O Primeiro Homem na Lua

James R. Hansen · Capítulo 31 de 42

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O Primeiro Homem na Lua

Capítulo 23: O pouso

CAPÍTULO 23

 

O pouso

 

O momento decisivo da missão da Apollo 11 — e sem dúvida na

história da vida de Neil Armstrong — foi pilotar o módulo lunar até

o pouso.

O dia do primeiro pouso na Lua foi um domingo para

americanos, europeus, africanos e parte dos asiáticos. De todos

os pousos lunares, apenas a Apollo 11 pousou no dia de guarda

dos cristãos. Viola Armstrong acordou às cinco e meia, mais

cedo ainda do que o filho naquela manhã, vestiu um roupão e

saiu para regar as plantas antes que os repórteres pudessem

achá-la. Vestiu-se depois para a missa das sete e meia. Queria

chegar cedo em casa para acompanhar pela televisão a

separação do filho do módulo de comando.

Em todo o mundo, pessoas devotas rezavam pela Apollo 11. O

culto religioso na Casa Branca de Nixon foi dedicado à missão, e

o astronauta Frank Borman leu mais uma vez trechos do Livro do

Gênesis. Alguns dias antes do lançamento da Apollo 11, H. R.

“Bob” Haldeman, chefe de gabinete da Casa Branca, tinha

pedido a William Safire, experiente redator dos discursos de

Nixon, que escrevesse rascunhos de declarações que seriam

dadas caso algo mais sério acontecesse durante a missão. Uma

das declarações cobria um cenário hipotético em que os

astronautas conseguiam pousar na Lua, mas não sair dela. Safire

recomendou que, antes de dar a declaração pública, o presidente

“deveria telefonar para cada uma das futuras viúvas”.

Às 10h05 EDT, após um relatório de cinco minutos sobre o

andamento da missão da Apollo 11 apresentado por Walter

Cronkite, a CBS levou ao ar uma discussão do significado

religioso da Apollo 11. A voz do correspondente da CBS Charles Kuralt entrou às onze, dando início à cobertura ao vivo do que a

rede chamava de Homem na Lua: a jornada épica da Apollo 11.

No texto que narrava enquanto eram exibidas imagens

dramáticas feitas pelos voos anteriores das Apollos, Kuralt

também usou o Gênesis como tema espiritual da Apollo,

explicando seu significado cósmico com ideias da ciência

moderna. Depois do segmento gravado de Kuralt, Cronkite —

munido de dez cadernos repletos de fatos sobre a Apollo 11 e o

programa espacial — referiu-se ao pouso na Lua que estava para

acontecer como um “passo gigante”, sem imaginar, é claro, que

em menos de doze horas, o Primeiro Homem diria palavras

parecidas, que seriam ouvidas e para sempre lembradas em todo

o mundo.

 

* * *

 

Armstrong e Aldrin estavam juntos no interior da Eagle havia

menos de meia hora quando a cobertura completa da CBS

começou às onze da manhã. A enorme ansiedade pelo que

estava por vir dificultava até o desempenho de tarefas

corriqueiras naquela manhã. Buzz se lembra: “A atividade de três

homens no espaço deve, por necessidade, ser um esforço de

cooperação. Até então tínhamos criado várias rotinas de

convivência, mas na excitação daquela manhã o sistema se

desmontava.” O ritmo que havia sido criado para as refeições,

em que um homem pegava um pacote, outro abria o pacote e o

terceiro liquefazia a comida com a pistola de água perdeu um

pouco da cadência. Conectar novos equipamentos de contenção

fecal, cateteres urinários e bolsas de coleta antes de colocar os

trajes foram especialmente desagradáveis. Os nervos estavam à

flor da pele enquanto os três se revezavam para se vestir dentro

da área de navegação do módulo de comando e serviço, um

espaço que só dava para um homem trocar de roupa, sendo

necessário que outro ficasse ali para ajudar com botões e

zíperes. Collins também tinha de usar o traje para o caso de algo

dar errado no desacoplamento.

A operação de vestir os trajes para voos espaciais era sempre

feita de maneira meticulosa, mas nunca tanto quanto na manhã

do pouso. Neil e Buzz teriam de ficar com os trajes pressurizados

por mais de trinta horas. A primeira peça do conjunto era a veste

de resfriamento líquido. Parecida com uma ceroula longa, a veste

de malha continha centenas de tubinhos de plástico transparente.

Na Lua, a água de resfriamento bombeada das mochilas dos

astronautas circularia através dos tubos, mas até a missão

chegar a esse ponto as vestes apertadas apenas aumentavam o

desconforto de se arrumar para ir ao espaço. Aldrin, usando

apenas sua veste de baixo, foi o primeiro a entrar no módulo

lunar porque queria fazer algumas verificações iniciais. Meia hora

depois, Armstrong, já vestindo o traje completo, arrastou-se para

dentro do módulo. Com Neil ali dentro, Buzz retornou à cabine de

navegação do módulo de comando e serviço para terminar de se

vestir e reentrou logo em seguida no módulo lunar. Ele e Neil

vedaram a escotilha do seu lado, e Mike fez o mesmo do lado

dele.

Dentro da Eagle, Neil e Buzz ligaram vários outros sistemas

antes de acionar o trem de pouso em forma de aranha do módulo

lunar. A liberação bem-sucedida do trem de pouso ocorreu pouco

antes do meio-dia EDT. Como era preciso fazer ainda uma série

de verificações de comunicação e de equipamento, levou mais

uma hora e 46 minutos até que o módulo lunar estivesse pronto

para o desacoplamento que seria provocado pelo acionamento

do motor da Columbia. Collins e Aldrin foram os que mais falaram

pelo rádio.

“Como está o czar por aí?”, perguntou Mike do módulo de

comando. “Está tão quieto!”

“Apenas firme… e processando”, respondeu Neil, referindo-se

aos dados que estava inserindo no computador principal do

módulo lunar.

“Veja se vocês vão com calma aí na superfície lunar”, disse

Collins a eles pouco antes de acionar o interruptor para liberá-los.

“Se eu ouvir vocês arfando e ofegando, vou começar a perturbar

os dois.”

04:04:10:44 Collins: Temos só um minuto. Estão prontos?

04:04:10:48 Armstrong: Sim, acho que estamos praticamente

prontos… Prontos quando você estiver, Mike.

04:04:11:51 Collins: Quinze segundos… Ok, lá vão vocês.

Maravilha!

04:04:12:10 Aldrin: Parece que foi uma boa SEP.

04:04:12:10 Collins: Parece boa para mim.

 

Pressionando o nariz contra a janela, Collins observou os dois

se afastarem e esperou que Neil confirmasse a eficiência dos

movimentos relativos das duas espaçonaves. Era uma boa ideia

não se afastar muito até que Mike pudesse inspecionar o módulo

lunar de perto; era fundamental ter certeza de que todas as

quatro pernas do trem de pouso estavam abaixadas e em

posição. Para ajudar Mike com a inspeção, Neil deu uma

pequena pirueta, girando o veículo até fazer uma rotação

completa. Alguns meses antes do lançamento, Mike tinha feito

uma visita especial à fábrica Grumman em Long Island só para

ver como era o módulo lunar com o trem de pouso abaixado de

forma adequada. Foi particularmente importante para Collins

olhar de perto os sensores em forma de cabo de dois metros de

comprimento que saíam de três das quatro plataformas de pouso

do módulo lunar. Ele também precisava confirmar se a base da

parte frontal do trem de pouso, a única sem sensor, estava na

posição correta. Essa perna segurava a escada que os

astronautas usariam para descer até a superfície lunar. De início,

ela também tinha sensor, que foi eliminado após Armstrong e

Aldrin acharem que poderiam tropeçar nele.

 

04:04:12:59 Armstrong: Ok. Zerei minha velocidade, Mike, pode

se afastar para a distância que quiser e zerar a sua (…)

Começando minha guinada (…) Com certeza a visão no

simulador é melhor.

04:04:13:38 Collins: Ok, peguei um pequeno giro; vou me livrar

dele.

04:04:14:22 Armstrong: Ok para você se eu iniciar minha

arfagem, ou acha que ainda não está a uma distância

suficiente, Mike?

04:04:14:31 Collins: Prefiro que você aguarde só alguns

segundos, Neil.

04:04:14:34 Armstrong: Ok, espero até você estar pronto, quando

achar que zerou sua velocidade completamente.

04:04:14:39 Collins: Ok. Ainda mantendo a posição.

04:04:15:26 Collins: Ok, parece ótimo para mim agora.

04:04:15:30 Armstrong: Ok.

04:04:16:34 Collins: Exatamente como no simulador, você está

se afastando para um lado e um pouquinho para baixo.

04:04:16:39 Armstrong: Isso.

04:04:17:06 Collins: O trem de pouso está bom; eu vi três delas.

04:04:17:11 Armstrong: A MESA não abaixou, certo?

04:04:17:14 Collins: Repita.

