O Primeiro Homem na Lua
Capítulo 5: Asas de ouro
CAPÍTULO 5
Asas de ouro
Se Neil Armstrong não tivesse sido aviador naval, não teria sido o
primeiro homem a pisar na Lua.
O primeiro americano a voar no espaço, Alan B. Shepard Jr.,
era um aviador da Marinha dos Estados Unidos, assim como o
comandante do primeiro voo da Apollo, Walter M. Schirra. Da
dúzia de privilegiados a pisar na Lua, sete usavam ou tinham
usado as asas de ouro da Marinha. Mais notável ainda, seis dos
sete comandantes escolhidos para pilotar a nave Apollo para os
pousos lunares eram aviadores navais. Isso se refere não
apenas ao primeiro homem a pisar na Lua, mas também ao
último até hoje, Eugene A. Cernan, da Apollo 17. Entre
Armstrong e Cernan, os pilotos da Marinha Charles “Pete”
Conrad Jr. (Apollo 12), Alan Shepard (Apollo 14) e John W.
Young (Apollo 16) pilotaram a espaçonave Apollo até o pouso na
superfície lunar. O capitão da Marinha James A. Lovell Jr.
também o teria feito não fosse o dramático acidente com o voo
da Apollo 13. Apenas David R. Scott (comandante da Apollo 15)
foi piloto da Força Aérea dos Estados Unidos.
Em 1955, o governo Eisenhower selecionou o Vanguard da
Marinha para ser o primeiro satélite americano. (Desde 1946, a
Marinha começara a realizar estudos de viabilidade de comando
e controle da frota por meio de satélites da Terra. Os foguetes
Viking do Laboratório de Pesquisas Navais e do Departamento
de Pesquisa Naval bateram grande número de recordes de
altitude, entre eles em um voo de maio de 1949 que chegou a 82
mil metros.) O programa Vanguard, iniciativa em parceria com a
Academia Nacional de Ciências, tinha ficado atrás dos Sputniks
soviéticos, que haviam sido lançados pela primeira vez no outono de 1957. Em dezembro, o programa Vanguard sofreu a
humilhação de uma explosão na plataforma de lançamento no
Cabo Canaveral transmitida pela televisão para todo o país.
Ninguém morreu naquele que passou a ser chamado de “Flopnik”
(flop = fiasco) e “Kaputnik”, (kaput = pifado), mas o acidente
reforçou a decisão do presidente Eisenhower, tomada depois do
Sputnik 2, de dar carta branca ao programa de satélite do
Exército, liderado pelo dr. Wernher von Braun. No último dia de
janeiro de 1958, a equipe de Von Braun lançou o primeiro satélite
do país, o Explorer I, na primeira tentativa. O Vanguard continuou
em terra firme até março de 1958.
Contudo, grande parte do que se tratava o programa espacial
americano seria definido “ao modo naval”. Os satélites TRANSIT
de serviço, lançados pela primeira vez em abril de 1960,
comprovaram a eficácia desses corpos como orientadores da
navegação. Três homens do grupo original de sete astronautas
da Mercury eram aviadores navais (Shepard, Carpenter e
Schirra) e um (Glenn) voava como fuzileiro naval. Cinco dos
“New Nine” (“novos nove”), o segundo grupo de astronautas, do
qual Armstrong fazia parte, eram pilotos da Marinha (Armstrong,
Conrad, Lovell, Stafford e Young), em um predomínio que
ocorreria em muitas tripulações futuras.
O treinamento de um aviador naval culminava com um pouso
no convés de um porta-aviões. Entre fevereiro de 1949, quando
se apresentou ao comandante da base aeronaval de treinamento
aéreo de Pensacola, Flórida, que tinha 1.620 hectares, e agosto
de 1950, quando, apenas duas semanas depois de seu vigésimo
aniversário, recebeu solenemente suas asas de ouro, Armstrong
tinha passado pelo teste.
