O Primeiro Homem na Lua
Capítulo 20: O primeiro a sair
CAPÍTULO 20
O primeiro a sair
Na coletiva de imprensa realizada em Houston para apresentar a
tripulação da Apollo 11, em 9 de janeiro de 1969, a pergunta
inicial foi direta: “Qual dos senhores será o primeiro homem a
pisar na superfície da Lua?” Deke Slayton respondeu: “Acho que
ainda não decidimos. Fizemos uma grande quantidade de
simulações, e acho que precisamos de ainda mais para decidir
quem vai sair antes.”
Assim, surgiu uma questão decisiva na vida de Neil
Armstrong, uma questão que provoca especulação e
controvérsias até hoje. Como exatamente a NASA decidiu qual
dos dois astronautas de dentro do módulo lunar seria o primeiro
homem a pisar na Lua?
Nos primeiros meses de 1969, não havia dúvidas de que
Aldrin achava que seria o primeiro. Como ele mesmo explicou,
“durante a curta história do programa espacial, o comandante de
voo permanecia na espaçonave enquanto seu parceiro saía.
Imaginei que eu sairia do módulo lunar e pisaria na Lua antes de
Neil”. Os principais jornais veicularam a matéria de um
correspondente cujo título dizia: “Aldrin deve ser o primeiro
homem na Lua.” Durante a missão da Apollo 9, algumas
semanas mais tarde, o dr. George E. Mueller, diretor-adjunto da
NASA para voos espaciais tripulados, disse a diversas pessoas,
inclusive jornalistas, que Aldrin seria o primeiro homem a sair da
Apollo 11.
Buzz estava confiante até ouvir boatos sobre um “desfecho”
diferente, dias após o mergulho da Apollo 9. Aldrin entreouviu no
Centro de Espaçonaves Tripuladas que fora decidido que
Armstrong seria o primeiro, e não ele. De início, ele ficou apenas intrigado com a notícia. Mas, quando soube que a NASA preferia
Neil porque era civil, em vez de alguém que ainda servia às
Forças Armadas, Buzz ficou com raiva.
Durante alguns dias, um Aldrin magoado refletiu sobre a
situação, consultando somente a esposa. Sentindo que “o
assunto era explosivo demais até para a mais sutil das
manobras”, Buzz decidiu adotar uma abordagem direta. Foi falar
com Neil.
Se esperava uma solução definitiva proposta por Armstrong,
Aldrin infelizmente estava enganado. “Neil, que pode ser bem
enigmático quando quer, se comportou exatamente como se
esperaria dele”, lembrou Buzz. “É claro que a questão estava
pesando para ele também, mas eu achava, naquele momento,
que nos conhecíamos, gostávamos um do outro e podíamos
discutir a questão com sinceridade.” Em sua autobiografia, Aldrin
diz que Neil “ficou indeciso durante mais ou menos um minuto e,
com uma frieza que eu não sabia que ele tinha, disse que a
decisão era histórica e que não queria excluir a possibilidade de
sair da espaçonave primeiro”. Aldrin, desde então, diz que no
livro o incidente foi exagerado por seu coautor. “Entendi que era
normal não ouvir nada definitivo de Neil em relação a isso, até
porque a decisão não seria dele. Sua observação sobre o
significado histórico de sair da espaçonave primeiro, que ele de
fato fez, era perfeitamente válida, e foi assim que a entendi.
Também ficou claro para mim que Neil não queria discutir a
questão. Não houve absolutamente nenhuma indicação da parte
dele dizendo: ‘Sim, acho que você está certo. Acho que devemos
pressionar para que tomem a decisão.’ Não havia nenhuma
indicação de que aquilo aconteceria.”
Aldrin tentou, em vão, acalmar sua frustração cada vez maior,
“esforçando-me o tempo todo para não sentir raiva de Neil”.
