O Primeiro Homem na Lua

James R. Hansen · Capítulo 4 de 42

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O Primeiro Homem na Lua

Capítulo 1: A gênese de um americano

CAPÍTULO 1

 

A gênese de um americano

 

Neil Armstrong entendia que sua história de vida, como a de

qualquer outra pessoa, não tem início no nascimento. Remonta a

um tempo muito anterior, à gênese de cada linhagem, centenas

de anos atrás, até onde chegam a memória humana, a

documentação histórica e os registros genealógicos existentes.

Ignorar o passado remoto de uma família trapaceia a história de

vida de cada um — para não mencionar a vida, as experiências,

os desafios, as conquistas, os amores e as paixões de pais,

avós, bisavós, trisavós e assim por diante. Neil insistia para que

sua biografia incluísse a história de todos eles.

Neil também gostava muito da própria história familiar, que,

assim como a de muitas famílias americanas, tratava de

imigrantes e sua chegada corajosa a uma nova terra. Era a

“gênese de um americano”, como ele disse um dia.

Neil amava os Estados Unidos e sua história. Amava o que o

país representava antes mesmo do próprio nascimento em sua

luta para se tornar independente da mãe-pátria, a Inglaterra, de

1776 a 1783. Para Neil, “os Estados Unidos significam

oportunidade. Começou assim. Os primeiros colonizadores

chegaram ao novo mundo pela oportunidade de praticar seu culto

segundo sua consciência e para construir um futuro com a força

de sua própria iniciativa e trabalho árduo. Descobriram uma nova

vida com liberdade para chegar a seus objetivos individuais”.

No caso de Neil, o “passado familiar remoto” — a parte dele

que se conhece com certeza — remonta a mais de trezentos

anos, a seus primeiros ancestrais Armstrongs conhecidos, do fim

do século XVII. A linhagem paterna da família de Neil surgiu de

um clã de Armstrongs que cresceu a partir do fim da Idade Média nas famosas “Borderlands”, região fronteiriça entre a Escócia e a

Inglaterra. Um pequeno grupo de Armstrongs intrépidos cruzou o

Atlântico quatro décadas antes da Revolução Americana. Seus

descendentes foram se deslocando em ritmo constante para o

oeste, através dos Apalaches, em carroças cobertas e barcos,

entre os destemidos pioneiros das primeiras fronteiras

americanas, para radicar-se enfim nas férteis terras agrícolas do

noroeste de Ohio, logo depois da guerra de 1812.

O nome “Armstrong” tornou-se ilustre desde o começo. De

origem anglo-dinamarquesa, significa exatamente o que diz:

“braço forte”. Conta a lenda que teve início com um corajoso

ancestral chamado Fairbairn. Viola Engel Armstrong, mãe de

Neil, narrava uma versão da fábula. “Um homem chamado

Fairbairn providenciou um cavalo novo para o rei da Escócia

depois que seu animal fora atingido por um tiro em combate.

Para recompensá-lo, o rei presenteou Fairbairn com muitos

hectares de terra na fronteira entre a Escócia e a Inglaterra, e a

partir de então referiu-se a Fairbairn como Armstrong.” Variantes

da lenda dizem que Fairbairn foi seguido por Siward Beorn, ou

“guerreiro de espada”, também conhecido como “braço forte de

espada.”

No século XV, o clã Armstrong emergiu como uma força

poderosa nas fronteiras. No século seguinte, os Armstrongs

constituíam sem dúvida a mais robusta família de saqueadores

da fronteira — bandidos e ladrões. Décadas de expansão sem

disfarces dos Armstrongs forçaram, por fim, uma intervenção

real, já que a eles se atribuíam crimes como o incêndio de 52

igrejas escocesas. Em 1529, o rei Jaime V da Escócia organizou

uma força de oito mil soldados para apaziguar os problemáticos

Armstrongs, cujo número estava entre doze mil e quinze mil, ou

em torno de 3% da população da Escócia. Em 1530, Jaime V

direcionou suas forças para o sul em busca de Johnnie

Armstrong of Gilnockie. O escritor Sir Walter Scott identificou

William Armstrong como descendente direto de Johnnie

Armstrong of Gilnockie. Os historiadores concluíram que Will era

o filho mais velho de Christopher Armstrong (1523–1606), que,

por sua vez, era o primogênito de Johnnie.