Em 26 de janeiro de 1949, chegaram ordens para que Neil e
seus colegas de classe na Purdue — Donald A. Gardner,
Thomas R. “Tommy” Thompson, Peter J. “Pete” Karnoski e Bruce
E. Clingan — começassem o treinamento de voo.
Neil foi de trem de Wapakoneta a Cincinnati, onde ao grupo se
juntaram dois outros estudantes de Holloway (da Universidade de
Miami em Ohio), David S. Stephenson e Merle L. Anderson, para
a viagem de 1.150 quilômetros de trem a Pensacola. Em 24 de fevereiro de 1949, oito dias depois de se submeterem a exames
médicos na base aeronaval, eles fizeram o juramento de guarda-
marinha, a graduação mais baixa de oficial da Marinha dos
Estados Unidos.
A Marinha deu o nome de Turma 5-49 ao grupo de
treinamento pré-voo ao qual Armstrong (número de série
C505129) e seus seis amigos pertenciam; era a quinta turma a
dar início ao treinamento na base aeronaval de Pensacola em
1949. Naquele ano, a cada duas semanas formavam-se novas
turmas, totalizando quase dois mil homens em treinamento.
Ainda durante a Segunda Guerra Mundial, nada menos que
1.100 cadetes começavam o treinamento pré-voo a cada mês.
Só em 1945, 8.880 homens completaram o treinamento de voo
com a Marinha dos Estados Unidos.
Quarenta aspirantes pertenciam à Turma 5-49, que incluía um
número mais ou menos equivalente de cadetes navais,
“NavCads”, cadetes selecionados para o treinamento de voo. O
treinamento teórico em solo do “pré-voo” durava quatro meses.
Durante as dezesseis semanas em sala de aula, Armstrong e
seus colegas frequentaram cursos intensivos de navegação
aérea, comunicações, engenharia, aerologia (ou seja,
meteorologia) e princípios de voo. Estudaram aerodinâmica e os
princípios dos motores de aeronave. Aprenderam a enviar
mensagens em código Morse e os princípios básicos da previsão
do tempo. A Marinha exigia também 87 horas de treino físico e
treze horas de tiro prático, entre outros cursos. Armstrong e os
demais foram instruídos por fuzileiros, aprenderam técnicas
básicas de voo com fuzileiros e foram disciplinados por fuzileiros.
O treino incluía nadar 1.600 metros na piscina da base e
passar por um aparelho de tortura chamado Treinador Multifásico
de Afundamento (ou “Dilbert Dunker”). O candidato,
completamente vestido e equipado com um paraquedas, era
amarrado a uma simulação de cabine de comando que era
enviada sobre trilhos para dentro de uma piscina. Sua tarefa
consistia em soltar o arnês, desvencilhar-se do canopi virado,
sair da cabine que estava afundando e nadar para a superfície
antes de ficar sem ar. Muitos precisavam da ajuda de homens-rãs para sobreviver ao Dunker, mas Armstrong enfrentou a
provação com tranquilidade.
A Turma 5-49 concluiu as dezesseis semanas de pré-voo em
18 de junho de 1949. As notas de Armstrong alcançaram a média
de 3,27 em uma escala que chegava a 4, o que o colocou entre
os dez primeiros da turma.
Seis dias após a conclusão do treinamento pré-voo, a Turma
5-49 mudou-se para o Whiting Field para o estágio A de
treinamento de voo. O Whiting, o maior aeródromo auxiliar da
base aeronaval de Pensacola, era formado pelos aeródromos
Norte e Sul, separados por uma distância de 1,6 quilômetro, cada
um equipado com quatro pistas pavimentadas de 1.800 metros.
O instrutor de Armstrong foi Lee R. P. “Chipper” Rivers, “um
excelente instrutor, um pouco autoritário, mas divertido”. O
estágio A incluía vinte voos, dentre os quais o A-19 tinha se
tornado o voo de teste para o “liberado para voo solo”, e o A-20
era o primeiro voo solo, no SNJ da North American, o avião mais
famoso da Segunda Guerra Mundial, com trem de pouso retrátil e
motor radial de seiscentos cavalos. “O SNJ foi um grande passo
para mim tanto em relação aos Aeroncas quanto aos
Luscombes”, explicou Armstrong. Sua “finesse e seu controle de
forças” superiores em voo “tornavam-no muito parecido com o
F6F Hellcat, que foi o principal caça da Marinha na Segunda
Guerra Mundial”. Em todos os aspectos, o SNJ era “um avião de
treino ideal”.
