O Primeiro Homem na Lua

James R. Hansen · Capítulo 27 de 42

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O Primeiro Homem na Lua

Capítulo 20: O primeiro a sair

CAPÍTULO 20

 

O primeiro a sair

 

Na coletiva de imprensa realizada em Houston para apresentar a

tripulação da Apollo 11, em 9 de janeiro de 1969, a pergunta

inicial foi direta: “Qual dos senhores será o primeiro homem a

pisar na superfície da Lua?” Deke Slayton respondeu: “Acho que

ainda não decidimos. Fizemos uma grande quantidade de

simulações, e acho que precisamos de ainda mais para decidir

quem vai sair antes.”

Assim, surgiu uma questão decisiva na vida de Neil

Armstrong, uma questão que provoca especulação e

controvérsias até hoje. Como exatamente a NASA decidiu qual

dos dois astronautas de dentro do módulo lunar seria o primeiro

homem a pisar na Lua?

Nos primeiros meses de 1969, não havia dúvidas de que

Aldrin achava que seria o primeiro. Como ele mesmo explicou,

“durante a curta história do programa espacial, o comandante de

voo permanecia na espaçonave enquanto seu parceiro saía.

Imaginei que eu sairia do módulo lunar e pisaria na Lua antes de

Neil”. Os principais jornais veicularam a matéria de um

correspondente cujo título dizia: “Aldrin deve ser o primeiro

homem na Lua.” Durante a missão da Apollo 9, algumas

semanas mais tarde, o dr. George E. Mueller, diretor-adjunto da

NASA para voos espaciais tripulados, disse a diversas pessoas,

inclusive jornalistas, que Aldrin seria o primeiro homem a sair da

Apollo 11.

Buzz estava confiante até ouvir boatos sobre um “desfecho”

diferente, dias após o mergulho da Apollo 9. Aldrin entreouviu no

Centro de Espaçonaves Tripuladas que fora decidido que

Armstrong seria o primeiro, e não ele. De início, ele ficou apenas intrigado com a notícia. Mas, quando soube que a NASA preferia

Neil porque era civil, em vez de alguém que ainda servia às

Forças Armadas, Buzz ficou com raiva.

Durante alguns dias, um Aldrin magoado refletiu sobre a

situação, consultando somente a esposa. Sentindo que “o

assunto era explosivo demais até para a mais sutil das

manobras”, Buzz decidiu adotar uma abordagem direta. Foi falar

com Neil.

Se esperava uma solução definitiva proposta por Armstrong,

Aldrin infelizmente estava enganado. “Neil, que pode ser bem

enigmático quando quer, se comportou exatamente como se

esperaria dele”, lembrou Buzz. “É claro que a questão estava

pesando para ele também, mas eu achava, naquele momento,

que nos conhecíamos, gostávamos um do outro e podíamos

discutir a questão com sinceridade.” Em sua autobiografia, Aldrin

diz que Neil “ficou indeciso durante mais ou menos um minuto e,

com uma frieza que eu não sabia que ele tinha, disse que a

decisão era histórica e que não queria excluir a possibilidade de

sair da espaçonave primeiro”. Aldrin, desde então, diz que no

livro o incidente foi exagerado por seu coautor. “Entendi que era

normal não ouvir nada definitivo de Neil em relação a isso, até

porque a decisão não seria dele. Sua observação sobre o

significado histórico de sair da espaçonave primeiro, que ele de

fato fez, era perfeitamente válida, e foi assim que a entendi.

Também ficou claro para mim que Neil não queria discutir a

questão. Não houve absolutamente nenhuma indicação da parte

dele dizendo: ‘Sim, acho que você está certo. Acho que devemos

pressionar para que tomem a decisão.’ Não havia nenhuma

indicação de que aquilo aconteceria.”

Aldrin tentou, em vão, acalmar sua frustração cada vez maior,

“esforçando-me o tempo todo para não sentir raiva de Neil”.

