O Primeiro Homem na Lua
Capítulo 26: Para toda a humanidade
CAPÍTULO 26
Para toda a humanidade
Nos meses que se seguiram ao retorno da Columbia à Terra,
pediram infinitas vezes a Armstrong e a seus dois companheiros
de tripulação que falassem sobre o pouso na Lua e seu
significado para a história e para a comunidade global. Em todos
os sentidos, Neil, no centro das atenções, teve um desempenho
excelente. Até hoje, sua primeira esposa, Janet, que o
acompanhou em todas as viagens humanitárias pós-Apollo 11,
conta com orgulho que Neil “nunca se sentia à vontade para
discursar (…) mas discursava, e muito bem”.
Depois da quarentena, Neil ficou em casa um dia inteiro para
fugir dos repórteres. Por uma questão de cortesia, a imprensa
teve o bom senso de deixar os três astronautas em paz até a
quarta-feira, embora eventuais curiosos e paparazzi
continuassem de tocaia na casa deles. Um carro cheio de
fotógrafos perseguiu Aldrin e a mulher, que saíram para comprar
um terno novo para o que seria uma viagem de costa a costa, de
um dia de duração, em comemoração da Apollo 11, mesmo
depois de Aldrin ter escapado deles entrando na base aérea de
Ellington. Neil passou a segunda-feira em casa, pondo em dia a
correspondência pessoal, conversando com a família e
observando os preparativos de Janet com os meninos para a
viagem que fariam pelo país. No dia seguinte, ele voltou ao
escritório no Centro de Espaçonaves Tripuladas, onde enormes
malas de correio, com cerca de cinquenta mil cartas por semana,
o aguardavam.
Naquela mesma tarde, realizou-se a primeira coletiva de
imprensa pós-pouso, no auditório do Centro de Espaçonaves
Tripuladas. Alarmes de programas de computador, a situação do combustível durante a descida lunar e os outros problemas em
relação ao pouso dominaram as perguntas, que então se
voltaram para as experiências singulares de Neil. Indagado sobre
se houve algum momento na Lua em que ele tenha ficado “só um
pouquinho deslumbrado com o que estava acontecendo”, Neil
respondeu, com um sorriso: “Cerca de duas horas e meia.” À
pergunta sobre a principal dificuldade durante a atividade
extraveicular, ele respondeu: “Tivemos os mesmos problemas de
um menino de cinco anos em uma loja de doces. Era muita coisa
para fazer.” Sobre o que ele achava da iminente turnê de um dia
por três cidades — Nova York, Chicago e Los Angeles —, Neil
balançou a cabeça lentamente e admitiu que era “sem dúvida a
última coisa para a qual estamos preparados”.
Às cinco horas da manhã seguinte, quarta-feira, 13 de agosto,
os quatro membros da família Armstrong, os cinco da família
Collins e os cinco da família Aldrin embarcaram no jato de
transporte Força Aérea 2, enviado a Houston pelo presidente
Nixon para a viagem. Mike e Neil passaram o voo preparando
seus discursos (o desconforto de Buzz com discursos
improvisados o levara a começar o seu dias antes). No aeroporto
de La Guardia, o prefeito John Lindsay e a esposa receberam os
convidados de honra e, em seguida, voaram com eles de
helicóptero para um píer próximo de Wall Street, com vista total
para uma salva de tiros disparados por uma flotilha de barcos
dos bombeiros. Uma fila de carros conversíveis os aguardava.
No da frente iam os três astronautas, seguidos de um carro de
segurança, um com suas esposas, mais um de segurança, um
automóvel com os oito filhos e outro de segurança. Buzz recorda:
“Fomos aconselhados a não estender o braço para apertos de
mão, porque poderíamos ser puxados dos carros e talvez não
fosse fácil nos resgatar.”
Nem mesmo a folia ao término da Segunda Guerra Mundial ou
o desfile de Lindbergh em 1927 se comparava em proporção à
celebração na cidade de Nova York. Uma chuva de papel picado
caiu sobre o cortejo enquanto ele passava entre os arranha-céus
do distrito financeiro, ao longo das avenidas Broadway e Park, com o maior público já reunido em Manhattan, estimado em
quatro milhões de pessoas.
“Eu nunca tinha visto tanta gente na vida”, diz Janet,
lembrando-se das “pessoas vibrando, acenando e jogando
confete, que caía de todos os lugares dos prédios, do céu”.
“Eles jogavam também cartões IBM perfurados”, acrescentou
Neil. “Às vezes, caía uma pilha inteira deles do 87o andar de um
prédio e, quando não se separavam, pareciam um tijolo. Tivemos
uns dois amassados no carro causados por cartões que não se
soltaram.”
