O Primeiro Homem na Lua
Capítulo 8: À beira do espaço
CAPÍTULO 8
À beira do espaço
As condições de ar rarefeito em que Armstrong “disparou” seu
lustroso caça a jato eram bem mais próximas às da superfície
marciana do que qualquer lugar na Terra. Subindo como um raio
a mais de treze mil metros de altitude, ele ultrapassou o limite
biológico além do qual o ser humano não sobrevive sem a
proteção de um traje espacial. Quando a subida praticamente
vertical atingiu 26 mil metros, a pressão atmosférica caiu a seis
milibares, cerca de 1% da pressão no nível do mar. Fora da
cabine de comando, a temperatura despencou para -50ºC.
Isso era o espaço. A única maneira de controlar o avião no
ponto máximo do arco balístico era invocar a terceira lei de
Newton e expelir um pouco de vapor lançando jatos de peróxido
de hidrogênio. Um piloto perto do vácuo pode manobrar seu
avião em arfagem (giro em torno do eixo lateral), em guinada
(giro em torno do eixo vertical) e em rolagem (giro em torno do
eixo longitudinal), da mesma forma que uma espaçonave
tripulada faria mais tarde. Com toda a energia da subida
dissipada, o jato de Armstrong praticamente parou, apoiado
sobre a cauda. Durante meio minuto, no ponto máximo da
subida, ele teve uma sensação de ausência de peso. A cerca de
vinte mil metros de altitude, Neil desligou o motor para evitar
superaquecimento. O engenhoso sistema auxiliar de
pressurização da cabine lançou um jato de gás comprimido.
Ter o motor parado no ponto máximo do arco era fundamental
para o objetivo do teste. Se não fosse desligado, teria provocado
movimentos em guinada que poderiam prejudicar a capacidade
de Neil de controlar a aeronave.
Embicando de nariz para baixo em direção à atmosfera, os
dutos de respiração do jato receberam moléculas de ar
suficientes para permitir que Armstrong religasse o motor, e, a
uma velocidade próxima de Mach 1,8, começasse a se recuperar
do mergulho com ele desligado. Desse ponto em diante, com
sorte, o restante do voo seria mera rotina até a pista de pouso.
Se não religasse o motor, Neil poderia pousar sem ele. Se
necessário, logo depois de tocar o solo, poderia puxar um cordão
e abrir um paraquedas de arrasto preso bem abaixo do
estabilizador vertical para reduzir a distância a percorrer até a
parada.
Desse modo, Neil Armstrong e seus companheiros pilotos de
testes da NASA em Edwards — no comando de um jato
comprido e pontudo apelidado “O Míssil com um Homem”—
realizaram as primeiras incursões ao limite do espaço. Isso se fez
para fins de pesquisa, mais de meio ano antes que o
comandante Alan B. Shepard se tornasse o primeiro americano
no espaço.
Esses fatos atiçaram a imaginação popular. Graças ao best-
seller do escritor Tom Wolfe intitulado Os eleitos, de 1979, e sua
versão cinematográfica, Os Eleitos: Onde o Futuro Começa, de
1983, muita gente acredita que o primeiro homem a chegar ao
limite do espaço em um avião foi o capitão Chuck Yeager, piloto
de testes da Força Aérea Americana. No entanto, muito do que
se escreveu sobre Yeager e seu voo em dezembro de 1963 é
inexato. Mais importante: Yeager e a Escola de Pilotos de Testes
da Força Aérea em Edwards não foram responsáveis por
“desenvolver as primeiras técnicas de manobra no espaço”,
como algumas publicações da Força Aérea afirmaram. A
NACA/NASA, com o X-1B e depois com o F-104, abriu o caminho
para essa nova tecnologia fundamental para a Era Espacial que
se avizinhava. (Os voos do X-1B ocorreram em 1957 e 1958,
mas não foram relevantes para a pesquisa de controle de
reação.) Yeager nem sequer chegou perto de ser o primeiro
piloto a disparar com um avião para a alta estratosfera. Alguns
pilotos de teste da NASA começaram a alcançar 27 mil metros já
no outono de 1960. E com o NF-104A, dotado de um motor-foguete, pilotos da Força Aérea chegaram ao limite da
estratosfera superior antes de Yeager.