Pressionando-o muito, como sempre, estava o próprio pai de

Buzz. Em uma conversa por telefone com o pai, Buzz insinuou

que a decisão poderia ser favorável à saída de Neil em primeiro

lugar. Imediatamente, o sr. Aldrin ficou zangado e disse ao filho

que “pretendia fazer algo a respeito.” Segundo Buzz, “precisei

usar de muita persuasão, mas enfim consegui convencê-lo a prometer que ficaria fora disso”. No entanto, a promessa não foi

mantida, já que Gene Aldrin ligou para alguns amigos influentes

que tinham contatos dentro da NASA e do Pentágono.

Tentando se adiantar ao pai, Buzz procurou alguns colegas

astronautas, sobretudo aqueles que, como Alan Bean e Gene

Cernan, ele imaginava que teriam simpatia pela causa porque

estavam na mesma posição, como pilotos do módulo lunar da

Apollo 10 e da Apollo 12. Mas em vez de uma reação positiva, as

conversas privadas de Aldrin levaram à ideia generalizada de

que ele estava fazendo campanha por debaixo dos panos para

ser o primeiro a sair da espaçonave. Segundo Gene Cernan,

Buzz acabou “entrando em um frenesi” em relação a quem seria

o primeiro homem a pisar na Lua. “Um dia, ele irrompeu na

minha sala do Centro de Espaçonaves Tripuladas parecendo um

animal furioso, carregado de gráficos e estatísticas,

argumentando o que ele considerava óbvio — ele, piloto do

módulo lunar, e não Neil Armstrong, deveria ser o primeiro a

descer a escada da Apollo 11. Como eu dividia a sala com Neil,

que estava em treinamento naquele dia, achei os argumentos de

Aldrin ofensivos e ridículos. Desde que soube que a Apollo 11

tentaria o primeiro pouso na Lua, Buzz tomou essa iniciativa

peculiar de se meter na história, e encontrava em cada esquina

olhares hostis e insultos sussurrados pelos colegas astronautas.

Não sei como Neil aguentou tanta falta de noção por tanto tempo

até pedir a Buzz que parasse de fazer papel de palhaço.”

O outro tripulante da Apollo 11, Mike Collins, recordou um

incidente semelhante. “Uma vez, Buzz tentou me abordar falando

sobre a injustiça da situação”, disse Collins, “mas na mesma hora

mudei de assunto. Já tinha problemas suficientes para não me

envolver em mais um. Ainda que Buzz nunca houvesse dito

claramente, acho que a principal reclamação dele era que Neil

seria o primeiro a pôr os pés na Lua”. Aldrin insistiu que tinha

sido mal interpretado pelos colegas. “Não era que eu quisesse

ser o primeiro”, alegou Buzz, “mas achava que eles tinham que

se decidir.”

Com esses comentários pouco lisonjeiros no Centro de

Espaçonaves Tripuladas em relação ao que muitos acreditavam ser um lobby de Aldrin, Slayton tentou pôr um fim na questão. Ele

entrou na sala de Buzz, disse que provavelmente Neil seria o

primeiro, dando-lhes ao menos uma razão mais plausível para a

escolha. “Neil foi membro do segundo grupo de astronautas, o

grupo anterior ao meu”, relatou Aldrin. “Dessa forma, seria

correto que Neil desse o primeiro passo na Lua, como Colombo e

outros comandantes de navegações históricas fizeram. Se a

decisão tivesse sido outra, e o comandante ficasse lá assistindo

ao tripulante sair, chutar a poeira e colher uma amostra de

contingência, dizendo as famosas palavras e tudo o mais, a

missão teria sido muito criticada por todo tipo de gente. Teria sido

completamente inadequado.”

Aldrin afirmou não ter se incomodado pelo fato de Slayton ter

dito que seria Neil; o que o havia decepcionado foram as

consequências do desconhecimento geral. “Pessoalmente, ser

ou não o primeiro a pisar na Lua não era uma questão relevante.

