O Primeiro Homem na Lua
Capítulo 27: No chão
CAPÍTULO 27
No chão
Depois do pouso na Lua, Armstrong rememorou: “Nunca me
perguntei sobre o retorno aos voos espaciais, mas comecei a
acreditar que não teria outra oportunidade, embora isso nunca
tenha sido afirmado de maneira explícita.” Tanto George Low
quanto Bob Gilruth “disseram que gostariam de me ver de volta à
aeronáutica e em um trabalho como vice-diretor adjunto da NASA
em Washington. Eu não estava convencido de que seria bom
para mim. Provavelmente por causa de todo o tempo em que
trabalhei em campo, eu meio que achava que os empregos em
Washington não faziam parte do mundo real.”
Havia muitas oportunidades no setor privado, desde
investimentos de risco, desenvolvimento de hotéis e restaurantes
a bancos. Chegaram a sugerir que ele deveria se candidatar a
um cargo político, como tinha feito outro astronauta de Ohio,
John Glenn. Mas Neil queria continuar na engenharia.
“Pensando no assunto, concluí que eu poderia trabalhar na
parte aeronáutica da NASA.” Janet não acreditava que Neil
estivesse infeliz com a mudança: “Ele era piloto, e estava sempre
mais contente quando voava.” Ela receava que ele não fosse do
tipo que trabalha em escritório.
A principal contribuição de Armstrong para a aeronáutica da
NASA durante o período que passou em Washington foi o apoio
à nova tecnologia fly-by-wire, ou sistema de controle não
mecânico. Até ele se tornar vice-diretor adjunto da aeronáutica,
ninguém nas dependências da NASA dava muito crédito ao
conceito radical de pilotagem eletrônica (com a intervenção do
piloto sendo apenas uma das contribuições). Neil surpreendeu
uma equipe de engenheiros do Centro de Pesquisa de Voo que visitou seu escritório em 1970, pedindo um modesto
financiamento para pesquisar um aeroplano dotado de um
sistema fly-by-wire analógico. Como diria Michael H. Gorn,
historiador da NASA, “para surpresa dos engenheiros, Armstrong
objetou. ‘Por que tecnologia analógica?’”. Indo além do sistema
de impulsos humanos transmitidos por ligações mecânicas entre
a cabine de comando e o controle de terra, Neil propôs o
emprego de um sistema mais avançado, o fly-by-wire digital
(DFBW, na sigla em inglês). Os engenheiros do Centro de
Pesquisa de Voo não tinham conhecimento de um computador
digital apropriado ao voo. “Bem, acabei de ir à Lua e voltar em
um deles”, disse Armstrong. Segundo Gorn, “os visitantes
reconheceram, constrangidos, que nunca tinham sequer pensado
naquilo”.
Dessa iniciativa surgiu o programa de testes do F-8C Crusader
DFBW da NASA, uma empreitada inovadora executada pelo
Centro de Pesquisa de Voo em Dryden de 1972 a 1976. Ao se
mostrar viável, o DFBW desatava as mãos dos projetistas de
aviões de alta velocidade, incentivando-os a se aventurar em
novas configurações aerodinâmicas radicais, inclusive
aeroplanos sem nenhuma estabilidade própria além do sistema
computadorizado de controle. O DFBW representa mais uma
importante contribuição à aeronáutica vinculada ao Primeiro
Homem.
A principal frustração de Neil não era com seu trabalho
aeronáutico propriamente dito, mas com as “solicitações” da
NASA, do Congresso e da Casa Branca para “aparições
públicas” que ele considerava um “grande fardo”. Mas não tinha
escolha. Muitas de suas noites eram passadas no circuito de
jantares de Washington. “Pudemos conhecer um monte de gente
em Washington”, observou Janet. “Eles gostavam de estar frente
a frente com Neil e cumprimentá-lo pelo que a Apollo 11 fez por
nosso país e pelo mundo. Como ainda éramos pagos pelo
governo [o salário anual de Neil era de 36 mil dólares], não
tínhamos muito dinheiro. Dottie Blackmun, esposa do juiz da
Suprema Corte de Justiça, Harry Blackmun, era ótima costureira
e teve uma loja de roupas em Minnesota antes de se mudar para Washington. Era uma boa amiga e me ajudava com os vestidos
[de festa].”
