O Primeiro Homem na Lua
Epígrafe
O privilégio de uma vida é ser quem você é.
— Joseph Campbell, Reflections on the art of living
Prólogo
O LANÇAMENTO
Depois do fim da missão à Lua, e com os astronautas da Apollo
11 de volta à Terra, Buzz Aldrin comentou com Neil Armstrong:
“Neil, perdemos tudo isso.”
Em torno de 750 mil a um milhão de pessoas — a maior
multidão já reunida para um lançamento espacial —
encontravam-se no Cabo Kennedy, como era chamado o Cabo
Canaveral na época, nos dias que antecederam a quarta-feira, 16
de julho de 1969. Cerca de mil policiais federais, estaduais e da
patrulha costeira lutaram durante toda a noite anterior para
manter os 350 mil carros e barcos nas estradas e nos cursos de
água. Um inspetor de veículos com espírito empreendedor
arrendou de plantadores de laranja uma extensão de três
quilômetros ao longo da estrada e cobrou 2 dólares por cabeça
pela visão privilegiada. Por 1,50 dólar cada, outro empreendedor
vendeu certificados de presença impressos em pergaminho
falsificado com imitações de letras antigas; por 2,95 dólares
comprava-se uma caneta espacial falsa.
Nenhuma festa ao ar livre promovida por causa de um jogo de
futebol seria capaz de se equiparar ao festival de verão que
precedeu o primeiro lançamento para um pouso na Lua. Os
presentes acendiam churrasqueiras, abriam coolers, olhavam
através de binóculos e telescópios, experimentavam câmeras e
lentes — pessoas lotavam todo espaço na areia, todos os
deques e todo o cais.
Sufocada pelo calor de 32 graus já de manhã, picada por
mosquitos, irritada por engarrafamentos ou preços extorsivos, a
grande massa humana esperou pacientemente que o colossal
Saturno V disparasse a Apollo 11 em direção à Lua.
Banana River, que fica oito quilômetros ao sul do complexo do
lançamento, estava abarrotada de barcos de todos os tipos. Em
uma grande lancha da North American Aviation, construtora do
módulo de comando da Apollo, Janet Armstrong, esposa do
comandante da Apollo 11, e seus dois filhos, Rick, de doze anos,
e Mark, de seis, esperavam ansiosos pelo lançamento. O
astronauta e amigo Dave Scott, companheiro de Neil no voo da
Gemini VIII em 1966, conseguiu o que Janet chamou de “lugar
número uno”. Dois amigos de Janet também estavam a bordo,
assim como uns poucos funcionários de relações públicas da
NASA e Dora Jane (Dodie) Hamblin, uma jornalista que fazia a
cobertura exclusiva do lado pessoal da história da Apollo 11 para
a revista Life.
Acima de todos, helicópteros traziam grupos e mais grupos de
VIPs para as arquibancadas erguidas no melhor lugar, a pouco
mais de cinco quilômetros da plataforma de lançamento. Dos
cerca de vinte mil convidados especiais da NASA, compareceram
de fato em torno de um terço, incluindo algumas centenas de
ministros estrangeiros, ministros de ciência e tecnologia, adidos
militares e oficiais da aviação, além de dezenove governadores
de estados americanos, quarenta prefeitos e centenas de
empresários do comércio e da indústria americanos. Metade dos
membros do Congresso estava presente, assim como alguns
juízes da Suprema Corte. A lista de convidados ia do general
William Westmoreland, chefe de Estado-Maior do Exército
americano mobilizado para a Guerra do Vietnã, e Johnny Carson,
que estrelava o programa da NBC Tonight Show, a Leon
Schachter, diretor do sindicato dos açougueiros varejistas e
trabalhadores da indústria da carne.
O vice-presidente Spiro T. Agnew sentou-se nas
arquibancadas enquanto o presidente Richard M. Nixon assistiu
ao lançamento pela televisão no Salão Oval. De início, a Casa
Branca tinha programado um jantar de Nixon com os astronautas
da Apollo 11 na véspera do lançamento, mas os planos mudaram
depois que o dr. Charles Berry, médico-chefe dos astronautas, foi
citado pela imprensa dizendo que o presidente podia estar
incubando um resfriado sem saber. Armstrong, Aldrin e Mike Collins acharam a preocupação absurda. Vinte ou trinta pessoas
— secretários, técnicos em trajes espaciais, técnicos dos
simuladores — estavam em contato diário com eles.