Além disso, muito antes de dezembro de 1963, uma máquina
muito mais notável e de maior significado histórico tinha alargado
bem mais os limites do que qualquer F-104. Essa máquina se
chamava X-15, o veículo com asas tripulado mais veloz e capaz
de atingir as maiores altitudes já construído até então — e que
Chuck Yeager nunca pilotou. Criado pela NACA no começo da
década de 1950 e construído pela North American Aviation com
patrocínio da Força Aérea, da Marinha e da própria NACA, o X-
15 foi concebido não apenas para explorar o regime de voos
hipersônicos além de Mach 5 mas também para estudar as
possibilidades de levar um veículo com asas para além da
atmosfera sensível (região em que as superfícies de controle de
voo funcionam para dar sustentação aerodinâmica à aeronave).
O X-15 movido a foguete, um autêntico “avião aeroespacial”, fez
seu primeiro voo em junho de 1959. No fim de 1961, ano em que
o presidente Kennedy se comprometeu com a nação a propiciar
o pouso na Lua, o X-15 atingiu seus principais objetivos de voar a
uma velocidade acima de Mach 6 (mais de 6.400 quilômetros por
hora) a uma altitude de sessenta mil metros. Em 1962, ano em
que os astronautas Glenn, Carpenter e Schirra voaram no
Programa Mercury, o piloto da Força Aérea Robert White, usando
um traje pressurizado semelhante ao dos tripulantes da Mercury,
pilotou um X-15 a mais de oitenta mil metros — altitude que
tecnicamente o qualificou como “astronauta” segundo um critério
inventado pela Força Aérea Americana, mas nunca endossado
pela NASA. O número de pilotos do X-15 que ganharam “asas de
astronauta”, segundo a Força Aérea, chegou a oito. Essa cifra é
maior que a do grupo original de astronautas do Mercury, dos
quais apenas seis foram ao espaço e somente quatro entraram
em órbita (Deke Slayton, astronauta do Programa Mercury,
acabou voando para o espaço em 1975, integrando o Programa
de Testes Apollo-Soyuz).
Depois de mais de trinta voos no F-104, Neil Armstrong pilotou
o X-15 sete vezes antes de se reunir aos astronautas americanos
de segunda classe, em setembro de 1962. Neil nunca chegou acima da marca de oitenta mil metros, mas em 20 de abril de
1962, em seu sexto voo com o X-15, chegou a 63 mil.
* * *
Em retrospecto, o percurso da aeronáutica subsônica para
transônica, depois para supersônica e hipersônica (e, mais além,
para a “hipervelocidade”), parecia inevitável. Quando a Guerra
Fria em seus primórdios se cristalizou em um confronto atômico
entre os Estados Unidos e a União Soviética, o maior interesse
dentro da euforia hipersônica estava no desenvolvimento de um
míssil balístico intercontinental (ICBM, na sigla em inglês)
armado com ogivas nucleares. Contudo, na cabeça de
entusiastas para os quais aeronáutica ainda significava
aeronaves pilotadas e com asas, a ambição consistia em projetar
um veículo movido a foguete para transportar homens e carga
em voos “hiper-rápidos” cobrindo distâncias globais, em
trajetórias que em seu ápice penetrassem o espaço.
Aeronaves de pesquisa experimentais a foguete eram
lançadas do ar em pleno voo. Armstrong pilotou o primeiro deles
em 15 de agosto de 1957, o primeiro voo de verificação do X-1B,
que chegou a dezoito mil metros. Embora fosse a maior já
alcançada por Armstrong até então, a altitude não era suficiente
para que a pressão estivesse baixa a ponto de pôr à prova o
sistema de controle de reação.
Ao pousar, o trem de pouso do nariz “falhou”. Segundo o
relatório oficial de Neil, ele tocou o solo, inadvertidamente, a 315
quilômetros por hora, com a roda dianteira primeiro. “Na verdade,
o aparelho não falhou”, admitiu Neil, “eu o quebrei. Eu estava
pousando no leito do lago seco e tudo estava normal. Mas, ao
tocar o solo, o avião começou a subir e descer, e depois de
diversos balanceios o suporte da roda dianteira falhou. Fiquei
arrasado, é claro, mas me senti um pouco melhor quando soube
que era a 13a a ou 14 vez que isso acontecia [com a série X-1].”