04:04:17:15 Armstrong: A MESA ainda está recolhida? [A

unidade de armazenamento do equipamento modular, ou

MESA (Modular Equipment Storage Assembly), localizada

na lateral do módulo lunar perto da perna de pouso (sem

sensor) frontal. A MESA continha uma câmera de televisão,

caixas para as rochas colhidas e várias ferramentas. Uma

vez na superfície lunar, Neil puxaria um anel em D que

soltaria a MESA e a baixaria até uma posição acessível.

Nesse momento, Armstrong temia que a MESA tivesse se

soltado durante a manobra de separação.]

04:04:17:19 Collins: Está.

04:04:17:20 Armstrong: Que bom.

04:04:17:49 Collins: Agora você parece bem.

04:04:17:59 Armstrong: Câmbio. A Eagle desacoplou. A águia

pode voar.

 

Era uma ave diferente de qualquer outra que já tivesse voado,

e o brincalhão Collins não pôde deixar de zombar da aparência

do módulo lunar:

“Acho que você é uma bela máquina voadora, Eagle, apesar

de estar de cabeça para baixo.”

“Quem está de cabeça para baixo é alguém”, Neil devolveu a

brincadeira.

Dentro do módulo lunar, agora voando a menos de 117

quilômetros acima da Lua, Neil e Buzz estavam de pé. Sem

assentos, a área útil da cabine era maior. Os prendedores dos

pés com fitas de velcro estavam enganchados no piso da cabine,

e um sistema de cabo retrátil e polia tinha sido preso ao cinto dos

astronautas. Se precisassem de mais apoio, Neil e Buzz

poderiam se agarrar às barras e aos suportes para o braço. O

fato de ficarem de pé permitia que as janelas triangulares fossem

menores sem atrapalhar o excelente ponto de vista que tinham

da área de pouso.

Antes que a Eagle pudesse começar sua aproximação de

pouso, Neil e Buzz precisaram baixar sua órbita para cerca de 15

mil metros. Voando com os pés para cima e o rosto voltado para

baixo em direção à superfície lunar, eles conseguiram realizar

isso acionando pela primeira vez desde o início da missão o

motor de descida do módulo lunar. Essa queima de inserção na

órbita descendente (da sigla em inglês DOI, Descent Orbit

Insertion) ocorreu 56 minutos depois da separação da Columbia,

às 3h08 EDT. A DOI ocorreu enquanto ambas as espaçonaves

estavam no lado de trás da Lua e sem contato com a Terra. Com

duração de 28,5 segundos, a queima lançou a Eagle em um

percurso balístico, descendo no lado da frente da Lua, onde o

pouso seria realizado. Enquanto a descida prosseguia, Neil e

Buzz verificavam a distância do percurso para poderem retornar

à Columbia através do sistema de orientação de abortagem do

módulo lunar, caso o sistema de navegação principal da nave

falhasse ou algo mais grave acontecesse. A Eagle estava agora

consideravelmente mais baixa que a Columbia e, portanto,

orbitando a Lua em maior velocidade. Isso deixou o módulo lunar

na frente da órbita da Columbia durante cerca de um minuto.

Como a Columbia estava em uma órbita mais alta e em um

ângulo que a deixava em linha direta com a Terra, o sinal da

frequência da Columbia chegou primeiro a Houston,

aproximadamente três minutos antes que o da Eagle. Em ambos os casos, menos de um minuto depois da aquisição de sinal

chegou o retorno do contato de voz.

 

04:06:15:02 CapCom: Columbia, Houston. [O CapCom era

Charlie Duke.] Aguardando, câmbio. [Pausa longa.]

Columbia, Houston. Câmbio.

04:06:15:41 Collins: Houston, Columbia. Ouvindo alto e claro. E

vocês?

04:06:15:43 CapCom: Recebido. Cinco por cinco, Mike. [Em

comunicações taquigráficas, “cinco por cinco” significava

“alto e claro”]. Como foi [a queima da DOI]? Câmbio.

04:06:15:49 Collins: Ouve só, parceiro. Tudo correndo às mil

maravilhas. Excelente.

04:06:15:52 CapCom: Ótimo. Estamos no aguardo da Eagle.

04:06:15:57 Collins: Ok. Ela já vem.

 

Um minuto e meio depois, Aldrin informou que a DOI tinha

transcorrido muito bem e que tinha situado a Eagle praticamente

no perilúnio exato e predeterminado de onde ela iniciaria sua

descida final propulsionada. Se tudo corresse bem, em menos de

trinta minutos o módulo lunar tocaria o solo lunar.

Antes de iniciar a descida final, era importante que Armstrong

e Aldrin verificassem os sistemas de navegação e orientação de

bordo. O módulo lunar tinha dois sistemas singulares e

independentes. O primeiro era o sistema primário de navegação,

orientação e controle (da sigla em inglês PNGS, Primary

Navigation, Guidance, and Control System), ou “pings”. Esse

pequeno computador digital, localizado no painel em frente aos

astronautas e entre ambos, processava os dados a partir de uma

plataforma inercial integrada — que era mantida em posição

constante pela ação de giroscópios que captavam o movimento e

impediam que a plataforma inclinasse em qualquer direção.

Precisamente sintonizado com a posição de estrelas distantes, o

PNGS exibia em um monitor digital números amarelo-

esverdeados que indicavam a posição do módulo lunar.

O segundo sistema era o sistema de orientação de abortagem

(da sigla em inglês AGS, Abort Guidance System). Em vez de

basear sua navegação em uma plataforma inercial, a própria

espaçonave servia como tabela de medição do AGS, com

acelerômetros montados em seu corpo fornecendo dados de voo.

Tanto o PNGS quanto o AGS integravam acelerações que

estimavam as velocidades da espaçonave, mas o PNGS em

geral fornecia dados bem mais precisos. Em um cenário ideal, os

cálculos efetuados pelos dois sistemas — ambos dedicados à

medida de ângulos que mudavam com o passar do tempo —

dariam as mesmas respostas sobre a localização da espaçonave

e para onde ela estava indo, mas os erros se infiltravam

inevitavelmente nas medições. Se pequenos erros se

acumulassem, poderiam desencadear erros grosseiros no cálculo

do curso e da localização.

Depois da DOI e antes de iniciar a descida propulsionada (da

sigla em inglês PDI, initiating powered descent), Neil e Buzz

efetuaram uma série de verificações cruzadas entre os dois

sistemas. Uma concordância geral era essencial para evitar que

o PNGS tomasse um caminho indesejado. A principal causa de

erro no PNGS era um desvio na plataforma, preocupação

constante em qualquer sistema inercial. O desvio precisava ser

corrigido pelo realinhamento da plataforma via navegação celeste

com auxílio de computadores, seguido por reorientação

mecânica pelos motores e engrenagens conectadas ao

giroscópio.

Durante o voo de ida, a Apollo 11 executou uma série de

alinhamentos da plataforma, mas isso tomava algum tempo e

exigia que a espaçonave ficasse relativamente parada. Na

metade da órbita anterior à DOI, quando estavam ocupados com

outros afazeres, Neil e Buzz realizaram uma verificação geral na

precisão do alinhamento anterior. “A maneira como fizemos isso”,

explicou Armstrong, “foi ordenando à espaçonave que

alcançasse uma atitude de modo que nosso sextante mirasse

diretamente para o Sol. Se nossas miras estivessem apontadas

para o centro do Sol, saberíamos que a plataforma não tinha se

desviado. Se as miras estivessem a um oitavo ou a um quarto do centro do Sol, saberíamos que o alinhamento ainda estava bom.”

Neil fez a verificação do Sol pouco antes da PDI. Apesar de já

terem se passado algumas horas desde o último alinhamento, ele

achou que a plataforma ainda estava alinhada de forma

satisfatória, com apenas uma fração de grau de desvio. “Calculei

que durante o período entre trinta e 45 minutos, tempo que

levaria para pousarmos, tudo provavelmente permaneceria bem.”

O desvio da plataforma não era a única preocupação em

relação à navegação do módulo lunar. Tanto o PNGS quanto o

AGS tinham de estar “ativados” durante a descida, e isso poderia

representar um problema se a operação dos homens sobre os

dois sistemas não fosse mantida em perfeita ordem. Apenas o

PNGS poderia auxiliar os astronautas a realizar uma descida

bem-sucedida até a superfície lunar; o AGS teria de ficar em

espera e pronto para fazer a navegação de um retorno de

emergência ao módulo de comando; nos segundos finais antes

do pouso, o AGS também poderia assumir o controle caso o

PNGS falhasse. De acordo com Armstrong: “Não podíamos

pousar pelo AGS a não ser que chegássemos muito perto da

superfície, porque não seria possível navegar a trajetória com

ele.” Ainda assim, ambos os sistemas tinham que estar ativados

e em funcionamento, já que a tripulação poderia precisar alternar

instantaneamente de um para outro. Neil explicou: “Ambos

operavam como sistemas independentes, e apenas um era

selecionado para, de fato, controlar a espaçonave. Recebíamos

informações dos dois, que deviam ser comparadas.”