Na prefeitura, o simpático prefeito John Lindsay entregou a
eles a chave da cidade, e os três astronautas fizeram breves
observações. Depois, seguiram para as Nações Unidas, onde
trocaram apertos de mãos com o secretário-geral U Thant. A
tripulação recebeu um livro de selos comemorativos
representando todos os países-membros da ONU. Neil foi o
único astronauta a falar.
Se o público já estava bem frenético em Nova York, mais
ainda em Chicago. Quando o desfile de limusines abertas passou
lentamente até o enorme e novo Centro Cívico, lembra Aldrin,
“estávamos cobertos de confete e serpentina, transpirando tanto
que aquilo ficava colado na gente. Ficamos surdos com os gritos,
e com os maxilares doloridos de tanto sorrir”. Depois de uma
cerimônia pública na prefeitura de Richard J. Daley — onde o
prefeito grosseirão comandou a sessão de fotos dizendo “Ei,
você, fique aqui” —, os astronautas, surpresos, viram-se no
Grant Park para falar a um público de cerca de quinze mil jovens
antes de se dirigirem ao aeroporto internacional O’Hare.
“Foi emocionante estar nessas cidades porque havia
eletricidade no ar com a alegria que as pessoas expressavam por
causa da conquista”, observa Janet. Neil explicou: “Essa foi
provavelmente a primeira vez que vimos aglomerações tão
grandes de pessoas, era realmente muita gente. Foi um evento
após o outro, grandes desfiles, terminando com o jantar oficial
com Nixon em Beverly Hills.”
Ao chegar ao aeroporto internacional de Los Angeles, o avião
foi recebido pelo prefeito Sam Yorty, e em seguida o grupo foi levado em helicópteros para o elegante hotel Century Plaza. Os
filhos dos três astronautas não compareceram ao evento formal,
mas comeram hambúrgueres, batatas fritas e tomaram milk-
shakes de chocolate diante de uma TV em cores sintonizada na
transmissão ao vivo da cerimônia.
O presidente Nixon, a primeira-dama, Patricia, e as duas filhas
adultas, Julie e Tricia, receberam os astronautas e suas esposas
na suíte presidencial antes de se unirem aos convidados do
jantar: Mamie Eisenhower, viúva do ex-presidente; Esther
Goddard, viúva de Robert Goddard, pioneiro dos foguetes; o
presidente da Suprema Corte, Warren E. Burger e sua esposa; o
ex-vice-presidente Hubert H. Humphrey (entre os poucos
democratas convidados) e sua esposa; o senador do Arizona e
candidato presidencial republicano em 1964, Barry Goldwater; e
o então vice-presidente Spiro Agnew e sua esposa. Pessoas
importantes do governo encheram o salão de banquetes de
cúpula alta e luxuosos candelabros: autoridades da NASA e de
outros programas espaciais, uma quantidade de ministros maior
do que o quórum de muitas reuniões de gabinete, governadores
de 44 estados (inclusive o da Califórnia, Ronald Reagan),
membros do Estado-maior, membros do corpo diplomático
representando 83 nações e muitos líderes do Congresso. Os
pioneiros da aviação americana e internacional foram
representados por Jimmy Doolittle, o homem que chefiava a
NACA quando Neil iniciou sua carreira no governo, em 1955;
Wernher von Braun e Willy Messerschmitt. De Hollywood e do
mundo do entretenimento vieram os artistas Rudy Vallee, Gene
Autry, Jimmy Stewart, Bob Hope, Red Skelton, Rosalind Russell,
Art Linkletter e vários outros. O pastor evangélico Billy Graham
estava presente. Os aviadores Howard Hughes e Charles
Lindbergh foram convidados, mas nenhum deles saiu de sua
reclusão voluntária para comparecer. Ironicamente, nem um
membro da família Kennedy compareceu, por mais que a ocasião
devesse muito à inspiração do ex-presidente John Kennedy. Em
18 de julho, dia em que a Apollo 11 se aproximou da órbita lunar,
o senador de Massachusetts Edward “Ted” Kennedy, depois de
uma festa, tinha caído de carro de uma ponte na ilha de Chappaquiddick, perto de Martha’s Vineyard, em um acidente
que matou Mary Jo Kopechne, assessora de campanha de 28
anos.
Se por um lado os Kennedy ficaram afastados, o mesmo não
se pode dizer dos manifestantes pela paz e contra a pobreza,
que fizeram uma manifestação pacífica diante do hotel, em cujo
estacionamento havia uma frota de limusines pretas — Cadillacs,
Imperiais, Continentais e Rolls-Royces reluzentes. Para os
manifestantes, a glória da Apollo 11 era temporária ou fútil, ou as
duas coisas. Os ânimos dos Estados Unidos na era da Guerra do
Vietnã continuavam conturbados, e esses contribuintes não
estavam nem um pouco a fim de pagar a conta da festa de gala
de Nixon, com seus 1.440 convidados e 43 mil dólares de custo.
