O Primeiro Homem na Lua
Capítulo 9: A pior perda
CAPÍTULO 9
A pior perda
No fim do primeiro semestre de 1961, a família Armstrong passou
um período em Seattle porque Neil estava trabalhando na
Boeing. A empresa fora incumbida da execução do Dyna-Soar,
um programa conjunto da NASA e da Força Aérea que pretendia
desenvolver um veículo hipersônico tripulado de reentrada
planada chamado X-20, cujos defensores achavam que superaria
a cápsula balística do Programa Mercury no espaço. O voo
suborbital de Alan Shepard poucas semanas antes, em 5 de
maio de 1961, pôs fim a esse sonho, embora o programa Dyna-
Solar tenha sobrevivido. Em Seattle, a visita ao parque público no
lago Washington tornou-se um passeio habitual de fim de
semana para a família Armstrong. Com quase quatro anos, Ricky
gostava do balanço, assim como Karen, de dois.
No dia 4 de junho, a família estava de saída do parque quando
Karen tropeçou e caiu. Ficou com um galo na cabeça, sangrou
um pouco pelo nariz e naquela noite ficou estrábica. Neil e Janet
acharam que “Muffie”, como Neil chamava a filha, tivesse sofrido
uma concussão. Um pediatra de Seattle recomendou a Janet que
submetesse a menina a um exame completo na Califórnia, para
onde a família rumou no fim daquela semana. O pediatra de
Karen em Lancaster a mandou para um oftalmologista, que
orientou Janet a observar a menina em casa e retornar para uma
nova consulta na semana seguinte. A mãe de uma das alunas de
natação de Janet era enfermeira, e ficou assustada ao ver que
Karen parecia cada vez pior. Ela continuava tropeçando e estava
quase sempre estrábica. A enfermeira recomendou a Janet que
internasse Karen para uma bateria de exames mais abrangente.
Janet precisou resolver tudo, pois Neil, depois de voltar de
Seattle, tinha viajado a trabalho a Minneapolis-Honeywell. “Ele
não sabia de nada daquilo, até que finalmente telefonei e contei
que estava internando Karen.” Naquele dia, os olhos da criança
reviraram e ela já não conseguia falar direito. A menina passou
por uma série de exames no Hospital Memorial Daniel Freeman,
em Inglewood, que culminou com um encefalograma, para o qual
se submeteu a uma punção lombar e uma injeção de ar no canal
medular. O resultado do exame e as radiografias mostraram que
Karen tinha um glioma da ponte de Varólio, tumor maligno
instalado na porção média do tronco encefálico. Até hoje, o
prognóstico desse tipo de glioma é muito desfavorável: a maioria
das crianças acometidas morre até um ano depois do
diagnóstico.
“Eles começaram imediatamente a fazer um tratamento com
radiação para tentar reduzir o tamanho do tumor”, lembrou Janet.
“No processo, ela perdeu totalmente o equilíbrio. Já não podia
caminhar nem se sentar. Ela era a coisa mais doce do mundo.
Nunca, nunca reclamou.” No hospital, “eu ficava com ela 24
horas por dia, ou Neil me substituía. Ele tirou uma semana de
licença e ficamos em um hotel ali perto. Dessa forma, um de nós
ficava com Ricky, e o outro no hospital.” A primeira semana de
radioterapia foi seguida de seis semanas de tratamento
ambulatório. “Nesse período, ela aprendeu a engatinhar outra
vez e acabou reaprendendo a andar”, observou Janet. “Depois,
foi possível levá-la para casa nos fins de semana e trazê-la de
volta a Los Angeles.” Na sétima semana, o hospital submeteu
Karen ao nível máximo de radiação, de 2.300 roentgens. Durante
um mês e meio, o estado de Karen melhorou. A radiação deteve
temporariamente o tumor.
Em pouco tempo, porém, os sintomas voltaram — dificuldade
de coordenação e locomoção, estrabismo e visão dupla,
impossibilidade de falar com clareza, flacidez em metade do
rosto. De volta ao hospital em Inglewood, Neil e Janet
descobriram que só restava uma possibilidade de tratamento:
cobalto. Eles decidiram tentar essa nova terapia, que consistia
em uma aplicação profunda de raios gama no cérebro que, no entanto, matava não apenas células cancerosas, mas também
tecido saudável. Os médicos disseram que o cobalto seria a
única chance de Karen, mas também foram muito diretos: seu
corpo enfraquecido poderia não resistir. Todos concluíram que
ela seria mais feliz em casa do que novamente hospitalizada. A
família chegou a viajar para Ohio para as festas de fim de ano.
“Ela sobreviveu ao Natal”, contou Janet. “Nessa época já não
conseguia andar — engatinhava —, mas ainda foi capaz de
aproveitar a festa. Foi como se depois disso ela tivesse ido
ladeira abaixo. Ela foi derrotada.”
Nas últimas semanas de vida da filha, Neil e Janet —
principalmente ela — buscaram apoio nos amigos Joe Walker e
sua esposa, Grace. “Jan trouxe Karen aqui uma porção de
vezes”, conta Grace. “Ela se sentava naquela cadeira alta e
tentávamos fazê-la comer gelatina ou pudim. Ela queria comer,
mas logo depois vomitava.” Grace lembrou que Neil também
esteve uma vez na casa dela com Muffie: “Foi uma visita breve,
em um domingo. Neil queria mostrar a ela nossa filhinha de três
meses. Eu quis fazer alguma coisa explícita — uma imposição de
mãos, uma oração —, mas não me pareceu que Neil estivesse
propenso a aceitar. Achei que ele tinha me procurado para dar
coragem a Karen e manter uma esperança. Via-se bem como ele
amava sua menina.”