Dois mil repórteres assistiram ao lançamento da sala de
imprensa do Centro Espacial Kennedy. Oitocentos e doze tinham
vindo de outros países, 111 só do Japão. Do bloco soviético veio
uma dúzia de correspondentes.
O pouso na Lua era um evento conjunto global que
praticamente toda a humanidade achava que transcendia a
política. Os jornais britânicos usaram letras de cinco a sete
centímetros de altura para anunciar a notícia do lançamento. Na
Espanha, o vespertino Pueblo, embora crítico da política externa
americana, mandou para o Cabo Kennedy 25 ganhadores de um
concurso, com todas as despesas pagas. Um editorialista
holandês chamou seu país de “louco pela Lua”. Um colunista
tcheco observou: “Estes são os Estados Unidos que amamos,
totalmente diferente dos Estados Unidos que lutam no Vietnã.” O
jornal popular alemão Bild Zeitung observou que sete dos 57
supervisores do projeto Apollo eram de origem alemã; o jornal
concluiu, em um tom chauvinista, que “12% de todo o trabalho
para a viagem à Lua é ‘made in Germany’”. Até mesmo os
franceses consideraram a Apollo 11 “a maior aventura na história
da humanidade”. Um suplemento de 22 páginas do France-Soir
vendeu 1,5 milhões de exemplares. Um jornalista francês ficou
admirado com a imensidão do interesse pelo pouso na Lua “em
um país cujo povo está tão cansado de política e assuntos
internacionais que é acusado de só se importar com férias e
sexo”. A Rádio Moscou destacou as notícias sobre o lançamento.
O jornal soviético Pravda estampou em primeira página a cena
ocorrida no Cabo Kennedy, publicando uma foto da tripulação da
Apollo 11 com a legenda “Esses três homens corajosos”.
Nem toda a imprensa se mostrou favorável. Em Hong Kong,
três jornais comunistas atacaram a missão como se fosse uma
cortina de fumaça a fim de acobertar o fracasso americano na
Guerra do Vietnã e levantaram acusações de que o pouso na
Lua era uma iniciativa para “estender o imperialismo ao espaço”.
Outros acusaram o materialismo do programa espacial americano, que arruinaria para sempre o encanto e as belas
qualidades etéreas da misteriosa Lua, envolta em lendas desde
tempos imemoriais. Depois que os exploradores humanos
violaram a Lua com suas pegadas e ferramentas de escavação,
quem mais poderia encontrar romantismo na pergunta do poeta
John Keats: “O que há em ti, Lua, que com tal força toca meu
coração?” Tendo participado do milagre tecnológico dos primeiros
satélites de comunicação lançados no começo da década,
cinquenta mil sul-coreanos se reuniram diante de um telão na
embaixada dos Estados Unidos em Seul. Uma multidão de
poloneses lotou o auditório da embaixada dos Estados Unidos
em Varsóvia. Problemas com o satélite Intelsat III da AT&T sobre
o Atlântico impediram que o Brasil assistisse à transmissão
televisionada ao vivo (como ocorreu em muitas partes da
América do Sul, Central e Caribe), mas os brasileiros a ouviram
por rádio e compraram edições especiais dos jornais. Por causa
do problema com o Intelsat, a transmissão improvisada por todo
o globo, de leste a oeste, foi feita com um atraso de dois
segundos na cobertura mundial ao vivo.
Pouco antes do lançamento, o comentarista Eric Sevareid, da
CBS News, narrava a cena para o público de Walter Cronkite:
“Walter (…) a partir de hoje (…) acho que a língua será alterada
(…) Como continuar falando em ‘chegar até o céu’ ou ‘o céu é o
limite’ — o que isso vai significar?”
Em nenhum lugar do globo a emoção era mais palpável do
que nos Estados Unidos. No leste do Tennessee, plantadores de
tabaco reuniram-se em volta de um rádio transistor de bolso para
participar do grande momento. No porto de Biloxi, Mississippi,
pescadores de camarão esperaram no cais até que chegasse a
notícia do lançamento da Apollo 11. Na Academia da Força
Aérea em Colorado Springs, onde as aulas das 7h30 foram
adiadas, cinquenta cadetes se reuniram em torno de um pequeno
aparelho de TV. No cassino 24 horas de Caesars Palace em Las
Vegas, as mesas de blackjack e as roletas ficaram vazias
enquanto os apostadores permaneciam enfeitiçados diante de
seis telas de TV.