Outra grande preocupação dizia respeito ao suprimento de

combustível. Saber o exato momento em que seria atingido o

ponto em que a descida propulsionada deveria começar era

importantíssimo: se Neil e Buzz começassem a descer de um

ponto muito alto, a Eagle ficaria sem combustível antes de

chegar à posição correta para um pouso seguro. Esses limites de

altitude, diria Neil, “deveriam estar dentro de uma área de 1.200

metros, para mais ou para menos”.

Calcular essa altitude era uma tarefa quase tanto artística

quanto científica. Um altímetro padrão não seria capaz de indicar

que eles tinham alcançado o perilúnio, já que o instrumento se baseia nas alterações da pressão atmosférica e a Lua não possui

uma. O que o módulo lunar tinha era um radioaltímetro, mas da

perspectiva da cabine de comando ele apontava para baixo e

para a frente. No início da descida, quando o eixo vertical do

módulo lunar estava quase na horizontal — o que significava que

os pilotos estavam olhando para baixo —, o radioaltímetro

apontava para cima e no sentido oposto ao da superfície lunar e

não fornecia nenhum dado de pouso. Estimar por alto o ponto da

PDI a partir da altura das montanhas lunares abaixo deles era

impossível, porque, embora Neil e Buzz pudessem calcular a

altura delas estando nas bordas da esfera lunar, não poderiam

fazer isso estando no meio delas.

A técnica desenvolvida por Armstrong e pelo engenheiro do

módulo de comando e serviço, Floyd Bennett, para determinar o

ponto de PDI era relativamente simples. Consistia em uma

verificação direta da superfície lunar, a olho nu, combinada com o

que Armstrong chamou de “matemática de curral”. “Usamos a

equação υ = rΩ”, explica Neil, “onde r era a altitude que se

desejava calcular; Ω, a velocidade angular do módulo lunar; e υ,

a velocidade do módulo lunar. Sabíamos muito bem qual era

nossa velocidade, com base no rastreamento dos radares da

Terra e no nosso próprio sistema de navegação. Assim, para

calcular a altitude, era preciso apenas conhecer a velocidade

angular. No decorrer da missão, sabíamos que seria possível

determiná-la observando um ponto no chão”. No início da fase de

descida, o módulo lunar voou com as janelas voltadas para baixo

(com a parte traseira para a frente), o que permitiu que

Armstrong avistasse os grandes pontos de referência durante a

descida. A orientação do módulo lunar, voltado para baixo,

também foi útil na solução de equações de altitude. Na janela de

vidro duplo do lado do módulo lunar em que Neil estava, havia

uma linha vertical com marcas horizontais. Enquanto o módulo

lunar voava virado para baixo, Neil usou um cronômetro e

marcou o tempo em segundos que levou para sair da marca A e

chegar à B na linha da janela. A partir daí, calculou a velocidade

angular da espaçonave. Havia também um gráfico que era usado

para comparar as velocidades de rastreamento com os valores esperados em várias posições ao longo da órbita. As diferenças

entre suas observações visuais e os valores esperados

permitiam que ele estimasse a altitude do perilúnio do módulo

lunar e a hora em que chegariam até ele.

 

04:06:26:29 Armstrong: Nossas verificações de radar indicam o

perilúnio a quinze mil metros. Nossas verificações visuais

estão se estabilizando em torno de dezesseis mil.

 

Um minuto e meio depois, Houston disse à Eagle: “Descida

propulsionada autorizada.” Antes que o controle de missão desse

o sinal verde, eles se certificaram de que todas as pressões,

temperaturas e válvulas tinham sido checadas. As regras da

missão permitiam que a descida prosseguisse mesmo que

alguns instrumentos menos importantes não estivessem

funcionando com eficiência total, mas em geral os diretores de

voo exigiam que tudo estivesse funcionando muito bem antes do

início da PDI. O que o controle de terra não tinha como saber

com muita precisão, contudo, era a altitude do módulo lunar. “A

matemática de curral foi algo que eu mesmo criei e executei

sozinho. Não estou certo de que outro astronauta a tenha usado

em algum momento.”

Collins retransmitiu a “autorização para PDI” aos

companheiros, já que a Eagle ainda estava sem contato com a

Terra. Naquele momento, mesmo depois de posicionada e

voltada para a parte da frente da Lua, a Eagle continuava,

inexplicavelmente, sem comunicação. “Tínhamos uma pequena

antena parabólica instalada no topo do módulo lunar, que era

uma boa antena”, observa Armstrong. “Era direcionável, mas

precisava estar bem apontada em direção à Terra para captar o

sinal. Tínhamos também uma antena omnidirecional. Era uma

antena de lâmina, como as que há em carros, nem muito precisa

nem muito potente. Era importante conseguir apontar a

parabólica diretamente para a Terra, mas não era fácil estando

na horizontal. Se saísse ainda que só um pouquinho do ângulo

de guinada, o sinal era facilmente perdido.”

Levou quase cinco minutos para que Neil e Buzz fizessem a

preparação final para a descida propulsionada. “Tínhamos de

manter o computador no programa certo”, explica Neil, “e nos

certificar de que todos os interruptores, disjuntores e tudo o mais

estava pronto para fazer os sistemas e os motores funcionarem

para a descida propulsionada.” Buzz estava focado

exclusivamente na leitura dos computadores de navegação

enquanto Neil se responsabilizava por assegurar que tudo, desde

o desempenho do motor até o controle de atitude, estava

funcionando como deveria. Enquanto a Eagle iniciava a descida,

a dupla ativou a filmadora de dezesseis milímetros instalada

acima da janela lateral direita, do lado de Buzz. Apontada para a

frente e para baixo, a câmera filmaria cada passo da descida

histórica.

 

* * *

 

No planeta Terra, a tensão aumentava à medida que as redes de

televisão se preparavam para cobrir a PDI, fazendo a contagem

regressiva para o pouso. No ar pela CBS, Cronkite disse a Wally

Schirra: “Um minuto para a ignição, treze minutos para o pouso.

Não sei se aguentaríamos a tensão se eles decidissem dar outra

volta.” Em Wapakoneta, Viola Armstrong assistia a Cronkite

agarrada a uma almofada do sofá.

A PDI ocorreu às 16h05 EDT. Presos por cabos e cintos de

segurança que funcionavam como redutores de impacto, Neil e

Buzz nem sentiram o movimento. Deram uma olhada para o

computador para ter certeza de que o motor estava de fato

acionado. Nos primeiros 26 segundos — ou “tempo de

aproximação” — os dois astronautas mantiveram o motor

funcionando em apenas 10% da potência máxima. Assim, o

computador de orientação teve o tempo necessário para detectar

em que momento o módulo lunar estaria na posição geométrica

apropriada para ganhar aceleração máxima. “Em um cenário

ideal, seria conveniente ficar com uma aceleração bem alta para

um bom desempenho de combustível”, observou Armstrong. “Mas, caso alguma coisa falhasse e você estivesse em alta

velocidade durante muito tempo, não daria para sincronizar com

o alvo. Por isso havia uma estratégia para o perfil de aceleração

— acelerar o motor para iniciar no ponto A e terminar no ponto B

com eficiência relativa máxima.”

Com o aumento da potência do motor, o movimento passou a

ser sentido pelos astronautas; muito embora o módulo lunar

estivesse caindo a uma velocidade de nove metros por segundo,

aquilo não era mais emocionante do que descer vários andares

pelo elevador silencioso de um hotel. Enquanto caíam, Armstrong

observava seus instrumentos e fazia as leituras necessárias

enquanto Aldrin se certificava de que os números do PNGS e do

AGS batiam com as figuras preestabelecidas, escritas na pilha de

cartões de anotações que Buzz colocara entre Neil e ele.

Buzz, como ele próprio admitiu, tagarelava durante todo o

trajeto de descida, “feito uma matraca”, lendo sem parar os

números dos computadores. De Neil ouviu-se muito pouco nos

minutos que antecederam o pouso.

Pela vontade de Neil, nada do que eles diziam teria sido

ouvido pelo mundo lá fora. No final do treinamento, Armstrong

tinha perguntado sobre a possibilidade de não transmitirem pelo

rádio nenhuma conversa no módulo lunar durante os últimos

minutos da descida, para minimizar distrações. O controle de

missão rejeitou prontamente a ideia, porque queria ouvir o que

estaria sendo dito; os diretores do voo queriam que suas equipes

nos painéis de instrumentos ficassem a par de tudo. A ideia era

que um dos muitos especialistas de solo pudesse auxiliar a

tripulação, mesmo nos derradeiros segundos, se surgisse um

problema. “Sempre que queria me comunicar com o mundo lá

fora”, declara Neil, “costumava utilizar o modo ‘apertar para

falar’”, ou seja, ele apertava um botão. “Tínhamos também uma

posição ativada por comando de voz [VOX], e acho que Buzz a

usou durante a descida.”