Em 28 de janeiro de 1962, Karen morreu no chalé da família
em Juniper Hills, depois de uma angustiante batalha de seis
meses contra o tumor cerebral. A semana que culminou com sua
morte deve ter sido especialmente difícil para Janet, pois Neil
estava longe, em uma viagem a trabalho. Ela faleceu no dia do
sexto aniversário de casamento dos pais. As cerimônias fúnebres
foram realizadas na quarta-feira, 31 de janeiro, e o sepultamento
ocorreu no espaço reservado para crianças no Memorial Joshua,
em Lancaster. Em homenagem à filha de Neil, o Centro de
Pesquisa de Voo cancelou todos os testes no dia de seu enterro.
Grace Walker lembrou que Neil foi muito estoico e demonstrou
pouca emoção, ao contrário de Janet, visivelmente abalada.
Grace pensou em abraçar Neil, mas se conteve: “Acho que ele sempre sentia que não era aquilo o que se devia fazer. Ele era
muito contido emocionalmente.”
Os que conheceram Armstrong bem dizem que ele nunca
tocou no assunto da doença e da morte da filha. Na verdade,
muitos de seus colegas de trabalho mais próximos alegaram
nunca ter ficado sabendo que um dia Neil tivera uma filha.
Neil voltou ao escritório em 5 de fevereiro e voou no dia
seguinte. Só tirou outra folga em meados de maio, por conta de
uma viagem que a família fez a Ohio, embora tenha havido uma
nova estada de um mês em Seattle, de 26 de fevereiro a 20 de
março, ocasião em que ele atuou outra vez como consultor no
programa Dyna-Soar. “Janet ficou muito magoada”, lembrou
Grace Walker, “por Neil ter voltado direto ao trabalho.” Janet era
“uma pessoa muito orientada e autossuficiente, mas precisava
desesperadamente da ajuda do marido. Neil usava o trabalho
como desculpa, ficando o mais distante possível das questões
emocionais. Ele a magoou muito por causa de Karen. Era o jeito
que ele tinha de lidar com a situação.” Segundo Grace, “Jan ficou
durante muito tempo com raiva: de Deus e também de Neil, eu
acho.” Sem querer entrar em discussões difíceis, “Neil deixava
Janet no limbo”.
Não há dúvida de que a morte de Karen abalou Neil
profundamente. “Foram tempos terríveis”, lembrou sua irmã
June. “Achei que o coração dele se despedaçaria. De alguma
forma, ele se sentia responsável pela morte dela, não em um
sentido físico, mas em termos de ‘será que algum gene do meu
corpo causou isso?’” June recordou um incidente significativo
ocorrido na primavera seguinte à morte de Karen, quando Neil
levou a família a Wapakoneta para umas férias breves e uma
reunião familiar: “Tinha morrido um carneirinho na fazenda de
Korspeter. Os homens foram ao estábulo para cuidar do cadáver.
Mais tarde, meu marido, Paul, disse que Neil não conseguiu
entrar no estábulo. Esperou do lado de fora enquanto os outros
cuidavam do cordeiro.” No entanto, ao voltar à Califórnia, o
intenso sentimento de tristeza não impediu que Neil visitasse
com frequência o túmulo de Muffie.
Mais tarde, nos dias em que Armstrong, como astronauta,
estava sendo mais celebrado, houve alguns momentos pessoais
curiosos que evocaram a perda de Karen. O mais extraordinário
deles ocorreu durante a visita, em outubro de 1969, da tripulação
da Apollo 11 a Londres depois do voo. Com a manchete “Menina
de dois anos recebe beijo de Neil”, a matéria de jornal começava
explicando que Neil, Buzz Aldrin e Mike Collins estavam prontos
para ir ao palácio de Buckingham para uma audiência com a
rainha Elizabeth e o príncipe Philip, “mas foi uma menina
pequena que veio ver os homens do espaço e quase foi
esmagada contra uma barreira quem conquistou o coração do
esbelto Armstrong de olhos azuis, o primeiro homem a pisar na
Lua. Um policial levantou Wendy Jane Smith, de dois anos,
quando ela estava sendo empurrada contra uma barricada diante
da embaixada dos Estados Unidos. Armstrong atraiu o olhar dela,
deu uns passos à frente e a beijou, enquanto a multidão de mais
de trezentas pessoas aplaudia”.
Teria havido uma relação fortemente pessoal — talvez
inconsciente — entre a morte de Karen, no fim de janeiro de
1962, e a decisão de Neil de se inscrever para a seleção de
astronautas, poucos meses depois? “Nunca lhe perguntei”,
confessou June. “Eu não teria condições de fazer isso.” No
entanto, estava claro para June que, ao se tornar astronauta, Neil
deu uma virada radical, pelo menos para si mesmo: “A morte de
sua filhinha o levou a querer investir suas energias em uma coisa
muito positiva, e foi quando ele entrou para o programa espacial.”