O primeiro voo de Neil no SNJ foi em 6 de julho de 1949. Nas
muitas aulas seguintes, Armstrong se esforçou para reduzir suas
deficiências, principalmente no que dizia respeito ao pouso. Seu
15o voo foi em 23 de agosto com um instrutor diferente, que
qualificou a tentativa como “insatisfatória” no geral, em especial
pelas aproximações (“ultrapassou a linha do vento todas as
vezes”). Embora Armstrong continuasse tendo problemas com o
controle da altitude e da velocidade e na avaliação de suas
aproximações, Rivers deu a Neil mais notas dentro da média do
que abaixo da média. Depois do 18 o voo, River achou que Neil
estava “liberado para voo solo”. Depois de um voo de cheque na
quarta-feira, 7 de setembro, Armstrong realizou seu primeiro voo solo pela Marinha. Depois dele, segundo a tradição da
corporação, um grupo de colegas de Neil cortou a metade inferior
de sua gravata, e Armstrong deu a Chipper Rivers uma garrafa
de seu uísque preferido. O estágio B do treinamento básico —
manobras — começou no dia seguinte ao do primeiro voo solo de
Armstrong. Ele fez dezessete voos em dezenove dias.
Em 27 de setembro de 1949, o instrutor de voo de cheque de
Neil fez sua avaliação final: “O aluno conhecia bem todo o
trabalho e mostrou-se apto a voar dentro ou acima da média na
maior parte das vezes. Perto do fim do período ele ficou tão
nervoso que isso começou a refletir em seu trabalho. Deve ser
capaz de continuar no programa e tornar-se um piloto mediano.”
O estágio C — acrobacia aérea — começou na semana
seguinte no Corry Field, ali perto. Armstrong mostrou-se “acima
da média” desde o início em “estol invertido, tonneau barril e
loops”. No estágio D, Armstrong e seus companheiros “voaram”
no simulador de voo Link Trainer, máquina do fim da década de
1920 (que entraria em estol e parafuso se manobrada
incorretamente) equipada com o manche, o manete e os pedais
do leme de um caça monomotor, assim como um conjunto de
instrumentos de navegação convencionais.
Mas a prova real era feita no “voo capota”, no assento de trás
do SNJ. Em um voo com somente parte do painel de
instrumentos, o instrutor desligava o horizonte artificial e o
giroscópio direcional. Nesse treinamento, Armstrong intuiu pela
lógica a confiar apenas nos instrumentos, uma competência que
ele mais tarde aplicaria na pilotagem de espaçonaves no vácuo
espacial.
O estágio D de Armstrong foi marcado por “transições fracas”,
mas em seus dez voos por instrumentos nesse estágio ele só
recebeu aprovações.
Seus cinco voos seguintes (entre 15 e 18 de novembro)
estavam dentro da fase de radionavegação aeronáutica do
estágio D, durante os quais os instrutores continuaram tentando
aperfeiçoar o fraco controle de altitude de Neil.
Ele fez os dois voos noturnos obrigatórios (estágio E) na
sexta-feira 4 de novembro, ambos com aprovação. Até o Dia de Ação de Graças de 1949, Armstrong tinha concluído os cinco
primeiros estágios do treinamento básico. Executara quarenta
voos, com 39,6 horas acompanhado por um instrutor e 19,4
horas em voo solo.
Saufley Field, um campo de pouso auxiliar (da sigla em inglês
OLF) a noroeste de Pensacola e longe de Perdido Bay, foi onde
transcorreu o voo em formação (estágio F), realizado
simultaneamente com o combate primário (estágio H) e
navegação transnacional (estágio I), pelos quais ele teve
avaliações muito favoráveis no fim de janeiro de 1950. Embora
os tiros terrestres e os bombardeiros picados tenham se
mostrado difíceis para ele, sua pontaria foi excelente.
