O Primeiro Homem na Lua
Capítulo 1: A gênese de um americano
CAPÍTULO 1
A gênese de um americano
Neil Armstrong entendia que sua história de vida, como a de
qualquer outra pessoa, não tem início no nascimento. Remonta a
um tempo muito anterior, à gênese de cada linhagem, centenas
de anos atrás, até onde chegam a memória humana, a
documentação histórica e os registros genealógicos existentes.
Ignorar o passado remoto de uma família trapaceia a história de
vida de cada um — para não mencionar a vida, as experiências,
os desafios, as conquistas, os amores e as paixões de pais,
avós, bisavós, trisavós e assim por diante. Neil insistia para que
sua biografia incluísse a história de todos eles.
Neil também gostava muito da própria história familiar, que,
assim como a de muitas famílias americanas, tratava de
imigrantes e sua chegada corajosa a uma nova terra. Era a
“gênese de um americano”, como ele disse um dia.
Neil amava os Estados Unidos e sua história. Amava o que o
país representava antes mesmo do próprio nascimento em sua
luta para se tornar independente da mãe-pátria, a Inglaterra, de
1776 a 1783. Para Neil, “os Estados Unidos significam
oportunidade. Começou assim. Os primeiros colonizadores
chegaram ao novo mundo pela oportunidade de praticar seu culto
segundo sua consciência e para construir um futuro com a força
de sua própria iniciativa e trabalho árduo. Descobriram uma nova
vida com liberdade para chegar a seus objetivos individuais”.
No caso de Neil, o “passado familiar remoto” — a parte dele
que se conhece com certeza — remonta a mais de trezentos
anos, a seus primeiros ancestrais Armstrongs conhecidos, do fim
do século XVII. A linhagem paterna da família de Neil surgiu de
um clã de Armstrongs que cresceu a partir do fim da Idade Média nas famosas “Borderlands”, região fronteiriça entre a Escócia e a
Inglaterra. Um pequeno grupo de Armstrongs intrépidos cruzou o
Atlântico quatro décadas antes da Revolução Americana. Seus
descendentes foram se deslocando em ritmo constante para o
oeste, através dos Apalaches, em carroças cobertas e barcos,
entre os destemidos pioneiros das primeiras fronteiras
americanas, para radicar-se enfim nas férteis terras agrícolas do
noroeste de Ohio, logo depois da guerra de 1812.
O nome “Armstrong” tornou-se ilustre desde o começo. De
origem anglo-dinamarquesa, significa exatamente o que diz:
“braço forte”. Conta a lenda que teve início com um corajoso
ancestral chamado Fairbairn. Viola Engel Armstrong, mãe de
Neil, narrava uma versão da fábula. “Um homem chamado
Fairbairn providenciou um cavalo novo para o rei da Escócia
depois que seu animal fora atingido por um tiro em combate.
Para recompensá-lo, o rei presenteou Fairbairn com muitos
hectares de terra na fronteira entre a Escócia e a Inglaterra, e a
partir de então referiu-se a Fairbairn como Armstrong.” Variantes
da lenda dizem que Fairbairn foi seguido por Siward Beorn, ou
“guerreiro de espada”, também conhecido como “braço forte de
espada.”
No século XV, o clã Armstrong emergiu como uma força
poderosa nas fronteiras. No século seguinte, os Armstrongs
constituíam sem dúvida a mais robusta família de saqueadores
da fronteira — bandidos e ladrões. Décadas de expansão sem
disfarces dos Armstrongs forçaram, por fim, uma intervenção
real, já que a eles se atribuíam crimes como o incêndio de 52
igrejas escocesas. Em 1529, o rei Jaime V da Escócia organizou
uma força de oito mil soldados para apaziguar os problemáticos
Armstrongs, cujo número estava entre doze mil e quinze mil, ou
em torno de 3% da população da Escócia. Em 1530, Jaime V
direcionou suas forças para o sul em busca de Johnnie
Armstrong of Gilnockie. O escritor Sir Walter Scott identificou
William Armstrong como descendente direto de Johnnie
Armstrong of Gilnockie. Os historiadores concluíram que Will era
o filho mais velho de Christopher Armstrong (1523–1606), que,
por sua vez, era o primogênito de Johnnie.