A multidão de testemunhas oculares reunida no cabo e em
suas imediações — Merritt Island, Titusville, Indian River, Cocoa
Beach, Satellite Beach, Melbourne, por toda a extensão dos
condados de Brevard e Osceola até os distantes Daytona Beach
e Orlando — preparava-se para uma das visões mais incríveis já
experimentadas pelo homem. A voz de Jacksonville, a sra. John
Yow da Flórida, esposa de um corretor da bolsa de valores, dizia
trêmula: “Estou tremendo, estou em lágrimas. É o começo de
uma nova era para a vida do homem.” Charles Walker, aluno da
Universidade de Purdue, onde Armstrong tinha estudado, disse a
um jornalista de seu acampamento em uma pequena enseada
em Titusville: “É como se a humanidade descobrisse o fogo mais
uma vez. Talvez essa luz que se acende una os homens agora.”
Nos lugares VIPs mais próximos do complexo de lançamento, R.
Sargent Shriver, embaixador dos Estados Unidos na França,
casado com Eunice Kennedy, irmã do falecido presidente John
Kennedy — que tinha comprometido o país a pousar na Lua —,
declarou: “Como isso é bonito! O vermelho das chamas, o azul
do céu, a fumaça branca — essas cores! Pense nos caras que
estão ali fazendo essa viagem incrível! Incroyable!”
O comentarista Heywood Hale Broun, da CBS, mais
conhecido por ser um irreverente jornalista esportivo, assistiu ao
lançamento com milhares de pessoas ao longo de Cocoa Beach,
a uns vinte quilômetros da plataforma. Ele disse às dezenas de
milhões de ouvintes de Cronkite: “Em uma partida de tênis, você
olha para lá e para cá. No lançamento de um foguete, você só
fica olhando para cima, seu olhar vai para cima, suas esperanças
vão para cima e finalmente a multidão toda, como um enorme
caranguejo de muitos olhos, estava olhando cada vez mais para
cima em total silêncio. Houve um pequeno ‘Aah!’ quando o
foguete foi disparado, mas depois foi só ficar olhando e tentando
alcançar. Foi a poesia da esperança, eu diria, não falada, mas
vista nos gestos concentrados das pessoas à medida que
chegavam mais e mais alto com o foguete.”
Mesmo os que foram ao lançamento para protestar não
conseguiram evitar a profunda emoção. O reverendo Ralph
Abernathy — sucessor do falecido dr. Martin Luther King Jr. como líder da Conferência da Liderança Cristã do Sul (SCLC, na sigla
em inglês) e líder de fato do movimento pelos direitos civis
americanos — marchou com quatro mulas e 150 membros da
Campanha dos Pobres e chegou o mais perto do complexo do
espaçoporto a que foi autorizado. “Estamos protestando contra a
incapacidade dos Estados Unidos de escolher corretamente suas
prioridades”, disse Hosea Williams, diretor de educação política
da SCLC, alegando que o dinheiro gasto para chegar à Lua
poderia ter acabado com a fome de 31 milhões de pessoas
pobres. No entanto, Williams ergueu-se “em admiração pelos
astronautas”, assim como o próprio reverendo Abernathy
“sucumbiu ao assombroso lançamento”, declarando: “Fui um dos
mais orgulhosos americanos enquanto pisava neste solo. Acho
que é realmente uma terra sagrada.” “Ainda temos muito a fazer
— a fome no mundo, a doença no mundo, a pobreza no mundo”,
disse o ex-presidente Lyndon B. Johnson a Walter Cronkite
pouco depois de assistir ao lançamento de seu lugar na
arquibancada, com a mulher, Lady Bird, ao lado. “Devemos
destinar alguns dos grandes talentos que destinamos ao espaço
a todos esses problemas e resolvê-los; e resolvê-los no espírito
do que seja o bem maior para o maior número de pessoas.”
Faltando dez minutos no relógio, Sevareid disse a Cronkite, no
ar: “Quando a van que levava os astronautas passou pela
estrada, há pouco, fez-se uma espécie de silêncio entre as
pessoas (…) É possível ver que as pessoas acham que esses
homens não são apenas homens superiores, mas criaturas
diferentes. São como pessoas que foram ao outro mundo e
voltaram, e dá para ver que guardam segredos que nunca serão
de todo conhecidos e que eles nunca serão capazes de explicar
totalmente.”