Os alunos que chegaram à qualificação em porta-aviões
alcançaram o ponto crucial no qual eram formados os pilotos
navais. No fim de fevereiro de 1950, Armstrong iniciou o
treinamento básico final em Corry Field. O treinamento para
pouso em porta-aviões (da sigla em inglês FCLP, Field Carrier
Landing Practice) foi ministrado em uma pista de 180 metros de
comprimento pintada em um OLF que ficava 37 quilômetros a
oeste de Pensacola. O lugar era conhecido como “Barin
Sangrento” por causa do grande número de acidentes ocorridos
ali durante a Segunda Guerra Mundial.
A turma de dez homens de Neil passou as três semanas
seguintes aprendendo a seguir “fielmente as instruções de um
oficial de sinalização de pouso [da sigla em inglês LSO, landing
signal officer]”, explicou Armstrong. “O LSO tinha uma raquete de
sinalização em cada mão e, somente através das posições delas,
informava se você estava um pouco mais alto ou mais baixo, um
pouco rápido demais, ou se precisava curvar um pouco mais. Se
o LSO julgar que o pouso não será bem-sucedido ou seguro”,
disse Armstrong, “ele acenará com as raquetes para o piloto —
uma espécie de aceno para abortar —, e este imediatamente
imprime motor a pleno, arremete e tenta mais uma vez.” Depois
do voo de teste K-12, Neil recebeu a “qualificação de campo” e
estava pronto para seu primeiro pouso no mar.
Em 2 de março de 1950, Armstrong dirigiu-se para o golfo do
México para realizar os seis pousos exigidos pelo estágio L no USS Cabot — um porta-aviões leve que estava a uma pequena
distância de Pensacola. “O SNJ era um aeroplano de velocidade
relativamente baixa”, recordou ele, “e mesmo percorrendo o
convés a trinta nós era possível decolar com facilidade, sem o
auxílio de uma catapulta”. O pouso, é claro, era o maior
problema. A sabedoria naval diz que “um bom pouso em um
porta-aviões é aquele do qual você sai andando. Um ótimo pouso
em um porta-aviões é aquele depois do qual você pode usar o
avião outra vez”.
Armstrong compara seu primeiro pouso em um porta-aviões
ao seu primeiro voo solo em Wapakoneta, outra “grande
conquista emocionante” em sua vida de aviador. “É sem dúvida
um tipo de voo de extrema exatidão. Só funciona porque você, de
um modo muito preciso, encaixa seu avião naquela estreita
janela que vai permitir o pouso seguro em um convés de voo
muito curto.”
Ele conta que nunca recebeu sinal de abortar e foi aprovado
em pousos em porta-aviões. De suas notas, nove foram “médias”
e duas “abaixo da média” — uma por “partidas rápidas” e outra
por “mau alinhamento” na aproximação final. Com isso, ele
concluiu o treinamento básico e passou para o treinamento
avançado.
“Solicitei caças, e por sorte fui designado para caças” na base
aeronaval Corpus Christi. “Os pilotos de caça sempre diziam que
só os melhores conseguem se tornar pilotos de caça”,
reconheceu, rindo. “Na minha opinião, grande parte disso tem a
ver com as necessidades da Marinha no momento em que você
se forma.” E acrescenta: “Fui designado para o F8F-1 Bearcat
para meu treinamento avançado, e adorei, porque era um avião
de altíssimo desempenho.” Tendo voado pela primeira vez em
1944, o Bearcat, com seu canopi todo em “bolha”, foi o último
caça de motor a pistão construído pela Grumman para a
Marinha. Muitos consideram que foi o melhor caça de motor a
pistão em serviço na Marinha dos Estados Unidos no fim da
Segunda Guerra Mundial. Era um avião pequeno, com uma
excepcional razão peso-potência que combinava grande
agilidade com alta velocidade, fazendo até setecentos quilômetros por hora (377 nós). Comparado a qualquer coisa que
Armstrong já tivesse pilotado, o Bearcat era fora de série, com
aceleração e velocidade vertical fantásticas.
No Cabaniss Field, uma das seis bases auxiliares remotas da
Corpus Christi, Neil começou seu aprendizado com a Unidade de
Treinamento Avançado número 2 do esquadrão VF em 28 de
março de 1950. Nos três meses que terminaram em 21 de junho
de 1950, ele tinha realizado 39 voos e passado setenta horas no
ar, das quais 69 em voo solo. Seus últimos cinco voos em
Cabaniss apresentaram grandes progressos.