Seu segundo voo no X-1B, em 16 de janeiro de 1958, foi
abortado por causa de problemas do sistema. O X-1B de dez anos voou apenas mais uma vez, em 23 de janeiro, quando
Armstrong e Stan Butchart lançaram o piloto Jack McKay para
uma subida de dezessete mil metros, que não conseguiu reduzir
a velocidade no ápice para checar o controle de reação.
Imediatamente após o voo de McKay, os mecânicos descobriram
fissuras irrecuperáveis no tanque de oxigênio líquido do motor do
foguete, o que pôs fim ao projeto X-1B.
Os jatos supersônicos se distinguiam de seus predecessores
mais lentos pelo desenho de suas asas enflechadas
relativamente mais curtas, por suas formas mais densas e pela
concentração de massa muito maior ao redor da fuselagem. O
que ninguém esperava foi que essa geometria tivesse criado uma
grave dificuldade aerodinâmica conhecida como “acoplamento de
rolagem” (também chamada “acoplamento inercial” ou
“divergência de rolagem”).
Quando Armstrong se apresentou para trabalhar na HSFS, no
verão de 1955, nenhum problema recebia mais atenção do que o
acoplamento de rolagem. O problema ameaçava não apenas o
F-100, mas também o D-558-2, o X-2 e o mais recente avião de
pesquisa da NACA, o Douglas X-3. O X-3 Stiletto, uma aeronave
longa, delgada e em forma de dardo, apresentou instabilidade de
acoplamento durante manobras abruptas de rolamento, o que o
deixou fora de controle. Construído para uma velocidade Mach 2,
o X-3 mal alcançou Mach 1,2, porque nunca recebeu os
turbojatos de alto impulso que se pretendiam para ele. A NACA
aposentou o avião em maio de 1956 depois de apenas vinte
voos, de modo que toda a atenção se voltou para o F-100.
Rapidamente encontraram um reparo a ser feito — o acréscimo
de uma cauda muito maior. Depois, voando com seu próprio F-
100C modificado, a NACA testou uma nova técnica de controle
automático — que usava o amortecimento da arfagem como
recurso para diminuir a divergência da guinada — a fim de
solucionar problemas de acoplamento de rolagem de modo mais
abrangente. Armstrong fez o teste no aeroplano em 7 de outubro
de 1955 e realizou muitos dos voos desse projeto nos dois anos
seguintes.
Esse sistema parcialmente automático de controle de voo que
Armstrong contribuiu para desenvolver foi um dos primeiros a
incorporar a “compensação paralela”. Em essência, a ideia era
fazer com que as superfícies de controle da aeronave (ailerons,
leme, profundor) se comunicassem como parte de um sistema
integrado, regulado de forma automática. A partir de abril de
1960, Neil discutiu sobre essa tecnologia com engenheiros da
Minneapolis-Honeywell Corporation. A Honeywell instalou o
protótipo do sistema — chamado MH-96 — em um F-101 Voodoo
no começo de 1961, e em março Neil viajou a Minnesota para
pilotá-lo. Com base principalmente nos relatórios favoráveis
redigidos por Armstrong, a NASA decidiu instalar o MH-96 no
último X-15 (X-15-3), cujo teste inaugural de voo estava
programado ainda para 1961. Por conta da participação de
Armstrong no desenvolvimento do MH-96, a NASA o incumbiu de
realizar aquele primeiro voo. Tanto em Minneapolis quanto em
Edwards, Neil explicou: “Usamos aeronaves como o matemático
usa o computador, ou seja, como ferramenta para encontrar
respostas a questões aerodinâmicas.”
