O Primeiro Homem na Lua
Capítulo 19: Amáveis estranhos
CAPÍTULO 19
Amáveis estranhos
O trio formado por Frank Borman, Jim Lovell e Bill Anders estava
mais longe de casa do que qualquer outro ser humano até então.
Reduzindo gradualmente a velocidade, que chegara à máxima de
quarenta mil quilômetros por hora, a tripulação da Apollo 8
acabava de passar do ponto em que a gravidade do planeta e a
de seu satélite natural se compensavam. Agora, a Apollo 8
estava “caindo” em direção à Lua.
Era a tarde de 23 de dezembro de 1968, pouco depois da
transmissão ao vivo na TV que mostrou a tripulação e uma
imagem granulada mas reconhecível da Terra a 320 mil
quilômetros de distância, mais de 80% do caminho até a Lua. No
Controle da Missão, em Houston, um novo turno de
controladores de voo, chamados de Equipe Marrom, sob direção
de Milton L. Windler, estava preparando a espaçonave para
atingir o ponto crítico no qual os astronautas poderiam inserir sua
espaçonave na órbita lunar pela primeira vez na história da
humanidade. Se o disparo falhasse, a Apollo 8 “derraparia” em
volta da Lua e voltaria à Terra como que lançada por um
estilingue.
Armstrong permaneceu nos fundos do Controle da Missão,
refletindo em silêncio sobre a iminente inserção na órbita lunar.
Como comandante reserva da Apollo 8, tinha passado todos os
momentos dos últimos dois dias profundamente envolvido com
os detalhes do voo circunlunar. No Cabo, no dia do lançamento,
21 de dezembro, Neil acordou às três da manhã para tomar café
com a tripulação principal. Enquanto Borman, Lovell e Anders se
vestiam cuidadosamente, Neil foi até a plataforma de lançamento
39A. Era comum que um ou dois membros da equipe reserva monitorassem a sequência pré-lançamento de dentro da cabine,
configurando e verificando todos os comutadores.
O lançamento ocorreu poucos minutos depois do horário
programado, às 7h51 da manhã. O primeiro voo tripulado do
“Foguete da Lua” Saturno V era algo digno de ser contemplado.
Neil assistiu à ascensão lenta e flamejante do gigantesco
propulsor pelo janelão do Centro de Controle de Lançamento em
companhia de Buzz Aldrin e Fred W. Haise Jr., seus parceiros da
tripulação reserva.
No início da tarde, Armstrong monitorou o progresso do voo ao
longo de suas duas órbitas ao redor da Terra, da injeção
translunar e do caminho até a Lua. Então, juntamente com Aldrin
e Haise, embarcou em um Gulfstream da NASA para voltar a
Houston, aonde chegou por volta das sete da noite. No avião,
junto com eles, estavam suas respectivas esposas: Janet, Joan
Aldrin e Mary Haise. Elas tinham assistido ao lançamento nas
tribunas VIP, dando apoio moral às esposas dos astronautas em
voo, que também estavam lá.
Depois de uma rápida passada em El Lago para tomar banho
e trocar de roupa em casa, Neil foi para o Controle da Missão.
Ficou lá até tarde e voltou cedo no dia seguinte. Quando viu
Armstrong na sala grande e cheia de painéis, Deke Slayton se
aproximou com um assunto urgente: a próxima tarefa de Neil.
Ninguém tinha certeza a respeito de qual seria a missão da
Apollo 11. Para que se tornasse a primeira missão de pouso
lunar, não só a Apollo 8 teria que completar com êxito seu voo
audacioso em volta da Lua, mas a Apollo 9 e a Apollo 10 também
teriam que voltar sem nenhum percalço. Se algo desse errado, a
missão G — o primeiro pouso lunar — poderia ser adiada para a
Apollo 12, ou até mesmo para a Apollo 13. Se o prazo ficasse
apertado demais, a NASA poderia antecipar o pouso para a
Apollo 10, opção que, após a missão ousada da Apollo 8, chegou
a ser levantada. Assim, a tarefa que Armstrong efetivamente
cumpriria com a Apollo 11 seria fruto do acaso. Ele saiu da
reunião com Slayton sabendo que tinha uma chance de
comandar a primeira tentativa de pouso na Lua.