Em meados de julho de 1950, Neil estava de volta à base
aeronaval de Pensacola preparando-se para os próximos seis
pousos de qualificação, dessa vez na cabine de comando de um
F8F Bearcat. Em seu 15o voo da FCLP, em 10 de agosto,
Armstrong foi declarado qualificado.
Seu destino no dia seguinte foi o golfo do México e o USS
Wright (CVL-49). Armstrong teve um dia excepcionalmente bom
no mar — nem uma só nota “abaixo da média”. Como disse Neil,
segurando um sorriso: “O Bearcat podia decolar em uma
distância bem curta. Eles queriam que você ainda estivesse na
pista com a aeronave no momento em que passasse por todos
os oficiais de alta patente presentes no passadiço.” Não se
tratava apenas de uma questão de decoro militar. “Assim que as
rodas são erguidas, você fica sujeito ao vento, que pode desviá-
lo de um modo ou de outro”, possivelmente direto para o
passadiço.
* * *
Em 16 de agosto de 1950, cinco dias depois de se qualificar no
F8F com excelência em pousos em porta-aviões, a Sede do
Comando de Treinamento Aeronaval da base de Pensacola
informou por carta ao aspirante que ele tinha “concluído com
sucesso todo o curso do programa de treinamento prescrito para
aviadores navais” e que “de agora em diante será designado
como aviador naval (mais pesados que o ar)”.
A formatura ocorreu uma semana depois, em 23 de agosto. A
mãe e a irmã de Neil dirigiram por mais de 1.300 quilômetros
para comparecer ao evento. Seu pai não pôde estar presente por
estar testemunhando em um tribunal.
Depois de uma breve licença, o aspirante Neil Armstrong
apresentou-se ante o ComAirPac, ou seja, Comando Aéreo da
Frota do Pacífico — “para serviços referentes a voo”. Armstrong
explicou: “Normalmente, você pede para ser designado para uma
tarefa que tenha a ver com seu treinamento recente. No meu
caso, eram caças, por isso eu ia pedir para entrar em um
esquadrão de caças, podendo optar pela costa leste ou pela
costa oeste. Eu nunca tinha estado na costa oeste e achei que
seria bom conhecer aquela parte do país.”
Ao chegar à Califórnia no começo de setembro de 1950,
Armstrong serviu dez semanas no Esquadrão de Serviço da
Frota Aérea 7 (da sigla em inglês, FASRON, Fleet Aircraft
Service Squadron) — na base aeronaval de San Diego (chamada
de North Island a partir de 1955). De 27 de outubro a 4 de
novembro de 1950, Armstrong treinou na escola de apoio aéreo
aproximado dirigida pelo Corpo de Fuzileiros Navais em sua base
anfíbia na vertente sul da ilha Coronado, ao largo da base
aeronaval San Diego. Oitenta quilômetros a norte do Camp
Pendleton, exercícios de combate aéreo simulado faziam com
que pilotos “ofensivos” (Neil continuava pilotando um F8F-2)
encontrassem e atacassem alvos “inimigos” em terra e
destruíssem sua “defesa”.
Em 27 de novembro de 1950, o ComAirPac ordenou que
Armstrong e Herb Graham, seu companheiro de treinamento pré-
voo e FASRON 7, “partissem imediatamente para se apresentar
ao oficial comandante do Esquadrão de Caça 51”. Tratava-se de
um esquadrão veterano que acabava de retornar ao país a bordo
do porta-aviões USS Valley Forge. Era o primeiro dos três
cruzeiros ao Extremo Oriente que o VF-51 faria durante a Guerra
da Coreia.
Armstrong queria pilotar jatos no VF-51, o primeiro esquadrão
da Marinha dos Estados Unidos composto exclusivamente por
jatos. Como disse Herb Graham: “Quando o VF-51 estava sendo formado, em 1950, jatos e pilotos de jato treinados eram
escassos, e o intuito era que o VF-51 contasse apenas com jatos
F9F-2s. Neil estava naquele grupo, e era um jovem piloto
excelente. Era um sonho.”