Pressionando-o muito, como sempre, estava o próprio pai de
Buzz. Em uma conversa por telefone com o pai, Buzz insinuou
que a decisão poderia ser favorável à saída de Neil em primeiro
lugar. Imediatamente, o sr. Aldrin ficou zangado e disse ao filho
que “pretendia fazer algo a respeito.” Segundo Buzz, “precisei
usar de muita persuasão, mas enfim consegui convencê-lo a prometer que ficaria fora disso”. No entanto, a promessa não foi
mantida, já que Gene Aldrin ligou para alguns amigos influentes
que tinham contatos dentro da NASA e do Pentágono.
Tentando se adiantar ao pai, Buzz procurou alguns colegas
astronautas, sobretudo aqueles que, como Alan Bean e Gene
Cernan, ele imaginava que teriam simpatia pela causa porque
estavam na mesma posição, como pilotos do módulo lunar da
Apollo 10 e da Apollo 12. Mas em vez de uma reação positiva, as
conversas privadas de Aldrin levaram à ideia generalizada de
que ele estava fazendo campanha por debaixo dos panos para
ser o primeiro a sair da espaçonave. Segundo Gene Cernan,
Buzz acabou “entrando em um frenesi” em relação a quem seria
o primeiro homem a pisar na Lua. “Um dia, ele irrompeu na
minha sala do Centro de Espaçonaves Tripuladas parecendo um
animal furioso, carregado de gráficos e estatísticas,
argumentando o que ele considerava óbvio — ele, piloto do
módulo lunar, e não Neil Armstrong, deveria ser o primeiro a
descer a escada da Apollo 11. Como eu dividia a sala com Neil,
que estava em treinamento naquele dia, achei os argumentos de
Aldrin ofensivos e ridículos. Desde que soube que a Apollo 11
tentaria o primeiro pouso na Lua, Buzz tomou essa iniciativa
peculiar de se meter na história, e encontrava em cada esquina
olhares hostis e insultos sussurrados pelos colegas astronautas.
Não sei como Neil aguentou tanta falta de noção por tanto tempo
até pedir a Buzz que parasse de fazer papel de palhaço.”
O outro tripulante da Apollo 11, Mike Collins, recordou um
incidente semelhante. “Uma vez, Buzz tentou me abordar falando
sobre a injustiça da situação”, disse Collins, “mas na mesma hora
mudei de assunto. Já tinha problemas suficientes para não me
envolver em mais um. Ainda que Buzz nunca houvesse dito
claramente, acho que a principal reclamação dele era que Neil
seria o primeiro a pôr os pés na Lua”. Aldrin insistiu que tinha
sido mal interpretado pelos colegas. “Não era que eu quisesse
ser o primeiro”, alegou Buzz, “mas achava que eles tinham que
se decidir.”
Com esses comentários pouco lisonjeiros no Centro de
Espaçonaves Tripuladas em relação ao que muitos acreditavam ser um lobby de Aldrin, Slayton tentou pôr um fim na questão. Ele
entrou na sala de Buzz, disse que provavelmente Neil seria o
primeiro, dando-lhes ao menos uma razão mais plausível para a
escolha. “Neil foi membro do segundo grupo de astronautas, o
grupo anterior ao meu”, relatou Aldrin. “Dessa forma, seria
correto que Neil desse o primeiro passo na Lua, como Colombo e
outros comandantes de navegações históricas fizeram. Se a
decisão tivesse sido outra, e o comandante ficasse lá assistindo
ao tripulante sair, chutar a poeira e colher uma amostra de
contingência, dizendo as famosas palavras e tudo o mais, a
missão teria sido muito criticada por todo tipo de gente. Teria sido
completamente inadequado.”
Aldrin afirmou não ter se incomodado pelo fato de Slayton ter
dito que seria Neil; o que o havia decepcionado foram as
consequências do desconhecimento geral. “Pessoalmente, ser
ou não o primeiro a pisar na Lua não era uma questão relevante.