O presidente em pessoa tinha aprovado o cardápio até a
sobremesa claire de lune, uma esfera de sorvete aerado com
uma minúscula bandeira americana no topo.
Após a refeição, o vice-presidente Agnew, presidente do
Conselho Nacional de Aeronáutica e Espaço, presenteou os três
astronautas com a Medalha da Liberdade, a mais alta honraria
civil da nação, por sua participação em “uma aventura singular e
extremamente importante. A empreitada deles será lembrada
enquanto os homens imaginarem, sonharem e procurarem a
verdade neste planeta e entre as estrelas”. O controlador de voo
Steve Bales, que, como disse naquela noite, “tomou a decisão de
prosseguir com o pouso lunar quando os computadores falharam,
pouco antes do pouso da Eagle no mar da Tranquilidade”,
ganhou sua própria Medalha de Liberdade. Por mais que essa
citação não correspondesse aos fatos, a honra concedida a
Bales foi um gesto simbólico importante em homenagem às
quatrocentas mil pessoas, aproximadamente, que contribuíram
para o Programa Apollo.
Quando chegou a vez de Armstrong se dirigir à multidão, ele
ficou, sem dúvida, emocionado. A frase “Neil Armstrong engoliu o
choro enquanto procurava palavras para transmitir aos Estados
Unidos como os astronautas da Apollo 11 se sentiam a respeito
de seu país e da honra que lhes foi dada” abria a cobertura da
agência de notícias UPI. E a revista Time publicou: “As palavras de Neil Armstrong ao presidente Nixon em Los Angeles na
semana passada pareceram ainda mais eloquentes porque não
foram estudadas e porque, ao menos uma vez, a voz
normalmente impassível do primeiro homem na Lua tremeu de
emoção.”
“Tivemos o privilégio de deixar na Lua uma placa assinada
pelo senhor, presidente, dizendo: ‘Para toda a humanidade.’
Talvez no terceiro milênio um estranho errante leia a placa na
base da Tranquilidade. Deixaremos a história registrar que essa
foi a época em que isso se tornou um fato. Fiquei impressionado
hoje de manhã em Nova York com uma faixa erguida com
orgulho, mas rabiscada sem muito capricho. Nela estava escrito:
‘Através de vocês, tocamos a Lua.’ Hoje tivemos o privilégio de
tocar os Estados Unidos. Desconfio que talvez o sentimento mais
caloroso e genuíno que todos nós recebemos tenha vindo dos
aplausos e gritos e, acima de tudo, do sorriso de nossos
compatriotas americanos. Esperamos e acreditamos que essas
pessoas tenham compartilhado nossa crença de que este é o
começo de uma nova era — o começo de uma era em que o
homem compreenderá o universo ao seu redor, e o começo de
uma era em que o homem compreenderá a si mesmo.”
* * *
Ninguém na plateia estava mais orgulhoso de Neil do que sua
própria família. “Meus pais estavam lá, como convidados”, conta
Neil, “assim como minha avó, além de minha irmã e meu irmão
acompanhados de suas famílias. Tive muito pouco tempo para
vê-los, mas eles estavam lá. Foi uma ocasião impressionante
para todos.”
No sábado, estima-se que 250 mil pessoas tenham se reunido
em Houston (uma cidade de apenas 1,2 milhão de habitantes em
1969) — “A cidade espacial americana” — para atirar papel
picado, confete, “certificados da Lua” e simulacros de notas de
100 e 1.000 dólares suficientes para cobrir as ruas com uma
altura de sessenta a noventa centímetros de lixo. O churrasco de encerramento no Texas foi realizado no estádio Astrodome para
uma multidão de 55 mil convidados. Cartazes nas arquibancadas
diziam “Você veio de longe, meu bem. Bem-vindo ao lar” e
“Estamos orgulhosos de todos vocês”. Frank Sinatra serviu como
mestre de cerimônias e apresentador junto com a cantora Dionne
Warwick e os comediantes Bill (“José Jiménez”) Dana e Flip
Wilson, todos grandes astros em 1969.
Na véspera do desfile, Neil, Mike e Buzz tinham gravado o
programa Meet the Press da NBC que ia ao ar domingo pela
manhã, quando eles também apareceriam ao vivo no Face the
Nation, da CBS. Em relação ao futuro da tripulação como
integrantes do programa espacial dos Estados Unidos, Neil disse
que as próximas décadas seriam ainda mais emocionantes.
“Podemos fazer muito mais em dez anos do que o esperado. E,
se considerarmos que isso provavelmente se tornará realidade,
acho que daqui a dez anos estaremos pensando nos planetas.”