Foi preciso uma reviravolta extraordinária nos acontecimentos
para que as missões da Apollo fossem organizadas como foram.
Na programação original que Slayton apresentou aos
astronautas, não haveria nenhum voo circunlunar. Depois do
primeiro voo tripulado, ou missão C — executado em outubro de
1968 por Schirra, Eisele e Cunningham com a Apollo 7 —, a
missão D deveria testar a operação combinada do módulo de
comando e do módulo lunar na órbita da Terra. Mas o módulo
lunar da Grumman não estava pronto para entrar em operação.
Para manter o andamento do programa, uns poucos diretores da
NASA mais dispostos a arriscar, particularmente George Low,
propuseram um improviso radical. Já que o módulo lunar ainda
não estava pronto, por que não agilizar a sequência de voos
levando o módulo de comando e serviço a uma órbita da Lua?
A ideia foi tão ousada que o comando da NASA em
Washington resistiu com veemência. Ainda assim, em outubro de
1968, quando a Apollo 7 concluiu sua missão com sucesso
absoluto, foi exatamente o que a agência decidiu fazer. Em
setembro de 1968, a União Soviética tinha enviado a Zond 5 para
uma passagem pela Lua, e estava preparando a Zond 6 para o
mesmo tipo de operação em novembro. Isso ajudou a dissipar a
indecisão. A Zond era grande o bastante para carregar um
cosmonauta, e a convicção americana desde o lançamento do
Sputnik era de que os soviéticos fariam qualquer coisa para
continuar ofuscando os Estados Unidos no espaço. Dentro da
NASA, a estratégia corajosa do voo circunlunar não teve
aceitação unânime. Assim como praticamente todos os
astronautas, Armstrong apoiou o redirecionamento radical da
Apollo 8, mas só depois de convencido de que os problemas com
o Saturno V estavam resolvidos.
* * *
Em 23 de dezembro de 1968, quando já baixava a poeira
levantada pela transmissão da missão Apollo 8 pela TV, Armstrong e Slayton se enfurnaram em uma sala dos fundos do
Controle da Missão para uma conversa que se tornaria histórica.
“Deke deu sua opinião sobre a Apollo 11 e perguntou como eu
me sentia em relação a ter Mike Collins e Buzz Aldrin em minha
equipe. Conversamos um pouco, e eu não tinha nenhum
problema com isso. Deke disse que Buzz não era exatamente
uma pessoa fácil de lidar, mas respondi: ‘Bem, trabalhei com ele
nos últimos meses e me parece que tudo vai dar certo.’ Mas eu
sabia do que Deke estava falando. Então, ele disse que queria
designar Jim Lovell para a Apollo 11, ainda que fugindo um
pouco da sequência, mas só faria isso se achasse que seria
necessário para mim. Eu teria ficado satisfeito com Lovell na
tripulação. Jim era um cara muito confiável, muito firme. Eu
confiava muito nele. Teria sido bem incomum se a escolha da
tripulação tivesse sido feita assim, mas Deke abriu a
possibilidade de pôr Jim Lovell e Mike Collins em minha equipe.”
Armstrong esperou até o dia seguinte para dar sua resposta.
Naquele momento, a tripulação da Apollo 8, com Jim Lovell
pilotando o módulo de comando, já estava em órbita em volta da
Lua. Lovell nunca saberia que, se a resposta de Armstrong
tivesse sido outra, ele estaria na tripulação da Apollo 11. “Jim já
tinha sido comandado na Gemini XII”, disse Neil, “e eu achava
que ele merecia seu próprio comando. Achei que não seria
correto de minha parte tirar Lovell da fila para o comando, então
ele acabou ficando com a Apollo 13. Até hoje ele não sabe de
nada disso. Nunca falei com ninguém das conversas que tive
com Slayton. Pelo que sei, Buzz também não sabe nada a
respeito.” Se Armstrong tivesse escolhido Lovell para a Apollo 11,
Aldrin teria sido designado para uma tripulação posterior,
provavelmente a da malfadada Apollo 13.