Nos primeiros minutos depois da PDI, quando voavam com o

motor voltado para a frente e as janelas para baixo, Neil

rastreava seus pontos de referência na superfície para confirmar

o percurso e o tempo da Eagle durante a descida. Com três minutos de trajetória descendente, ele notou que estavam

passando sobre uma cratera conhecida como Maskaleyne W.

com alguns segundos de antecedência:

 

04:06:36:03 Armstrong: Ok, passamos adiantados pelo ponto de

três minutos. Um pouco fora.

04:06:36:11 Aldrin: A velocidade de descida parece boa. Atitude

— quase em cima.

04:06:36:16 Armstrong: Nossas verificações de posição no curso

mostram que estamos um pouco longe.

 

Nem Neil nem Buzz sabiam ao certo porque chegaram à

cratera um pouco adiantados. Acharam que a PDI devia ter

começado um pouco atrasada. “Nossa posição de curso parecia

boa a menos três minutos e menos um minuto antes da ignição”,

informou Neil durante a reunião de balanço pós-voo da Apollo 11.

Em um mapa posto diante deles, Neil tinha definido previamente

onde a PDI deveria ser iniciada, mas, quando ela de fato teve

início, as coisas estavam agitadas demais para ele prestar

atenção em que momento a coisa aconteceu. “Não peguei o

ponto exato de ignição porque estava observando o desempenho

do motor. Mas pareceu razoável, sem dúvida dentro da

estimativa esperada. Era difícil dizer com precisão qual era nossa

posição perpendicular ao voo por causa da atitude da guinada de

inclinação que éramos obrigados a manter para as

comunicações. Contudo, as marcas de posição do curso na

minha janela depois da ignição indicavam que estávamos

atrasados.” A distância de uma marca para outra representava

dois ou três segundos adiante no curso, em que um segundo

correspondia a aproximadamente um quilômetro e meio de

distância. “O fato de a aceleração para baixo ter acontecido

praticamente na hora certa, e não atrasada, indicava que o

computador estava um pouco confuso sobre qual era a nossa

posição de curso. Se o computador soubesse onde estava, teria

desacelerado depois para reduzir um pouco a velocidade. A

visibilidade dos pontos de referência era muito boa. Não tivemos nenhuma dificuldade para determinar nossa posição durante toda

a fase da descida propulsionada voltada para baixo.” 3

O motivo do pequeno atraso para iniciar a PDI só foi analisado

pela NASA depois da missão. Houve pequenas perturbações no

movimento do módulo lunar — em termos de engenharia,

pequenas entradas de delta-v — que devem ter ocorrido no

instante em que o módulo lunar e o módulo de comando e

serviço se separaram. Muito provavelmente, a pressão residual

no túnel existente entre os dois módulos tinha dado à Eagle um

“empurrãozinho” extra, uma força que resultou, oitenta minutos (e

mais de uma órbita) depois, em um erro de posição induzido por

velocidade, que levou a Eagle a uma considerável distância de

onde deveria estar. A ventilação imperfeita do túnel não era

considerada um grande problema antes da Apollo 11, mas depois

disso passou a ser. Em todas as missões subsequentes da

Apollo, o controle de missão se assegurava de checar

duplamente as condições da pressão do túnel antes de autorizar

o desacoplamento do módulo lunar.

Armstrong não teve tempo de se preocupar com o

distanciamento do percurso que o estaria levando para um pouco

mais longe, topograficamente falando. “Não tínhamos certeza de

que nos atrasaríamos, já que não sabíamos até que ponto eram

precisos os cálculos feitos com base nas marcas da janela. De

qualquer forma, não era tão importante saber onde exatamente

iríamos pousar. Afinal, não haveria nenhum comitê de boas-

vindas nos esperando por lá.”

A primeira indicação de que a Eagle talvez estivesse

sobrevoando seu local de pouso veio assim que Neil começou a

virar o módulo lunar de cabeça para cima e pés à frente. A razão

para assumir essa posição incomum (por meio de uma manobra

de guinada que demorou um pouco mais do que o esperado) era

fazer com que a antena de radar do módulo lunar apontasse para

baixo em direção à Lua. “Precisávamos pôr o radar de pouso

para funcionar logo porque a Terra não sabia a que distância

estávamos, e não queríamos chegar perto demais da superfície

lunar antes de termos aquele radar. Se achássemos que havia

uma diferença grande entre onde estávamos e onde deveríamos estar, talvez tivéssemos precisado fazer algumas manobras bem

radicais para tentar voltar à trajetória apropriada e queríamos

evitar isso. Então era uma questão de fazer o giro para que

nosso radar de pouso conseguisse contato. Era um radar

Doppler que combinava três componentes de velocidade e

altitude, um dispositivo bastante singular.” Como depois ficou

claro, foi bom que o radar estivesse funcionando porque ele

mostrou uma altitude de dez mil metros, uns novecentos metros

abaixo do que o PNGS estava indicando. O PNGS era

programado para a altura média da superfície, não para a altura

real em determinado ponto. Ao completar o giro, a tripulação viu

diante de si o seu planeta natal em toda a sua rara beleza e

segurança que representava.

“A Terra está bem diante de nossa janela frontal”, disse Buzz a

Neil, tirando os olhos do computador.

“É mesmo”, respondeu Neil.

Com uma leitura confiável de radar chegando, Neil preparava

o computador de bordo para a arfagem do módulo lunar, de

modo que ele ficasse quase na vertical. Com isso, ele obteve

uma ótima visão dos pontos de referência, que orientavam a

descida como se fossem placas em uma estrada, o que os

astronautas vinham chamando de “Autoestrada Americana 1”, o

trajeto para o local de pouso no mar da Tranquilidade.

Foi nesse instante — aos 04:06:38:22 de tempo decorrido —

que acendeu uma luz amarela de alerta, e o primeiro de uma

série de alarmes programados por computador soou dentro do

módulo lunar. Com um leve tom de urgência na voz, Neil apertou

o botão de comunicação e disse a Houston: “Alarme de

programa.” Três segundos depois, acrescentou: “É um 1202.”

“Deem-nos uma leitura do alarme de programa 1202”, pediu Neil,

com pressa, sem saber a que correspondia o 1202 dentre as

dezenas de alarmes.

O controle de missão demorou apenas quinze segundos para

responder: “Ouvimos você (…) Estamos resolvendo o alarme.” O

problema com o computador não era grave. A descida da Eagle

podia continuar.

“Já tínhamos ido tão longe, queríamos pousar”, afirmou Neil.

“Não queríamos abortar a missão. Estávamos concentrando toda

a nossa atenção para fazer o que fosse necessário a fim de

completar o pouso.”

O alarme 1202 disparou por causa de uma sobrecarga no

computador de bordo provocada pelo excesso de entrada de

dados do radar de pouso. Felizmente, Steve Bales, de 26 anos

— principal especialista em navegação e software de computador

de módulos lunares da Equipe Branca do diretor de voo Gene

Kranz — logo concluiu que o pouso não seria comprometido pela

sobrecarga, já que o computador estava programado para

ignorar dados do radar de pouso sempre que houvesse cálculos

mais importantes a serem feitos.

A luz amarela do 1202 acendeu mais duas vezes nos quatro

minutos seguintes. A Eagle estava a apenas novecentos metros

da superfície lunar. Sete segundos depois do terceiro alarme

1202, a situação ficou mais tensa com o disparo de outro alarme:

o 1201.

 

04:06:42:15 Aldrin: Alarme de programa — 1201.

04:06:42:22 Armstrong: 1201! [Pausa] Ok, 600 a 15. [Isso

significava que o módulo lunar estava agora a seiscentos

metros da superfície lunar e caía a uma velocidade de

quinze metros por segundo, bem mais devagar que antes.]

 

O controle de missão levou apenas um instante para perceber

que o alarme 1201 também não era um problema grave.

 

04:06:42:25 CapCom: Entendido, alarme 1201. Executar. Mesmo

tipo. Executar.

 

A enorme audiência internacional de televisão sintonizada na

cobertura da Apollo 11 não tinha ideia do que significavam os

alarmes. Na CBS, Cronkite disse aos telespectadores, depois de

ouvir a referência da tripulação ao alarme: “Essas são

comunicações espaciais, simplesmente para fins de leitura.” Schirra não disse nada para corrigi-lo. Pode-se imaginar como a

cobertura ao vivo teria sido sensacional se os comentaristas

tivessem alguma noção do significado do alarme.

Para Armstrong, os alarmes foram principalmente uma

distração que só serviu para pôr o pouso em breve perigo, pois o

levou a desviar os olhos dos pontos de referência. “Estávamos

conseguindo boas velocidades e boas altitudes; a principal razão

da minha confiança naquele ponto era que a navegação estava

indo bem. Não havia anomalias além do computador dizendo:

“Ei, eu tenho um problema.” Todo o resto funcionava direito e

parecia estar sendo bem calculado.”