Do ponto de vista técnico, a grande conquista era fazer o
primeiro pouso lunar, e nós dois estaríamos fazendo isso.” Buzz
concordou plenamente que “a aclamação e a atenção iriam para
aquele que desse o primeiro passo”, e, de acordo com o próprio
depoimento, ele estava tranquilo quanto ao fato de Neil ser o
primeiro, porque não estava interessado na aclamação popular.
No entanto, ele se ressentia porque a decisão fora protelada
diversas vezes, “até que finalmente se tornou tema de fofocas,
especulação e encontros embaraçosos” nos quais a família, os
amigos e os repórteres sempre perguntavam a ele: “Quem será o
primeiro?” Armstrong tinha uma personalidade estoica que lidava
facilmente com a ambiguidade e a incerteza. Aldrin, não.
Buzz se sentiu compelido a fazer um último pedido de
esclarecimento: “Finalmente procurei George Low, diretor do
escritório do Programa Apollo, e lhe contei o que tinha ouvido.
Falei que entendia a necessidade de uma avaliação meticulosa e
que aceitaria com satisfação o que fosse decidido. Não era um
grande problema para mim, mas seria interessante para o moral
e o treinamento que eles tomassem a decisão o mais rápido
possível.” Low garantiu que fariam isso.
Em uma coletiva de imprensa no Centro de Espaçonaves
Tripuladas em 14 de abril, George Low declarou que “o plano
indicava que o sr. Armstrong seria o primeiro homem a sair após
o pouso na Lua (...) Minutos depois, o coronel Aldrin seguiria o sr.
Armstrong e desceria as escadas”. Aldrin compreendeu da
seguinte maneira: a NASA, no fim das contas, tinha decidido a
ordem da saída dos astronautas somente com base na
arquitetura interna do módulo lunar e na posição que os dois
astronautas ocupavam dentro da cabine — um motivo
influenciado pela engenharia que parecia fazer todo sentido e
acabou satisfazendo a sensibilidade de Aldrin. Ainda de acordo
com Buzz, ele e Neil tinham conversado sobre a questão e,
juntos, “especularam” sobre como a decisão deveria ser tomada.
“Nossa conclusão”, explicou, “foi que a decisão tinha a ver com a
divisão de tarefas na superfície lunar e com nosso
posicionamento físico dentro do módulo. A menos que algo
mudasse, eu, como piloto, estaria do lado direito — posição
normal do piloto — e Neil estaria do lado esquerdo, ao lado da
abertura da escotilha. Não seria prático, na verdade seria uma
complicação a mais mudar de posição com Neil após o pouso. E
foi assim, pelo que entendo, que a decisão finalmente foi
tomada.” Aldrin alegou também que ficou satisfeito com a
situação assim que o anúncio foi feito. Já Mike Collins lembrava
de outra forma: “A atitude de Buzz voltou-se para o pessimismo e
o isolamento logo depois do anúncio.” Vários outros funcionários
da NASA lembraram-se de Buzz extremamente decepcionado,
entre os quais o chefe das preparações de lançamento no Cabo,
Guenter Wendt: “Buzz tinha em mente que seria o primeiro a sair
do módulo lunar e a deixar sua pegada histórica no solo da Lua.
Ele afastou muita gente, funcionários administrativos e
astronautas, discutindo seu caso. Neil, o comandante da missão,
somente assentia, mergulhado de cabeça no trabalho, tentando
manter a concentração.”