Armstrong aproveitava toda oportunidade de pilotar, inclusive
os aviões de transporte da NASA para os laboratórios de Ames,
Lewis, Langley ou Dryden. “Eu tinha que manter o valor de minha
moeda de voo — eu não estava tão atualizado quanto eu
gostaria, mas era melhor do que nada. E estar por perto dos
projetos relacionados aos centros de pesquisa de campo me
dava a oportunidade de aceitar novos convites para pilotar outros
aviões — como aconteceu com o Handley-Page 115 inglês, um
pequeno avião que testava a forma da asa em ângulo
pronunciado que seria usada no Concorde, e o grande planador
alemão Akaflieg Braunschweig SB-8, com o uso inovador de
compósitos em sua estrutura.
O principal empreendimento aeronáutico da NASA na década
de 1960 foi vítima da política, quando, em 24 de março de 1971,
em uma das mais dramáticas contagens de votos da história
moderna do Senado americano, 51 senadores votaram pelo corte
do financiamento do projeto de transporte supersônico. Embora o
escritório de Armstrong não tivesse qualquer ligação com o
projeto, ele era a favor de sua continuidade.
O fim do projeto de transporte supersônico americano não
influenciou a decisão de Neil de se demitir da NASA, em agosto
de 1971, para assumir um cargo de professor na Universidade de
Cincinnati. “Sempre disse a todos que minha intenção era voltar
à universidade. Não foi nenhuma novidade. Não quis deixar a
NASA de modo precipitado, embora nunca tenha sido minha
intenção ficar naquele trabalho burocrático durante muito tempo.
Eu tinha me encontrado em diversas ocasiões com o reitor da
Universidade de Cincinnati, Walter C. Langsam, um historiador
especializado no período inicial do século XX na Europa. Walter
tinha conversado comigo e me mandou algumas mensagens
simpáticas dizendo que gostaria que eu fosse para sua
universidade. Walter disse: ‘Se vier, vou fazer de você um
professor do mais alto nível, e você poderá fazer o que quiser.’
Decidi aceitar o convite. A essa altura, eu recebia convites de
uma porção de universidades, mas a imensa maioria deles era para a reitoria. Eu só queria ser professor.” Curiosamente, a
NASA ofereceu pouca resistência à saída de Armstrong. Ele
tinha passado dezesseis anos e meio no serviço público civil.
Muita gente, dentro e fora da NASA, achou que Neil devia
estar “maluco” por ir parar em um lugar como Cincinnati. Amigos
e outras pessoas relacionadas a ele lembraram o interesse que
ele tinha demonstrado ao longo dos anos em escrever um livro
didático de engenharia. Muitos suspeitaram do desejo de uma
volta às origens, o que Neil negou terminantemente: “Nem levei
em conta o fato de voltar a Ohio. Achei o departamento em
Cincinnati muito bom; era pequeno e tinha umas dez pessoas.”
Pessoas, inclusive, que dificilmente protestariam contra a
condição de professor em tempo integral concedida a Neil sem o
primeiro ano de experiência, como de praxe. O chefe do
departamento, o dr. Tom Davis, era um conhecidíssimo
especialista no campo emergente da dinâmica dos fluidos
computacional (CFD, na sigla em inglês). O programa oferecia
um doutorado, embora Neil tivesse apenas grau de mestre,
recentemente conquistado na Universidade do Sul da Califórnia
depois de mais de dez anos de idas e vindas no trabalho de pós-
graduação. O título de Armstrong era de professor universitário
de engenharia aeroespacial. Era chamado de “professor
Armstrong” ou “dr. Armstrong” pelos alunos, embora os únicos
doutorados que tivesse a essa altura fossem honorários (ele
acabou recebendo dezenove doutorados honorários). Os
professores, muitos dos quais se tornaram seus grandes amigos,
chamavam-no de Neil.
Neil poderia ter dado um jeito de ficar com uma carga de aulas
bem reduzida, mas não era o que ele queria. Em sua rotina,
ministrava alguns cursos essenciais e dava aulas durante três
trimestres, folgando no verão. “Eu costumava estar lá todos os
dias. Viajava um pouco, mas tentava me certificar de que isso
não interferiria em meu cronograma de afazeres.”