Ou seja, Neil deu essa resposta a Slayton porque não teve
qualquer dificuldade de trabalhar com Buzz, e Lovell merecia ter
o próprio comando.
Pode-se imaginar como Fred Haise se sentiu em relação a
esse desdobramento — afinal, ele pertencia à equipe reserva de
Neil na Apollo 8, como piloto do módulo lunar. “Deke achava que
Fred não estava pronto para a tripulação principal”, lembrou Armstrong. “Conversamos um pouco sobre a missão, e Deke
disse que ela poderia ser uma tentativa de pouso do módulo
lunar — poderia —, mas eu achava essa possibilidade um pouco
remota àquela altura.” Se Haise tivesse sido posto na tripulação
de Neil da Apollo 11, Aldrin teria permanecido como piloto do
módulo de comando. A questão principal era que Slayton queria
Collins, afastado por conta de uma cirurgia no pescoço, de volta
para a sequência. Antes de seu trabalho na tripulação reserva da
Apollo 8, Armstrong não teve muito contato com Aldrin nem
Haise. Eles nunca tinham estado na mesma equipe. Neil
trabalhava na Gemini XI quando Lovell e Aldrin estavam na
Gemini XII, então Neil e Buzz passaram muito tempo juntos no
Cabo e se viam com frequência. Fred Haise, por sua vez, ele via
menos. Como parte de suas funções, Haise trabalhou bastante
nos módulos lunares, e Neil percebeu que ele sabia muito sobre
o tema. Haise foi designado piloto do módulo lunar da tripulação
reserva da Apollo 11. Os outros membros da tripulação reserva
eram Jim Lovell, da Apollo 8, como comandante, e Bill Anders,
como piloto do módulo de comando. Frank Borman tinha se
aposentado. A formação da tripulação da Apollo 11, com Mike
Collins e Buzz Aldrin, deixou Armstrong satisfeito.
Aquela véspera de Natal foi extraordinária, não só para
Armstrong, mas também para todos os que estavam colados na
TV assistindo à transmissão ao vivo da Apollo 8 em órbita lunar.
As pessoas se lembrariam daquele dia pelo resto da vida.
Durante a transmissão daquela noite, Borman, Lovell e Anders
se revezaram lendo os dez primeiros versículos do Gênesis,
enquanto os telespectadores viam imagens magníficas da
superfície da Lua, surreais, quase divinas, passando por baixo
dos astronautas. Em seguida, os três apontaram sua câmera de
volta para o planeta natal, mostrando a beleza delicada e
impressionante de uma Terra que se avolumava, “nascendo”
gloriosamente no horizonte lunar. Os astronautas concluíram sua
vigília com uma mensagem de esperança: “Feliz Natal, e que
Deus abençoe todos vocês na boa e velha Terra.” Poucas horas
depois, na manhã de Natal, a Apollo 8 ativou seus sistemas de
propulsão de serviço, o principal motor de foguete do módulo, e acelerou para sair da órbita lunar. Feliz por estar voltando para
casa, Lovell comentou, enquanto a espaçonave dava a volta pela
parte de trás da Lua: “Por favor, fiquem sabendo que Papai Noel
existe.”
A Apollo 8 mergulhou em segurança na manhã de 27 de
dezembro, seis dias, três horas, duas órbitas terrestres e dez
órbitas lunares após o lançamento. Foi um voo verdadeiramente
histórico. Não só marcou a façanha de Borman, Lovell e Anders,
os primeiros seres humanos a ultrapassar os limites da gravidade
da Terra, como provou que os astronautas podiam percorrer os
quase quatrocentos mil quilômetros que separam nosso planeta
de nosso vizinho mais próximo. A missão também provou que as
manobras de correção de curso podiam ser feitas fora da linha de
visada e sem comunicação com a Terra, que uma espaçonave
poderia ser rastreada a uma imensa distância, e que ela poderia
orbitar a Lua e retornar à Terra.