“Minha tendência era seguir em frente, já que tudo parecia

estar indo bem. Nunca tinha acontecido uma abortagem nessa

situação, e abortar àquela altura, em uma altitude relativamente

baixa, não teria sido uma manobra de pouco risco. Eu queria

evitar aquilo a menos que não houvesse outra alternativa — e no

momento eu não estava sem alternativa. Por isso, para mim,

seguir em frente parecia o melhor a fazer. Mas eu estava ouvindo

o pessoal do solo porque tinha muito respeito pela informação e

pela ajuda que poderiam vir de lá. Depois de chegar tão perto,

por que preferir uma situação perigosa — uma abortagem — só

porque uma luz de advertência estava dizendo que você talvez

tivesse um problema?”

Na época, Armstrong não deu importância para o quanto

Aldrin poderia estar preocupado com os alarmes. “Não sei se ele

tinha a mesma certeza que eu de que deveríamos continuar.”

Neil teria se distraído menos com os alarmes do computador

se soubesse mais sobre uma simulação realizada no controle de

missão alguns dias antes do lançamento. O cérebro por trás do

“sim” era Richard Koos, o chamado SimSup, ou supervisor de

simulação, no Centro de Espaçonaves Tripuladas. Richard, um

sujeito magro que usava óculos de aro metálico, tinha trabalhado

no Comando de Mísseis do Exército em Fort Bliss, Texas, antes

de ingressar no Grupo de Trabalho do Espaço em 1959.

Especialista em orientação por computador para mísseis guiados

para os programas Mercury e Gemini, ele tornou-se uma das

maiores autoridades de Houston em simulação de missões espaciais por computador. Para a Apollo, seu trabalho foi criar as

mais intensas sessões de treinamento e submeter a provas de

fogo cada aspecto da relação vital entre a tripulação em voo e a

equipe de solo no controle de missão.

No fim da tarde de 5 de julho, onze dias antes do lançamento,

Richard disse a seus técnicos que carregassem o “Caso No 26”

nos simuladores. O exercício não era voltado para instruir

astronautas, já que a tripulação no interior do simulador de

módulo lunar naquela tarde era integrada por Dave Scott e Jim

Irwin, a tripulação reserva da Apollo 12. O objetivo da simulação

era lançar uma bola com efeito e traiçoeira para a Equipe Branca

do diretor de voo Gene Kranz. A Equipe Branca era a unidade

que estaria nos painéis de controle dentro do controle de missão

durante o pouso da Apollo 11, e Richard sabia que a única

maneira de treinar seus integrantes para essas tarefas que

geravam alto nível de estresse era colocá-los em situações

extremas. Com um sorriso cínico no rosto, o SimSup disse a sua

equipe: “Ok, todo mundo ligado. Nunca testamos esse caso, por

isso ele vai exigir muito timing de nossa parte. Esse teste tem de

ser ao pé da letra, então aguardem minhas chamadas. Espero

que tenham bastante dinheiro trocado, porque se pisarmos na

bola vamos pagar a cerveja no final! ”

Com três minutos da sequência de pouso, o diabólico SimSup

tirou sua carta da manga: “Ok, galera, vamos jogar pesado e ver

o que eles sabem sobre os alarmes programados por

computador.”

O primeiro alarme a que foi submetida a equipe de Kranz foi o

de código 1201, precisamente um dos que a Apollo 11 acabaria

encarando. Steve Bales, o especialista em sistema de

computador do módulo lunar, não tinha ideia do que era aquilo.

Folheando apressadamente um manual de mais de seis

milímetros de grossura com um glossário do software do módulo

lunar, Bales leu: “1201 — Sobrecarga na Execução — sem

espaço livre.” Bales sabia o que isso significava: o computador

de bordo estava sobrecarregado de dados, mas as ramificações

da sobrecarga eram desconhecidas.

Gene Kranz se lembra claramente do raciocínio que levou o

controle de missão a abortar o pouso simulado: “Bales não tinha

as regras da missão sobre alarmes de programa. Tudo ainda

parecia estar funcionando; o alarme não fazia sentido. Enquanto

ele observava, outra série de alarmes foi exibida. Consultando

sua equipe de apoio, Bales ligou para Jack Garman, especialista

em software.

“Jack, que diabo está acontecendo com esses alarmes de

programa? Você vê algo de errado?”

Steve contava os segundos, aguardando a resposta de

Garman, aliviado porque a tripulação não tinha pedido uma

resposta. A resposta de Garman não ajudou.

“É um alarme de PEDIDO DE SOCORRO. Por alguma razão,

o computador está mais sobrecarregado que nunca, ficou sem

tempo para realizar todo o trabalho.”

Bales não precisava consultar as regras; ele tinha escrito

todas as regras do computador. Mas não havia nenhuma que

falasse sobre alarmes de programas de computador. De onde

diabos tinha vindo o alarme? Bales se sentiu nu, vulnerável,

vagando em território inexplorado. O computador do módulo

lunar tinha sido projetado para operar dentro de certos limites

bem definidos — ele só iria até ali, e se fosse pressionado a

realizar funções que não tivesse tempo ou capacidade para fazer,

algo de ruim poderia ocorrer.

Com os olhos fixos nos monitores e no roteiro nos quadros,

Steve buscou desesperadamente uma saída para o dilema. O

computador lhe dizia que algo não estava sendo feito, e ele se

perguntava o que seria. Depois de outro disparo de alarmes,

Steve ligou: “Jack, estou ficando atrás da curva de potência, o

que quer que esteja acontecendo não é bom. Não consigo

encontrar absolutamente nada de errado, mas o computador

continua reiniciando o software e enviando alarmes. Acho que é

hora de abortar!”

Segundos depois, Kranz ordenou a abortagem. Charlie Duke,

que atuava como CapCom na simulação, assim como atuaria

para o pouso real, instruiu os astronautas Scott e Irwin, dentro do módulo lunar, a realizar a abortagem, que foi executada com

sucesso.

Terminado o exercício, o SimSup expressou claramente seu

descontentamento na reunião de avaliação do resultado: “ISSO

NÃO ERA UMA ABORTAGEM. VOCÊS DEVERIAM TER

PROSSEGUIDO COM O POUSO. O alarme do computador 1201

dizia que o computador estava operando em um esquema de

prioridade interna. Se a orientação estava funcionando, os jatos

de controle estavam acionados e os monitores da tripulação

mostravam atualizações, então todas as tarefas críticas da

missão estavam sendo realizadas.” Dirigindo-se a Bales, Richard

disse, em um tom mais paternal: “Steve, eu estava ouvindo você

falar com sua equipe de apoio e achei que você tinha entendido

tudo. Pensei que você fosse continuar, mas então, por algum

motivo, você saiu pela tangente e decidiu abortar. Você sem

dúvida me deixou perplexo!” Então, dirigindo-se a Kranz, Richard

fez seu último comentário ácido: “Você violou a regra mais

fundamental do controle de missão. Você tem de receber duas

indicações antes de abortar. Você ordenou o aborto com apenas

uma!”

Imediatamente depois da reunião, Bales chamou sua equipe

para descobrir no que tinham errado. Ainda naquela noite, ele

telefonou para a casa de Kranz: “Richard estava certo, Gene, e

estou muito feliz que ele tenha nos desafiado.”

No dia seguinte, 6 de julho, Richard submeteu a equipe a mais

quatro horas de treinamento exclusivo em alarmes de programas.

Ao final de uma análise minuciosa do desempenho do

computador e dos tempos de resposta durante uma série de

diferentes condições de alarme, empreitada que durou até 11 de

julho, Bales acrescentou uma nova regra àquela que já era uma

longa lista de razões para abortar o pouso lunar. A regra, de

número “5-90, item 11”, dizia: “A descida propulsionada será

encerrada para os seguintes alarmes de programa do sistema de

orientação principal — 105, 214, 402 (continuação), 430, 607,

1103, 1107, 1204, 1206, 1302, 1501 e 1502.”

Os alarmes de programa 1201 e 1202 não faziam parte da

lista de Bales. No caso improvável de um ou outro disparar durante o grande acontecimento, a lição do SimSup não seria

esquecida.

 

* * *

 

Quando Armstrong e Aldrin relataram o primeiro alarme de

programa às 16h10 EST, Bales e sua equipe de especialistas em

computador do módulo lunar encontravam-se ocupados em uma

sala nos fundos do centro de controle estudando os dados que

chegavam do radar de pouso. Demorou alguns segundos para

que Jack Garman chamasse a atenção de Bales para o alarme.

“Aguarde, Voo”, disse Bales a Kranz pelo circuito de

comunicação do diretor de voo. Charlie Duke rapidamente

anunciou que o alarme era um 1202. Depois, pensando em voz

alta, Duke disse quase sem acreditar: “É o mesmo que vimos no

treinamento.” No mesmo momento, Kranz percebeu a

coincidência: “Foram exatamente os mesmos alarmes que nos

levaram à conclusão errada, um comando de abortagem, no

exercício de treinamento final, quando o SimSup venceu a última

rodada. Desta vez não vamos desembestar.”