Prevendo uma recomendação que seria feita no início do mês
seguinte por um Grupo de Trabalho Espacial designado pelo
presidente e liderado pelo vice-presidente Agnew, Armstrong
acrescentou que achava o objetivo de chegar a Marte possível,
talvez com um local de pouso intermediário. Indagado por
Howard Benedict, da agência de notícias Associated Press, se o
homem poderia sobreviver meses a fio no espaço, Neil
respondeu: “Eu gostaria de fazer uma viagem de [até dois anos],
e talvez com um veículo bem maior pudéssemos levar nossas
famílias.” Encerrando o programa, o correspondente David
Schoumacher da CBS News perguntou aos três astronautas se
— e quando — retornariam ao espaço. Collins anunciou que a
Apollo 11 tinha sido seu último voo; Aldrin antecipou uma futura
missão Apollo. Neil disse: “Estou pronto para servir em qualquer
função em que eles acreditem que eu possa dar uma melhor
contribuição.”
* * *
De volta a Houston, Neil procurou um lugar para passar uma
semana de férias. O governador do Colorado, John Love,
lembrou-se da fazenda Sleeping Indian, propriedade de Harry
Combs, presidente da distribuidora de aeronaves Combs Gates
Denver, Inc., que estava presente no lançamento da Apollo 11
com o governador. Neil, Janet e os meninos ficaram na casa
rústica da fazenda que tinha uma paisagem deslumbrante e na
companhia de ursos, alces e veados.
Uma semana de relaxamento quase absoluto no ar das
montanhas do Colorado revigorou Neil e Janet física e
mentalmente para a programação frenética que estava por vir.
Começou em Wapakoneta, cidade natal de Armstrong, no
sábado, 6 de setembro de 1969. Mais de quinhentos oficiais de
polícia foram convocados. Os postos de abastecimento ficaram
sem gasolina. Um cinema local ficou aberto a noite toda, sem
cobrar nada, para dar aos visitantes um lugar para descansar.
Com Bob Hope fazendo as vezes de mestre de cerimônias do
desfile, a multidão que chegava era dez vezes maior do que a
população normal da cidade de sete mil habitantes. A Banda
Marcial da Universidade Purdue se incumbia da música. A
pequena cidade estava totalmente tomada por bandeirolas
vermelhas, brancas e azuis. As ruas ao longo do percurso do
desfile foram rebatizadas em honra de seu filho favorito — “Lift-
Off Lane” (Pista de Decolagem), “Apollo Drive”, “Boulevard
Eagle” — na tradição da “Neil Armstrong Drive”, endereço da
residência dos pais de Armstrong. A sede do centro, dirigida por
Charles Brading Jr., filho do patrão de Neil quando ele era bem
jovem, recebeu os visitantes (e cerca de 350 jornalistas
credenciados) na “base da Tranquilidade”. Chefiando o comitê de
recepção VIP de Neil Armstrong estava Fred Fisher, seu amigo
de infância. O governador James Rhodes anunciou — embora
Neil ainda não tivesse sido consultado — que o estado de Ohio
estaria levando adiante o projeto do Museu Neil Armstrong em
Wapakoneta.
Neil levou tudo com muito bom humor, repetindo, satisfeito, o
que tinha dito em sua visita de 1966: “Tenho orgulho de estar
diante de vocês hoje e de me considerar um de vocês.” Então, para deleite de sua plateia majoritariamente natural de Ohio, ele
acrescentou que, embora os noticiários indicassem que ele e
Buzz não tinham encontrado nada de “orgânico” na superfície
lunar, “acho que agora vocês sabem muito bem. Havia uma
castanheira* na Lua”.
De Wapakoneta, Neil e Janet voaram para Washington,
deixando os meninos com os avós. Na segunda-feira 9 de
setembro, eles compareceram à Festa do Mergulho da Apollo 11
oferecida pela NASA no Hotel Shoreham, que foi precedida pelo
lançamento formal, realizado no Departamento de Correios dos
Estados Unidos, do selo comemorativo do pouso na Lua, de dez
centavos, que Neil e Buzz carimbaram depois de voltarem à
Columbia em 22 de julho. Na semana seguinte, os Armstrongs
retornaram a Washington, onde a tripulação da Apollo 11 seria
homenageada em uma sessão conjunta diurna do Congresso.
Exatamente ao meio-dia, os astronautas foram conduzidos por
uma delegação bipartidária até a tribuna do orador. Na sequência
da longa ovação de pé, Armstrong se aproximou do microfone e
dirigiu-se à assembleia, dizendo que todo o empreendimento
tinha começado naqueles salões, com a Lei Espacial de 1958.
Neil então apresentou Buzz e depois Mike aos parlamentares.
Depois de suas falas, ele subiu ao pódio e reiterou o fato de que
viajaram em missão pacífica para toda a humanidade. E concluiu:
“Levamos na Apollo 11 duas bandeiras desta nação que
tinham sido hasteadas neste Congresso, uma sobre a Câmara
dos Representantes, outra sobre o Senado. É nosso privilégio
devolvê-las agora a estes salões que exemplificam o propósito
mais elevado do homem: servir ao próximo.