O ano de 1968 foi extraordinariamente traumatizante para os
Estados Unidos, e não que o anterior tenha sido muito melhor. As
convulsões começaram em janeiro de 1968, quando a Coreia do
Norte capturou o USS Pueblo, alegando que o navio americano
tinha violado suas águas territoriais em missão de espionagem.
Os vietcongues lançaram a ofensiva do Tet e, em março, o
mundo conheceu o massacre de Mỹ Lai. Ainda em março,
Lyndon Johnson anunciou que não se candidataria à reeleição.
Em um intervalo de nove semanas, Martin Luther King Jr. e o
senador Robert F. Kennedy foram assassinados. Em agosto,
durante a convenção nacional do Partido Democrata realizada
em Chicago, a polícia do prefeito Richard Daly entrou em conflito
com multidões de manifestantes raivosos. No âmbito
internacional, Israel e Jordânia entraram em conflito por disputa
de fronteiras. Desencadeou-se a violência entre protestantes e
católicos na Irlanda do Norte, com os conflitos chamados “The
Troubles”; em Paris, manifestantes quase derrubaram o governo;
e tanques soviéticos adentraram a Tchecoslováquia. Em meio a
tal comoção, gastar bilhões em viagens à Lua, na opinião de
muita gente, parecia uma prioridade descabida. Começava a se
difundir um ditado popular que dizia “se conseguimos chegar à Lua, o que não podemos fazer?”, seguido de alguma das
respostas prováveis, como: acabar a injustiça, erradicar a
pobreza, curar o câncer, abolir as guerras e limpar o meio
ambiente.
No entanto, até em meio ao clamor, às críticas e ao declínio no
apoio ao programa espacial, os astronautas continuavam sendo
alvo de admiração pública.
* * *
Em 4 de janeiro de 1969, Slayton chamou Buzz Aldrin e Mike
Collins a seu escritório, onde Armstrong já os esperava, e revelou
que os três seriam os escolhidos para a tripulação principal da
Apollo 11. Deke disse que era “possível e provável que essa seja
a primeira tentativa de pouso lunar”. E deixou claro que eles
deveriam orientar sua preparação para o voo partindo do
pressuposto de que o pouso seria feito. Assim, caso
acontecesse, estariam totalmente prontos.
A NASA divulgou a tripulação da Apollo 11 ao público cinco
dias depois, em 9 de janeiro. O anúncio foi feito depois da
cerimônia em que a tripulação da Apollo 8 recebeu medalhas do
presidente Johnson na Casa Branca e foi ovacionada em uma
sessão conjunta do Congresso à qual estiveram presentes os
ministros de Estado, os juízes da Suprema Corte e membros do
corpo diplomático. Armstrong, Collins e Aldrin não estavam em
Washington quando os jornais divulgaram: “Equipe lunar é
anunciada.” Contudo, os três estiveram presentes a uma coletiva
de imprensa sobre a Apollo 11 em Houston, no dia seguinte. Mais
tarde, Mike Collins chamaria a si próprio, Armstrong e Aldrin de
“amáveis estranhos”, uma referência que destacava tanto a
singularidade da Apollo 11 quanto o relacionamento entre os
membros da tripulação.
Collins era o membro mais irreverente do trio. Seu pai, o
general James Collins, tinha lutado com o general Pershing nas
Filipinas e ganhado a Estrela de Prata na Primeira Guerra
Mundial. Seu irmão, James Jr., foi comandante de um batalhão de artilharia na Segunda Guerra Mundial e mais tarde se tornou
general de brigada. Como toda cria das Forças Armadas, Mike
sempre se mudou com a família de um estado para outro.