A Estação de Voos de Alta Velocidade da NACA praticamente
inventou o simulador de voos para fins de pesquisa. Em 1952, a
NACA convenceu a Força Aérea a comprar um computador
analógico que poderia ser reprogramado por seus engenheiros e
transformar-se em um simulador de voo. Na época em que
Armstrong chegou a Edwards, em 1955, os simuladores tinham
dado contribuições importantes a inúmeros programas de
pesquisa, principalmente ao X-1B e ao X-2, sendo que este
último deveria ser recebido pela NACA depois que a Força Aérea
terminasse de testá-lo. Infelizmente, uma tragédia impediu que
isso acontecesse. Em seu primeiro voo no X-2, o piloto de testes
da Força Aérea Melburn G. “Mel” Apt perdeu o controle por causa
do acoplamento de rolagem, e a aeronave entrou em uma série
de giros divergentes. Apt tentou desesperadamente retomar o
controle do X-2, mas não conseguiu. Sua única chance seria
ejetar-se pela cápsula de escape. Mas embora o paraquedas-
piloto da cápsula tenha funcionado, o maior não abriu. Apt ainda
tentou saltar da cápsula, mas não houve tempo. A cápsula se chocou contra o solo da área de testes de explosivos de
Edwards, e o restante do X-2 se espatifou em um perímetro de
oito quilômetros.
O voo fez de Mel Apt o piloto da aeronave mais rápida que já
tinha voado — mais de três vezes a velocidade do som —, mas
sua morte se sobrepôs a qualquer consideração sobre isso. Mas
não sobre o que ocorreu com ele e sua aeronave, e o porquê.
Depois disso, lembrou Neil, os candidatos a piloto do X-15
assistiam — mais de uma vez — a uma animação com fotos
feitas a bordo do voo fatal de Apt por uma câmera instalada na
parte de trás de sua cabine de comando.
A tragédia que tirou a vida de Apt reforçou a decisão da NACA
de desenvolver simuladores para fins de pesquisa. No laboratório
de simulação, Neil aprendeu que “há muitas maneiras de induzir
a erro dentro da programação. Muitas vezes, os dados dos
instrumentos eram mecanizados de forma inadequada, de modo
que o instrumento não representava fielmente os movimentos da
aeronave. Descobri que isso era verdade muito mais tarde em
Houston, e sempre dedicava um tempo a um novo simulador
para checar a exatidão de sua resposta”. Entre todos os pilotos
de Edwards, Armstrong deve ter sido o que passou mais tempo
em simuladores, reunindo experiência para “ver” e perceber com
precisão os resultados, “sempre obtendo novas informações e
técnicas potencialmente valiosas.”
Armstrong tornou-se também um dos primeiros pilotos de teste
da NACA/NASA a ser submetido à tortura da centrífuga da
Marinha instalada em Johnsville, Pensilvânia. (A NASA nasceu
em 1o de outubro de 1958, em virtude de uma lei assinada pelo
presidente Eisenhower em 29 de julho de 1958. A NACA estava
oficialmente morta, mas na verdade serviu de núcleo para a nova
NASA.) O objetivo de “andar na roda” era “descobrir se o campo
g pelo qual é preciso passar em um lançamento de foguete afeta
a capacidade de desempenhar as tarefas exatas de voar em
órbita”. Armstrong explicou o objetivo da pesquisa: “Tentávamos
descobrir se era possível pilotar uma nave em órbita — se um
foguete lançado na vertical poderia ser operado manualmente, sem necessidade de piloto automático nem de qualquer tipo de
controle remoto.”
Uma equipe de sete pilotos participou do experimento:
Armstrong, Stan Butchart e Forrest “Pete” Petersen do Centro de
Pesquisa de Voo (FRC, na sigla em inglês) da NASA (antiga
HSFS); dois outros pilotos da NASA, um de Langley e o outro de
Ames; e dois pilotos da Força Aérea. Deitados de costas e
amarrados em assentos modelados de modo a acomodar o
formato do corpo de cada piloto com traje pressurizado,
Armstrong e seus companheiros foram postos no espremedor.
Os pilotos giravam vertiginosamente no extremo do braço de
quinze metros de comprimento para experimentar toda a força,
todo o estresse e todas as situações de voo possíveis. À
velocidade máxima e no maior ângulo da roda, eles foram
submetidos a uma aceleração de até quinze g. Apenas alguns
pilotos conseguiram lidar com forças daquela magnitude, e
Armstrong foi um deles. Gene Waltman, um dos técnicos do FRC
presentes no experimento, lembra-se de Armstrong dizendo que
em quinze g o sangue subiu-lhe à cabeça de tal forma que ele só
conseguia ver um dos instrumentos na cabine de comando
simulada. Neil recorda-se: “Nós nos convencemos de que operar
os controles de um veículo lançado, ou de uma aeronave
acelerada, até aquele ponto era, de fato, uma tarefa possível.”