Os antepassados de Neil Armstrong ficaram na fronteira
anglo-escocesa até emigrarem diretamente para os Estados
Unidos, em algum momento entre 1736 e 1743. Adam
Armstrong, nascido na fronteira em 1638 e falecido em 1696,
representa a geração número 1, dez gerações anteriores à do
primeiro homem na Lua.
Adam Armstrong teve dois filhos, um deles também chamado
Adam, nascido em Cumbria, Inglaterra, em 1685. Aos vinte anos,
Adam Armstrong II casou-se com Mary Forster. Em companhia
do pai, Adam Abraham Armstrong III (nascido em 1714 ou 1715)
cruzou o Atlântico em meados da década de 1730, aos vinte
anos, o que fez deles os primeiros da linhagem de Neil a migrar
para os Estados Unidos. Adam pai morreu na Pensilvânia em
1749.
Esses Armstrongs estiveram entre os primeiros colonizadores
da região de Conococheague, na Pensilvânia. Adam Abraham
Armstrong trabalhou em suas terras, situadas no que veio a ser o
condado de Cumberland, até a morte, em 1779. Aos 24 anos,
seu filho mais velho, John (nascido em 1736), explorou a
desembocadura do Muddy Creek, 250 quilômetros a oeste de
Conococheague. Lá, John e sua esposa, Mary, criaram nove
filhos, entre os quais o segundo, John (nascido em 1773), gerou
a descendência que levou até Neil.
Logo após a Revolução Americana, milhares de colonos
acorreram a Ohio. Em março de 1799, John Armstrong, com 25
anos, sua mulher, Rebekah, e o filho do casal, David, além do
irmão mais novo de John, Thomas Armstrong, sua mulher, Alice
Crawford, e seu bebê, William, desceram o Muddy Creek em
uma barcaça até Pittsburgh, em seguida navegaram pelo rio Ohio
mais uns quatrocentos quilômetros até Hockingport, a oeste da
atual Parkersburg, Virgínia Ocidental. As duas famílias seguiram
rio Hocking acima até Alexander Township, Ohio. Radicados nas
imediações da que veio a ser a cidade de Athens, Thomas e
Alice criaram seis filhos. John e Rebekah por fim se fixaram perto
de Fort Greenville, no extremo oeste de Ohio. John Armstrong,
ancestral de Neil (geração número 5) e sua família presenciaram
as negociações referentes ao Tratado de St. Marys, a última grande assembleia de nações indígenas em Ohio. Em 1818,
John e sua família se estabeleceram na margem oeste do rio St.
Marys. Com as primeiras colheitas, os Armstrongs ganharam o
bastante para garantir a posse de sessenta hectares de terras,
que vieram a se tornar a Fazenda Armstrong, a mais antiga do
condado de Auglaize.
O mais velho dos filhos de John, David Armstrong (nascido em
1798), e Margaret Van Nuys (1802–1831) foram os bisavós
paternos (não casados) de Neil. Margaret era casada com Caleb
Major, e David, com Eleanor Scott (1802–1852), filha de Thomas
Scott, outro dos primeiros colonizadores de St. Marys. O bebê
Stephen ficou com a mãe até a morte prematura dela, em março
de 1831, quando os pais de Margaret, Rachel Howell e Jacobus
Van Nuys, assumiram o neto de sete anos. David, pai de
Stephen, faleceu em 1833, e logo depois morreu seu avô, em
1836.
Stephen Armstrong (geração número 7) receberia do avô Van
Nuys a herança de aproximadamente 200 dólares em dinheiro e
outros bens quando completasse 21 anos, em 1846. Ele era
agricultor e, depois de anos trabalhando para outra família,
conseguiu comprar oitenta hectares de terra, aos quais mais
tarde acrescentaria outros noventa.
Não se sabe como a Guerra Civil afetou Stephen Armstrong.