Mesmo assim, era popular entre as crianças e seus professores.
Tinha o dom da liderança, dava-se bem com os outros, pensava
com clareza e se expressava bem. Formou-se por West Point em
1952, na turma de Ed White. Frank Borman estava dois anos à
frente deles, e Buzz Aldrin, um ano atrás. Mike foi para a Força
Aérea, e em 1956 o primeiro-tenente Collins estava em um
esquadrão de caça, pilotando F-86s na França. Em 1957, ele se
casou com uma moça de Boston chamada Patricia. Mesmo
baseado na Europa, Collins se inscreveu em uma seleção de
pilotos de testes da Força Aérea em Edwards e só foi admitido
em 1961. A escola tinha mudado seu nome para Escola de
Pilotos de Pesquisa Aeroespacial (ARPS, na sigla em inglês) da
Força Aérea dos Estados Unidos, e deu início a um programa de
treinamento de pilotos de testes em voos espaciais. Collins
entrou para a turma III da ARPS. Com ele estavam Charlie
Bassett, o astronauta que morreu em 1966 junto com Elliot See,
e Joe Engle, que depois se tornaria a única pessoa a voar pelo
espaço em dois veículos alados diferentes: o X-15 e o ônibus
espacial. No total, 26 formandos da ARPS ganharam asas de
astronauta voando nos programas Gemini, Apollo ou ônibus
espacial. Collins foi selecionado quando a NASA escolheu seu
terceiro grupo de astronautas e se especializou em trajes
pressurizados e atividades extraveiculares. No voo de dezembro
de 1965, na Gemini VII, ele foi reserva de Jim Lovell. O primeiro
voo espacial de Mike ocorreu em julho de 1966, na Gemini X,
uma missão empolgante que realizou uma acoplagem bem-
sucedida com o veículo-alvo Agena, durante a qual Collins fez
uma caminhada no espaço para recuperar um pacote de
micrometeoritos que Dave Scott não tinha conseguido trazer de
volta na Gemini VIII. A primeira tarefa de Mike no Programa
Apollo foi como reserva de Walt Cunningham no segundo voo.
Na comoção após o incêndio na plataforma de lançamento,
Collins deveria ter sido o piloto do módulo de comando da futura
Apollo 8. Porém, por causa de uma cirurgia para remover um esporão na coluna vertebral, ele foi substituído por Jim Lovell.
Graças a uma rápida recuperação, foi escolhido, juntamente com
Armstrong e Aldrin, para a Apollo 11.
Em menos de oito anos, Collins passou de piloto de caças
com dificuldade para ingressar na escola de pilotos de testes a
piloto do módulo de comando no primeiro pouso lunar. Armstrong
gostava muito de Collins, um sujeito bem-humorado e brincalhão;
era ainda atencioso, articulado e inteligente. Muito tempo depois
da missão da Apollo 11, Mike comentou: “Um relacionamento
mais próximo, ainda que não fosse necessário para o sucesso ou
final feliz de um voo espacial, seria mais ‘normal’ para mim.
Mesmo sendo um solitário assumido, acho um pouco esquisita
nossa tendência como equipe de transmitir somente as
informações essenciais, sem falar nada sobre nossos
pensamentos e sentimentos.”
* * *
Nascido em 30 de janeiro de 1930 em Glen Ridge, Nova Jersey,
Edwin Eugene Aldrin Jr. era o filho caçula de um piloto do
Exército — pai também de duas meninas — que lutou na
Primeira Guerra Mundial. Gene Aldrin, homem muito instruído, já
tinha um doutorado pelo Instituto de Tecnologia de
Massachusetts (MIT) quando entrou para a aviação militar. Ao
ser designado para a reserva, em 1928, Aldrin pai se tornou
corretor da bolsa de valores, mas abandonou a profissão pouco
antes da crise deflagrada em 1929.