Neil disse que jamais falou detalhadamente sobre o assunto
com Buzz, ou com qualquer pessoa, nas semanas anteriores à
decisão de “quem sairia primeiro”. Nem mesmo com Janet. Na
verdade, a versão de Armstrong sobre a decisão de “quem sairia primeiro” foi diferente da de Aldrin em diversos aspectos
relevantes. Primeiro, Neil nunca se preocupou com a questão
como Aldrin achava que ele se preocupava. Em relação à
conversa mencionada por Aldrin (ou pelo coautor de seu livro),
“não me lembro exatamente dessa conversa”, afirmou. “Consigo
me lembrar do momento — e não sei dizer se foi na mesma
época — em que ele me perguntou o que eu achava disso, e
minha resposta foi: ‘Não vou tomar uma posição em relação a
isso. São nossas simulações e as outras pessoas que vão
determinar o que será feito.’ A verdade era que para mim isso
não importava tanto. Sempre me surpreendeu o grande interesse
público em relação a quem pisaria na superfície lunar, e ainda
mais a quem pisaria primeiro. Na minha cabeça, o mais
importante era que conseguíssemos fixar as quatro pernas de
alumínio com segurança na superfície da Lua enquanto ainda
estivéssemos dentro da aeronave. Para mim, não havia muita
diferença entre ter três metros de alumínio entre o piso da
espaçonave e a superfície da Lua e ter dois centímetros de
neoprene ou plástico da sola de nossas botas sobre a superfície
lunar.”
“No Programa Gemini”, relatou Neil, “era sempre o copiloto
que executava a atividade extraveicular, e isso acontecia porque
o comandante estava tão sobrecarregado que era inviável
preparar-se para a saída. O copiloto tinha muito mais tempo
disponível, portanto era lógico que fizesse isso. Quando
realizamos as simulações em terra para a atividade de superfície
do Programa Apollo, foi assim que tentamos proceder,
provavelmente como resultado da experiência do Programa
Gemini. Tentamos fazer da mesma forma. Sendo assim, Buzz
pode ter achado que as coisas se fariam do mesmo modo que na
Gemini, e aquela responsabilidade lhe caberia. Pode ter achado
que aquilo era importante para ele.” No entanto, quanto mais
simulações eram feitas em terra, mais ficava claro para todos que
seria mais fácil e mais seguro que o comandante saísse do
módulo lunar primeiro. Por fim, as simulações provaram que a
técnica de fazer o piloto — que estava do lado direito — sair
primeiro não funcionaria bem. Disse Neil: “Acho que a maioria das pessoas estava convencida de que a saída do piloto,
passando pelo comandante para abrir a escotilha primeiro,
envolvia um risco que poderia ser evitado”, disse Neil. Depois
que os principais responsáveis pelas simulações, sobretudo os
engenheiros do Centro de Espaçonaves Tripuladas, George
Franklin e Raymond Zedekar, concluíram que o risco seria bem
menor se o comandante saísse primeiro, os planejadores de
missão descartaram a rotina da Gemini e escreveram
procedimentos novos para a Apollo. “E foi assim que fizemos”,
explicou Armstrong. “Nos voos subsequentes do Programa
Apollo, nos quais não faria diferença simbólica e histórica qual
astronauta sairia primeiro, foi usado exatamente o mesmo
procedimento, com a saída do comandante primeiro.”
Na verdade, as peculiaridades técnicas do projeto da escotilha
e da arquitetura interna do módulo lunar não foram os principais
problemas considerados pelo Programa Espacial Tripulado para
decidir quem seria o primeiro. Essas tecnicalidades não
precisavam necessariamente determinar a decisão, como bem
observou Alan Bean, piloto do módulo lunar da Apollo 12: “Eis o
que poderia ter sido feito se quisessem que Buzz ou eu
saíssemos primeiro: antes de pôr nas costas a mochila pesada
da atividade extraveicular, estaríamos de pé e poderíamos nos
mexer livremente. Buzz iria da direita para a esquerda, levando
suas coisas para lá; Neil iria da esquerda para a direita, levando
suas coisas para onde Buzz tinha estado. Depois, eles tratariam
das mochilas; Buzz tiraria a mochila de Neil do suporte e a
entregaria ao parceiro, e Neil entregaria a mochila de Buzz.
‘Quero sair pela porta, vamos trocar.’ Não seria nada de mais.
