O Primeiro Homem na Lua

James R. Hansen · Capítulo 2 de 42

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O Primeiro Homem na Lua

Epígrafe

O privilégio de uma vida é ser quem você é.

 

— Joseph Campbell, Reflections on the art of living

Prólogo

O LANÇAMENTO

 

Depois do fim da missão à Lua, e com os astronautas da Apollo

11 de volta à Terra, Buzz Aldrin comentou com Neil Armstrong:

“Neil, perdemos tudo isso.”

Em torno de 750 mil a um milhão de pessoas — a maior

multidão já reunida para um lançamento espacial —

encontravam-se no Cabo Kennedy, como era chamado o Cabo

Canaveral na época, nos dias que antecederam a quarta-feira, 16

de julho de 1969. Cerca de mil policiais federais, estaduais e da

patrulha costeira lutaram durante toda a noite anterior para

manter os 350 mil carros e barcos nas estradas e nos cursos de

água. Um inspetor de veículos com espírito empreendedor

arrendou de plantadores de laranja uma extensão de três

quilômetros ao longo da estrada e cobrou 2 dólares por cabeça

pela visão privilegiada. Por 1,50 dólar cada, outro empreendedor

vendeu certificados de presença impressos em pergaminho

falsificado com imitações de letras antigas; por 2,95 dólares

comprava-se uma caneta espacial falsa.

Nenhuma festa ao ar livre promovida por causa de um jogo de

futebol seria capaz de se equiparar ao festival de verão que

precedeu o primeiro lançamento para um pouso na Lua. Os

presentes acendiam churrasqueiras, abriam coolers, olhavam

através de binóculos e telescópios, experimentavam câmeras e

lentes — pessoas lotavam todo espaço na areia, todos os

deques e todo o cais.

Sufocada pelo calor de 32 graus já de manhã, picada por

mosquitos, irritada por engarrafamentos ou preços extorsivos, a

grande massa humana esperou pacientemente que o colossal

Saturno V disparasse a Apollo 11 em direção à Lua.

Banana River, que fica oito quilômetros ao sul do complexo do

lançamento, estava abarrotada de barcos de todos os tipos. Em

uma grande lancha da North American Aviation, construtora do

módulo de comando da Apollo, Janet Armstrong, esposa do

comandante da Apollo 11, e seus dois filhos, Rick, de doze anos,

e Mark, de seis, esperavam ansiosos pelo lançamento. O

astronauta e amigo Dave Scott, companheiro de Neil no voo da

Gemini VIII em 1966, conseguiu o que Janet chamou de “lugar

número uno”. Dois amigos de Janet também estavam a bordo,

assim como uns poucos funcionários de relações públicas da

NASA e Dora Jane (Dodie) Hamblin, uma jornalista que fazia a

cobertura exclusiva do lado pessoal da história da Apollo 11 para

a revista Life.

Acima de todos, helicópteros traziam grupos e mais grupos de

VIPs para as arquibancadas erguidas no melhor lugar, a pouco

mais de cinco quilômetros da plataforma de lançamento. Dos

cerca de vinte mil convidados especiais da NASA, compareceram

de fato em torno de um terço, incluindo algumas centenas de

ministros estrangeiros, ministros de ciência e tecnologia, adidos

militares e oficiais da aviação, além de dezenove governadores

de estados americanos, quarenta prefeitos e centenas de

empresários do comércio e da indústria americanos. Metade dos

membros do Congresso estava presente, assim como alguns

juízes da Suprema Corte. A lista de convidados ia do general

William Westmoreland, chefe de Estado-Maior do Exército

americano mobilizado para a Guerra do Vietnã, e Johnny Carson,

que estrelava o programa da NBC Tonight Show, a Leon

Schachter, diretor do sindicato dos açougueiros varejistas e

trabalhadores da indústria da carne.

O vice-presidente Spiro T. Agnew sentou-se nas

arquibancadas enquanto o presidente Richard M. Nixon assistiu

ao lançamento pela televisão no Salão Oval. De início, a Casa

Branca tinha programado um jantar de Nixon com os astronautas

da Apollo 11 na véspera do lançamento, mas os planos mudaram

depois que o dr. Charles Berry, médico-chefe dos astronautas, foi

citado pela imprensa dizendo que o presidente podia estar

incubando um resfriado sem saber. Armstrong, Aldrin e Mike Collins acharam a preocupação absurda. Vinte ou trinta pessoas

— secretários, técnicos em trajes espaciais, técnicos dos

simuladores — estavam em contato diário com eles.