Do ponto de vista técnico, a grande conquista era fazer o

primeiro pouso lunar, e nós dois estaríamos fazendo isso.” Buzz

concordou plenamente que “a aclamação e a atenção iriam para

aquele que desse o primeiro passo”, e, de acordo com o próprio

depoimento, ele estava tranquilo quanto ao fato de Neil ser o

primeiro, porque não estava interessado na aclamação popular.

No entanto, ele se ressentia porque a decisão fora protelada

diversas vezes, “até que finalmente se tornou tema de fofocas,

especulação e encontros embaraçosos” nos quais a família, os

amigos e os repórteres sempre perguntavam a ele: “Quem será o

primeiro?” Armstrong tinha uma personalidade estoica que lidava

facilmente com a ambiguidade e a incerteza. Aldrin, não.

Buzz se sentiu compelido a fazer um último pedido de

esclarecimento: “Finalmente procurei George Low, diretor do

escritório do Programa Apollo, e lhe contei o que tinha ouvido.

Falei que entendia a necessidade de uma avaliação meticulosa e

que aceitaria com satisfação o que fosse decidido. Não era um

grande problema para mim, mas seria interessante para o moral

e o treinamento que eles tomassem a decisão o mais rápido

possível.” Low garantiu que fariam isso.

Em uma coletiva de imprensa no Centro de Espaçonaves

Tripuladas em 14 de abril, George Low declarou que “o plano

indicava que o sr. Armstrong seria o primeiro homem a sair após

o pouso na Lua (...) Minutos depois, o coronel Aldrin seguiria o sr.

Armstrong e desceria as escadas”. Aldrin compreendeu da

seguinte maneira: a NASA, no fim das contas, tinha decidido a

ordem da saída dos astronautas somente com base na

arquitetura interna do módulo lunar e na posição que os dois

astronautas ocupavam dentro da cabine — um motivo

influenciado pela engenharia que parecia fazer todo sentido e

acabou satisfazendo a sensibilidade de Aldrin. Ainda de acordo

com Buzz, ele e Neil tinham conversado sobre a questão e,

juntos, “especularam” sobre como a decisão deveria ser tomada.

“Nossa conclusão”, explicou, “foi que a decisão tinha a ver com a

divisão de tarefas na superfície lunar e com nosso

posicionamento físico dentro do módulo. A menos que algo

mudasse, eu, como piloto, estaria do lado direito — posição

normal do piloto — e Neil estaria do lado esquerdo, ao lado da

abertura da escotilha. Não seria prático, na verdade seria uma

complicação a mais mudar de posição com Neil após o pouso. E

foi assim, pelo que entendo, que a decisão finalmente foi

tomada.” Aldrin alegou também que ficou satisfeito com a

situação assim que o anúncio foi feito. Já Mike Collins lembrava

de outra forma: “A atitude de Buzz voltou-se para o pessimismo e

o isolamento logo depois do anúncio.” Vários outros funcionários

da NASA lembraram-se de Buzz extremamente decepcionado,

entre os quais o chefe das preparações de lançamento no Cabo,

Guenter Wendt: “Buzz tinha em mente que seria o primeiro a sair

do módulo lunar e a deixar sua pegada histórica no solo da Lua.

Ele afastou muita gente, funcionários administrativos e

astronautas, discutindo seu caso. Neil, o comandante da missão,

somente assentia, mergulhado de cabeça no trabalho, tentando

manter a concentração.”