Os antepassados de Neil Armstrong ficaram na fronteira

anglo-escocesa até emigrarem diretamente para os Estados

Unidos, em algum momento entre 1736 e 1743. Adam

Armstrong, nascido na fronteira em 1638 e falecido em 1696,

representa a geração número 1, dez gerações anteriores à do

primeiro homem na Lua.

Adam Armstrong teve dois filhos, um deles também chamado

Adam, nascido em Cumbria, Inglaterra, em 1685. Aos vinte anos,

Adam Armstrong II casou-se com Mary Forster. Em companhia

do pai, Adam Abraham Armstrong III (nascido em 1714 ou 1715)

cruzou o Atlântico em meados da década de 1730, aos vinte

anos, o que fez deles os primeiros da linhagem de Neil a migrar

para os Estados Unidos. Adam pai morreu na Pensilvânia em

1749.

Esses Armstrongs estiveram entre os primeiros colonizadores

da região de Conococheague, na Pensilvânia. Adam Abraham

Armstrong trabalhou em suas terras, situadas no que veio a ser o

condado de Cumberland, até a morte, em 1779. Aos 24 anos,

seu filho mais velho, John (nascido em 1736), explorou a

desembocadura do Muddy Creek, 250 quilômetros a oeste de

Conococheague. Lá, John e sua esposa, Mary, criaram nove

filhos, entre os quais o segundo, John (nascido em 1773), gerou

a descendência que levou até Neil.

Logo após a Revolução Americana, milhares de colonos

acorreram a Ohio. Em março de 1799, John Armstrong, com 25

anos, sua mulher, Rebekah, e o filho do casal, David, além do

irmão mais novo de John, Thomas Armstrong, sua mulher, Alice

Crawford, e seu bebê, William, desceram o Muddy Creek em

uma barcaça até Pittsburgh, em seguida navegaram pelo rio Ohio

mais uns quatrocentos quilômetros até Hockingport, a oeste da

atual Parkersburg, Virgínia Ocidental. As duas famílias seguiram

rio Hocking acima até Alexander Township, Ohio. Radicados nas

imediações da que veio a ser a cidade de Athens, Thomas e

Alice criaram seis filhos. John e Rebekah por fim se fixaram perto

de Fort Greenville, no extremo oeste de Ohio. John Armstrong,

ancestral de Neil (geração número 5) e sua família presenciaram

as negociações referentes ao Tratado de St. Marys, a última grande assembleia de nações indígenas em Ohio. Em 1818,

John e sua família se estabeleceram na margem oeste do rio St.

Marys. Com as primeiras colheitas, os Armstrongs ganharam o

bastante para garantir a posse de sessenta hectares de terras,

que vieram a se tornar a Fazenda Armstrong, a mais antiga do

condado de Auglaize.

O mais velho dos filhos de John, David Armstrong (nascido em

1798), e Margaret Van Nuys (1802–1831) foram os bisavós

paternos (não casados) de Neil. Margaret era casada com Caleb

Major, e David, com Eleanor Scott (1802–1852), filha de Thomas

Scott, outro dos primeiros colonizadores de St. Marys. O bebê

Stephen ficou com a mãe até a morte prematura dela, em março

de 1831, quando os pais de Margaret, Rachel Howell e Jacobus

Van Nuys, assumiram o neto de sete anos. David, pai de

Stephen, faleceu em 1833, e logo depois morreu seu avô, em

1836.

Stephen Armstrong (geração número 7) receberia do avô Van

Nuys a herança de aproximadamente 200 dólares em dinheiro e

outros bens quando completasse 21 anos, em 1846. Ele era

agricultor e, depois de anos trabalhando para outra família,

conseguiu comprar oitenta hectares de terra, aos quais mais

tarde acrescentaria outros noventa.