“Agradecemos a vocês em nome de todos os homens da
Apollo, por nos dar o privilégio de estarmos juntos para servir —
para toda a humanidade.”
Com estrondosos aplausos, o Congresso dos Estados Unidos
parecia disposto a votar em prol de um forte apoio ao futuro do
programa espacial. Não foi o que aconteceu. Logo após os
discursos, foi realizada uma sessão de fotos com o trio. Em
seguida, as esposas e os filhos dos parlamentares aguardavam a
narração dos astronautas da Apollo 11. Aldrin lembra: “Ninguém havia mencionado isso a nenhum de nós. Minha reação foi
atenuada pela euforia do momento, mas tanto Mike quanto Neil
ficaram furiosos, e com razão.” Buzz recorda: “Criamos um caso”
com a sede da NASA por deixar que a sessão durasse mais de
duas horas.
A reunião no Departamento de Estado da manhã seguinte
forneceu os primeiros detalhes sobre a iminente turnê mundial na
qual os astronautas visitariam no mínimo 23 países em 45 dias. A
logística das viagens a bordo do Força Aérea 2 seria
administrada por uma “equipe de apoio” de seis funcionários de
relações públicas da agência espacial, um representante da
Casa Branca, dois homens da Agência de Informações dos
Estados Unidos, duas secretárias, um médico, um encarregado
de bagagens, dois agentes de segurança em tempo integral, um
cinegrafista e mais quatro homens da Voz da América.
Os astronautas deixaram claro seu objetivo de “demonstrar
boa vontade a todas as pessoas no mundo e enfatizar que o que
fizemos foi para toda a humanidade” e estava acima da agenda
do Departamento de Estado e da NASA, que os levava a “visitar
as embaixadas americanas ansiosas para marcar pontos junto à
sociedade”. “Tomaríamos conta dos americanos nos Estados
Unidos”, disseram eles na reunião. A turnê, chamada “Grande
Salto”, pretendia dar “a volta ao mundo para reiterar a disposição
dos Estados Unidos de compartilhar seu conhecimento espacial”.
A viagem teria como ponto de partida Houston, em 29 de
setembro, e seguiria para a Cidade do México, Bogotá, Buenos
Aires, Rio de Janeiro, ilha Grã Canária, Madri, Paris, Amsterdã,
Bruxelas, Oslo, Colônia, Berlim, Londres, Roma, Belgrado,
Ancara, Kinshasa (Congo), Teerã, Bombaim, Dacca, Bangkok,
Darwin (Austrália), Sydney, Guam, Seul, Tóquio, Honolulu e
voltaria a Houston. Neil não fez um diário da viagem, como fizera
George Low na turnê latino-americana de três anos antes, mas
gravou um relato de viagem.
Em 8 de outubro, em Paris, Neil relatou: “Um representante do
Aeroclube da França nos conferiu sua medalha de ouro, que fora
dada somente aos irmãos Wright e a Charles Lindbergh, dos
Estados Unidos, e a nenhuma outra tripulação de voos espaciais. Respondi com algumas observações relacionadas a recordações
de quando Charles Lindbergh recebeu a medalha.”
Janet, que teve uma “viagem maravilhosa” representando seu
país, tem uma lembrança particularmente distinta da visita à
Bélgica e à Holanda, onde conheceu dois reis e duas rainhas em
um só dia: “Aquilo foi realmente demais. Almoçamos com um e
jantamos com o outro. Disseram-nos que você nunca deveria dar
as costas a um rei ou a uma rainha. Bem, na Bélgica, Mike
Collins ficou em uma situação em que o rei estava à frente dele e
a rainha atrás, então ele teve de subir de lado uns 25 ou trinta
degraus no palácio. Ele fez aquilo muito bem. Nós todos fizemos
piada disso depois.” No caminho de volta ao hotel, Collins disse:
“Acho que quebrei a droga do tornozelo!”
As pessoas que compareceram a uma “típica coletiva de
imprensa” — como aconteceu em Colônia e Bonn, na Alemanha,
em 12 de outubro — chegavam a “mil ou mais de mil pessoas”.