Ele se casou com Martha Watkins Badgley (1832–1907), viúva de
George Badgley e mãe de quatro filhos. Em 16 de janeiro de
1867, Martha deu à luz o filho de Stephen, Willis Armstrong.
Quando faleceu em agosto de 1884, aos 58 anos, Stephen
Armstrong tinha bem mais do que 170 hectares, que valiam mais
de 30 mil dólares — o equivalente hoje a mais de 700 mil
dólares.
O filho único de Stephen, Willis, herdou a maior parte da
propriedade. Três anos depois, casou-se com uma moça local,
Lillian Brewer (1867–1901). O casal, que teve cinco filhos, vivia
em uma casa de fazenda perto da River Road. Em 1901, Lillie
morreu em um parto.
Enlutado, Willis começou a trabalhar em meio período como
entregador dos correios. Uma das paradas de sua rota era o escritório de advocacia dos irmãos Koenig. A irmã deles, Laura,
trabalhava ali como secretária, e, no fim de 1903, Willis começou
a fazer-lhe a corte. Casaram-se em junho de 1905 e foram morar
em uma casa que Willis comprara em St. Marys. Mais tarde,
mudaram-se para uma imponente mansão vitoriana em uma
esquina da West Spring Street.
Foi nessa casa que Stephen Koenig Armstrong, pai de Neil,
cresceu. Primeiro dos dois filhos de Willis e Laura, ele nasceu em
26 de agosto de 1907, sendo recebido pelas meias-irmãs Bernice
e Grace e pelos meios-irmãos Guy e Ray. A infância de Stephen
foi marcada por percalços econômicos e um golpe de má sorte
familiar. Willis hipotecou a fazenda e investiu a maior parte do
dinheiro em um negócio ferroviário gerido por seu cunhado.
Infelizmente, o negócio não deu certo e o desastre econômico
superveniente azedou as relações familiares, inclusive o
casamento de Willis.
Em 1912, Guy, meio-irmão de Stephen, morreu; e em 1914 a
casa dos Armstrongs pegou fogo. Stephen, de seis anos,
escapou apenas com as roupas do corpo.
Em 1916, Willis, aos 49 anos e pesadamente endividado,
abandonou os correios e rumou para os campos de petróleo do
Kansas.
No começo de 1919, Willis retornou a Ohio. Em semanas,
instalou-se com a família mais uma vez na fazenda de River
Road, ainda muito endividado. Acometido de artrite crônica, Willis
deixou com Stephen os trabalhos agrícolas. A mãe dele fez
questão de que completasse seus estudos.
Mesmo antes de concluir o ensino médio, em 1925, Stephen já
tinha decidido não ser agricultor. Logo apaixonou-se por uma
jovem de voz mansa chamada Viola Louise Engel.
* * *
A família de Stephen Armstrong já estava radicada nos Estados
Unidos havia mais de um século quando Frederick Wilhelm
Kötter, avô de Viola, nascido na Alemanha, chegou ao porto de Baltimore, em outubro de 1864. Em um esforço familiar para
evitar que o filho de dezoito anos prestasse serviço militar
obrigatório na Prússia, o pai de Fritz Kötter vendera parte de sua
propriedade nas imediações do vilarejo de Ladbergen, província
de Vestfália, perto da fronteira com os Países Baixos, a fim de
pagar a passagem de Fritz para os Estados Unidos.
Frederick dirigiu-se ao povoado de New Knoxville, Ohio. Um
estado americano cuja população de imigrantes alemães
passava de duzentas mil pessoas exerceu uma atração óbvia
sobre o rapaz natural de Ladbergen, Alemanha. A primeira
mulher de Kötter morreu jovem. No início da década de 1870,
depois de comprar trinta hectares de terra, Fritz casou-se com
uma germano-americana da primeira geração chamada Maria
Martha Katterheinrich. O sobrenome foi americanizado para
Katter. O casal teve seis filhos e uma filha, Caroline, que nasceu
em 1888. Dezenove anos depois, em 7 de maio de 1907,
Caroline deu à luz sua única filha, Viola. A família de Viola
frequentava a Igreja Reformada de São Paulo, cuja doutrina
derivava do catecismo de Martinho Lutero. A jovem Viola se
tornaria muito devota e assim permaneceria por toda a vida.