Não se sabe como a Guerra Civil afetou Stephen Armstrong.

Ele se casou com Martha Watkins Badgley (1832–1907), viúva de

George Badgley e mãe de quatro filhos. Em 16 de janeiro de

1867, Martha deu à luz o filho de Stephen, Willis Armstrong.

Quando faleceu em agosto de 1884, aos 58 anos, Stephen

Armstrong tinha bem mais do que 170 hectares, que valiam mais

de 30 mil dólares — o equivalente hoje a mais de 700 mil

dólares.

O filho único de Stephen, Willis, herdou a maior parte da

propriedade. Três anos depois, casou-se com uma moça local,

Lillian Brewer (1867–1901). O casal, que teve cinco filhos, vivia

em uma casa de fazenda perto da River Road. Em 1901, Lillie

morreu em um parto.

Enlutado, Willis começou a trabalhar em meio período como

entregador dos correios. Uma das paradas de sua rota era o escritório de advocacia dos irmãos Koenig. A irmã deles, Laura,

trabalhava ali como secretária, e, no fim de 1903, Willis começou

a fazer-lhe a corte. Casaram-se em junho de 1905 e foram morar

em uma casa que Willis comprara em St. Marys. Mais tarde,

mudaram-se para uma imponente mansão vitoriana em uma

esquina da West Spring Street.

Foi nessa casa que Stephen Koenig Armstrong, pai de Neil,

cresceu. Primeiro dos dois filhos de Willis e Laura, ele nasceu em

26 de agosto de 1907, sendo recebido pelas meias-irmãs Bernice

e Grace e pelos meios-irmãos Guy e Ray. A infância de Stephen

foi marcada por percalços econômicos e um golpe de má sorte

familiar. Willis hipotecou a fazenda e investiu a maior parte do

dinheiro em um negócio ferroviário gerido por seu cunhado.

Infelizmente, o negócio não deu certo e o desastre econômico

superveniente azedou as relações familiares, inclusive o

casamento de Willis.

Em 1912, Guy, meio-irmão de Stephen, morreu; e em 1914 a

casa dos Armstrongs pegou fogo. Stephen, de seis anos,

escapou apenas com as roupas do corpo.

Em 1916, Willis, aos 49 anos e pesadamente endividado,

abandonou os correios e rumou para os campos de petróleo do

Kansas.

No começo de 1919, Willis retornou a Ohio. Em semanas,

instalou-se com a família mais uma vez na fazenda de River

Road, ainda muito endividado. Acometido de artrite crônica, Willis

deixou com Stephen os trabalhos agrícolas. A mãe dele fez

questão de que completasse seus estudos.

Mesmo antes de concluir o ensino médio, em 1925, Stephen já

tinha decidido não ser agricultor. Logo apaixonou-se por uma

jovem de voz mansa chamada Viola Louise Engel.

 

* * *

 

A família de Stephen Armstrong já estava radicada nos Estados

Unidos havia mais de um século quando Frederick Wilhelm

Kötter, avô de Viola, nascido na Alemanha, chegou ao porto de Baltimore, em outubro de 1864. Em um esforço familiar para

evitar que o filho de dezoito anos prestasse serviço militar

obrigatório na Prússia, o pai de Fritz Kötter vendera parte de sua

propriedade nas imediações do vilarejo de Ladbergen, província

de Vestfália, perto da fronteira com os Países Baixos, a fim de

pagar a passagem de Fritz para os Estados Unidos.

Frederick dirigiu-se ao povoado de New Knoxville, Ohio. Um

estado americano cuja população de imigrantes alemães

passava de duzentas mil pessoas exerceu uma atração óbvia

sobre o rapaz natural de Ladbergen, Alemanha. A primeira

mulher de Kötter morreu jovem. No início da década de 1870,

depois de comprar trinta hectares de terra, Fritz casou-se com

uma germano-americana da primeira geração chamada Maria

Martha Katterheinrich. O sobrenome foi americanizado para

Katter. O casal teve seis filhos e uma filha, Caroline, que nasceu

em 1888. Dezenove anos depois, em 7 de maio de 1907,

Caroline deu à luz sua única filha, Viola. A família de Viola

frequentava a Igreja Reformada de São Paulo, cuja doutrina

derivava do catecismo de Martinho Lutero. A jovem Viola se

tornaria muito devota e assim permaneceria por toda a vida.

