O Primeiro Homem na Lua

James R. Hansen · Capítulo 36 de 42

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O Primeiro Homem na Lua

Capítulo 27: No chão

CAPÍTULO 27

 

No chão

 

Depois do pouso na Lua, Armstrong rememorou: “Nunca me

perguntei sobre o retorno aos voos espaciais, mas comecei a

acreditar que não teria outra oportunidade, embora isso nunca

tenha sido afirmado de maneira explícita.” Tanto George Low

quanto Bob Gilruth “disseram que gostariam de me ver de volta à

aeronáutica e em um trabalho como vice-diretor adjunto da NASA

em Washington. Eu não estava convencido de que seria bom

para mim. Provavelmente por causa de todo o tempo em que

trabalhei em campo, eu meio que achava que os empregos em

Washington não faziam parte do mundo real.”

Havia muitas oportunidades no setor privado, desde

investimentos de risco, desenvolvimento de hotéis e restaurantes

a bancos. Chegaram a sugerir que ele deveria se candidatar a

um cargo político, como tinha feito outro astronauta de Ohio,

John Glenn. Mas Neil queria continuar na engenharia.

“Pensando no assunto, concluí que eu poderia trabalhar na

parte aeronáutica da NASA.” Janet não acreditava que Neil

estivesse infeliz com a mudança: “Ele era piloto, e estava sempre

mais contente quando voava.” Ela receava que ele não fosse do

tipo que trabalha em escritório.

A principal contribuição de Armstrong para a aeronáutica da

NASA durante o período que passou em Washington foi o apoio

à nova tecnologia fly-by-wire, ou sistema de controle não

mecânico. Até ele se tornar vice-diretor adjunto da aeronáutica,

ninguém nas dependências da NASA dava muito crédito ao

conceito radical de pilotagem eletrônica (com a intervenção do

piloto sendo apenas uma das contribuições). Neil surpreendeu

uma equipe de engenheiros do Centro de Pesquisa de Voo que visitou seu escritório em 1970, pedindo um modesto

financiamento para pesquisar um aeroplano dotado de um

sistema fly-by-wire analógico. Como diria Michael H. Gorn,

historiador da NASA, “para surpresa dos engenheiros, Armstrong

objetou. ‘Por que tecnologia analógica?’”. Indo além do sistema

de impulsos humanos transmitidos por ligações mecânicas entre

a cabine de comando e o controle de terra, Neil propôs o

emprego de um sistema mais avançado, o fly-by-wire digital

(DFBW, na sigla em inglês). Os engenheiros do Centro de

Pesquisa de Voo não tinham conhecimento de um computador

digital apropriado ao voo. “Bem, acabei de ir à Lua e voltar em

um deles”, disse Armstrong. Segundo Gorn, “os visitantes

reconheceram, constrangidos, que nunca tinham sequer pensado

naquilo”.

Dessa iniciativa surgiu o programa de testes do F-8C Crusader

DFBW da NASA, uma empreitada inovadora executada pelo

Centro de Pesquisa de Voo em Dryden de 1972 a 1976. Ao se

mostrar viável, o DFBW desatava as mãos dos projetistas de

aviões de alta velocidade, incentivando-os a se aventurar em

novas configurações aerodinâmicas radicais, inclusive

aeroplanos sem nenhuma estabilidade própria além do sistema

computadorizado de controle. O DFBW representa mais uma

importante contribuição à aeronáutica vinculada ao Primeiro

Homem.

A principal frustração de Neil não era com seu trabalho

aeronáutico propriamente dito, mas com as “solicitações” da

NASA, do Congresso e da Casa Branca para “aparições

públicas” que ele considerava um “grande fardo”. Mas não tinha

escolha. Muitas de suas noites eram passadas no circuito de

jantares de Washington. “Pudemos conhecer um monte de gente

em Washington”, observou Janet. “Eles gostavam de estar frente

a frente com Neil e cumprimentá-lo pelo que a Apollo 11 fez por

nosso país e pelo mundo. Como ainda éramos pagos pelo

governo [o salário anual de Neil era de 36 mil dólares], não

tínhamos muito dinheiro. Dottie Blackmun, esposa do juiz da

Suprema Corte de Justiça, Harry Blackmun, era ótima costureira

e teve uma loja de roupas em Minnesota antes de se mudar para Washington. Era uma boa amiga e me ajudava com os vestidos

[de festa].”