Em 4 de maio de 1909, com apenas 29 anos, Martin Engel,
açougueiro de profissão, morreu de tuberculose, deixando
Caroline com a filha ainda bebê. Foi sepultado no cemitério de
Elmgrove no dia do aniversário de dois anos de Viola. Os pais de
Caroline passaram a tomar conta de Viola para que a mãe da
menina pudesse cozinhar para a abastada família McClain. Em
1911, Maria, mãe de Caroline, faleceu, e em 1916 foi a vez do
avô Katter. Para Caroline, a perda deu lugar à felicidade quando
floresceu um romance entre ela e um agricultor local, William
Ernst Korspeter, que ela conhecera na Igreja Reformada em St.
Mary. Eles se casaram em 1916. Viola foi matriculada na Blume
High School em Wapakoneta. Moça esguia de jeito simples, Viola
tirava notas altas. Estudava piano desde os oito anos, e seu
gosto pela música era conhecido. Essa característica, assim
como criatividade, concentração, organização e perseverança,
ela transmitiria ao filho, Neil.
Contudo, a mais cara aspiração de Viola era dedicar a vida a
Cristo como missionária, mas seus pais a desencorajaram da
ideia. Em vez disso ela trabalhou como funcionária de uma loja
de departamentos ganhando 20 centavos por hora. Foi assim
que Viola começou a ver Stephen Armstrong, que acabara de se
formar no ensino médio. Eles se falaram pela primeira vez
durante um encontro de jovens da Igreja Reformada de São
Paulo, e o ardor daquela paixão juvenil dissimulou suas muitas
diferenças — que com os anos se tornariam cada vez mais
claras, até o ponto de, mais tarde, Viola chegar a se questionar
se teria sido correto um casamento com um homem nada
religioso.
Mas isso só aconteceria muitos anos depois. No Natal de
1928, Viola e Stephen trocaram alianças de noivado e, em 8 de
outubro de 1929, casaram-se no salão da casa de fazenda dos
Korspeter. Na lua de mel, o casal partiu no automóvel de “Papa”
Korspeter em sua primeira viagem a Dayton, a cem quilômetros
de distância. Duas semanas depois, a bolsa de valores de Wall
Street entrou em colapso e teve início a Grande Depressão.
Stephen levou Viola para a casa de River Road, onde ela
passou a ajudar a sogra nos afazeres domésticos, e foi a
Columbus prestar concurso para o serviço público. Em fevereiro
de 1930 foi designado assistente do auditor sênior do condado
de Columbiana. Organizou-se o leilão da fazenda, e os pais de
Stephen se mudaram para uma pequena casa em St. Marys. Em
meados de maio de 1930, Stephen e Viola, grávida de seis
meses, viajaram a Lisbon, a quatrocentos quilômetros de
distância, perto da divisa com a Pensilvânia. Ficaram
“indescritivelmente impressionados” por ter luz elétrica e água
encanada quente e fria no apartamento mobiliado de dois
cômodos.
Em 4 de agosto, duas semanas antes da data prevista, Viola
preparou-se para o parto na casa da fazenda de seus pais.
Stephen ficou em Lisbon. Em 5 de agosto de 1930, nasceu um
menino. Tinha o queixo do pai, mas os olhos e o nariz eram
iguais aos de Viola. Os pais deram ao filho o nome de Neil Alden.
Viola gostava da aliteração “Alden Armstrong” e da alusão a Alden no poema clássico de Henry Wadsworth Longfellow, “O
namoro de Miles Standish”. Ninguém na família tinha sido
batizado com o nome de “Neil”. Talvez eles soubessem que “Neil”
era a forma escocesa do nome gaélico Néall, que significa
“nuvem”, ou que, em sua forma moderna, quer dizer “campeão”.