O oficial incumbido do comando do VF-51 era o capitão de
corveta Ernest “Ernie” Beauchamp. Tendo sido instrutor de voo
na base aeronaval de Pensacola antes do ataque a Pearl Harbor,
Beauchamp pilotou F-6F Hellcats da Grumman durante a
Segunda Guerra Mundial com o VF-8, participante decisivo na
vitória nas Filipinas. A bordo do USS Bunker Hill em meados de
1944, o esquadrão de Beauchamp derrubou, em seis meses, 156
aeronaves japonesas, revelando treze ases, pilotos que tinham
destruído cinco ou mais aviões inimigos em combate ar-ar. Mas
Ernie era mais do que um excepcional piloto de caça. Ele tinha
uma mente brilhante para táticas de caça. Na primavera de 1945,
Beauchamp assumiu o comando do Esquadrão de Caça VF-1, a
bordo do USS Midway, mas a guerra no Pacífico terminou antes
que o esquadrão decolasse.
Beauchamp permaneceu na Marinha depois da guerra,
mantendo o comando de seu esquadrão antes de assumir o
cargo de vice-chefe de operações aeronavais no Departamento
da Marinha em Washington. Em 25 de junho de 1950, o dia em
que começou a Guerra da Coreia, o capitão de corveta
Beauchamp abandonou sua mesa de escritório para assumir o
comando do VF-51, a coisa mais próxima de um esquadrão
escolhido a dedo que a Marinha já tivera.
Durante seu tempo de serviço na base aeronaval North Island
como oficial-chefe de uma novíssima unidade de transição de
jatos (da sigla em inglês JTU, jet transition unit) para pilotos da
reserva dos esquadrões F4U que tinham sido novamente
convocados para a ativa, Beauchamp não só viu os recordes
como observou o desempenho de um grande número de pilotos.
“Só dois ou três pilotos do VF-51 [então] mobilizados estariam
disponíveis para um segundo turno”, revelou Beauchamp em
2002. Ele conseguiu garantir a convocação de quatro de seus
aviadores veteranos. O tenente Richard M. Wenzell (que se
tornou o chefe de operações do VF-51), o tenente William A. Mackey, o tenente Daniel V. Marshall e o capitão de corveta
Bernard Sevilla.
Mesmo assim, Beauchamp estava com poucos pilotos.
Segundo “Wam” Mackey, Beauchamp recrutou mais quatro
aviadores do Whiting Field: os instrutores de JTU LTJG Robert E.
Rostine e LTJG John Moore; além de graduados JTU e os
membros da turma 5-49 LTJG Thomas B. Hayward (futuro chefe
de operações navais) e o LTJG Ross K. Bramwell. Beauchamp
disse aos nove oficiais escolhidos que aplicassem “um pente
fino” em mais onze novatos, aviadores que ainda não tinham
destinação.
Ninguém jamais reivindicou o crédito por ter identificado
Armstrong como uma pessoa adequada para o VF-51.
Completando o grupo, com Armstrong e Graham, estavam, em
ordem alfabética de sobrenome: o ENS James J. Ashford, o
LTJG William W. Bowers, o LTJG Leonard R. Cheshire, o ENS
Hershel L. Gott, o ENS Herbert A. Graham, o ENS Robert J.
Kaps, o ENS Kenneth E. Kramer, o ENS Donald C. McNaught, o
ENS Glen H. Rickelton, o LTJG George E. Russell e o LTJG
Harold C. Schwan. Continuavam no VF-51 desde o cruzadeiro do
Valley Forge o LTJG Francis N. Jones e o LTJG Wiley A. Scott. O
esquadrão teve a sorte de manter chefes e suboficiais de
primeira classe experientes. Os novatos do VF-51 ainda
encaravam um processo de seleção competitivo. Uma
desvantagem potencial para Armstrong foi que, na época em que
foi designado para o esquadrão, no fim de novembro de 1950,
ele nunca tinha pilotado um jato.