Ao término de seu primeiro dia de aula, o corredor estava
lotado de repórteres. Instalou-se o caos, e Neil bateu a porta,
recusando-se a sair. Em 1974, a atriz italiana Gina Lollobrigida
apareceu sem avisar à porta da sala em que ele dava aula. “Em tese, ela tinha ido à cidade com o objetivo de tirar fotos para um
livro que estava preparando, mas no fim aquilo não tinha nada a
ver com livro, e sim com uma revista [Ladies’ Home Journal,
edição de agosto de 1974]. Eu gostava de Gina, que conhecia de
minhas visitas ao México e à Itália [durante a turnê mundial de
1969], mas fiquei realmente decepcionado por ela não ter sido
franca a respeito do que pretendia.”
O próprio Armstrong inventou dois cursos para o
departamento. Um deles era de projeto de aeronaves; o
segundo, de mecânica de voo experimental, ambos de pós-
graduação.
Os alunos ficaram surpresos ao descobrir que o célebre
astronauta também era um excelente professor. Embora sério e
exigente, ele já era conhecido por contar algumas de suas
histórias de voo favoritas ao fim de cada trimestre.
Armstrong acabou fracassando ao navegar pelo labirinto
bizantino da política universitária. “Eu não conseguia lidar com o
sistema. Estava decidido a não pegar nenhum trabalho para a
NASA; não faria propostas a eles porque achava que isso podia
ser visto como meio de tirar proveito de minha antiga ligação com
a organização, o que eu não faria. Vendo em retrospecto, devo
ter errado a esse respeito. Talvez devesse ter ficado na ativa,
pois saberia exatamente aonde ir para executar alguns projetos
de pesquisa satisfatórios. Teria sido mais fácil de conseguir
fontes de financiamento se eu tivesse escolhido aquele caminho.”
Duas importantes mudanças na Universidade de Cincinnati
levaram Armstrong a deixá-la em 1980. “Ela ficou
sobrecarregada com uma porção de regras novas”, contou
Armstrong a respeito da transição de universidade municipal
independente para uma escola do estado. “Para poder evadir as
amarras representadas pelas regras do dissídio coletivo, era
preciso que eu não estivesse em regime de tempo integral. Uma
estratégia seguida por alguns professores foi dedicar meio
período ao ensino e o restante do tempo a um instituto de
pesquisa.” Em julho de 1975, a universidade aprovou a reunião
de Armstrong e três proeminentes pesquisadores — George
Rieveschl, químico famoso por ter inventado o Benadryl, o primeiro anti-histamínico; Edward A. Patrick, professor de
engenharia elétrica; e o dr. Henry Heimlich, famoso inventor da
manobra de Heimlich, que exercia a medicina no hospital judaico
da cidade — para formar o Instituto de Engenharia e Medicina.
“Fundar o instituto não era apenas algo que estava no topo de
minha lista de prioridades, mas uma espécie de mal necessário.
No entanto, depois que passei ao trabalho, achei que tinha um
lado muito interessante e tentei participar ativamente dele.” E
acrescentou: “Mas as regras da universidade eram ainda tão
incômodas que preferi passar para o meio período. Na verdade,
era meio período apenas no nome — o que representava, de
fato, meio salário”,6 e finalmente “houve um conflito entre as
exigências de meu trabalho básico, como me tinha sido oferecido
pelo reitor Langsam, e as novas regras.” Além disso, “eu não
esperava que diminuísse o número de convites que apareciam —
alguns deles eram boas oportunidades, com gente boa e
instituições de qualidade. Percebi que, na minha situação, não
poderia continuar naquele tipo de trabalho. Por outro lado,
aceitando cargos de membro do conselho de diretores, eu
poderia garantir o sustento sem ter de passar o tempo ocupado
com eles.”
Para Armstrong, seus últimos anos na universidade nem foram
necessariamente estressantes, “apenas irritantes”. No outono de
1979, ele redigiu uma breve nota de demissão, marcada para o
primeiro dia do ano seguinte.
Em janeiro de 1979, depois de recusar muitas boas propostas,
Neil aceitou se tornar porta-voz nacional da Chrysler Corporation.