Armstrong aproveitava toda oportunidade de pilotar, inclusive

os aviões de transporte da NASA para os laboratórios de Ames,

Lewis, Langley ou Dryden. “Eu tinha que manter o valor de minha

moeda de voo — eu não estava tão atualizado quanto eu

gostaria, mas era melhor do que nada. E estar por perto dos

projetos relacionados aos centros de pesquisa de campo me

dava a oportunidade de aceitar novos convites para pilotar outros

aviões — como aconteceu com o Handley-Page 115 inglês, um

pequeno avião que testava a forma da asa em ângulo

pronunciado que seria usada no Concorde, e o grande planador

alemão Akaflieg Braunschweig SB-8, com o uso inovador de

compósitos em sua estrutura.

O principal empreendimento aeronáutico da NASA na década

de 1960 foi vítima da política, quando, em 24 de março de 1971,

em uma das mais dramáticas contagens de votos da história

moderna do Senado americano, 51 senadores votaram pelo corte

do financiamento do projeto de transporte supersônico. Embora o

escritório de Armstrong não tivesse qualquer ligação com o

projeto, ele era a favor de sua continuidade.

O fim do projeto de transporte supersônico americano não

influenciou a decisão de Neil de se demitir da NASA, em agosto

de 1971, para assumir um cargo de professor na Universidade de

Cincinnati. “Sempre disse a todos que minha intenção era voltar

à universidade. Não foi nenhuma novidade. Não quis deixar a

NASA de modo precipitado, embora nunca tenha sido minha

intenção ficar naquele trabalho burocrático durante muito tempo.

Eu tinha me encontrado em diversas ocasiões com o reitor da

Universidade de Cincinnati, Walter C. Langsam, um historiador

especializado no período inicial do século XX na Europa. Walter

tinha conversado comigo e me mandou algumas mensagens

simpáticas dizendo que gostaria que eu fosse para sua

universidade. Walter disse: ‘Se vier, vou fazer de você um

professor do mais alto nível, e você poderá fazer o que quiser.’

Decidi aceitar o convite. A essa altura, eu recebia convites de

uma porção de universidades, mas a imensa maioria deles era para a reitoria. Eu só queria ser professor.” Curiosamente, a

NASA ofereceu pouca resistência à saída de Armstrong. Ele

tinha passado dezesseis anos e meio no serviço público civil.

Muita gente, dentro e fora da NASA, achou que Neil devia

estar “maluco” por ir parar em um lugar como Cincinnati. Amigos

e outras pessoas relacionadas a ele lembraram o interesse que

ele tinha demonstrado ao longo dos anos em escrever um livro

didático de engenharia. Muitos suspeitaram do desejo de uma

volta às origens, o que Neil negou terminantemente: “Nem levei

em conta o fato de voltar a Ohio. Achei o departamento em

Cincinnati muito bom; era pequeno e tinha umas dez pessoas.”

Pessoas, inclusive, que dificilmente protestariam contra a

condição de professor em tempo integral concedida a Neil sem o

primeiro ano de experiência, como de praxe. O chefe do

departamento, o dr. Tom Davis, era um conhecidíssimo

especialista no campo emergente da dinâmica dos fluidos

computacional (CFD, na sigla em inglês). O programa oferecia

um doutorado, embora Neil tivesse apenas grau de mestre,

recentemente conquistado na Universidade do Sul da Califórnia

depois de mais de dez anos de idas e vindas no trabalho de pós-

graduação. O título de Armstrong era de professor universitário

de engenharia aeroespacial. Era chamado de “professor

Armstrong” ou “dr. Armstrong” pelos alunos, embora os únicos

doutorados que tivesse a essa altura fossem honorários (ele

acabou recebendo dezenove doutorados honorários). Os

professores, muitos dos quais se tornaram seus grandes amigos,

chamavam-no de Neil.

Neil poderia ter dado um jeito de ficar com uma carga de aulas

bem reduzida, mas não era o que ele queria. Em sua rotina,

ministrava alguns cursos essenciais e dava aulas durante três

trimestres, folgando no verão. “Eu costumava estar lá todos os

dias. Viajava um pouco, mas tentava me certificar de que isso

não interferiria em meu cronograma de afazeres.”

