O Primeiro Homem na Lua

James R. Hansen · Capítulo 5 de 42

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O Primeiro Homem na Lua

Capítulo 2: Smallville

CAPÍTULO 2

 

Smallville

 

Dez dias depois do nascimento de Neil, Viola deixou a cama para

cuidar do bebê. O médico não permitiu que ela fosse ao funeral

de Willis, seu sogro, mas, com Stephen em casa, ela programou

o batismo de Neil pelo reverendo Burkett, o ministro que os tinha

casado. O trabalho de Stephen determinou uma transferência

imediata para Warren, Ohio, onde ele seria assistente de um

examinador sênior. A família Armstrong faria dezesseis

mudanças nos quatorze anos seguintes, em uma odisseia em

Ohio que terminaria em Wapakoneta, em 1944.

Viola achava que Neil era um menino tranquilo e sem

problemas, com uma tendência à timidez. Lia sempre para ele,

instilando na criança seu amor pelos livros. O menino começou a

ler extraordinariamente cedo, e aos três anos já era capaz de ler

placas de trânsito. Durante o primeiro ano do ensino

fundamental, em Warren, Neil leu mais de cem livros. Embora

tenha começado o segundo ano na escola rural pública de

Moulton e concluído em St. Marys, seu professor encontrou-o

lendo livros próprios para alunos do quarto ano. Assim, no outono

seguinte, aos oito anos, ele iniciou o quarto ano depois de pular o

terceiro. Ainda assim, tirava as melhores notas. Para onde quer

que a família fosse, Neil se adaptava bem e fazia amigos com

facilidade. Nenhuma criança era companhia mais constante para

Neil do que os dois irmãos mais novos. Em 6 de julho de 1933,

quando Neil tinha quase três anos, nasceu a menina June

Louise. Em 22 de fevereiro de 1935, chegou Dean Alan.

Embora se sentissem sempre amados e acarinhados pelos

pais, June e Dean percebiam que o mais velho era o preferido da

mãe. “Quando chegava a época de plantar batatas na fazenda de nossos avós, ninguém conseguia encontrar Neil. Ele estava em

um canto da casa, lendo um livro”, lembra June. “Ele nunca fazia

nada errado. Se um dia existiu alguém certinho, era ele. Era seu

jeito de ser.”

Como acontece com os irmãos mais velhos, diz June, Neil “era

sem dúvida um cuidador”. Com o irmão Dean, cinco anos mais

novo, as relações eram mais difíceis: “Nunca invadi o espaço de

Neil. Era preciso ser convidado.” Embora os dois irmãos

estivessem no mesmo grupo de escoteiros, Neil superava Dean

nas insígnias que ganhava e socializava com seus colegas de

escola mais velhos. Os dois adoravam música, mas Dean

gostava de esportes competitivos e jogava no time de basquete

da escola. Neil, como a mãe, “era apaixonado por aprender”,

enquanto Dean se parecia mais com o pai, “uma pessoa que

gosta de se divertir”.

A incomum combinação de serenidade, comedimento e

sinceridade podia ser interpretada como impenetrável. Mas aos

olhos da mãe não era nada disso. “Ele é autêntico”, disse Viola

em uma entrevista a Dodie Hamblin, da revista Life, no verão de

1969. “Ele tem que ser honesto e correto, caso contrário não

acha que pode se comprometer. Nunca o ouvi falar mal de

ninguém, nunca.” Neil sempre foi especialmente reservado ao

falar do pai: “O trabalho de meu pai exigia que ele ficasse a maior

parte do tempo fora de casa, por isso não penso nele como muito

chegado a nenhum dos filhos e não noto que seja mais próximo

de um que dos outros.” Quando perguntaram a June se Neil e o

pai eram íntimos, ela disse: “Não…” Mamãe abraçava os filhos,

mas papai, não. “Provavelmente, Neil nunca recebeu um abraço

do pai, nem o abraçou.”

Quando escrevia para casa, já na faculdade, Neil destinava as

correspondências à “sra. S. K. Armstrong”. Suas cartas

começavam com “Querida mamãe e família”. Em 1943, a mãe de

Stephen, Laura, quebrou o tornozelo. Stephen e Viola levaram-na

para a casa deles, onde ela morou até a morte, em 1956. Esse

fato, bem como as diferenças entre Viola e Stephen referentes a

questões como religião e sobriedade, trouxe tensões ao

casamento.

Curiosamente, em entrevistas concedidas ao autor deste livro,

Neil não lembrava que a avó Laura Armstrong tinha morado com

eles quando ele estava no ensino médio. “Vovó Armstrong só

veio morar conosco depois que fui para Purdue”, contou. Mas

estava enganado. Ela havia morado com eles durante todo o

tempo em que Neil cursou o ensino médio. O fato de não se

lembrar da avó em sua casa — durante treze anos! — não atesta

uma tendência geral ao esquecimento da parte de Neil, mas sim

sua capacidade de concentração, mesmo como um estudante do

ensino médio, nos aspectos da vida que lhe interessavam mais

no dia a dia — os amigos, os livros e os estudos, os escoteiros,

os empregos de meio período e, com mais fervor, como veremos,

a paixão por aviões e por voar. Neil era capaz de desligar, lembra

sua irmã June. “Ele lia muito quando era criança, e essa era sua

fuga. Não que fugisse de algo: ele fugia para algo, para um

mundo de imaginação. Quando criança, ele era seguro o

bastante para arriscar-se a fugir, porque sabia que, ao voltar,

estaria em um bom lugar.”