Neil disse que jamais falou detalhadamente sobre o assunto

com Buzz, ou com qualquer pessoa, nas semanas anteriores à

decisão de “quem sairia primeiro”. Nem mesmo com Janet. Na

verdade, a versão de Armstrong sobre a decisão de “quem sairia primeiro” foi diferente da de Aldrin em diversos aspectos

relevantes. Primeiro, Neil nunca se preocupou com a questão

como Aldrin achava que ele se preocupava. Em relação à

conversa mencionada por Aldrin (ou pelo coautor de seu livro),

“não me lembro exatamente dessa conversa”, afirmou. “Consigo

me lembrar do momento — e não sei dizer se foi na mesma

época — em que ele me perguntou o que eu achava disso, e

minha resposta foi: ‘Não vou tomar uma posição em relação a

isso. São nossas simulações e as outras pessoas que vão

determinar o que será feito.’ A verdade era que para mim isso

não importava tanto. Sempre me surpreendeu o grande interesse

público em relação a quem pisaria na superfície lunar, e ainda

mais a quem pisaria primeiro. Na minha cabeça, o mais

importante era que conseguíssemos fixar as quatro pernas de

alumínio com segurança na superfície da Lua enquanto ainda

estivéssemos dentro da aeronave. Para mim, não havia muita

diferença entre ter três metros de alumínio entre o piso da

espaçonave e a superfície da Lua e ter dois centímetros de

neoprene ou plástico da sola de nossas botas sobre a superfície

lunar.”

“No Programa Gemini”, relatou Neil, “era sempre o copiloto

que executava a atividade extraveicular, e isso acontecia porque

o comandante estava tão sobrecarregado que era inviável

preparar-se para a saída. O copiloto tinha muito mais tempo

disponível, portanto era lógico que fizesse isso. Quando

realizamos as simulações em terra para a atividade de superfície

do Programa Apollo, foi assim que tentamos proceder,

provavelmente como resultado da experiência do Programa

Gemini. Tentamos fazer da mesma forma. Sendo assim, Buzz

pode ter achado que as coisas se fariam do mesmo modo que na

Gemini, e aquela responsabilidade lhe caberia. Pode ter achado

que aquilo era importante para ele.” No entanto, quanto mais

simulações eram feitas em terra, mais ficava claro para todos que

seria mais fácil e mais seguro que o comandante saísse do

módulo lunar primeiro. Por fim, as simulações provaram que a

técnica de fazer o piloto — que estava do lado direito — sair

primeiro não funcionaria bem. Disse Neil: “Acho que a maioria das pessoas estava convencida de que a saída do piloto,

passando pelo comandante para abrir a escotilha primeiro,

envolvia um risco que poderia ser evitado”, disse Neil. Depois

que os principais responsáveis pelas simulações, sobretudo os

engenheiros do Centro de Espaçonaves Tripuladas, George

Franklin e Raymond Zedekar, concluíram que o risco seria bem

menor se o comandante saísse primeiro, os planejadores de

missão descartaram a rotina da Gemini e escreveram

procedimentos novos para a Apollo. “E foi assim que fizemos”,

explicou Armstrong. “Nos voos subsequentes do Programa

Apollo, nos quais não faria diferença simbólica e histórica qual

astronauta sairia primeiro, foi usado exatamente o mesmo

procedimento, com a saída do comandante primeiro.”

Na verdade, as peculiaridades técnicas do projeto da escotilha

e da arquitetura interna do módulo lunar não foram os principais

problemas considerados pelo Programa Espacial Tripulado para

decidir quem seria o primeiro. Essas tecnicalidades não

precisavam necessariamente determinar a decisão, como bem

observou Alan Bean, piloto do módulo lunar da Apollo 12: “Eis o

que poderia ter sido feito se quisessem que Buzz ou eu

saíssemos primeiro: antes de pôr nas costas a mochila pesada

da atividade extraveicular, estaríamos de pé e poderíamos nos

mexer livremente. Buzz iria da direita para a esquerda, levando

suas coisas para lá; Neil iria da esquerda para a direita, levando

suas coisas para onde Buzz tinha estado. Depois, eles tratariam

das mochilas; Buzz tiraria a mochila de Neil do suporte e a

entregaria ao parceiro, e Neil entregaria a mochila de Buzz.