Seu primeiro comercial de TV para a empresa automotiva foi ao
ar durante a transmissão do XIII Super Bowl, que Neil
acompanhou ao vivo em Miami em companhia de executivos da
Chrysler. No dia seguinte, não só foram ao ar os comerciais da
TV como saíram anúncios chamativos em jornais de cinquenta
praças dos Estados Unidos, mostrando Neil oferecendo a nova
cobertura de cinco anos/oitenta mil quilômetros da companhia.
Na propriedade de 75 hectares que a família Armstrong tinha
comprado perto de Lebanon, no condado de Warren, Ohio, uma
pequena frota de automóveis da Chrysler ficava dias estacionada — Cordoba, New Yorker, uma picape quatro por quatro W200,
dois Omnis de tração dianteira e um Plymouth Horizon. Segundo
Janet, Neil teria dito à Chrysler: “Preciso testar o produto antes.”
A imprensa fazia perguntas: por que Armstrong começou a
fazer publicidade depois de todo esse tempo? E, entre tantas
empresas, por que para a Chrysler? Mais tarde Neil explicou: “No
caso da Chrysler, a empresa estava sob sério ataque e em
dificuldades financeiras, mas foi talvez a líder em engenharia de
produtos automotivos dos Estados Unidos, o que é
impressionante. Eu estava preocupado com a empresa quando
seu diretor de marketing me procurou não só para assumir o
papel de porta-voz da empresa, mas para participar do processo
de tomada de decisões técnicas, e me senti atraído. Visitei
Detroit, onde conversei com o presidente da Chrysler, Lee
Iacocca, e outros executivos da empresa. Dei uma olhada nos
projetos em que estavam trabalhando. Conheci algumas
daquelas pessoas e concluí que devia experimentar. Não foi uma
decisão fácil, porque eu nunca tinha feito nada daquilo. Mesmo
assim decidi tentar, e firmei um contrato de três anos. Adorei os
aspectos do trabalho referentes à engenharia, mas acho que não
fui muito bem como porta-voz. Fiz o melhor que pude, mas eu
não era mesmo bom naquilo. Estava sempre lutando para fazer
direito.”
Nos meses seguintes, Armstrong estabeleceu relações
profissionais com a General Time Corp. (subsidiária das
indústrias Tally) e com a American Bankers Association,
assumindo compromissos promocionais que variavam conforme
o caso. Em relação à General Time, ele entendia seu
compromisso não só como anunciante do relógio de pulso
Quartzmatic da empresa, mas com seu progresso tecnológico. “A
fábrica de relógios Quartz tinha construído o timer do módulo
lunar, então essa era nossa ligação — a tecnologia era boa. No
fim, a qualidade do produto nem era tão boa quanto eu pensava
que deveria ser. No caso da American Bankers Association, não
se tratava de uma organização comercial, mas mesmo assim
eles faziam uma espécie de publicidade institucional. Fizemos
uns poucos anúncios, mas a ideia não decolou.” A experiência de Armstrong como porta-voz de produtos americanos selecionados
acabou sendo temporária, mas as questões empresariais foram
seu foco principal durante o resto de sua vida profissional.
Assim que deixou a Universidade de Cincinnati, Neil entrou em
uma sociedade com o irmão Dean e um primo deles, Richard
Teichgraber, dono da International Petroleum Services (IPS) em
El Dorado, Kansas. Dean, que tinha sido presidente da planta de
transmissão Delco Remy da General Motors em Anderson,
Indiana, tornou-se presidente da IPS. Neil virou sócio da IPS e
presidente da Cardwell International Ltd., uma subsidiária que
fabricava perfuratrizes, metade delas para exportação. Neil e o
irmão ficaram dois anos na IPS/Cardwell e depois venderam sua
parte na empresa. Mais tarde, Dean comprou um banco no
Kansas.
Em 1982, Neil tinha diversos compromissos com empresas:
“Acho que algumas delas me convidavam para seu conselho
diretor justamente porque eu não tinha experiência em
administração, mas tinha formação técnica. Então, aceitei
integrar diversos conselhos. Recusei muito mais ofertas do que
aceitei.”