Alguns diziam que passar dos aviões a hélice para os jatos
“era como mudar de um carro de corrida de alta potência com
câmbio de quatro marchas para um carro mais veloz e de câmbio
automático”. Outros diziam que a transição era mais
problemática. Na sexta-feira 5 de janeiro de 1951, Armstrong
decolou pela primeira vez em um jato F9F-2B da Grumman. O
primeiro voo “espetacular” no Panther durou pouco mais de uma
hora e foi mais “um daqueles momentos mágicos” na carreira de
piloto de Neil. “Para mim, foi emocionante estar na linha de frente
dos novos caças a jato.”
Embora Neil tivesse completado vinte anos poucos meses
antes, seus camaradas aviadores o tinham em alta conta. Wam
Mackey caracterizou Neil como “muito sério e muito dedicado.
Era um bom jovem piloto — um aviador muito consistente, muito
confiável”. Mas era Beauchamp em pessoa quem tinha de ficar
impressionado, e ele ficou. Como o esquadrão tinha poucos jatos
(seis aeronaves para 24 pilotos), voar era, nas palavras de
Armstrong, “um tanto insuficiente” — cerca de três voos por
semana para cada aviador durante os primeiros dois meses e
meio de 1951. Em meados de março, a névoa do inverno tinha
se dissipado e o VF-51 estava todo completo, o que permitiu a
cada piloto realizar de cinco a sete voos semanais, mas de
tempos em tempos conservando sua prática em instrumentos
voando “voo capota” em velhos bimotores Beechcraft SNB de
treinamento.
Enquanto o esquadrão treinava, o espectro do inimigo se
aproximava. “Percebemos que possivelmente estaríamos em
perseguição de MiGs-15 com asas em flecha”, relembra Herb
Graham. “Eles voavam acima de nossa velocidade máxima e
eram capazes de chegar a velocidades maiores que nossa
velocidade-limite de mergulho. Foi parecido com o começo da
Segunda Guerra Mundial, quando os caças F4F Wildcat da
Marinha enfrentavam os Zeros japoneses de alta performance.”
Depois de ler o relatório de combate sobre os embates dos
Panthers contra a “performance superior” dos MiGs no fim de
1950, Beauchamp ficou “seriamente preocupado” com a
possibilidade de que os MiGs tivessem “pilotos tão agressivos e
bem treinados quanto os nossos, e que nossas perdas, de pilotos
e aviões, pudessem ser grandes”.
Segundo Armstrong: “Não sabíamos até que ponto
deveríamos ser ofensivos, ou seja, soltar bombas e disparar tiros,
nem até que ponto privilegiar a defesa de nossa frota contra
aviões chineses ou russos, ou até que ponto aquilo seria ar-ar ou
ar-terra. Eu era muito jovem, muito imaturo.”
Frente à ameaça representada pelos MiGs russos e na luta
para manter a concentração em um pesado cronograma de
treino, os pilotos que não eram casados moravam nos alojamentos de oficiais solteiros em North Island. Se a idade e a
juventude de Armstrong não o destacava dos demais, seus
passatempos o faziam. Além de ser um ávido leitor, ele
continuava apaixonado pela construção de aeromodelos. Mais
uma vez, a finalidade do treinamento era a qualificação para
pousar o Panther em porta-aviões, desta vez no USS Essex (CV-
9), de 27.100 toneladas, recentemente modernizado. Neil já tinha
feito doze pousos em porta-aviões — seis com o SNJ e seis com
o F8F. Os pilotos mais velhos tinham muito mais pousos em
porta-aviões com aviões a hélice, mas não tinham mais
experiência que Neil em jatos. “As velocidades tendiam a ser
maiores no jato”, Neil observou. “Voávamos normalmente a
pouco mais de 185 quilômetros por hora como padrão, o que era
talvez vinte nós mais rápido do que com o Bearcat.”