‘Quero sair pela porta, vamos trocar.’ Não seria nada de mais.

Fosse quem fosse o escolhido pela NASA na época, Buzz

poderia ter saído primeiro com toda a facilidade. Era só uma

questão de em que momento colocar a mochila nas costas.” O

que Bean insinuou é que a NASA usou as peculiaridades

técnicas da escotilha e do interior do módulo lunar para encerrar

toda a controvérsia na discussão, apaziguando, assim, um Aldrin

aborrecido com o processo. “Na minha opinião, eles estavam

procurando razões técnicas para não ter que dizer na cara de

Buzz, ou de qualquer outra pessoa, ‘queremos que Neil saia primeiro’. Veja bem, a NASA conhecia os dois. Slayton

provavelmente chegou para Neil, no início da história, e disse:

‘Olhe, escolhemos você para comandar essa missão e queremos

que o comandante saia primeiro.’ Neil não comentaria essa

conversa com ninguém, se ela tivesse acontecido, mas Deke

poderia tranquilamente ter dito: ‘Não quero que falemos sobre

isso com mais ninguém, mas quero que você saia primeiro. E

nunca mais vamos tocar no assunto.’ Conhecendo Deke e Neil,

nenhum dos dois teria comentado nada a respeito. E, pelo que

sei, não comentaram mesmo.”

Além de toda essa explicação de Al Bean, também houve uma

decisão política a favor de Armstrong. Em meados de março de

1969, nos dias emocionantes que se sucederam à missão bem-

sucedida da Apollo 9, realizou-se uma reunião informal entre

Deke Slayton, diretor das operações de tripulação; Bob Gilruth,

diretor do Centro de Espaçonaves Tripuladas; George Low,

gerente do Programa Apollo (que tinha viajado pela América do

Sul com Armstrong em 1966); e Chris Kraft, diretor das

operações de voo. Kraft contou o essencial sobre a reunião: “Na

época da Apollo 9, George Low e eu tivemos a mesma epifania:

da maneira como as coisas se encaminhavam, seria Aldrin o

primeiro a sair do módulo lunar, porque ele era o piloto e estava

fazendo todo o treinamento com os cientistas e com os pacotes

de experimentos que seriam deixados na Lua. Buzz conhecia

cada detalhe de tudo. Quando nos demos conta, fizemos uma

reunião para discutir a questão em específico. Naquele período,

assuntos como esse geralmente eram tratados só por nós quatro

— Gilruth, Slayton, Low e eu. Olhe, sabíamos muito bem que o

primeiro cara na Lua viraria um Lindbergh. Ele seria conhecido

para sempre como o primeiro cara de todos os tempos a pôr os

pés na Lua. E quem queríamos que fosse? O primeiro homem na

Lua seria uma lenda, um herói americano, que iria além de Lucky

Lindbergh, além de qualquer soldado, político ou inventor.

Deveria ser Neil Armstrong. Neil era Neil. Calmo, sossegado e

totalmente seguro. Todos nós sabíamos que ele e Lindbergh

eram do mesmo tipo. Ele não tinha ego. Não pensava: Ei, vou ser

o primeiro homem na Lua! Isso nunca passaria pela cabeça de Neil. O máximo que ele já disse sobre o assunto foi que queria

ser o primeiro piloto de testes na Lua, ou o primeiro piloto a

pousar na Lua. Se você lhe dissesse que ele se tornaria o ser

humano mais famoso na Terra pelo resto da vida, ele teria

respondido: ‘Então não quero ser o primeiro homem na Lua.’ Por

outro lado, Aldrin queria desesperadamente ter essa honra e não

sossegaria se não divulgasse seu desejo. Neil não disse nada.

Não era da natureza dele se pôr sob os holofotes. Neil

Armstrong, reticente, de fala mansa e heroico, era nossa única

escolha.