Ao término de seu primeiro dia de aula, o corredor estava

lotado de repórteres. Instalou-se o caos, e Neil bateu a porta,

recusando-se a sair. Em 1974, a atriz italiana Gina Lollobrigida

apareceu sem avisar à porta da sala em que ele dava aula. “Em tese, ela tinha ido à cidade com o objetivo de tirar fotos para um

livro que estava preparando, mas no fim aquilo não tinha nada a

ver com livro, e sim com uma revista [Ladies’ Home Journal,

edição de agosto de 1974]. Eu gostava de Gina, que conhecia de

minhas visitas ao México e à Itália [durante a turnê mundial de

1969], mas fiquei realmente decepcionado por ela não ter sido

franca a respeito do que pretendia.”

O próprio Armstrong inventou dois cursos para o

departamento. Um deles era de projeto de aeronaves; o

segundo, de mecânica de voo experimental, ambos de pós-

graduação.

Os alunos ficaram surpresos ao descobrir que o célebre

astronauta também era um excelente professor. Embora sério e

exigente, ele já era conhecido por contar algumas de suas

histórias de voo favoritas ao fim de cada trimestre.

Armstrong acabou fracassando ao navegar pelo labirinto

bizantino da política universitária. “Eu não conseguia lidar com o

sistema. Estava decidido a não pegar nenhum trabalho para a

NASA; não faria propostas a eles porque achava que isso podia

ser visto como meio de tirar proveito de minha antiga ligação com

a organização, o que eu não faria. Vendo em retrospecto, devo

ter errado a esse respeito. Talvez devesse ter ficado na ativa,

pois saberia exatamente aonde ir para executar alguns projetos

de pesquisa satisfatórios. Teria sido mais fácil de conseguir

fontes de financiamento se eu tivesse escolhido aquele caminho.”

Duas importantes mudanças na Universidade de Cincinnati

levaram Armstrong a deixá-la em 1980. “Ela ficou

sobrecarregada com uma porção de regras novas”, contou

Armstrong a respeito da transição de universidade municipal

independente para uma escola do estado. “Para poder evadir as

amarras representadas pelas regras do dissídio coletivo, era

preciso que eu não estivesse em regime de tempo integral. Uma

estratégia seguida por alguns professores foi dedicar meio

período ao ensino e o restante do tempo a um instituto de

pesquisa.” Em julho de 1975, a universidade aprovou a reunião

de Armstrong e três proeminentes pesquisadores — George

Rieveschl, químico famoso por ter inventado o Benadryl, o primeiro anti-histamínico; Edward A. Patrick, professor de

engenharia elétrica; e o dr. Henry Heimlich, famoso inventor da

manobra de Heimlich, que exercia a medicina no hospital judaico

da cidade — para formar o Instituto de Engenharia e Medicina.

“Fundar o instituto não era apenas algo que estava no topo de

minha lista de prioridades, mas uma espécie de mal necessário.

No entanto, depois que passei ao trabalho, achei que tinha um

lado muito interessante e tentei participar ativamente dele.” E

acrescentou: “Mas as regras da universidade eram ainda tão

incômodas que preferi passar para o meio período. Na verdade,

era meio período apenas no nome — o que representava, de

fato, meio salário”,6 e finalmente “houve um conflito entre as

exigências de meu trabalho básico, como me tinha sido oferecido

pelo reitor Langsam, e as novas regras.” Além disso, “eu não

esperava que diminuísse o número de convites que apareciam —

alguns deles eram boas oportunidades, com gente boa e

instituições de qualidade. Percebi que, na minha situação, não

poderia continuar naquele tipo de trabalho. Por outro lado,

aceitando cargos de membro do conselho de diretores, eu

poderia garantir o sustento sem ter de passar o tempo ocupado

com eles.”

Para Armstrong, seus últimos anos na universidade nem foram

necessariamente estressantes, “apenas irritantes”. No outono de

1979, ele redigiu uma breve nota de demissão, marcada para o

primeiro dia do ano seguinte.

Em janeiro de 1979, depois de recusar muitas boas propostas,

Neil aceitou se tornar porta-voz nacional da Chrysler Corporation.