Dois mil repórteres assistiram ao lançamento da sala de

imprensa do Centro Espacial Kennedy. Oitocentos e doze tinham

vindo de outros países, 111 só do Japão. Do bloco soviético veio

uma dúzia de correspondentes.

O pouso na Lua era um evento conjunto global que

praticamente toda a humanidade achava que transcendia a

política. Os jornais britânicos usaram letras de cinco a sete

centímetros de altura para anunciar a notícia do lançamento. Na

Espanha, o vespertino Pueblo, embora crítico da política externa

americana, mandou para o Cabo Kennedy 25 ganhadores de um

concurso, com todas as despesas pagas. Um editorialista

holandês chamou seu país de “louco pela Lua”. Um colunista

tcheco observou: “Estes são os Estados Unidos que amamos,

totalmente diferente dos Estados Unidos que lutam no Vietnã.” O

jornal popular alemão Bild Zeitung observou que sete dos 57

supervisores do projeto Apollo eram de origem alemã; o jornal

concluiu, em um tom chauvinista, que “12% de todo o trabalho

para a viagem à Lua é ‘made in Germany’”. Até mesmo os

franceses consideraram a Apollo 11 “a maior aventura na história

da humanidade”. Um suplemento de 22 páginas do France-Soir

vendeu 1,5 milhões de exemplares. Um jornalista francês ficou

admirado com a imensidão do interesse pelo pouso na Lua “em

um país cujo povo está tão cansado de política e assuntos

internacionais que é acusado de só se importar com férias e

sexo”. A Rádio Moscou destacou as notícias sobre o lançamento.

O jornal soviético Pravda estampou em primeira página a cena

ocorrida no Cabo Kennedy, publicando uma foto da tripulação da

Apollo 11 com a legenda “Esses três homens corajosos”.

Nem toda a imprensa se mostrou favorável. Em Hong Kong,

três jornais comunistas atacaram a missão como se fosse uma

cortina de fumaça a fim de acobertar o fracasso americano na

Guerra do Vietnã e levantaram acusações de que o pouso na

Lua era uma iniciativa para “estender o imperialismo ao espaço”.

Outros acusaram o materialismo do programa espacial americano, que arruinaria para sempre o encanto e as belas

qualidades etéreas da misteriosa Lua, envolta em lendas desde

tempos imemoriais. Depois que os exploradores humanos

violaram a Lua com suas pegadas e ferramentas de escavação,

quem mais poderia encontrar romantismo na pergunta do poeta

John Keats: “O que há em ti, Lua, que com tal força toca meu

coração?” Tendo participado do milagre tecnológico dos primeiros

satélites de comunicação lançados no começo da década,

cinquenta mil sul-coreanos se reuniram diante de um telão na

embaixada dos Estados Unidos em Seul. Uma multidão de

poloneses lotou o auditório da embaixada dos Estados Unidos

em Varsóvia. Problemas com o satélite Intelsat III da AT&T sobre

o Atlântico impediram que o Brasil assistisse à transmissão

televisionada ao vivo (como ocorreu em muitas partes da

América do Sul, Central e Caribe), mas os brasileiros a ouviram

por rádio e compraram edições especiais dos jornais. Por causa

do problema com o Intelsat, a transmissão improvisada por todo

o globo, de leste a oeste, foi feita com um atraso de dois

segundos na cobertura mundial ao vivo.

Pouco antes do lançamento, o comentarista Eric Sevareid, da

CBS News, narrava a cena para o público de Walter Cronkite:

“Walter (…) a partir de hoje (…) acho que a língua será alterada

(…) Como continuar falando em ‘chegar até o céu’ ou ‘o céu é o

limite’ — o que isso vai significar?”

Em nenhum lugar do globo a emoção era mais palpável do

que nos Estados Unidos. No leste do Tennessee, plantadores de

tabaco reuniram-se em volta de um rádio transistor de bolso para

participar do grande momento. No porto de Biloxi, Mississippi,

pescadores de camarão esperaram no cais até que chegasse a

notícia do lançamento da Apollo 11. Na Academia da Força

Aérea em Colorado Springs, onde as aulas das 7h30 foram

adiadas, cinquenta cadetes se reuniram em torno de um pequeno

aparelho de TV. No cassino 24 horas de Caesars Palace em Las

Vegas, as mesas de blackjack e as roletas ficaram vazias

enquanto os apostadores permaneciam enfeitiçados diante de

seis telas de TV.