 

* * *

 

Para Neil Armstrong, a zona rural de Ohio representava conforto,

segurança, privacidade e valores humanos saudáveis. Ao deixar

a NASA, em 1971, Armstrong buscaria voltar ao que lhe era

familiar em uma pequena propriedade rural em seu estado natal.

“Escolhi criar minha família em um ambiente o mais normal

possível”, ele explicaria.

A visão realista de Armstrong estava enraizada em sua

infância. Durante aqueles anos, o cartunista Jerry Siegel

imaginou um herói chamado Super-Homem originário de

“Smallville”, uma cidade no centro dos Estados Unidos, que

promovia a “verdade, a justiça e o modo de vida americano”.

Não foi Smallville, mas outras cidadezinhas que deram abrigo

a Neil Armstrong. Nas décadas de 1930 e 1940, nenhuma delas

registrava muito mais que cinco mil habitantes. Nessas Smallvilles reais, os jovens — com o apoio da família e da

comunidade — cresciam cheios de ambição.

Além de Neil Armstrong, essa mentalidade marcou todos os

sete astronautas da Mercury original: Alan B. Shepard Jr., de

East Derry, New Hampshire; Virgil I. “Gus” Grissom, de Mitchell,

Indiana; John H. Glenn Jr., de New Concord, Ohio; Walter M.

Schirra Jr., de Oradell, Nova Jersey; L. Gordon Cooper Jr., de

Shawnee, Oklahoma; e Donald K. “Deke” Slayton, de Sparta,

Wisconsin. Durante a juventude de M. Scott Carpenter, sua

cidade natal, Boulder, Colorado, tinha apenas dez mil habitantes.

Na opinião dos Original Seven, “os eleitos” foram escolhidos

por sua formação comum. John Glenn, o primeiro astronauta

americano a entrar em órbita, concorda: “Ser criado em uma

cidade pequena dá às crianças alguma coisa especial.” As

crianças “tomam as próprias decisões”, e “talvez não tenha sido

por acaso que, dentre os integrantes do programa espacial,

muitos deles proviessem de cidades pequenas”. Durante a maior

parte da história do programa espacial americano, Ohio forneceu

um número de astronautas maior que de qualquer outro estado.

“As cidades pequenas, como aquelas em que fui criado,

demoraram a sair da Depressão”, lembra Neil. “Não passávamos

necessidades [o salário de Stephen Armstrong era um pouco

superior à média nacional de 2 mil dólares anuais em 1930], mas

o dinheiro não sobrava. Em situação nem melhor nem pior

estavam milhares de outras famílias.” Para alguns amigos de

Neil, o fato de o pai dele ter um emprego significava que os

Armstrongs eram ricos.

Neil teve seu primeiro emprego em 1940, aos dez anos —

quando pesava pouco mais de trinta quilos. Por 10 centavos a

hora, ele cortava grama em um cemitério. Mais tarde, na Padaria

Neumeister, na cidade de Upper Sandusky, ele empilhava

pãezinhos e ajudava a fazer 110 dúzias de bolinhos por noite.

Também raspava a batedeira gigante para limpá-la: “Consegui o

trabalho provavelmente por ser pequeno; eu podia me arrastar

para dentro das cubas durante a noite e limpá-las. A vantagem

adicional era poder comer o sorvete e os chocolates caseiros.”

Quando a família se mudou para Wapakoneta, em 1944, Neil

trabalhou como funcionário administrativo de uma mercearia e de

uma loja de materiais de construção. Mais tarde, passou a fazer

entregas para uma farmácia por 40 centavos a hora. Seus pais

deixavam que ele ficasse com o dinheiro, mas esperavam que

ele poupasse boa parte para a faculdade. Dos 294 indivíduos

selecionados como astronautas entre 1959 e 2003, mais de

duzentos — entre eles 21 mulheres — tinham sido escoteiros.

Quarenta dos escoteiros que se tornaram astronautas tinham

alcançado o nível Águia, o mais alto da organização. Dos doze

homens que pisaram na Lua, onze tinham sido escoteiros, entre

eles Neil e seu companheiro de tripulação na Apollo 11 Buzz

Aldrin.

Quando a família se mudou para Upper Sandusky em 1941, a

cidade com cerca de três mil habitantes ainda não tinha um

grupo de escoteiros. O ataque japonês a Pearl Harbor, em 7 de

dezembro de 1941 — notícia que Neil ouviu depois que o pai o

chamou para dentro de casa enquanto o garoto brincava no

jardim —, mudou tudo. No dia seguinte, quando o Congresso

americano declarou guerra, os escoteiros americanos puseram

todos os seus recursos a serviço do governo. Como Neil recorda,

as notícias da guerra “estavam por todo lado o tempo todo, no

jornal, no rádio. E, claro, havia uma porção de estrelas nas

janelas das famílias que tinham filhos em combate”. Um novo

grupo, a Tropa 25 de Ohio, dirigido por um pastor protestante,

passou a se reunir mensalmente. O grupo de Neil se

autodenominou Patrulha do Lobo e elegeu Bud Blackford como

líder, Kotcho Solacoff como seu assistente e Neil como escrivão.