O primeiro conselho diretor que Armstrong aceitou integrar, em
1972, foi o da Gates Learjet, na época presidida por Harry
Combs. Liderando sua comissão técnica e qualificado para voar
em seus jatos, Neil pilotou a maioria dos produtos novos e
experimentais da empresa na linha de jatos comerciais. Em
fevereiro de 1979, ele decolou em um novo Learjet da pista de
First Flight, perto de Kill Devil Hill, na Carolina do Norte, e subiu
em direção ao Atlântico a uma altitude de 15.500 metros em
pouco mais de doze minutos, estabelecendo novos recordes de
altitude e velocidade de subida para jatos comerciais.
Na primavera de 1973, Neil entrou para o conselho da
Cincinnati Gas & Electric, uma empresa de geração de energia.
Ele atribuía sua relação com a Taft Broadcasting, de Cincinnati,
ao dinâmico CEO e presidente da empresa, Charles S. Mechem
Jr., que foi “uma das sete ou oito pessoas de Cincinnati que
convidei para o voo de Gene Cernan na Apollo 17 em dezembro
de 1972”. Mechem tinha uma opinião muito clara da força que Armstrong levou para o conselho da empresa: “Normalmente,
quando alguém é convidado para fazer parte do conselho, a
pessoa diz: ‘Maravilha, quando é a primeira reunião?’ Bem, com
Neil as coisas não foram assim. Depois de sondar por que eu o
queria e como ele poderia contribuir com algo que não tivesse a
ver com o fato de ter sido o primeiro homem na Lua”, Armstrong
entrou para o conselho.
Entrou também para a United Airlines em janeiro de 1978 e,
em 1980, para a Cleveland’s Eaton Corporation, assim como
para sua subsidiária AIL Systems, que produzia equipamento
bélico eletrônico. Em 2000, a AIL fundiu-se à EDO Corporation,
que Neil presidiu até se aposentar da vida empresarial, em 2002.
Em março de 1989, três anos depois da explosão do ônibus
espacial Challenger, Armstrong entrou para a Thiokol, que tinha
produzido os foguetes auxiliares de combustível sólido (SRBs, na
sigla em inglês) da Challenger. Com a ajuda de Neil, a Thiokol
conseguiu não apenas sobreviver como também crescer, sob a
forma expandida de Cordant Technologies, fabricante de motores
a foguete de combustível sólido, componentes de motor para
jatos e sistemas de fixação de alto desempenho avaliada em 2,5
bilhões de dólares, com fábricas nos Estados Unidos, na Europa
e na Ásia. Em 2000, a Cordant foi comprada pela Alcoa Inc., e o
conselho da Thiokol em que Neil tinha estado durante onze anos
se dissolveu.
Relutante para avaliar a importância da colaboração que deu
para essas corporações nos últimos trinta anos, Armstrong disse
apenas: “Acho que na maioria dos casos eu compreendia os
problemas, e normalmente tinha uma ideia de qual seria a
posição apropriada a respeito de cada questão. Eu me sentia à
vontade no conselho.”
Pela primeira vez na vida, Armstrong também ganhou um bom
dinheiro. Além de uma bela compensação por suas atividades
como diretor, ele recebia uma quantidade importante de ações da
empresa e investia seu dinheiro com sabedoria. Quando ele a
Janet se divorciaram, em 1994, o casal tinha mais de 2 milhões
de dólares.
Embora nunca tenha alardeado a respeito de sua filantropia,
Neil estava continuamente envolvido com instituições de
caridade, sobretudo em Ohio e imediações. Em 1973, ele
comandou a campanha estadual da ONG Easter Seal. De 1978 a
1985, esteve no conselho diretor da Associação Cristã de Moços
em Lebanon, Ohio. De 1976 a 1985, integrou o conselho diretor
do Museu de História Natural de Cincinnati, nos cinco últimos
anos como presidente. De 1988 a 1991, pertenceu ao conselho
executivo da reitoria da Universidade de Cincinnati. Até sua
morte, em 2012, participou ativamente do Commonwealth Club e
do Commercial Club of Cincinnati, tendo presidido ambas as
instituições. Em 1992 e 1993, integrou a Comissão de Serviço
Público de Ohio. Em 1982, fez o recitativo da peça Lincoln
Portrait com a Orquestra Pops de Cincinnati.
De acordo com Devere Burt, diretor do Museu de História
Natural de Cincinnati, “o nome dele nos dava credibilidade
imediata. Em qualquer lugar que fôssemos em busca de
financiamento, bastava apresentar o papel timbrado com os
dizeres ‘Presidente do Conselho: Neil A. Armstrong.’”