O controle de missão sabia que todo alarme deveria ser

levado em conta, porque, se permanecesse ligado, o computador

de bordo poderia parar de funcionar, talvez forçando uma

abortagem. Mas por si sós, sem outros problemas, os alarmes

1202 e 1201 não requeriam uma abortagem. “Vamos executar

mesmo com o alarme”, disse Bales a Kranz, o mais rápido e claro

possível depois que o alarme soou pela primeira vez. “Ele está

captando os dados do radar.” Quando o 1202 disparou de novo,

Bales respondeu ainda mais rápido. “Vamos executar. Diga a ele

que vamos monitorar seus dados de altitude. Acho que é por isso

que ele está recebendo o alarme.” Quando o novo alarme 1201

apareceu, mais uma vez a resposta de Bales foi rápida:

“Executar… mesmo tipo… Executar.

Apesar da firmeza do controle de missão na decisão de

prosseguir com o pouso, teria sido útil para Armstrong e Aldrin

que eles tivessem passado por uma simulação de alarme de programa como parte de seu treinamento. “Tivemos alguns

alarmes de computador nas simulações a que fomos submetidos,

mas não esses em particular”, comentou Armstrong. “Eu não

saberia dizer quantos, mas foi um bom número — talvez cem. Eu

não tinha todos os alarmes de programas guardados na

memória, e ainda bem que não tinha.” O conhecimento de tantos

alarmes teria congestionado seu cérebro com um tipo de

informação que ele não precisava ter de maneira nenhuma —

desde que o pessoal do controle de missão soubesse o que fazer

se qualquer um da miríade de alarmes de programa soasse.

Ainda assim, é possível imaginar que alguém pudesse ter

pensado em informar a tripulação da Apollo 11 sobre quaisquer

resultados importantes de simulações que ocorreram depois que

eles saíram de Houston para o Cabo ou pelo menos mencionar o

assunto informalmente para Neil e Buzz. Mas, pelo que lembram

os astronautas, isso jamais aconteceu.

“Neil, nos dias que antecederam o lançamento, alguém, talvez

Charlie Duke, falou com você sobre uma simulação em Houston

a respeito de sobrecargas no computador do módulo lunar que

poderiam ocorrer durante os últimos minutos da descida?”

“Eu tinha ouvido em algum lugar, ou me lembrava de que

essas falhas tinham sido postas no simulador.”

“Mas você tinha sido informado de que o controle de missão,

nesse caso, abortou desnecessariamente o pouso simulado e

depois descobriu que não haveria indicação para abortagem se

esse e aquele alarme de programa do computador disparassem,

não havendo outro problema? Você não se lembra de ter ouvido

falar disso?”

“Não.”

“Isso teria feito diferença na maneira como você reagiu aos

alarmes quando eles de fato ocorreram na Apollo 11?”

“Bem, teria sido útil saber disso.”

Aldrin é categórico ao dizer que não se lembra de ter ouvido

qualquer coisa sobre a simulação de última hora: “Eu não sabia

de nada disso até ouvir falar sobre o assunto um ou dois anos

depois do voo. Foi a primeira vez que fiquei sabendo que alguém

tinha experimentado isso em treinamento.” Por outro lado, Buzz acha que Neil deve ter ouvido algo a respeito do assunto antes

do lançamento: “Acredito que alguém tenha informado Neil sobre

isso, então ele sabia que havia algo assim que poderia

acontecer.”

“Então, Buzz, quando os alarmes de programa alertaram

vocês dois durante o pouso, Neil tinha algum conhecimento de

que essa era uma possibilidade e que tinha sido praticada em

uma simulação, mas você não sabia nada sobre o assunto?”

“Isso mesmo. Eu não sabia nada a respeito. E essa não foi

uma situação boa. Eu deveria ter recebido algum aviso sobre

isso. Eu deveria saber de algumas outras coisas. Mas essas

eram as falhas de comunicação com Neil, e eu não sabia o que

fazer para mudar isso.”

“Mas não teria sido bom se vocês dois tivessem tido

conhecimento dos resultados daquela simulação, para que

ambos pudessem reagir da maneira mais sensata se um alarme

de programa desse tipo de fato disparasse?”

“Concordo, mas só descobri isso cerca de um ano depois.

Então, era tarde demais para fazer disso um problema, porque

teria trazido à tona coisas não elogiosas a respeito dos métodos

de alguém, e eu sem dúvida não queria fazer isso.”

Ao que parece, o principal efeito dos alarmes sobre Armstrong

foi que ele dedicou mais tempo e atenção a eles do que gostaria:

“Eu tinha a obrigação de me assegurar de que sabia o que

estava acontecendo e de que não estávamos desprezando algo

importante; então, nesse sentido, sim, claro, foi uma distração e

tomou um pouco de tempo. Os alarmes, quando disparavam,

atrapalhavam minha concentração nos pontos de referência. Se

tivesse conseguido passar mais tempo olhando pela janela e

identificando os pontos, talvez tivesse tido uma noção melhor e

mais precisa de onde se encontrava nosso local de pouso.” Mas

em nenhum momento durante os alarmes Neil achou que poderia

precisar abortar, porque sabia instintivamente que tais alarmes

não exigiam uma abortagem se tudo estivesse em ordem. “Na

minha cabeça, o que orientava a operação era o modo como a

nave estava voando e as informações que apareciam no painel. Se tudo estava indo bem, como se esperava que fosse, eu não

iria me intimidar com uma luz amarela de computador.”

Quando Neil mudou o foco para a superfície lunar da qual eles

se aproximavam com rapidez, não viu crateras ou grupos de

crateras dos quais tivesse feito o reconhecimento, mas, naquelas

circunstâncias, essa não era uma grande preocupação. Durante

horas a fio de treinamento, Neil tinha estudado diferentes mapas

da Lua, examinado dezenas de imagens da superfície lunar feitas

por satélites do Programa Lunar Orbiter e analisado uma série de

fotografias de alta resolução feitas pela Apollo 10, sinalizando o

caminho, ponto a ponto, até o mar da Tranquilidade. “Os pontos

de referência que eu estava vendo lá fora não eram os mesmos

que eu tinha estudado ou de que lembrava a ponto de saber

exatamente onde estávamos, mas fui pragmático em relação a

isso. Não achei surpreendente ou preocupante pousar em outro

local. Aliás, o que teria surpreendido na primeira tentativa de um

pouso lunar seria descer em um local muito próximo de onde

queríamos. Eu nem contava com isso. De um ponto de vista

objetivo, eu não me importava especialmente com o lugar onde

pousaríamos, contanto que fosse uma área decente e não

perigosa. Não fazia muita diferença onde fosse. Achei que

poderíamos simplesmente ter de escolher um lugar qualquer e

pousar.”

Como tinha voltado sua atenção para resolver os alarmes de

programa, Armstrong só pôde olhar de verdade para fora sem

interrupções e ver o local de pouso quando o módulo lunar

estava a menos de seiscentos metros da superfície. O que ele

viu enquanto eles caíam os quinhentos metros seguintes não foi

bom:

 

04:06:43:08 Armstrong: Área bastante rochosa.

 

O computador de bordo estava levando a Eagle bem na

direção da encosta de uma cratera próxima do tamanho de um

campo de futebol. Mais tarde denominada cratera Oeste, era cercada por um grande campo rochoso. Algumas das rochas

eram do tamanho de um Fusca.

“De início, achei que aquele poderia ser um bom local de

pouso se conseguíssemos parar bem perto da cratera, porque

teria maior valor científico. Contudo, a inclinação das laterais da

cratera era considerável, e achei que não seria bom pousar em

uma encosta íngreme.

“Pensei então que talvez pudéssemos evitar as pedras

maiores do campo rochoso, mas como eu nunca tinha pousado

essa nave antes, não sabia se conseguiria manobrar bem entre

elas até determinado ponto de pouso. Tentar entrar em um lugar

muito apertado provavelmente não seria divertido. Além disso,

estávamos nos aproximando com rapidez, e logo ficou claro que

eu não teria tempo de encontrar um local de pouso seguro.

Aquele não era o lugar onde eu gostaria de pousar. Seria melhor

ter uma área maior e mais aberta, sem perigos iminentes por

todos os lados.”

 

04:06:43:10 Aldrin: Cento e oitenta metros, descendo a seis.

Cento e sessenta metros, descendo a nove. Descendo a

cinco.

04:06:43:15 Armstrong: Eu vou…

 

Quando chegaram à faixa de 150 metros, Armstrong assumiu

o controle manual. A primeira coisa que fez foi levar o veículo a

uma inclinação próxima de zero, reduzindo assim a velocidade

de descida. Colocando-se quase na vertical, ele manteve a

velocidade do deslocamento frontal — entre quinze e dezoito

metros por segundo — para, assim como faria um piloto de

helicóptero, poder voar para além da cratera.

Agora que Armstrong rumava para além da cratera, precisava

escolher um bom lugar para pousar, uma empreitada

potencialmente difícil dadas as condições muito peculiares de

iluminação que afetavam a superfície da Lua, o que era

impossível simular na Terra. “Uma grande preocupação”,

relembra Neil, “era que, à medida que nos aproximávamos da Lua, a luz refletida pela superfície fosse tão forte que, qualquer

que fosse o ângulo em que estivéssemos, pudesse nos fazer

perder em parte a visão e afetar seriamente nossa percepção de

profundidade.”