“Foi unânime. Juntos, dissemos: ‘Modifiquem o esquema de

maneira que o piloto do módulo lunar não seja mais o que sai

primeiro.’ Bob Gilruth passou a decisão para George Mueller e

Sam Phillips na sede da NASA, e Deke contou para a tripulação.

Em nossa reunião, tínhamos pedido a Deke que fizesse isso. Ele

não se opôs. E tenho certeza de que transmitiu a notícia da

maneira mais diplomática possível.

“Buzz Aldrin ficou arrasado, mas suportou tudo com

estoicismo. Neil Armstrong aceitou seu papel sem se gabar nem

se surpreender. Ele era o comandante, e talvez devesse sempre

ser tarefa do comandante pisar na Lua primeiro. Buzz

provavelmente achou que estava mais bem treinado para a

atividade extraveicular e mais qualificado para o trabalho na

superfície da Lua — e, francamente, poderia ter razão. No fim,

Neil transferiu para Buzz muitas das responsabilidades pelo

trabalho na superfície. Esperava que Aldrin se saísse bem e

sabia que seu comandado poderia se sair muito melhor do que

ele. Mas a decisão sobre quem sairia da espaçonave primeiro

não tinha qualquer relação com as atividades realizadas na

superfície lunar.”

Enquanto conversavam sobre a situação, analisando-a de

todos os ângulos, em momento algum Slayton, Gilruth, Low e

Kraft disseram uma só palavra sobre o projeto da escotilha ou a

disposição interna do módulo lunar. Como atestou Kraft, “não

tínhamos considerado esse lado da engenharia. Foi uma

desculpa acidental”. Slayton, principalmente, queria que a

decisão fosse explicada em termos técnicos. “Deke era assim”, explicou Kraft. “Ele não queria ficar conhecido como o cara que

tomou a decisão de que seria Neil no lugar de Buzz.”

De fato, nenhum dos quatro homens que se reuniram em

março de 1969 ficou muito à vontade ao confessar a verdade

sobre o que foi dito na ocasião. Em um memorando de setembro

de 1972, depois de um encontro pessoal com Aldrin, Low

escreveu: “Aldrin me perguntou se a decisão a respeito de quem

seria o primeiro homem a pisar na Lua havia sido tomada pela

NASA em Houston, ou pela sede da NASA em Washington, D.C.,

ou se tinha sido imposta de fora da agência. Falei para ele que

foi uma decisão de Bob Gilruth, baseada na recomendação de

Deke Slayton.” Obviamente, a versão de Low sobre os

acontecimentos não se encaixa com precisão na história contada

na autobiografia de Chris Kraft, publicada em 2001, Flight: My

Life in Mission Control (Voar: minha vida no controle de missão).

Então certamente era difícil para Aldrin abstrair tudo isso: no

fim de 1972, ele ainda estava chateado a ponto de perguntar a

George Low como de fato tinha sido tomada a decisão. Isso só

pode significar que Buzz não estava totalmente convencido de

que as razões técnicas alegadas em 1969 fossem mesmo tão

determinantes quanto ele e o resto do mundo foram levados a

acreditar.

Buzz e Armstrong só ficaram sabendo da reunião dos quatro

quando Chris Kraft publicou sua autobiografia. Mas mesmo

depois de saber dos fatores não técnicos que influenciaram a

decisão, Neil continuou seguro de que as considerações

relacionadas à arquitetura interna do módulo lunar tiveram papel

preponderante na determinação. “Para mim, o fato de todos os

seis pousos na Lua terem sido feitos do mesmo modo é uma

evidência muito forte de que essa era a maneira apropriada de

fazê-lo. Senão, teria sido modificada. Não dá para imaginar os

outros comandantes, principalmente alguém como Al Shepard

[comandante da Apollo 14], concordando com algo que não fosse

correto. Conhecendo a natureza dos outros comandantes, eles

teriam feito ou pelo menos tentado fazer diferente se achassem

que havia um jeito melhor. Eu teria agido da mesma forma.”