Com os engenheiros Ed Holleman e Bill Andrews do FRC,
Armstrong redigiu um relatório para a NASA anunciando os
surpreendentes resultados. Muita gente da comunidade
aeroespacial questionou a conclusão segundo a qual forças
superiores a mais ou menos 8 g exerciam pouquíssimos efeitos
sobre a capacidade operacional de um piloto referente aos
controles do voo, até que se demonstrou que isso era verdadeiro
com os programas X-15 e Mercury. Armstrong voltou mais tarde
a Johnsville para testar trajetórias de entrada do X-15 com
diversos sistemas de controle de voo.
No entanto, o componente essencial da preparação para o voo
do X-15 foi o simulador eletrônico. Foram construídos dois
simuladores principais do X-15, ambos analógicos, porque os
computadores digitais ainda eram lentos demais para executar o que quer que fosse “em tempo real”. A North American erigiu o
simulador chamado “XD” em uma propriedade da empresa que
ficava onde hoje se localiza o lado sul do aeroporto internacional
de Los Angeles. Armstrong fez diversas visitas ao lugar para
experimentar a simulação em todos os seis graus de liberdade.
Nos procedimentos de descida do R4D, Dick Day lembra que
Neil pedia com regularidade uma aproximação por instrumentos
ao aeroporto de Los Angeles. “Fizemos diversas descidas,
basicamente entradas. Subíamos a oitocentos, novecentos
metros e fazíamos entradas em diferentes ângulos de ataque,
depois combinávamos ângulo de ataque com máxima pressão
dinâmica. Acabou gerando uma linha reta, correspondente a uma
equação especial. E Neil aprendeu isso para quando tivesse
problemas.”
Sob a direção de Dick Day, a NASA construiu, em Edwards,
um simulador X-15 que replicava a cabine de comando dessa
aeronave. Segundo Armstrong, a máquina devia ser
“provavelmente o melhor simulador já construído até aquela
época, no tocante à precisão e à confiabilidade”. Em preparação
para cada um de seus sete voos no X-15, ele passou de
cinquenta a sessenta horas no simulador.
“Os voos reais do X-15 duravam apenas dez minutos, e
normalmente, no simulador, não se podia pousar”, explica Neil.
“Fazia-se apenas o voo propriamente dito, que dura alguns
minutos. Reuníamos uma pequena equipe — o piloto, um dos
engenheiros da pesquisa e um dos caras do pessoal do
computador — e dizíamos ‘isto é o que queremos fazer’, e eles
pegavam os dados que tínhamos, debruçavam-se sobre aquilo e
descobriam o que podíamos aprender. Então, meio que
começávamos a entender um problema.”
O programa do X-15 evoluiu rápido. A construção começou
em setembro de 1957, mais ou menos um ano depois a primeira
unidade saiu da fábrica. Seis meses depois, em março de 1959,
o X-15 fez seu primeiro voo cativo. Três meses mais tarde,
realizou seu primeiro voo livre. Em 17 de setembro de 1959,
menos de quatro anos após a concepção do projeto, Scott
Crossfield pilotou o avião em seu primeiro voo motorizado. Testes no túnel de vento indicaram que o X-15 a baixa velocidade tinha
uma razão de planeio (L/D) muito baixa, ou seja, pouca
sustentação aerodinâmica. Uma vez que o foguete se consumia,
o X-15 descia rápido e na vertical. As técnicas de pouso não
motorizado eram inadequadas. A partir do segundo semestre de
1958, Armstrong começou a testar aproximações “com
combinações de todo tipo de freio aerodinâmico e flapes”, o que
se prolongou até o ano de 1961.