Gene Aldrin conheceu a esposa, Marion, filha de um capelão
do Exército, quando servia nas Filipinas. A autobiografia de Buzz,
Return to Earth (Volta à Terra), de 1973, conhecida por tratar com
franqueza sobre sua batalha contra o alcoolismo e a depressão
nos anos posteriores ao voo da Apollo 11, mostra sua infância
como o caso clássico do menino que busca a todo custo a
aprovação do pai. Depois de estabelecer a família em Montclair,
também em Nova Jersey, Gene Aldrin se tornou executivo da
Standard Oil, e raramente parava em casa. Quando saiu da companhia, em 1938, tornou-se consultor independente de
aviação. Entre seus contatos profissionais estavam Charles
Lindbergh, Howard Hughes e Jimmy Doolittle.
Com tantas conversas sobre aviação na casa da família Aldrin,
é natural que Buzz tenha se interessado pelo assunto. Quando
os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial, Buzz
tinha onze anos. Aldrin pai retomou suas atividades de coronel
no Pacífico sul e depois na Europa, onde estudou táticas de
guerra antissubmarina. Quando o conflito terminou, ele servia
como chefe do Centro de Meteorologia Aeronáutica, no
aeródromo de Wright, Ohio. Depois do ensino médio, Buzz foi
para West Point e se formou sendo o terceiro melhor aluno de
sua turma (o pai quis saber quem ficou em primeiro e em
segundo). Lutou na Coreia com a 51a Ala de Caça; sua unidade
chegou a Seul em 26 de dezembro de 1951 em um interceptador
F-86. Nesse mesmo dia, com o vento chegando a quase 160
quilômetros por hora no mar do Japão, Neil Armstrong saía de
Yokosuka a bordo do porta-aviões Essex para sua terceira
rodada de combate, sobrevoando a Coreia do Norte. Quando o
cessar-fogo final foi negociado, em 1953, Aldrin tinha voado um
total de 66 missões, incluindo três encontros com MiGs
soviéticos.
De volta aos Estados Unidos, Aldrin ficou na Base Aérea de
Nellis, em Nevada, como instrutor de artilharia. Casou-se em
1954 e, no ano seguinte, inscreveu-se para uma missão de três
meses na Escola de Oficiais de Esquadra, no Alabama. Ao
terminar a qualificação na escola de oficiais, mudou-se para
Colorado Springs, onde serviu como assistente do general Don
Z. Zimmerman, reitor da nova Academia da Força Aérea dos
Estados Unidos. Em agosto de 1956, Buzz entrou para a 36a Ala
de Caça Diurna, baseada em Bitburg, Alemanha, onde morou por
três anos. Pilotou o F-100, o caça mais sofisticado da Força
Aérea, e praticou ataques nucleares contra alvos por trás da
Cortina de Ferro. Nesse momento, a família Aldrin já tinha três
filhos. Um dos amigos que Buzz fez em Bitburg foi Ed White. Em
1958, quando concluiu seu período na Alemanha, Ed se
inscreveu na Universidade de Michigan para estudar aeronáutica. Naquela época, Aldrin já estava de olho na escola experimental
de pilotos de testes da Força Aérea em Edwards, mas, como
White, queria primeiro se qualificar melhor. Pediu que a Força
Aérea o enviasse para o MIT e, em três anos, terminou seu
doutorado. Na primavera de 1962, quando começava o
doutorado, inscreveu-se para a seleção da segunda turma de
astronautas, para a qual Ed White e Neil Armstrong foram
selecionados. Quando a NASA anunciou uma terceira seleção,
Buzz recebeu ordens para trabalhar em experimentos do
Departamento de Defesa que incluíam voos a bordo da
espaçonave Gemini, mas acabou indo para Houston de uma
outra maneira. Passando pela bateria de testes psicológicos e
físicos, o major Edwin E. Aldrin Jr. tornou-se um dos quatorze
astronautas anunciados ao público em 17 de outubro de 1963, na
mesma turma de Mike Collins. Escolhido logo no início do
treinamento para o planejamento da missão, Aldrin se tornou
membro da comissão do Centro de Espaçonaves Tripuladas para
aproximação e reentrada.