Seu primeiro comercial de TV para a empresa automotiva foi ao

ar durante a transmissão do XIII Super Bowl, que Neil

acompanhou ao vivo em Miami em companhia de executivos da

Chrysler. No dia seguinte, não só foram ao ar os comerciais da

TV como saíram anúncios chamativos em jornais de cinquenta

praças dos Estados Unidos, mostrando Neil oferecendo a nova

cobertura de cinco anos/oitenta mil quilômetros da companhia.

Na propriedade de 75 hectares que a família Armstrong tinha

comprado perto de Lebanon, no condado de Warren, Ohio, uma

pequena frota de automóveis da Chrysler ficava dias estacionada — Cordoba, New Yorker, uma picape quatro por quatro W200,

dois Omnis de tração dianteira e um Plymouth Horizon. Segundo

Janet, Neil teria dito à Chrysler: “Preciso testar o produto antes.”

A imprensa fazia perguntas: por que Armstrong começou a

fazer publicidade depois de todo esse tempo? E, entre tantas

empresas, por que para a Chrysler? Mais tarde Neil explicou: “No

caso da Chrysler, a empresa estava sob sério ataque e em

dificuldades financeiras, mas foi talvez a líder em engenharia de

produtos automotivos dos Estados Unidos, o que é

impressionante. Eu estava preocupado com a empresa quando

seu diretor de marketing me procurou não só para assumir o

papel de porta-voz da empresa, mas para participar do processo

de tomada de decisões técnicas, e me senti atraído. Visitei

Detroit, onde conversei com o presidente da Chrysler, Lee

Iacocca, e outros executivos da empresa. Dei uma olhada nos

projetos em que estavam trabalhando. Conheci algumas

daquelas pessoas e concluí que devia experimentar. Não foi uma

decisão fácil, porque eu nunca tinha feito nada daquilo. Mesmo

assim decidi tentar, e firmei um contrato de três anos. Adorei os

aspectos do trabalho referentes à engenharia, mas acho que não

fui muito bem como porta-voz. Fiz o melhor que pude, mas eu

não era mesmo bom naquilo. Estava sempre lutando para fazer

direito.”

Nos meses seguintes, Armstrong estabeleceu relações

profissionais com a General Time Corp. (subsidiária das

indústrias Tally) e com a American Bankers Association,

assumindo compromissos promocionais que variavam conforme

o caso. Em relação à General Time, ele entendia seu

compromisso não só como anunciante do relógio de pulso

Quartzmatic da empresa, mas com seu progresso tecnológico. “A

fábrica de relógios Quartz tinha construído o timer do módulo

lunar, então essa era nossa ligação — a tecnologia era boa. No

fim, a qualidade do produto nem era tão boa quanto eu pensava

que deveria ser. No caso da American Bankers Association, não

se tratava de uma organização comercial, mas mesmo assim

eles faziam uma espécie de publicidade institucional. Fizemos

uns poucos anúncios, mas a ideia não decolou.” A experiência de Armstrong como porta-voz de produtos americanos selecionados

acabou sendo temporária, mas as questões empresariais foram

seu foco principal durante o resto de sua vida profissional.

Assim que deixou a Universidade de Cincinnati, Neil entrou em

uma sociedade com o irmão Dean e um primo deles, Richard

Teichgraber, dono da International Petroleum Services (IPS) em

El Dorado, Kansas. Dean, que tinha sido presidente da planta de

transmissão Delco Remy da General Motors em Anderson,

Indiana, tornou-se presidente da IPS. Neil virou sócio da IPS e

presidente da Cardwell International Ltd., uma subsidiária que

fabricava perfuratrizes, metade delas para exportação. Neil e o

irmão ficaram dois anos na IPS/Cardwell e depois venderam sua

parte na empresa. Mais tarde, Dean comprou um banco no

Kansas.

Em 1982, Neil tinha diversos compromissos com empresas:

“Acho que algumas delas me convidavam para seu conselho

diretor justamente porque eu não tinha experiência em

administração, mas tinha formação técnica. Então, aceitei

integrar diversos conselhos. Recusei muito mais ofertas do que

aceitei.”