Fosse quem fosse o escolhido pela NASA na época, Buzz
poderia ter saído primeiro com toda a facilidade. Era só uma
questão de em que momento colocar a mochila nas costas.” O
que Bean insinuou é que a NASA usou as peculiaridades
técnicas da escotilha e do interior do módulo lunar para encerrar
toda a controvérsia na discussão, apaziguando, assim, um Aldrin
aborrecido com o processo. “Na minha opinião, eles estavam
procurando razões técnicas para não ter que dizer na cara de
Buzz, ou de qualquer outra pessoa, ‘queremos que Neil saia primeiro’. Veja bem, a NASA conhecia os dois. Slayton
provavelmente chegou para Neil, no início da história, e disse:
‘Olhe, escolhemos você para comandar essa missão e queremos
que o comandante saia primeiro.’ Neil não comentaria essa
conversa com ninguém, se ela tivesse acontecido, mas Deke
poderia tranquilamente ter dito: ‘Não quero que falemos sobre
isso com mais ninguém, mas quero que você saia primeiro. E
nunca mais vamos tocar no assunto.’ Conhecendo Deke e Neil,
nenhum dos dois teria comentado nada a respeito. E, pelo que
sei, não comentaram mesmo.”
Além de toda essa explicação de Al Bean, também houve uma
decisão política a favor de Armstrong. Em meados de março de
1969, nos dias emocionantes que se sucederam à missão bem-
sucedida da Apollo 9, realizou-se uma reunião informal entre
Deke Slayton, diretor das operações de tripulação; Bob Gilruth,
diretor do Centro de Espaçonaves Tripuladas; George Low,
gerente do Programa Apollo (que tinha viajado pela América do
Sul com Armstrong em 1966); e Chris Kraft, diretor das
operações de voo. Kraft contou o essencial sobre a reunião: “Na
época da Apollo 9, George Low e eu tivemos a mesma epifania:
da maneira como as coisas se encaminhavam, seria Aldrin o
primeiro a sair do módulo lunar, porque ele era o piloto e estava
fazendo todo o treinamento com os cientistas e com os pacotes
de experimentos que seriam deixados na Lua. Buzz conhecia
cada detalhe de tudo. Quando nos demos conta, fizemos uma
reunião para discutir a questão em específico. Naquele período,
assuntos como esse geralmente eram tratados só por nós quatro
— Gilruth, Slayton, Low e eu. Olhe, sabíamos muito bem que o
primeiro cara na Lua viraria um Lindbergh. Ele seria conhecido
para sempre como o primeiro cara de todos os tempos a pôr os
pés na Lua. E quem queríamos que fosse? O primeiro homem na
Lua seria uma lenda, um herói americano, que iria além de Lucky
Lindbergh, além de qualquer soldado, político ou inventor.
Deveria ser Neil Armstrong. Neil era Neil. Calmo, sossegado e
totalmente seguro. Todos nós sabíamos que ele e Lindbergh
eram do mesmo tipo. Ele não tinha ego. Não pensava: Ei, vou ser
o primeiro homem na Lua! Isso nunca passaria pela cabeça de Neil. O máximo que ele já disse sobre o assunto foi que queria
ser o primeiro piloto de testes na Lua, ou o primeiro piloto a
pousar na Lua. Se você lhe dissesse que ele se tornaria o ser
humano mais famoso na Terra pelo resto da vida, ele teria
respondido: ‘Então não quero ser o primeiro homem na Lua.’ Por
outro lado, Aldrin queria desesperadamente ter essa honra e não
sossegaria se não divulgasse seu desejo. Neil não disse nada.
Não era da natureza dele se pôr sob os holofotes. Neil
Armstrong, reticente, de fala mansa e heroico, era nossa única
escolha.