Em 4 de maio de 1909, com apenas 29 anos, Martin Engel,

açougueiro de profissão, morreu de tuberculose, deixando

Caroline com a filha ainda bebê. Foi sepultado no cemitério de

Elmgrove no dia do aniversário de dois anos de Viola. Os pais de

Caroline passaram a tomar conta de Viola para que a mãe da

menina pudesse cozinhar para a abastada família McClain. Em

1911, Maria, mãe de Caroline, faleceu, e em 1916 foi a vez do

avô Katter. Para Caroline, a perda deu lugar à felicidade quando

floresceu um romance entre ela e um agricultor local, William

Ernst Korspeter, que ela conhecera na Igreja Reformada em St.

Mary. Eles se casaram em 1916. Viola foi matriculada na Blume

High School em Wapakoneta. Moça esguia de jeito simples, Viola

tirava notas altas. Estudava piano desde os oito anos, e seu

gosto pela música era conhecido. Essa característica, assim

como criatividade, concentração, organização e perseverança,

ela transmitiria ao filho, Neil.

Contudo, a mais cara aspiração de Viola era dedicar a vida a

Cristo como missionária, mas seus pais a desencorajaram da

ideia. Em vez disso ela trabalhou como funcionária de uma loja

de departamentos ganhando 20 centavos por hora. Foi assim

que Viola começou a ver Stephen Armstrong, que acabara de se

formar no ensino médio. Eles se falaram pela primeira vez

durante um encontro de jovens da Igreja Reformada de São

Paulo, e o ardor daquela paixão juvenil dissimulou suas muitas

diferenças — que com os anos se tornariam cada vez mais

claras, até o ponto de, mais tarde, Viola chegar a se questionar

se teria sido correto um casamento com um homem nada

religioso.

Mas isso só aconteceria muitos anos depois. No Natal de

1928, Viola e Stephen trocaram alianças de noivado e, em 8 de

outubro de 1929, casaram-se no salão da casa de fazenda dos

Korspeter. Na lua de mel, o casal partiu no automóvel de “Papa”

Korspeter em sua primeira viagem a Dayton, a cem quilômetros

de distância. Duas semanas depois, a bolsa de valores de Wall

Street entrou em colapso e teve início a Grande Depressão.

Stephen levou Viola para a casa de River Road, onde ela

passou a ajudar a sogra nos afazeres domésticos, e foi a

Columbus prestar concurso para o serviço público. Em fevereiro

de 1930 foi designado assistente do auditor sênior do condado

de Columbiana. Organizou-se o leilão da fazenda, e os pais de

Stephen se mudaram para uma pequena casa em St. Marys. Em

meados de maio de 1930, Stephen e Viola, grávida de seis

meses, viajaram a Lisbon, a quatrocentos quilômetros de

distância, perto da divisa com a Pensilvânia. Ficaram

“indescritivelmente impressionados” por ter luz elétrica e água

encanada quente e fria no apartamento mobiliado de dois

cômodos.

Em 4 de agosto, duas semanas antes da data prevista, Viola

preparou-se para o parto na casa da fazenda de seus pais.

Stephen ficou em Lisbon. Em 5 de agosto de 1930, nasceu um

menino. Tinha o queixo do pai, mas os olhos e o nariz eram

iguais aos de Viola. Os pais deram ao filho o nome de Neil Alden.

Viola gostava da aliteração “Alden Armstrong” e da alusão a Alden no poema clássico de Henry Wadsworth Longfellow, “O

namoro de Miles Standish”. Ninguém na família tinha sido

batizado com o nome de “Neil”. Talvez eles soubessem que “Neil”

era a forma escocesa do nome gaélico Néall, que significa

“nuvem”, ou que, em sua forma moderna, quer dizer “campeão”.