Felizmente, os planejadores da missão da NASA tinham dado

muita atenção à fotometria. Eles haviam concluído que, para uma

máxima percepção de profundidade, a Eagle precisava pousar

em um momento do “dia” e em um ângulo que gerassem as

sombras mais longas possíveis. Onde não havia sombras, a Lua

parecia plana, mas onde as sombras eram longas ela parecia

inteiramente tridimensional. Um astronauta poderia então

perceber a profundidade na superfície lunar muito bem: detectar

diferenças na elevação; identificar com facilidade os relevos

acentuados e a forma dos picos, vales, crateras, cristas e bordas.

A condição ideal para a trajetória do módulo lunar ocorreu

quando o Sol estava 12,5 graus acima do horizonte. Esse era o

momento em que Armstrong e Aldrin tinham boa luz sobre a área

e uma ótima definição de profundidade de campo.

Com uma visão relativamente boa da área além da cratera,

levar o módulo lunar para baixo tornou-se pura e simplesmente

uma questão de habilidade de Neil na pilotagem. Foi nesse

momento que o tempo que Armstrong passou no LLTV

compensou, pois ele precisava levar a Eagle ao ponto de pouso

não apenas pairando e descendo verticalmente, mas

mergulhando ao longo de mais quinhentos metros a uma

velocidade relativamente alta. “No LLTV, eu havia feito algumas

dessas manobras. Era uma questão de usar aquelas técnicas e

cruzar acima do solo. Se eu tivesse um pouco mais de

experiência na máquina, poderia ter sido um pouco mais

agressivo e assim superar mais rápido a cratera, mas não me

pareceu prudente fazer grandes movimentos em termos de

atitude. Eu simplesmente não tinha experiência de voo suficiente

na máquina naquelas condições para saber como ela reagiria e o

quão confortável eu ficaria ali. Felizmente, o módulo lunar voou

melhor do que eu esperava. Portanto, eu sem dúvida poderia ter

me dado bem se tivesse sido um pouco mais agressivo deslocando-me de forma mais ágil da área ruim para a área

melhor, o que pouparia um pouco de combustível.”

Normalmente, o “pouso longo” não é uma má ideia, em

especial quando a pista é reconhecidamente prolongada. Mas,

quando se pousa na superfície rochosa e esburacada da Lua, o

pouso longo traz mais incertezas que o pouso “curto” em uma

área em que o piloto já identificou os perigos possíveis.

“Se você não gosta do que vê”, explica Aldrin, “há quatro

opções: esquerda, direita, baixo ou curto, ou arremeter.

Disparado, a menos traumática é arremeter, embora possa haver

alguma dúvida: ‘Bem, se eu subir, fico sem visão. Enquanto se eu

pousar curto, aí tenho uma visão boa. Eu não estou nela, estou

na frente dela.’ Quando tento reconstruir isso, vejo que se for

para a direita a coisa fica feia; se for para a esquerda a coisa fica

feia; e descer e parar curto (…) é simplesmente um mau

negócio.”

Armstrong concordou:

“Você pode chegar lá e descobrir: ‘Jesus, estou em uma

situação terrível!’”

“Então, o mais natural a se fazer”, continua Aldrin, “é

arremeter.”

“Esticar”, acrescentou Neil. “Tínhamos de escolher um lugar e

não sabíamos o quanto perderíamos em visibilidade à medida

que nos aproximássemos da superfície. Queríamos escolher um

local que fosse muito bom enquanto ainda estivéssemos a cerca

de cinquenta metros de altitude.”

 

04:06:43:46 Aldrin: Noventa metros [de altitude], descendo um

[metro por segundo], quatorze [metros por segundo] à

frente. Desacelerar. Descendo um e meio. Diminua a

descida.

04:06:43:57 Armstrong: Ok, como está o combustível?

04:06:44:00 Aldrin: Desça.

04:06:44:02 Armstrong: Ok. Aqui tem… Aqui parece um bom

local.

04:06:44:04 Aldrin: Vejo a sombra lá fora.

Ver a sombra do módulo lunar foi de grande ajuda porque era

mais uma referência visual da altura em que se encontravam.

Buzz calcula hoje que viu a sombra pela primeira vez a cerca de

oitenta metros: “Pensava que, a oitenta metros, a sombra estaria

bem ali na nossa cara, bem longa, mas não estava. Dava para

saber que nosso trem de pouso estava abaixado e que tínhamos

um estágio de descida e de ascensão. Se tivesse olhado antes,

tenho certeza de que teria identificado algo com uma sombra à

altitude de 120 metros, talvez mais alto. De qualquer forma, na

altitude mais baixa, era uma referência útil, mas, é claro, você

tinha de vê-la pela janela”, o que Neil não conseguia. Durante os

estágios finais da aproximação, Armstrong pilotou o módulo lunar

girando para a esquerda. Por isso, a estrutura da espaçonave

sobre a escotilha bloqueava sua visão da sombra do módulo

lunar.

Enquanto descia para entre 65 metros, Armstrong encontrou o

local onde quis pousar, um ponto plano logo depois de uma

cratera menor localizada além da cratera Oeste:

 

04:06:44:18 Aldrin: Três e meio para a frente. Descendo bem.

Sessenta metros, descendo a um e meio.

04:06:44:23 Armstrong: Vai ser bem em cima daquela cratera.

04:06:44:25 Aldrin: Descendo a um e meio.

04:06:44:27 Armstrong: Achei um bom local.

04:06:44:31 Aldrin: Cinquenta metros, descendo a dois.

Descendo a um e meio, dois e meio para a frente. Você

está indo bem.

 

Embaixo, Neil viu uma camada de poeira lunar que se erguia

curiosamente, lançada para cima pelo motor de descida do

módulo lunar; na verdade, a sombra do módulo lunar que Buzz

estava vendo era projetada sobre essa camada de poeira, e não

na superfície da Lua. Segundo Neil: “Começamos a perder

visibilidade quando ficamos um pouco abaixo de trinta metros.

Começamos a pegar poeira — não nuvens de poeira normais

como as que experimentamos aqui na Terra. A poeira da superfície lunar formou uma camada que se espalhava a partir do

módulo lunar em todas as direções. Esse lençol de poeira em

movimento obscurecia quase que por completo a superfície,

embora algumas das rochas maiores se projetassem através

dele. A poeira se deslocava muito rápido, quase na horizontal;

não subia, apenas se distanciava em um lençol radial reto.

“À medida que descíamos, a visibilidade continuava a

diminuir”, relatou Neil. “Não acho que a determinação visual da

altitude tenha sido seriamente prejudicada pela poeira, mas o

mais confuso para mim foi a dificuldade de avaliar nossa

velocidade lateral e de descida. Algumas rochas maiores se

projetavam em meio à poeira em movimento, e era preciso olhar

através da camada de poeira para encontrar as rochas

estacionárias e basear nelas suas decisões quanto à velocidade

de translação. Achei bem difícil. Passei mais tempo tentando

restringir a velocidade de translação do que achava que seria

necessário.

“Então, depois de encontrar o local para pousar, era só baixar

o módulo lunar relativamente devagar e evitar movimentos

bruscos para a frente ou para o lado. Ao atingir a marca de

menos de quinze metros, apesar de estarmos ficando sem

combustível, achei que daria tudo certo. Senti que a nave

conseguiria suportar o impacto por causa da espuma retrátil que

havia dentro das pernas de pouso. Eu não queria cair dessa

altura, mas ao chegar a menos de quinze metros eu estava bem

confiante de que daria tudo certo.”

Do ponto de vista de Houston, a situação era, de fato, crítica

— o drama nos painéis de controle do suprimento de

combustível, palpável e emocionante.

De volta a uma altura de oitenta metros, pouco antes que Buzz

avistasse a sombra do módulo lunar, Armstrong perguntou:

“Como está o combustível?” Quando o módulo lunar estava a

cinquenta metros, Bob Carlton, engenheiro de sistemas de

controle da Equipe Branca de Kranz, informou pelo circuito do

diretor de voo que o suprimento de combustível do módulo lunar

havia chegado ao “nível baixo”. Isso significava que o carburante

nos tanques da espaçonave estava abaixo do ponto em que poderia ser medido, como um medidor de gasolina em um

automóvel que indica tanque vazio, mas com o carro ainda

rodando. Kranz afirmou mais tarde: “Nunca imaginei que ainda

estaríamos voando com os tanques tão vazios.”

A pouco menos de trinta metros, Aldrin emitiu o alerta de “luz

de combustível”, indicando que restavam apenas 5% da carga

original. No controle de missão, essa situação deu início a uma

contagem regressiva de 94 segundos até o alerta “bingo” de

combustível. Quando o alerta “bingo” fosse emitido, ao término

dos 94 segundos, Armstrong, em sua velocidade de descida,

teria apenas vinte segundos para pousar. Se achasse que não

daria para pousar nesse período, Neil teria de abortar

imediatamente — algo que, a trinta metros da Lua, ele não tinha

a menor intenção de fazer.