No dia seguinte, em Berlim, reuniu-se “uma multidão enorme,
estimada entre duzentas e trezentas mil pessoas, mas acho que
eram provavelmente quase um milhão. Subimos as escadas para
uma recepção monumental”. Em 14 de outubro, em Londres, Neil
observou: “Tivemos que cancelar nossa participação em dois
programas de TV, com a BBC e uma rede independente, e
fizemos apenas a coletiva de imprensa na televisão. Tudo por
causa de resfriados e laringites. Todos as reportagens [foram
feitas] com nossos olhos irritados e dor de garganta.” Em Bogotá,
o dr. Carpentier prescreveu um ansiolítico para Buzz. Certa noite,
na Noruega, Buzz estava tão deprimido que passou a noite toda
no quarto enquanto todos os demais, incluindo sua esposa,
saíram para jantar. Buzz escreveu que essa foi a única noite da
viagem em que ele bebeu demais, mas o problema para ele era
que “havia bebida em todos os lugares”, “garrafas de uísque ou
gim em todos os quartos de hotel, uma jarra de champanhe com
suco de laranja na bandeja do café da manhã todos os dias”. Em
Roma, ele compareceu a “uma festa elegante no estilo de La
Dolce Vita na casa de Gina Lollobrigida”, sem a esposa. Voltou
ao quarto de hotel depois do amanhecer e ficou “de castigo” pelo
resto do dia. No Irã, o casal teve “uma das brigas mais memoráveis” de seu casamento. Buzz lembra: “Ela me disse que
ou eu passava a ficar mais tempo em casa ou ela começaria a
planejar minha mudança.”
Tanto Collins quanto Armstrong sabiam que alguma coisa
séria estava incomodando o companheiro de tripulação. “A
viagem provocou sintomas perturbadores em Buzz”, escreveu
Mike, “fazendo com que ele ficasse em um silêncio impassível de
vez em quando”, o que resultou em “estresse evidente” para
Joan. Neil lembrou-se de diferentes indícios de um princípio de
depressão, mas “não tive percepção suficiente para reconhecer o
problema. Isso me incomodou na época e incomoda agora; o fato
de eu não estar cumprindo a minha função. Eu pensava comigo
mesmo: se eu fosse mais observador ou mais atento, talvez
tivesse percebido algo que pudesse ter ajudado Buzz naquela
situação, mas não consegui fazer isso. Foi algum tempo depois
da turnê que ele começou a ter problemas sérios”.
Não se sabe se a depressão de Buzz foi decorrente de como
ele se sentia em relação ao fato de Neil ser considerado o
primeiro homem na Lua, mas sem dúvida a situação ainda o
irritava — e a seu pai. Poucas semanas antes, na cerimônia de
lançamento do selo de dez centavos comemorativo da Apollo 11,
realizada no prédio dos Correios em Washington, Buzz sentira-se
diminuído ao ver que o selo, que mostrava Neil pisando na
superfície lunar, trazia a legenda “Primeiro Homem na Lua”.
Aldrin recordou em sua autobiografia: “Deus sabe o que os levou
a colocarem essa legenda, mas aquilo me fez sentir bem inútil e,
com certeza, enfureceu meu pai (…) ‘Homens’ teria sido mais
justo, e devo confessar que fiquei magoado.”
Janet Armstrong acha que o fato de Neil ter feito a maior parte
dos brindes e realizado um trabalho tão excepcional como porta-
voz da tripulação agravou em Buzz o sentimento de injustiça.
“Era difícil acompanhar Neil — ele sempre se saía muito bem.
Buzz precisava fazer anotações, e isso o incomodava. Ele não
parecia tão à vontade ao falar, como Neil e Mike. Neil também
não se sentia à vontade discursando, mas discursava, e muito
bem.” A turnê seguiu de Teerã, onde os astronautas visitaram o xá do Irã, para Tóquio, onde foram recebidos pelo imperador
Hirohito.
Assim terminou a Grande Salto, a turnê mundial de 45 dias
dos astronautas. Depois de uma parada para abastecer em
Anchorage, no Alasca, o Força Aérea 2 voou diretamente para a
capital americana. Pouco antes de pousar no aeroporto Dulles,
cada astronauta recebeu um memorando que fazia uma paródia
dos protocolos nacionais:
Sua próxima parada será em Washington, DC, Estados Unidos. Aqui vão alguns
lembretes úteis. 1. A água é potável, embora não seja a bebida mais popular da
cidade. 2. Esteja sempre preparado para manifestações estudantis. 3. Nunca dê
as costas ao presidente. 4. Nunca seja visto com o vice-presidente. 5. Se você
deixar os sapatos do lado de fora, eles serão roubados. 6. Não é seguro andar na
rua depois do anoitecer. 7. Não discuta os seguintes assuntos delicados com os
nativos: Guerra do Vietnã, Orçamento, Ajuda Internacional, Importação-
Exportação. 8. A taxa de câmbio é de 5 centavos por dólar (americano).