“Foi unânime. Juntos, dissemos: ‘Modifiquem o esquema de
maneira que o piloto do módulo lunar não seja mais o que sai
primeiro.’ Bob Gilruth passou a decisão para George Mueller e
Sam Phillips na sede da NASA, e Deke contou para a tripulação.
Em nossa reunião, tínhamos pedido a Deke que fizesse isso. Ele
não se opôs. E tenho certeza de que transmitiu a notícia da
maneira mais diplomática possível.
“Buzz Aldrin ficou arrasado, mas suportou tudo com
estoicismo. Neil Armstrong aceitou seu papel sem se gabar nem
se surpreender. Ele era o comandante, e talvez devesse sempre
ser tarefa do comandante pisar na Lua primeiro. Buzz
provavelmente achou que estava mais bem treinado para a
atividade extraveicular e mais qualificado para o trabalho na
superfície da Lua — e, francamente, poderia ter razão. No fim,
Neil transferiu para Buzz muitas das responsabilidades pelo
trabalho na superfície. Esperava que Aldrin se saísse bem e
sabia que seu comandado poderia se sair muito melhor do que
ele. Mas a decisão sobre quem sairia da espaçonave primeiro
não tinha qualquer relação com as atividades realizadas na
superfície lunar.”
Enquanto conversavam sobre a situação, analisando-a de
todos os ângulos, em momento algum Slayton, Gilruth, Low e
Kraft disseram uma só palavra sobre o projeto da escotilha ou a
disposição interna do módulo lunar. Como atestou Kraft, “não
tínhamos considerado esse lado da engenharia. Foi uma
desculpa acidental”. Slayton, principalmente, queria que a
decisão fosse explicada em termos técnicos. “Deke era assim”, explicou Kraft. “Ele não queria ficar conhecido como o cara que
tomou a decisão de que seria Neil no lugar de Buzz.”
De fato, nenhum dos quatro homens que se reuniram em
março de 1969 ficou muito à vontade ao confessar a verdade
sobre o que foi dito na ocasião. Em um memorando de setembro
de 1972, depois de um encontro pessoal com Aldrin, Low
escreveu: “Aldrin me perguntou se a decisão a respeito de quem
seria o primeiro homem a pisar na Lua havia sido tomada pela
NASA em Houston, ou pela sede da NASA em Washington, D.C.,
ou se tinha sido imposta de fora da agência. Falei para ele que
foi uma decisão de Bob Gilruth, baseada na recomendação de
Deke Slayton.” Obviamente, a versão de Low sobre os
acontecimentos não se encaixa com precisão na história contada
na autobiografia de Chris Kraft, publicada em 2001, Flight: My
Life in Mission Control (Voar: minha vida no controle de missão).
Então certamente era difícil para Aldrin abstrair tudo isso: no
fim de 1972, ele ainda estava chateado a ponto de perguntar a
George Low como de fato tinha sido tomada a decisão. Isso só
pode significar que Buzz não estava totalmente convencido de
que as razões técnicas alegadas em 1969 fossem mesmo tão
determinantes quanto ele e o resto do mundo foram levados a
acreditar.
Buzz e Armstrong só ficaram sabendo da reunião dos quatro
quando Chris Kraft publicou sua autobiografia. Mas mesmo
depois de saber dos fatores não técnicos que influenciaram a
decisão, Neil continuou seguro de que as considerações
relacionadas à arquitetura interna do módulo lunar tiveram papel
preponderante na determinação. “Para mim, o fato de todos os
seis pousos na Lua terem sido feitos do mesmo modo é uma
evidência muito forte de que essa era a maneira apropriada de
fazê-lo. Senão, teria sido modificada. Não dá para imaginar os
outros comandantes, principalmente alguém como Al Shepard
[comandante da Apollo 14], concordando com algo que não fosse
correto. Conhecendo a natureza dos outros comandantes, eles
teriam feito ou pelo menos tentado fazer diferente se achassem
que havia um jeito melhor. Eu teria agido da mesma forma.”