Cada pessoa envolvida no programa parecia ter uma opinião
sobre a melhor aproximação. Armstrong e outros pilotos da
NASA propuseram uma versão que, segundo acreditavam, tinha
maior flexibilidade. De acordo com o engenheiro de projeto Gene
Matranga, “nossa técnica trabalhava com uma espiral
descendente de 360 graus que começava a doze mil metros”
bem sobre o ponto de toque desejado. Dessa posição, o piloto se
deslocava para uma margem de 35 graus (normalmente para a
esquerda), mantendo a velocidade entre quinhentos e 620
quilômetros por hora. A mais ou menos seis mil metros de
altitude, depois de percorrer cerca de 180 graus da espiral, o X-
15 ficava sobre meio caminho do ponto de toque. Nessa altura, a
aeronave era virada para o sentido oposto ao da pista de pouso e
ficava em ângulo reto em relação ao ponto de toque. Desse
ponto, o giro continuava ao longo dos 180 graus restantes até
que o X-15 ficasse alinhado com a pista, a uma distância de
cerca de oito quilômetros. A velocidade média de descida era de
cerca de três quilômetros por minuto, ou seja, levava em média
três minutos para chegar do ponto mais alto ao ponto em que o
X-15 estava pronto para seguir direto para o pouso.
Para determinar em que ponto deveria começar o
arredondamento, Armstrong e Walker tiveram que se contentar
com uma justificativa bem pouco precisa: “Acho que é assim.”
Nesse caso, de acordo com o entendimento de Matranga,
“tentamos trabalhar com modelos matemáticos para determinar o
ponto de partida, e isso simplesmente não pôde ser feito. Era
uma coisa que os pilotos, com sua experiência, sabiam de
maneira intuitiva, e podia variar bastante de voo para voo”.
Depois que a parte traseira do aeroplano de Crossfield quebrou durante um pouso difícil, a North American adotou a técnica em
espiral criada por Armstrong e seus companheiros. A técnica
desenvolvida pela NASA tornou-se padrão. Na verdade, a técnica
básica desenvolvida pelo Centro de Pesquisa de Voo daria certo
mais tarde, no chamado programa de corpo sustentante, e
também funcionou para o ônibus espacial. Armstrong foi coautor
de dois artigos sobre as pesquisas de pouso L/D do F-104, assim
como de inúmeros relatórios técnicos sobre temas diversos.
Crossfield pilotou o X-15 treze vezes antes que a North
American o transferisse para a parceria entre NASA, Força Aérea
e Marinha. Armstrong observou o maior número possível desses
voos. Dois dos voos de Crossfield foram feitos no avião número
um, os demais, no número dois. A maior velocidade alcançada foi
Mach 2,9; a maior altitude, 26.858 metros; e a maior distância
percorrida foi de 184,1 quilômetros.
Armstrong só veio a pilotar o X-15 pela primeira vez em 30 de
novembro de 1960. Até então, efetuou voos de acompanhamento
em duas ocasiões. Ao todo, Neil fez esse tipo de voo do X-15 em
seis oportunidades. Esteve muitas vezes no centro de controle de
Edwards, falando ao microfone com o piloto, monitorando o radar
e a telemetria. A última vez que fez um voo de seguimento como
funcionário da Edwards foi em 29 de junho de 1962, quando seu
colega da NASA Jack McKay pilotou a aeronave número dois a
uma velocidade próxima de Mach 5. Para a maioria dos voos do
X-15, eram empregados quatro aviões de acompanhamento. Nos
voos de longo alcance, acrescentava-se mais um avião.
* * *
Em 30 de novembro de 1960, Neil se sentou na cabine de
comando da aeronave número um, acima do Rosamond Dry
Lake, esperando ansiosamente ser lançado em um X-15 pela
primeira vez. No controle do B-52 que o lançaria estavam os
majores Robert Cole e Fitzhugh Fulton. Nos aviões de
seguimento de Neil estavam Joe Walker, o capitão-tenente
Forrest S. Petersen e o capitão William R. Looney. No total, aquele foi o 29o voo do Projeto X-15, o 17o do X-15-1 e o sétimo
feito por um piloto da NASA.