A multidão de testemunhas oculares reunida no cabo e em

suas imediações — Merritt Island, Titusville, Indian River, Cocoa

Beach, Satellite Beach, Melbourne, por toda a extensão dos

condados de Brevard e Osceola até os distantes Daytona Beach

e Orlando — preparava-se para uma das visões mais incríveis já

experimentadas pelo homem. A voz de Jacksonville, a sra. John

Yow da Flórida, esposa de um corretor da bolsa de valores, dizia

trêmula: “Estou tremendo, estou em lágrimas. É o começo de

uma nova era para a vida do homem.” Charles Walker, aluno da

Universidade de Purdue, onde Armstrong tinha estudado, disse a

um jornalista de seu acampamento em uma pequena enseada

em Titusville: “É como se a humanidade descobrisse o fogo mais

uma vez. Talvez essa luz que se acende una os homens agora.”

Nos lugares VIPs mais próximos do complexo de lançamento, R.

Sargent Shriver, embaixador dos Estados Unidos na França,

casado com Eunice Kennedy, irmã do falecido presidente John

Kennedy — que tinha comprometido o país a pousar na Lua —,

declarou: “Como isso é bonito! O vermelho das chamas, o azul

do céu, a fumaça branca — essas cores! Pense nos caras que

estão ali fazendo essa viagem incrível! Incroyable!”

O comentarista Heywood Hale Broun, da CBS, mais

conhecido por ser um irreverente jornalista esportivo, assistiu ao

lançamento com milhares de pessoas ao longo de Cocoa Beach,

a uns vinte quilômetros da plataforma. Ele disse às dezenas de

milhões de ouvintes de Cronkite: “Em uma partida de tênis, você

olha para lá e para cá. No lançamento de um foguete, você só

fica olhando para cima, seu olhar vai para cima, suas esperanças

vão para cima e finalmente a multidão toda, como um enorme

caranguejo de muitos olhos, estava olhando cada vez mais para

cima em total silêncio. Houve um pequeno ‘Aah!’ quando o

foguete foi disparado, mas depois foi só ficar olhando e tentando

alcançar. Foi a poesia da esperança, eu diria, não falada, mas

vista nos gestos concentrados das pessoas à medida que

chegavam mais e mais alto com o foguete.”

Mesmo os que foram ao lançamento para protestar não

conseguiram evitar a profunda emoção. O reverendo Ralph

Abernathy — sucessor do falecido dr. Martin Luther King Jr. como líder da Conferência da Liderança Cristã do Sul (SCLC, na sigla

em inglês) e líder de fato do movimento pelos direitos civis

americanos — marchou com quatro mulas e 150 membros da

Campanha dos Pobres e chegou o mais perto do complexo do

espaçoporto a que foi autorizado. “Estamos protestando contra a

incapacidade dos Estados Unidos de escolher corretamente suas

prioridades”, disse Hosea Williams, diretor de educação política

da SCLC, alegando que o dinheiro gasto para chegar à Lua

poderia ter acabado com a fome de 31 milhões de pessoas

pobres. No entanto, Williams ergueu-se “em admiração pelos

astronautas”, assim como o próprio reverendo Abernathy

“sucumbiu ao assombroso lançamento”, declarando: “Fui um dos

mais orgulhosos americanos enquanto pisava neste solo. Acho

que é realmente uma terra sagrada.” “Ainda temos muito a fazer

— a fome no mundo, a doença no mundo, a pobreza no mundo”,

disse o ex-presidente Lyndon B. Johnson a Walter Cronkite

pouco depois de assistir ao lançamento de seu lugar na

arquibancada, com a mulher, Lady Bird, ao lado. “Devemos

destinar alguns dos grandes talentos que destinamos ao espaço

a todos esses problemas e resolvê-los; e resolvê-los no espírito

do que seja o bem maior para o maior número de pessoas.”

Faltando dez minutos no relógio, Sevareid disse a Cronkite, no

ar: “Quando a van que levava os astronautas passou pela

estrada, há pouco, fez-se uma espécie de silêncio entre as

pessoas (…) É possível ver que as pessoas acham que esses

homens não são apenas homens superiores, mas criaturas

diferentes. São como pessoas que foram ao outro mundo e

voltaram, e dá para ver que guardam segredos que nunca serão

de todo conhecidos e que eles nunca serão capazes de explicar

totalmente.”