No gramado da Casa Branca, com a banda da Marinha
tocando, o presidente Nixon e a primeira-dama deram as boas-
vindas aos astronautas. Naquela noite, os astronautas e as
esposas jantaram e dormiram na Casa Branca. “O presidente foi
muito simpático”, lembra Neil. “Ele estava muito interessado em
tudo o que tínhamos para contar sobre a turnê, sobre os vários
líderes que conhecemos, a reação deles e o que disseram. Havia
anos que ele tentava conseguir uma reunião com o presidente da
Romênia, Nicolae Ceausescu e, depois de deixar o Hornet,
conseguiu marcar um encontro. O presidente Nixon disse algo
nesse sentido: ‘Só aquela reunião pagou por tudo o que
gastamos no programa espacial.’”
Durante o jantar, Nixon perguntou o que cada um dos três
homens queria fazer em seguida. Collins disse que gostaria de
continuar realizando o trabalho humanitário para o Departamento
de Estado, e Nixon, bem na mesa, telefonou na mesma hora
para o Secretário de Estado, William Rogers, pedindo-lhe que se
encontrasse com Mike. Aldrin disse ao presidente que achava
que poderia contribuir mais permanecendo no trabalho técnico.
Quando Nixon então perguntou ao comandante da Apollo 11 se
ele não gostaria de servir em algum lugar como embaixador da boa vontade, Neil, educadamente, respondeu que se sentiria
honrado em servir como embaixador, mas que não tinha certeza
de que função poderia desempenhar melhor. Nixon pediu-lhe que
pensasse e desse uma resposta pessoal.
Durante a turnê Grande Salto, estima-se que entre cem
milhões e 150 milhões de pessoas tenham visto os astronautas,
e até 25 mil apertaram as mãos deles ou receberam autógrafos.
Assim que a viagem acabou, Armstrong sem dúvida sentiu que
tinha valido à pena. Falando para uma plateia na Universidade
Wittenberg, em Ohio, em novembro de 1969, ele disse: “Mais se
consegue com a amizade do que com o conhecimento técnico”,
um reconhecimento e tanto vindo do dedicado engenheiro
aeronáutico.
* * *
Armstrong aderiu logo a seguir à turnê de Natal de 1969 da USO
(United Service Organizations), com Bob Hope, para entreter as
tropas americanas e aliadas no Vietnã, com paradas ao longo do
caminho na Alemanha, Itália, Turquia, Taiwan e Guam. As atrizes
Teresa Graves, Romy Schneider, Connie Stevens, a Miss
Universo 1969, o grupo feminino Golddiggers e Les Brown e sua
banda completavam o elenco. Sob a tutela de Hope, Armstrong,
vestido com uma calça chino, camisa esporte vermelha e chapéu
de explorador, fez o papel do cara sério:
Hope: Seu passo na Lua foi o segundo mais perigoso do ano.
Neil: Quem deu o mais perigoso?
Hope: A garota que se casou com Tiny Tim. [Tiny Tim era um
ukulelista cabeludo de voz muito aguda que havia se
tornado um ícone pop.]
No meio de um show no Vietnã, um soldado perguntou:
“Você acha possível que algum dia os seres humanos vivam
na Lua?”
“Sim, acho que viverão. Veremos uma base científica tripulada
ser construída na Lua. Será uma estação científica operada por
uma tripulação internacional, muito parecida com a estação
antártica. Mas há uma questão muito mais importante do que a
possibilidade de viver na Lua. Devemos nos perguntar se os
homens conseguirão viver juntos aqui na Terra.”
Armstrong tinha uma mensagem séria para os soldados:
“Tentei aproveitar o momento para fazer com que os soldados no
Vietnã pensassem em continuar seus estudos quando voltassem
para casa. Tentei argumentar que, no mundo de hoje, esse seria
um bom momento para fazerem isso — vários deles — antes de
assumirem muitos outros compromissos.”
A turnê de Natal de 1969 foi poupada de “qualquer fogo
[inimigo] ou até mesmo qualquer explosão a distância. Alguns
lugares eram relativamente próximos das zonas de combate,
mas não me lembro de nenhuma ação”. Em Lai Khê, a trupe se
apresentou para a 1a Divisão de Infantaria dos Estados Unidos,
que vira alguns dos combates mais violentos da guerra até então.
Os soldados estavam tão cansados da guerra que, quando Hope
reiterou as garantias pessoais do presidente Nixon sobre um
plano de paz, as vaias não foram poucas, um precedente
assustador para Bob Hope, que fazia shows para a USO desde a
Segunda Guerra Mundial.
Pela primeira vez, Neil enfrentou a publicidade de escândalos.
Surgiram histórias nas colunas de fofocas sobre um envolvimento
romântico entre ele e a atriz Connie Stevens e que depois do
retorno ele fora visto na plateia do show dela em Las Vegas. A
verdade era que a cantora e atriz e o astronauta não fizeram
nada além de jogar cartas para passar o tempo durante a turnê.