Neil talvez fosse o ex-aluno mais ativo de sua faculdade.
Esteve no conselho de diretores da Fundação Universidade
Purdue de 1979 a 1982, na Comissão Visitante de Engenharia de
1990 a 1995, e, de 1990 a 1994, presidiu, juntamente com Gene
Cernan, a maior campanha de arrecadação de fundos da
universidade, a Vision 21. Com o objetivo de obter astronômicos
250 milhões, a campanha excedeu a meta em 85 milhões,
estabelecendo um recorde para universidades públicas
americanas.
O dr. Stephen Beering, reitor da Purdue de 1983 a 2000,
relembrou as principais contribuições de Armstrong para a
campanha Vision 21: “Neil foi realmente seu grande divulgador.
Ele podia dizer a um grupo de ex-alunos: ‘Sabe como é, a
experiência na Purdue me ajudou muito em relação ao meu
pouso na Lua — isso remonta a meu primeiro semestre, quando
tive um professor de física, autor de nosso livro didático. Achei
que para minha primeira prova oral das sextas-feiras eu teria que
despejar o texto do capítulo escolhido. Mas não. O professor disse: “Gostaria de saber o que você pensou sobre esse
material.” Nesse momento, percebi como eram as coisas em
Purdue: tratava-se de ensinar a resolver problemas, a ter
pensamento crítico, a analisar situações e chegar a conclusões
detalhadas e originais. Quando pilotei o módulo lunar para o
pouso na Lua, foi exatamente isso que tive de fazer — usar meu
treinamento, mas depois resolver problemas, analisar situações e
encontrar por contra própria uma solução prática. Sem a Purdue,
eu não poderia ter feito isso.’
“E sempre que ele estava no campus, dava para ver em seus
olhos como ele gostava dali. Demonstrava satisfação genuína só
por passar o braço pelos ombros de algum integrante da banda
em um jogo de futebol. Neil ficava entusiasmado como uma
criança quando era escolhido para tocar o enorme tambor
Boilermaker. ‘Eu nunca tinha feito aquilo! Gostaria de participar!’
E marchava com os barítonos, dos quais fez parte quando tocava
na banda. Nem por um momento agia como celebridade.”
Armstrong também se comprometeu com causas de
benemerência de alcance nacional. De 1975 a 1977, presidiu,
juntamente com Jimmy Doolittle, o Fundo Memorial Charles A.
Lindbergh, que em maio de 1977, por ocasião do quinquagésimo
aniversário do voo histórico de Lindbergh, arrecadou mais de 5
milhões de dólares para um fundo de apoio a jovens cientistas,
exploradores e ambientalistas. De 1977 para 1978, Neil aceitou
uma indicação para a Comissão Presidencial Jimmy Carter de
Amigos da Casa Branca. Em 1979, foi apresentador do
documentário em sete episódios The Voyage of Charles Darwin,
transmitido pela PBS. Participou do Conselho Nacional Honorário
da Associação do Museu USS Constitution entre 1996 e 2000.
Algumas pessoas diziam que Neil não tinha veia política.
“Acho que não estou de acordo, já que tenho minhas crenças,
participo do processo e voto com consciência. Mas a verdade é
que não me sinto nem um pouco atraído pelo mundo da política.”
Ele recusou a oportunidade de chefiar a campanha de Nixon pela
reeleição em Ohio, em 1972, e a concorrer pelo Partido
Republicano contra o senador democrata John Glenn em 1980.
Em termos da tradição política americana, Armstrong identificava-se mais com as raízes moderadas do republicanismo
jeffersoniano. “Sou mais favorável ao poder na mão dos estados,
a menos nos casos em que só o governo federal possa intervir e
seja do interesse de todos. Não estou convencido de que
qualquer um dos nossos partidos atuais esteja muito certo quanto
à questão da educação. Mas não seria uma atitude política
expressar essas opiniões hoje. Então, me abstenho.”
6 A declaração de imposto de renda de Armstrong para 1979 mostra que ele recebeu 18.196 dólares da Universidade de Cincinnati. De sua própria empresa de serviços, recebeu 168 mil dólares. Além disso, ganhou cerca de 50 mil dólares por integrar conselhos diretores de diversas empresas.