O primeiro conselho diretor que Armstrong aceitou integrar, em

1972, foi o da Gates Learjet, na época presidida por Harry

Combs. Liderando sua comissão técnica e qualificado para voar

em seus jatos, Neil pilotou a maioria dos produtos novos e

experimentais da empresa na linha de jatos comerciais. Em

fevereiro de 1979, ele decolou em um novo Learjet da pista de

First Flight, perto de Kill Devil Hill, na Carolina do Norte, e subiu

em direção ao Atlântico a uma altitude de 15.500 metros em

pouco mais de doze minutos, estabelecendo novos recordes de

altitude e velocidade de subida para jatos comerciais.

Na primavera de 1973, Neil entrou para o conselho da

Cincinnati Gas & Electric, uma empresa de geração de energia.

Ele atribuía sua relação com a Taft Broadcasting, de Cincinnati,

ao dinâmico CEO e presidente da empresa, Charles S. Mechem

Jr., que foi “uma das sete ou oito pessoas de Cincinnati que

convidei para o voo de Gene Cernan na Apollo 17 em dezembro

de 1972”. Mechem tinha uma opinião muito clara da força que Armstrong levou para o conselho da empresa: “Normalmente,

quando alguém é convidado para fazer parte do conselho, a

pessoa diz: ‘Maravilha, quando é a primeira reunião?’ Bem, com

Neil as coisas não foram assim. Depois de sondar por que eu o

queria e como ele poderia contribuir com algo que não tivesse a

ver com o fato de ter sido o primeiro homem na Lua”, Armstrong

entrou para o conselho.

Entrou também para a United Airlines em janeiro de 1978 e,

em 1980, para a Cleveland’s Eaton Corporation, assim como

para sua subsidiária AIL Systems, que produzia equipamento

bélico eletrônico. Em 2000, a AIL fundiu-se à EDO Corporation,

que Neil presidiu até se aposentar da vida empresarial, em 2002.

Em março de 1989, três anos depois da explosão do ônibus

espacial Challenger, Armstrong entrou para a Thiokol, que tinha

produzido os foguetes auxiliares de combustível sólido (SRBs, na

sigla em inglês) da Challenger. Com a ajuda de Neil, a Thiokol

conseguiu não apenas sobreviver como também crescer, sob a

forma expandida de Cordant Technologies, fabricante de motores

a foguete de combustível sólido, componentes de motor para

jatos e sistemas de fixação de alto desempenho avaliada em 2,5

bilhões de dólares, com fábricas nos Estados Unidos, na Europa

e na Ásia. Em 2000, a Cordant foi comprada pela Alcoa Inc., e o

conselho da Thiokol em que Neil tinha estado durante onze anos

se dissolveu.

Relutante para avaliar a importância da colaboração que deu

para essas corporações nos últimos trinta anos, Armstrong disse

apenas: “Acho que na maioria dos casos eu compreendia os

problemas, e normalmente tinha uma ideia de qual seria a

posição apropriada a respeito de cada questão. Eu me sentia à

vontade no conselho.”

Pela primeira vez na vida, Armstrong também ganhou um bom

dinheiro. Além de uma bela compensação por suas atividades

como diretor, ele recebia uma quantidade importante de ações da

empresa e investia seu dinheiro com sabedoria. Quando ele a

Janet se divorciaram, em 1994, o casal tinha mais de 2 milhões

de dólares.

Embora nunca tenha alardeado a respeito de sua filantropia,

Neil estava continuamente envolvido com instituições de

caridade, sobretudo em Ohio e imediações. Em 1973, ele

comandou a campanha estadual da ONG Easter Seal. De 1978 a

1985, esteve no conselho diretor da Associação Cristã de Moços

em Lebanon, Ohio. De 1976 a 1985, integrou o conselho diretor

do Museu de História Natural de Cincinnati, nos cinco últimos

anos como presidente. De 1988 a 1991, pertenceu ao conselho

executivo da reitoria da Universidade de Cincinnati. Até sua

morte, em 2012, participou ativamente do Commonwealth Club e

do Commercial Club of Cincinnati, tendo presidido ambas as

instituições. Em 1992 e 1993, integrou a Comissão de Serviço

Público de Ohio. Em 1982, fez o recitativo da peça Lincoln

Portrait com a Orquestra Pops de Cincinnati.

De acordo com Devere Burt, diretor do Museu de História

Natural de Cincinnati, “o nome dele nos dava credibilidade

imediata. Em qualquer lugar que fôssemos em busca de

financiamento, bastava apresentar o papel timbrado com os

dizeres ‘Presidente do Conselho: Neil A. Armstrong.’”

