houston suspendeu o uso do LLTV à espera das conclusões da
equipe de investigação do Centro de Espaçonaves Tripuladas e
de uma comissão especialmente formada para o caso. Em
meados de outubro de 1968, os dois relatórios haviam sido
liberados, recomendando com urgência melhorias no projeto e na gestão do LLTV, embora esclarecendo que o programa
continuaria.
Aos quatro minutos de um voo programado para seis, em 8 de
dezembro de 1968, o chefe dos pilotos de testes do Centro de
Espaçonaves Tripuladas, Joe Algranti, foi forçado a “cair fora” do
LLTV 1, quando ocorreu uma grande oscilação no controle lateral
durante uma descida iniciada a uma altitude de 170 metros.
Ejetado a sessenta metros, Algranti, que havia pilotado o LLTV
mais de trinta vezes, pousou ileso de paraquedas, enquanto o
veículo de 1,8 milhão de dólares caiu e pegou fogo a dezenas de
metros de distância. Mais uma vez, Houston formou uma
comissão de investigação de acidentes, dessa vez liderada pelo
astronauta Wally Schirra.
O diretor do Centro de Espaçonaves Tripuladas, Bob Gilruth, e
o diretor de operações de voo, Chris Kraft, perceberam que um
acidente fatal com o instrumento era só uma questão de tempo.
“Gilruth e eu estávamos dispostos a eliminá-lo totalmente”, disse
Kraft, “mas os astronautas foram inflexíveis. Eles queriam o
treinamento.”
Os voos no LLTV foram retomados em abril de 1969. Como
nada deu errado nos primeiros voos executados apenas por
pilotos de testes do Centro de Espaçonaves Tripuladas, o
treinamento rotineiro para os astronautas recomeçou. Até mesmo
depois dos pousos na Lua, Kraft ou Gilruth “sabatinavam todos
os astronautas que voltavam, esperando encontrar alguma forma
de aposentar o LLTV para sempre”. Os dois jamais viabilizaram
esse plano, porque os astronautas queriam o veículo.
Durante três dias seguidos, em meados de junho de 1969, a
menos de um mês do lançamento da Apollo 11, Armstrong
pilotou um dos novos LLTVs enquanto Kraft e outros gerentes da
NASA assistiam, engolindo em seco. Durante aqueles três dias,
ele executou oito descidas lunares com o LLTV. No total, fez
dezenove voos nos LLRVs convertidos e oito nos novos LLTVs.
Nenhum outro astronauta antes ou depois de Armstrong pilotou
tantas vezes o veículo.