“Acontece que me tornei um piloto de caça diurno”, diz
Armstrong com animação. “Tínhamos pilotos de caça noturnos
na embarcação, e eu achava que eram loucos.” Ele foi
qualificado em 7 de junho de 1951, dois meses antes de seu 21o
aniversário e dois dias depois da data de indicação para sua
promoção a segundo-tenente. Na aproximação final, com toda a
concentração voltada para as raquetes do sinalizador, Armstrong
reduziu a velocidade para cerca de 105 nós, pouco acima da
velocidade de estol. Em um instante, a rampa do Essex brilhou
abaixo dele, o jato caiu de forma abrupta e o indispensável
gancho de parada felizmente pescou um dos cabos de parada. A
apenas 45 metros de distância da barreira de proteção, o F9F
Panther de Armstrong parou com um solavanco, e foi num piscar
de olhos de 105 nós a zero. Armstrong enfrentou o LSO e seu
pequeno livro verde de recordes mais sete vezes naquele dia.
Depois daquele primeiro pouso de tirar o fôlego em um porta-
aviões com um jato, Armstrong provou as emoções do “cat shot”,
ser lançado no ar por uma das poderosas catapultas hidráulicas
H8 da Marinha. Àquela altura, depois de oito pousos bem-
sucedidos, Beauchamp deve ter dado por definitiva sua escolha
por Armstrong para integrar o grupo de oficiais do VF-51 que
começariam o cruzeiro do Essex. Um mês antes, Beauchamp o
tinha designado para servir tanto como oficial-assistente para a educação quanto oficial-assistente para a inteligência aérea de
seu esquadrão. Com base em informações fornecidas por
Beauchamp, o capitão Austin W. Wheelock, comandante do
Essex, anotou no relatório de Armstrong em 30 de junho de
1951: “O segundo-tenente ARMSTRONG é um oficial inteligente,
cortês e de porte militar. Como aviador naval, fica entre a média e
acima da média, e está progredindo com rapidez. Recomenda-se
sua promoção quando devido.” As 215 horas de voo no SNJ, as
102 no F8F, as 33 no SNB e as 155 no F9F perfaziam um total de
505 horas no ar desde que Neil entrara para a Marinha.
Na segunda-feira, 25 de junho de 1951, o Esquadrão de Caça
51 recebeu suas ordens. Três dias depois, às 14h30 de 28 de
junho, o Essex levantou âncora. À medida que se aproximava do
arquipélago do Havaí, em 3 de julho, a maior parte de sua frota
aérea voava em direção ao extremo sudoeste da ilha de Oahu.
Na base aeronaval de Barbers Point, a esquadrilha foi
equipada pela primeira vez com pesados lança-bombas. Ken
Kramer lembra: “Esperávamos enfrentar MiGs e provavelmente
tínhamos treinado nossas táticas de combate aéreo mais que
qualquer outro esquadrão. No entanto, nos tornamos um
esquadrão de ataque em terra”, “um balde de água fria para nós”
como aviadores navais.
Contudo, a decisão da Marinha de acrescentar os lança-
bombas foi válida. O FJ-1 não se adaptou ao porta-aviões, entre
outras razões porque continuava perdendo o gancho de parada
do trem de pouso. O VF-51 tornou-se uma unidade de caças-
bombardeiros porque na metade leste da Coreia não havia MiGs
para enfrentar.
O treinamento no Havaí foi de 4 a 31 de julho. Em 23 de
agosto de 1951, o Essex estava a quinze dias de Pearl Harbor, e
já em posição a 110 quilômetros da costa noroeste da Coreia,
perto do porto de Wonsan. A bordo, junto do Esquadrão de Caça
51, estavam um esquadrão de F4U Corsairs (VF-53), um
esquadrão de AD Skyraiders (VA-54) e um esquadrão de jatos
F2H-2 Banshee (VF-172). Estavam embarcados também quatro
destacamentos VC: o VC-61 com aviões de reconhecimento
fotográfico F9F-2P; o VC-3; o VC-11 e o VC-35 (“VC” designa um “esquadrão composto” treinado em ataque e defesa noturnos,
alarme aéreo antecipado e guerra contra submarinos). A troca do
esquadrão de Banshees pelo VF-52 (e seus F9F-2) em Pearl
Harbor foi uma surpresa ingrata para os pilotos dos Panthers,
que não gostaram nem um pouco da ideia de desempenhar
papel secundário em relação aos Banshees.
Eles não precisavam ter se preocupado.