Como astronauta, Aldrin mostrava uma curiosa combinação de
ambição e ingenuidade, de manipulação e total objetividade. Sem
saber com que critério Deke Slayton selecionava as tripulações,
Buzz decidiu pedir para ser escolhido. A tática, no entanto, saiu
pela culatra, e Aldrin foi posto como reserva de Cernan para a
Gemini X. Segundo o costume, ele pularia dois voos e estaria na
equipe principal da Gemini XIII, mas o programa acabou sendo
encerrado com a Gemini XII.
Com a morte de dois membros da tripulação original da
Gemini IX, Elliot See e Charlie Bassett, em fevereiro de 1966, a
ordem foi alterada. Jim Lovell e Buzz passaram de reservas da
Gemini X para reservas da Gemini IX. Com a mudança de
tarefas, Lovell e Aldrin entraram para a tripulação principal da
Gemini XII, que encerraria o programa. O quintal da casa da
família Aldrin, em Nassau Bay, era ligado ao de Charlie e Jeannie
Bassett. As duas famílias e seus filhos haviam cultivado uma
estreita amizade. Certo dia, depois da morte do marido, Jeannie
Bassett chamou Buzz para conversar e garantiu que “Charlie achava que você deveria ter sido escolhido desde o início. Eu sei
que ele ficaria satisfeito.”
Buzz acabou realizando um dos voos mais bem-sucedidos do
Programa Gemini, que incluiu sua impressionante atividade
extraveicular de cinco horas.
Armstrong ainda não conhecia Aldrin muito bem quando os
dois, acompanhados por Jim Lovell, foram escolhidos para a
reserva da Apollo 9, cuja tripulação principal era formada por
Frank Borman, Mike Collins e Bill Anders. A certa altura, a NASA
decidiu usar a Apollo 8 para a missão circunlunar. Então, a Apollo
9 se tornou Apollo 8, e a Apollo 8, programada para ser o
primeiro voo do módulo lunar, tornou-se Apollo 9. As equipes
depois foram rearranjadas por conta da cirurgia de Mike Collins.
Lovell o substituiu na Apollo 8 e foi substituído por Fred Haise na
tripulação reserva, com Armstrong e Aldrin. Na opinião de Aldrin,
sua escolha para ficar com Armstrong quando chegou a vez
deles de integrar a tripulação principal, provavelmente na Apollo
11, foi automática. Ainda assim, Slayton deu a Armstrong a
opção de substituí-lo por Lovell.
De início, é possível que Deke Slayton tenha posto Aldrin com
Armstrong na equipe reserva da Apollo 9 (que se tornou Apollo 8)
por achar que os demais comandantes não trabalhariam tão bem
com ele. Deke sabia que a personalidade de Aldrin incomodava
diversos astronautas. “Não tenho certeza se identifiquei nele,
naquela época, alguma excentricidade”, relatou Armstrong. “Buzz
e eu tínhamos ido para a Coreia, e suas habilidades de voo eram
boas, não tenho dúvida. Era inteligente, criativo e estava sempre
disposto a dar sugestões. Para mim, era uma boa pessoa para
se ter como colega de trabalho, e realmente não tivemos
qualquer problema até aquele momento.” Como técnico
responsável pela vedação final da cápsula dos astronautas,
Guenter Wendt viu todas as tripulações do Programa Apollo em
ação. “Eles pareciam não se entrosar como equipe. Geralmente,
quando a tripulação de uma missão é escolhida, os integrantes
se comportam como se estivessem grudados uns nos outros.
Onde estava um, estavam os três. Mas aquele trio! Sempre que
parávamos para o almoço, eles comiam separados. Não se via muita camaradagem entre eles, e é por isso que eu sempre disse
que eles eram a primeira tripulação que não era uma tripulação
de verdade.”