Neil talvez fosse o ex-aluno mais ativo de sua faculdade.

Esteve no conselho de diretores da Fundação Universidade

Purdue de 1979 a 1982, na Comissão Visitante de Engenharia de

1990 a 1995, e, de 1990 a 1994, presidiu, juntamente com Gene

Cernan, a maior campanha de arrecadação de fundos da

universidade, a Vision 21. Com o objetivo de obter astronômicos

250 milhões, a campanha excedeu a meta em 85 milhões,

estabelecendo um recorde para universidades públicas

americanas.

O dr. Stephen Beering, reitor da Purdue de 1983 a 2000,

relembrou as principais contribuições de Armstrong para a

campanha Vision 21: “Neil foi realmente seu grande divulgador.

Ele podia dizer a um grupo de ex-alunos: ‘Sabe como é, a

experiência na Purdue me ajudou muito em relação ao meu

pouso na Lua — isso remonta a meu primeiro semestre, quando

tive um professor de física, autor de nosso livro didático. Achei

que para minha primeira prova oral das sextas-feiras eu teria que

despejar o texto do capítulo escolhido. Mas não. O professor disse: “Gostaria de saber o que você pensou sobre esse

material.” Nesse momento, percebi como eram as coisas em

Purdue: tratava-se de ensinar a resolver problemas, a ter

pensamento crítico, a analisar situações e chegar a conclusões

detalhadas e originais. Quando pilotei o módulo lunar para o

pouso na Lua, foi exatamente isso que tive de fazer — usar meu

treinamento, mas depois resolver problemas, analisar situações e

encontrar por contra própria uma solução prática. Sem a Purdue,

eu não poderia ter feito isso.’

“E sempre que ele estava no campus, dava para ver em seus

olhos como ele gostava dali. Demonstrava satisfação genuína só

por passar o braço pelos ombros de algum integrante da banda

em um jogo de futebol. Neil ficava entusiasmado como uma

criança quando era escolhido para tocar o enorme tambor

Boilermaker. ‘Eu nunca tinha feito aquilo! Gostaria de participar!’

E marchava com os barítonos, dos quais fez parte quando tocava

na banda. Nem por um momento agia como celebridade.”

Armstrong também se comprometeu com causas de

benemerência de alcance nacional. De 1975 a 1977, presidiu,

juntamente com Jimmy Doolittle, o Fundo Memorial Charles A.

Lindbergh, que em maio de 1977, por ocasião do quinquagésimo

aniversário do voo histórico de Lindbergh, arrecadou mais de 5

milhões de dólares para um fundo de apoio a jovens cientistas,

exploradores e ambientalistas. De 1977 para 1978, Neil aceitou

uma indicação para a Comissão Presidencial Jimmy Carter de

Amigos da Casa Branca. Em 1979, foi apresentador do

documentário em sete episódios The Voyage of Charles Darwin,

transmitido pela PBS. Participou do Conselho Nacional Honorário

da Associação do Museu USS Constitution entre 1996 e 2000.

Algumas pessoas diziam que Neil não tinha veia política.

“Acho que não estou de acordo, já que tenho minhas crenças,

participo do processo e voto com consciência. Mas a verdade é

que não me sinto nem um pouco atraído pelo mundo da política.”

Ele recusou a oportunidade de chefiar a campanha de Nixon pela

reeleição em Ohio, em 1972, e a concorrer pelo Partido

Republicano contra o senador democrata John Glenn em 1980.

Em termos da tradição política americana, Armstrong identificava-se mais com as raízes moderadas do republicanismo

jeffersoniano. “Sou mais favorável ao poder na mão dos estados,

a menos nos casos em que só o governo federal possa intervir e

seja do interesse de todos. Não estou convencido de que

qualquer um dos nossos partidos atuais esteja muito certo quanto

à questão da educação. Mas não seria uma atitude política

expressar essas opiniões hoje. Então, me abstenho.”

 

6 A declaração de imposto de renda de Armstrong para 1979 mostra que ele recebeu 18.196 dólares da Universidade de Cincinnati. De sua própria empresa de serviços, recebeu 168 mil dólares. Além disso, ganhou cerca de 50 mil dólares por integrar conselhos diretores de diversas empresas.