A Tropa 25 e a Patrulha do Lobo de Neil tornaram-se, nas

palavras dele, “imersas no ambiente de guerra”. Reconhecimento

de aeronaves era uma habilidade de escoteiro em que Neil se

encaixava perfeitamente. Ele e seus amigos construíram

modelos que o líder dos escoteiros enviou às autoridades civis e

militares da defesa para que especialistas pudessem distinguir

melhor aeronaves amigas de inimigas. Quando o pastor foi

embora, Ed Naus, “em nada um disciplinador”, assumiu, assistido

pelo pai de Neil. Na Patrulha do Lobo, Neil, Bud e Kotcho fizeram uma dessas indeléveis amizades de adolescentes estimuladas

por uma rivalidade saudável. Kotcho recorda uma brincadeira no

laboratório de química: “Eu disse: ‘Aqui, Neil, experimente um

pouco de C H O .’ Para minha surpresa e horror, Neil pegou 12 22 11

uma boa pitada e pôs aquilo na boca. Gritei: ‘Cuspa já, isso é

veneno!’ Neil disse: ‘C H O é açúcar.’ Eu disse: ‘Eu sei, mas 12 22 11

não sabia que você sabia.’ Foi a última vez que dei por certo que

sabia alguma coisa que ele não sabia.”

Ao longo dos anos, Wapakoneta foi sendo identificada cada

vez mais como a terra de Neil Armstrong, mas são de seus três

anos em Upper Sandusky que Neil se lembra com mais carinho.

Contudo, por mais que todos gostassem de sua residência entre

1941 e 1944 (dos onze aos quatorze anos de Neil) na North

Sandusky Avenue, 446, a situação obrigou a família a realizar

uma última mudança, para “Wapak”. A principal razão para isso,

segundo Neil, era que seu pai, embora com 36 anos, “achava

que podia ser convocado”. Wapakoneta, uns oitenta quilômetros

ao sul de Upper, deixava Stephen mais distante do trabalho, mas,

explica Neil, “mamãe tinha parentes na vizinhança”, e se o

marido fosse chamado para o serviço militar ela e sua família

teriam apoio.

Os Armstrongs compraram um casarão de esquina com dois

andares, na West Benton Street, 601. Como sempre, Neil não

teve problema para se adaptar ao novo ambiente e logo se

tornou ativo na Tropa 14 dos escoteiros. A Blume High School

ficava a seis quadras de sua casa. Seu histórico escolar mostra

que suas melhores notas eram em matemática, ciências e inglês.

Ao contrário de alguns relatos que interpretam erroneamente o

sistema de avaliação da Blume High School, ele nunca teve

notas baixas.

Sempre voltado para a música, Neil entrou para a orquestra da

escola, assim como para o coral de meninos e para a banda.

Apesar de pequeno, ele tocava um dos maiores instrumentos, o

bombardino, porque gostava de seu som peculiar — que não

agradava a muitos. Em umas poucas noites de sexta-feira ou

sábado, o conjunto de ragtime integrado por ele, no bombardino,

e outros três adolescentes de Wapak — os Mississippi Moonshiners — tinha a sorte de ganhar 5 dólares para dividir

entre os quatro.

No ensino médio, Neil entrou para a Hi-Y, uma organização

estudantil, trabalhou na equipe do livro anual e atuou na peça do

penúltimo ano. Eleito para o grêmio estudantil nos dois últimos

anos, foi vice-presidente no terceiro ano. Os colegas de escola

lembram-se dele não como tímido, mas, em grande parte, como

tranquilo. Neil saiu com poucas garotas no ensino médio, mas foi

ao baile de formatura. Para a ocasião, o pai emprestou-lhe o

Oldsmobile da família tinindo de novo. “Saímos em um encontro

duplo com Dudley Schuler e a namorada, Patty Cole”, lembra-se

a garota que saiu com Neil, Alma Lou Shaw Kuffner.

“Infelizmente, lá pelas três da manhã, quando voltávamos de

Indian Lake, Neil adormeceu ao volante e caiu em uma vala. Um

homem que estava indo para o trabalho precisou nos rebocar. Na

manhã seguinte, o pai de Neil descobriu que toda a lateral do

carro tinha sido arranhada.”

Em maio de 1946, Neil, com apenas dezesseis anos, graduou-

se pela Blume High School. Entre seus 78 colegas, suas notas

ocuparam o 11 o lugar na turma. A legenda da foto da última

turma de Armstrong no livro do ano de 1946–47 dizia: “Ele pensa,

ele age, está feito.” Mais tarde, seus muitos outros sucessos no

controle de veículos em movimento recuperariam a reputação

maculada que ele adquiriu ao volante do Oldsmobile do pai.