* * *
No centro de Ohio, a 1.600 quilômetros dos pontos de
observação na Flórida, a pequena Wapakoneta, cidade natal de
Armstrong, esperava impaciente. As ruas estavam praticamente vazias, com seus cerca de 6.700 moradores grudados na
televisão. No centro do caos, encontrava-se o número 912 da rua
Neil Armstrong, a casa térrea em estilo campestre para a qual o
casal Viola e Steve Armstrong tinha se mudado havia apenas um
ano. Os pais de Neil tinham ido ao lançamento da Gemini VIII em
1966. O filho tinha conseguido que eles também presenciassem
o lançamento da Apollo 10 em abril, mas para esse voo ele os
aconselhou a ficar em casa, dizendo que “a pressão seria muito
grande” sobre eles no Cabo. Nos meses que antecederam o
lançamento, os pais de Neil tinham sido “cercados por jornalistas
de todos os tipos”, da Inglaterra, Noruega, França, Alemanha e
do Japão. Viola lembra: “As perguntas impertinentes (‘Como era
Neil quando criança?’ ‘Como era a vida dele em casa?’ ‘Onde
vocês vão ficar e o que vão fazer durante o lançamento?’ etc.
etc.) estavam constantemente exaurindo minhas forças e meu
sistema nervoso. Só sobrevivi pela graça de Deus. Ele deve ter
ficado do meu lado o tempo todo.”
Para facilitar a cobertura da Apollo em Wapakoneta, as três
maiores redes de TV instalaram uma torre de transmissão
conjunta de 25 metros de altura na rua da casa dos Armstrongs.
A garagem virou uma sala de imprensa com filas desordenadas
de telefones instalados sobre mesas dobráveis, e a NASA enviou
Tom Andrews, um oficial de protocolo, para ajudar os Armstrongs
a lidar com o bando de repórteres. Os pais de Neil tinham apenas
uma televisão em preto e branco, por isso as redes de TV deram
a eles um grande aparelho em cores para que vissem a missão.
Todos os dias, um restaurante local mandava para eles meia
dúzia de tortas. Um comércio de frutas da cidade próxima de
Lima enviava um grande sortimento de bananas. Um laticínio de
Delphos mandava sorvete. A Fisher Cheese Co., o maior
empregador de Wapakoneta, ofereceu seu especial “queijo da
lua”. A Consolidated Bottling Company entregou embalagens de
“molho da lua encoberta”, uma “fórmula secreta” de refrigerante
de baunilha.
O orgulhoso prefeito de Wapakoneta solicitou que todas as
casas e estabelecimentos comerciais mantivessem hasteada a
bandeira americana (e de preferência a do estado de Ohio também) desde a manhã do lançamento até o momento em que
“os meninos” estivessem de volta em segurança. Entre alguns
locais, os holofotes da mídia inspiraram outro tipo de
embelezamento cívico. Alguns contavam histórias exageradas,
outros, mentiras deslavadas sobre suas relações com o
astronauta. Até as crianças aderiram às fantasias: “Olha, meu pai
é o barbeiro de Neil Armstrong!” ou “Minha mãe foi a primeira
garota a beijar Neil!” ou “Ei, eu podei a cerejeira de Neil
Armstrong!”. Como o número telefônico dos Armstrongs do
condado de Auglaize era de conhecimento público, Tom Andrews
conseguiu duas linhas particulares que funcionavam na área de
serviço da família, anexa à cozinha. Por volta do meio-dia da
véspera do lançamento, Neil ligou para os pais do Cabo. Viola
lembra: “A voz dele era carinhosa. Ele achava que estavam
prontos para a decolagem no dia seguinte. Pedimos a Deus que
olhasse por ele.”
Os irmãos de Neil foram ao lançamento. June, o marido, o dr.
Jack Hoffman, e os sete filhos chegaram à Flórida de avião,
vindos de sua casa em Menomonee Falls, Wisconsin. Dean
Armstrong, a esposa, Marilyn, e os três filhos viajaram de carro,
deixando sua casa em Anderson, Indiana. A lembrança que Viola
tinha daquela manhã continuou nítida até o dia de sua morte:
“Visitantes, vizinhos e estranhos reuniram-se para ver e ouvir,
entre eles minha mãe, Caroline, minha prima Rose e meu pastor,
o reverendo Weber. Stephen e eu nos sentamos lado a lado,
usando, para dar sorte, os broches da Gemini VIII que Neil tinha
nos dado.”
“Era como se desde o momento em que nasceu — ou ainda
antes, desde o tempo em que a família de meu marido e meus
próprios antepassados surgiram na Europa, há séculos —, nosso
filho, de alguma forma, estivesse destinado a essa missão.”