 

* * *

 

No centro de Ohio, a 1.600 quilômetros dos pontos de

observação na Flórida, a pequena Wapakoneta, cidade natal de

Armstrong, esperava impaciente. As ruas estavam praticamente vazias, com seus cerca de 6.700 moradores grudados na

televisão. No centro do caos, encontrava-se o número 912 da rua

Neil Armstrong, a casa térrea em estilo campestre para a qual o

casal Viola e Steve Armstrong tinha se mudado havia apenas um

ano. Os pais de Neil tinham ido ao lançamento da Gemini VIII em

1966. O filho tinha conseguido que eles também presenciassem

o lançamento da Apollo 10 em abril, mas para esse voo ele os

aconselhou a ficar em casa, dizendo que “a pressão seria muito

grande” sobre eles no Cabo. Nos meses que antecederam o

lançamento, os pais de Neil tinham sido “cercados por jornalistas

de todos os tipos”, da Inglaterra, Noruega, França, Alemanha e

do Japão. Viola lembra: “As perguntas impertinentes (‘Como era

Neil quando criança?’ ‘Como era a vida dele em casa?’ ‘Onde

vocês vão ficar e o que vão fazer durante o lançamento?’ etc.

etc.) estavam constantemente exaurindo minhas forças e meu

sistema nervoso. Só sobrevivi pela graça de Deus. Ele deve ter

ficado do meu lado o tempo todo.”

Para facilitar a cobertura da Apollo em Wapakoneta, as três

maiores redes de TV instalaram uma torre de transmissão

conjunta de 25 metros de altura na rua da casa dos Armstrongs.

A garagem virou uma sala de imprensa com filas desordenadas

de telefones instalados sobre mesas dobráveis, e a NASA enviou

Tom Andrews, um oficial de protocolo, para ajudar os Armstrongs

a lidar com o bando de repórteres. Os pais de Neil tinham apenas

uma televisão em preto e branco, por isso as redes de TV deram

a eles um grande aparelho em cores para que vissem a missão.

Todos os dias, um restaurante local mandava para eles meia

dúzia de tortas. Um comércio de frutas da cidade próxima de

Lima enviava um grande sortimento de bananas. Um laticínio de

Delphos mandava sorvete. A Fisher Cheese Co., o maior

empregador de Wapakoneta, ofereceu seu especial “queijo da

lua”. A Consolidated Bottling Company entregou embalagens de

“molho da lua encoberta”, uma “fórmula secreta” de refrigerante

de baunilha.

O orgulhoso prefeito de Wapakoneta solicitou que todas as

casas e estabelecimentos comerciais mantivessem hasteada a

bandeira americana (e de preferência a do estado de Ohio também) desde a manhã do lançamento até o momento em que

“os meninos” estivessem de volta em segurança. Entre alguns

locais, os holofotes da mídia inspiraram outro tipo de

embelezamento cívico. Alguns contavam histórias exageradas,

outros, mentiras deslavadas sobre suas relações com o

astronauta. Até as crianças aderiram às fantasias: “Olha, meu pai

é o barbeiro de Neil Armstrong!” ou “Minha mãe foi a primeira

garota a beijar Neil!” ou “Ei, eu podei a cerejeira de Neil

Armstrong!”. Como o número telefônico dos Armstrongs do

condado de Auglaize era de conhecimento público, Tom Andrews

conseguiu duas linhas particulares que funcionavam na área de

serviço da família, anexa à cozinha. Por volta do meio-dia da

véspera do lançamento, Neil ligou para os pais do Cabo. Viola

lembra: “A voz dele era carinhosa. Ele achava que estavam

prontos para a decolagem no dia seguinte. Pedimos a Deus que

olhasse por ele.”

Os irmãos de Neil foram ao lançamento. June, o marido, o dr.

Jack Hoffman, e os sete filhos chegaram à Flórida de avião,

vindos de sua casa em Menomonee Falls, Wisconsin. Dean

Armstrong, a esposa, Marilyn, e os três filhos viajaram de carro,

deixando sua casa em Anderson, Indiana. A lembrança que Viola

tinha daquela manhã continuou nítida até o dia de sua morte:

“Visitantes, vizinhos e estranhos reuniram-se para ver e ouvir,

entre eles minha mãe, Caroline, minha prima Rose e meu pastor,

o reverendo Weber. Stephen e eu nos sentamos lado a lado,

usando, para dar sorte, os broches da Gemini VIII que Neil tinha

nos dado.”

“Era como se desde o momento em que nasceu — ou ainda

antes, desde o tempo em que a família de meu marido e meus

próprios antepassados surgiram na Europa, há séculos —, nosso

filho, de alguma forma, estivesse destinado a essa missão.”