A 25 metros, Bob Carlton informou a Kranz que restavam

apenas sessenta segundos para o bingo. Charlie Duke repetiu o

alerta de Carlton para que Neil e Buzz pudessem ouvir. Pelo que

Kranz lembra: “Não houve resposta da tripulação. Eles estavam

ocupados demais. Tive a sensação de que eles estavam indo

para o tudo ou nada. Tinha essa sensação desde que eles

tinham assumido o controle manual: ‘Eles são as pessoas certas

para o trabalho.’ Fiz o sinal da cruz e pedi: ‘Por favor, Deus.’”

Segundo Armstrong: “Se ainda estivéssemos a trinta metros

ou mais, sem dúvida teríamos de abortar. Porém, estando mais

baixo que isso, a coisa mais segura a fazer era continuar.

Estávamos bem conscientes sobre a situação do combustível.

Ouvimos Charlie dar o alerta bingo e vimos a luz de combustível

na cabine, mas passamos por cima disso. Eu sabia que

estávamos bem baixo nesse momento. Mas a menos de trinta

metros não era hora de querer abortar.”

Com 04:06:45:07 de tempo transcorrido, Aldrin leu em voz

alta: “Vinte metros, descendo a meio. Meio para a frente, meio

para a frente. Bom.” Armstrong queria estar se movendo para a

frente ao pousar a fim de não cair em um buraco que não havia

notado. “Durante toda a aproximação final, preferi fazer um

movimento breve para a frente, porque se estivéssemos

descendo na vertical não conseguiríamos ver o que estava logo embaixo de nós. Queríamos ficar bem perto do chão para ter

certeza de que a área era boa. Aí então poderíamos interromper

o movimento para a frente e deixar estabilizar.”

“Aguardem trinta segundos”, veio o chamado seguinte de

Carlton. No controle de missão, o silêncio tornou-se

ensurdecedor. Todos os que estavam diante dos painéis e nas

salas de observação engoliam em seco, esforçando-se para ouvir

o que viria a seguir: o pouso da Eagle ou o próximo alerta de

combustível de Carlton.

Nos controles do módulo lunar, Neil não estava tão

preocupado com o combustível. “No LLTV, não era raro pousar

com quinze segundos restantes de combustível — fazíamos isso

o tempo todo. Tudo me parecia administrável. Teria sido bom ter

mais um minuto de combustível para me divertir um pouco mais.

Eu sabia que estávamos ficando sem combustível; sabia que

tínhamos de pousar; sabia que precisávamos chegar a menos de

quinze metros. Mas não estava em pânico por causa do

combustível.”

 

04:06:45:26 Aldrin: Seis metros, descendo zero ponto quinze.

Avançando um pouquinho. Bom. Ok. Luz de contato.

 

A luz de contato acendeu no instante em que uma ou mais das

sondas sensoriais do módulo lunar, penduradas em três de seus

quatro pés, tocaram a superfície lunar.

Neil estava tão concentrado no que tinha de fazer para pousar

em segurança que nem ouviu Aldrin dizer expressamente “Luz de

contato”, nem viu a luz azul de contato acender. Seu plano era

desligar o motor de descida assim que a luz de contato

acendesse, mas não conseguiu fazer isso. “Ouvi Buzz dizer algo

sobre contato. Mas naquele momento ainda estávamos sobre o

lençol de areia em movimento, e não tive certeza de que

tínhamos realmente tocado a superfície. A indicação da luz de

contato podia ter sido uma anomalia ou algo assim, então eu

queria perceber que estava chegando um pouco mais perto. É

possível que tenhamos pousado antes que eu desligasse o motor — seja como for, estávamos muito perto. O único perigo nisso

era chegarmos perto demais da superfície com a tubeira do

motor funcionando, pois correríamos o risco de danificar o motor.

Não teria acontecido uma explosão, então não era algo que me

preocupasse. Mas, pensando bem, acho que algo ruim poderia

ter acontecido. Se tivéssemos pousado bem em cima de uma

rocha com a tubeira do motor ainda para fora, não teria sido nada

bom.”

 

04:06:45:41 Armstrong: Desligando.

04:06:45:42 Aldrin: Ok. Motor parado.

 

Foi um pouso bem suave, tão brando que os astronautas mal

perceberam que estavam de fato totalmente no chão. “Que eu

pudesse sentir, não havia nenhuma tendência a virar”, declarou

Neil. “Simplesmente assentou, como um helicóptero.” Na

verdade, talvez um pouso mais pesado, como os que foram

realizados deliberadamente pelas tripulações posteriores da

Apollo, tivesse sido mais útil. “A gente sempre tenta fazer um

pouso suave”, explica Neil, “mas se tivéssemos pousado com um

pouco mais de peso, encaixando os ganchos nas pernas de

pouso e comprimindo mais a espuma, a parte de baixo do

módulo lunar teria ficado um pouco mais perto do chão e não

teríamos de pular tanto para subir e descer a escada. Então

provavelmente teria sido mais conveniente pousar com um pouco

mais de peso.”

 

04:06:45:58 Armstrong: Houston, base da Tranquilidade aqui. A

águia pousou.

 

Aldrin sabia que Neil iria chamar o local de pouso de base da

Tranquilidade, mas Neil não lhe contou em que momento diria

isso. O mesmo ocorreu com Charlie Duke. Neil havia falado

sobre o nome com ele antes do lançamento. Mas, quando

Charlie o ouviu pela primeira vez, no momento do pouso, o homem da Carolina do Sul que normalmente tinha dicção

perfeita, de repente se enrolou:

 

04:06:46:06 CapCom: Câmbio, Tlan… [corrigindo-se]

Tranquilidade. Entendido, vocês no chão. Tem um monte de

caras aqui ficando roxos. Estamos respirando de novo.

Muito obrigado.

04:06:46:16 Aldrin: Obrigado.

04:06:46:18 CapCom: Daqui você parece bem.

 

Olhando para trás, parece claro que a questão do suprimento

de combustível da Eagle nunca foi tão grave quanto pensava o

controle de missão na época — ou como os historiadores fizeram

parecer que era. As análises pós-voo indicaram que Armstrong e

Aldrin pousaram com cerca de 350 litros de combustível. Desse

total, cerca de 45 litros não seriam utilizáveis. O restante teria

sido suficiente para cerca de cinquenta segundos a mais de voo.

Eles ficaram com cerca de 225 litros de combustível utilizável a

menos do que teria sobrado para qualquer um dos cinco pousos

subsequentes Apollo.

Armstrong disse mais tarde: “O importante é que estávamos

bem perto da superfície, e aquilo na verdade não importava. Não

teríamos perdido o controle de atitude se tivéssemos ficado sem

combustível. O motor teria parado, mas, à distância em que

estávamos, teríamos pousado em segurança.”

 

* * *

 

O pouso ocorreu às 16h17min39 EDT (20h17min39, horário de

Greenwich), no domingo 20 de julho de 1969. No instante em que

a humanidade percebeu que o pouso tinha sido realizado com

sucesso — Cronkite exclamou na TV: “Uau, rapaz! Homem na

Lua!” — a vibração explodiu. Assim como Cronkite, gente de toda

parte sentiu uma tremenda descarga emocional. As pessoas

ficaram sem palavras ou aplaudiram como loucas. Riram com

lágrimas escorrendo pelo rosto. Gritaram, berraram, urraram e vibraram. Apertaram-se as mãos e se abraçaram, uniram copos e

brindaram. O devoto fez orações. Em algumas partes do mundo,

comentou-se: “Bem, os americanos enfim conseguiram.”

Naturalmente, nos Estados Unidos, houve um sentimento

especial de orgulho e realização. Mesmo aqueles que estavam

descontentes com seu país, como muitos nos dias da Guerra do

Vietnã, sentiram que o pouso na Lua era uma coisa

extraordinária.

Dentro do módulo lunar, a 384 mil quilômetros de distância,

Armstrong e Aldrin, nos momentos só deles após o pouso,

fizeram o possível para reprimir as emoções que sentiam. Os

dois astronautas relaxaram apenas tempo o suficiente para

apertar as mãos e trocar tapinhas nos ombros. Foi um momento

decisivo tanto para a vida de ambos quanto possivelmente para a

humanidade no século XX, mas para os dois primeiros homens

na Lua não houve tempo de curtir o momento.

“Até agora, tudo bem” foi a única reação que Neil se lembra de

ter tido. Voltando ao checklist, tudo o que ele disse a Buzz foi:

“Ok, vamos em frente.”

 

3 Armstrong sempre falava sobre o rastreamento dos pontos de referência como se ele e Aldrin o estivessem realizando juntos, mas não foi o caso. “Agradeço pelo ‘nós’”, comentou Aldrin, “mas Neil executou todo o rastreamento, porque eu não estava olhando pela janela. Não dei a mínima para os pontos de referência. O que não estava na tela do computador, eu não via.” Citação de Aldrin em “The First Lunar Landing”, Apollo Lunar Surface Journal, org. Eric M. Jones, p. 13.