* * *
Em maio de 1970, Armstrong viajou para a União Soviética e se
tornou o segundo astronauta americano a fazer uma visita oficial
ao país. “Fui convidado para fazer uma palestra na 13a
conferência anual do Comitê Internacional de Pesquisas Espaciais.” Em 24 de maio, ele chegou ao aeroporto de
Leningrado em um voo vindo de Varsóvia. Um tapete vermelho o
aguardava, mas não havia multidões, já que o governo soviético
não tinha divulgado sua chegada. No papel de anfitriões estavam
Georgy T. Beregovoy e Konstantin P. Feoktistov, os cosmonautas
que fizeram uma visita de boa vontade aos Estados Unidos dois
meses depois da Apollo 11. Neil foi muito bem recebido pelo
público predominantemente russo e viu-se cercado de cientistas
em busca de um autógrafo. Depois de cinco dias em Leningrado,
Neil foi autorizado a visitar Moscou. No Kremlin, ele reuniu-se
com o primeiro-ministro Aleksei N. Kosygin durante uma hora.
Em nome do presidente Nixon, Neil deu-lhe de presente algumas
lascas de rocha lunar e uma pequena bandeira soviética que
havia sido levada a bordo da Apollo 11. Na manhã seguinte,
Kosygin enviou para ele algumas garrafas de vodca e conhaque.
O grande projetista de aviões Andrei N. Tupolev e seu filho
Adrian “levaram-me até o hangar do aeródromo onde eles tinham
seu supersônico TU-144 — o ‘impressionante’ sósia do
Concorde. Ao que tudo indica, fui o primeiro ocidental a ver o
avião. Os Tupolevs me deram um modelo do TU-144 assinado
por Andrei. Quando retornei, doei-o ao Instituto Smithsoniano”.
Armstrong encontrou-se com vários outros astronautas
soviéticos. Em uma floresta isolada nas imediações de Moscou,
ele passou um dia no Centro de Treinamento de Cosmonautas,
que fazia parte do complexo espacial de Zvezdyny Gorodok
(Cidade das Estrelas), versão russa do Centro de Espaçonaves
Tripuladas de Houston. Sua anfitriã foi Valentina Tereshkova, a
primeira mulher a ir ao espaço, que ele achou encantadora. Neil
percorreu as instalações de treinamento, simuladores e modelos
em tamanho real de espaçonaves, “que me impressionaram por
sua funcionalidade, mas com uma natureza um tanto vitoriana”.
Tereshkova levou-o também ao escritório do falecido Yuri
Gagarin, cujos objetos pessoais foram preservados como em um
santuário do primeiro homem a viajar ao espaço. Muitos
cosmonautas compareceram à palestra de Neil. Depois disso,
“eles trouxeram duas senhoras — a sra. Gagarin e a sra. Vladimir
Komarov. Como tínhamos deixado na superfície lunar medalhões em homenagem a seus maridos, o encontro foi uma pequena
cerimônia bastante comovente”. Neil disse à imprensa soviética
que tinha ficado “bastante comovido” no encontro com as viúvas.
“Naquela noite, os cosmonautas me convidaram para um
jantar. Houve muitos brindes (…) Eles me presentearam com
uma espingarda muito bonita, com meu nome inscrito na coronha
— uma calibre doze de dois canos paralelos que o governo dos
Estados Unidos permitiu que ficasse comigo.
“Depois do jantar, por volta da meia-noite, Georgy Beregovoy,
meu anfitrião, convidou-me para um café em seu apartamento.
Em determinado momento, Georgy falou rápido ao telefone,
depois recebeu uma ligação, foi até o aparelho de televisão e
ligou-o. Era o lançamento da Soyuz IX. Não era ao vivo, mas
uma gravação do lançamento que tinha ocorrido mais cedo
naquele dia em Baikonur. E os tripulantes eram Andrian G.
Nikolayev, marido de Valentina, e Vitaly I. Sevastyanov. Então eu
tinha passado o dia inteiro com Tereshkova e a noite com os
colegas dos dois cosmonautas, e ninguém comentou, em
momento algum, que haveria um lançamento naquele dia.
Concluí que Valentina era muito boa em guardar segredos ou
estava terrivelmente mal informada.”
O lançamento correu bem, ou Neil nunca o teria visto.
Trouxeram vodca para um brinde. Bergovoy abriu um sorriso
largo quando disse a Armstrong: “Este lançamento foi em sua
homenagem!”
* * *
De julho de 1969 a junho de 1970, Armstrong viajou na Terra os
oitocentos mil quilômetros de ida e volta à Lua e mais cerca de
160 mil quilômetros. Ele teria ficado contente se continuasse a
voar, como membro ativo do corpo de astronautas, mas seus
superiores em Washington tinham outros planos para o grande
herói americano, que não o submetessem aos riscos de uma
nova missão espacial.
* “Buckeye”, no original. Espécie de castanheira muito comum no estado de Ohio, cujo famoso cognome é “The Buckeye State”. (N. do T.)