Com Neil no controle pela primeira vez, o objetivo do voo
número 1-18-31 era somente a familiarização do piloto, mas nada
era simples em relação à pilotagem de um X-15. Ele passara
centenas de horas nos simuladores do X-15, mas pilotar de
verdade era bem diferente. “Quando se está usando aquele traje
espacial e a escotilha se fecha, a impressão que dá é de que
aquele é um mundo extremamente confinado. Fica-se tão
espremido contra o para-brisa que é difícil ver alguma coisa
dentro da cabine de comando.” Olhando através do para-brisa,
Neil não distinguiu nada da aeronave que estava pilotando. “É
muito tenso estar naquela situação, mesmo sabendo que aquilo
já foi feito anteriormente. Todos os demais foram capazes de lidar
com a situação, portanto você também deve ser.”
A 13.700 metros de altitude, Fitzhugh, no B-52, deu início à
mesma contagem regressiva que mais tarde seria usada em
lançamentos espaciais: “Dez segundos, a luz do lançamento se
acende. Cinco, quatro, três, dois, um, lançar.” Armstrong já tinha
sido lançado do ar, no X-1B, mas o X-15 saía de forma muito
mais abrupta, com um estrondo maior que normal. Depois vinha
o desafio de dar a partida no motor-foguete, imediatamente.
O motor do X-15 de Neil era o XLR-11, construído pela
Reaction Motors. O XLR-11 era constituído de dois motores-
foguetes, um mais alto e outro mais baixo. Cada um deles tinha
quatro câmaras e cada uma proporcionava um empuxo de 1.500
libras, num total de doze mil libras. A câmara número três, no
entanto, não funcionou, reduzindo o empuxo total para 10.500
libras. O veículo teria continuado em voo mesmo com até quatro
câmaras inativas, mas precisaria estar perto da base e preparar-
se imediatamente para o pouso. O piloto de testes disse a Neil:
“Vá em frente com o plano de voo original.”
Afora a falha na ignição da câmara número três, o primeiro
voo de Armstrong no X-15 transcorreu sem incidentes. Depois
que chegou à altitude de 11.400 metros, Neil entrou em um
ângulo de subida de oito graus, o que o levou a 14.900 metros
antes de virar o nariz da aeronave para baixo. Sua velocidade máxima foi de apenas 1.859 quilômetros por hora, ou Mach 1,75,
mas Walker e os demais ficaram satisfeitos com o que Armstrong
fez naquele dia. Seu segundo voo no X-15, que seria o primeiro
para fins de pesquisa, ocorreu dez dias depois, em 9 de
dezembro de 1960, também no número um. O voo número 1-19-
32 testou primeiro o “nariz de bola” do X-15, que acabara de ser
instalado. Até esse voo, o X-15, como era comum em todos os
aviões de pesquisa da época, tinha uma antena frontal com
palhetas para captar a velocidade do ar, altitude, ângulo de
ataque e ângulo de glissada em um campo de fluxo aerodinâmico
livre. Em altitudes elevadas e altas velocidades, o nariz em
antena do X-15 teria derretido, destruindo os dados coletados.
A solução engenhosa foi projetar uma esfera que pudesse ser
montada na frente da aeronave. A esfera estaria sujeita às mais
altas temperaturas no avião, mas poderia ser resfriada a partir do
interior com nitrogênio líquido. Lançado pelo B-52 à altitude usual
de 13.700 metros, o X-15 subiu 15.270 metros a uma velocidade
Mach 1,8. O desligamento do foguete ocorreu assim que Neil
acionou os freios aerodinâmicos de sua aeronave. O nariz
arredondado funcionou tão bem que foi usado até o fim do
programa X-15. O desempenho de Neil, mais uma vez, foi
consistente.
Armstrong só voltaria a voar no X-15 mais de um ano depois.
Ao longo de 1961, continuou trabalhando no novo sistema de
controle de voo do X-15-3, no qual ele faria do terceiro ao sexto
voos em um X-15 a partir de dezembro de 1961. Até então, ele
não fez tantos voos de teste quanto nos anos anteriores. Haveria,
no entanto, mais viagens do que nunca para Minneapolis-
Honeywell e Seattle, onde atuou como consultor da NASA no
programa do novo avião espacial X-20 da Força Aérea,
conhecido como Dyna-Soar.