O Primeiro Homem na Lua

James R. Hansen · Capítulo 19 de 42

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O Primeiro Homem na Lua

Capítulo 13: Na fila de comando

CAPÍTULO 13

 

Na fila de comando

 

Os primeiros membros dos New Nine escolhidos para tripular um

voo foram Tom Stafford e Frank Borman. Em fevereiro de 1964,

Slayton uniu Stafford ao veterano da Mercury, Al Shepard, o

primeiro americano a ir para o espaço, e eles formaram a

tripulação principal da primeira missão tripulada do Programa

Gemini, chamada Gemini III. Gus Grissom e Frank Borman foram

designados como a tripulação reserva da Gemini III. Ainda que

estivesse tão ansioso quanto os demais para voar, Armstrong

não ficou decepcionado. “Eu não tinha expectativa de ser

escolhido. Fiquei muito satisfeito por estar ligado ao programa

que finalmente sairia do papel. Estava acontecendo. Era

empolgante. Eu considerava as metas importantes não só para

os Estados Unidos, mas para a sociedade em geral. Teria ficado

feliz com qualquer coisa que me mandassem fazer.” As

indicações para a tripulação da Gemini III, no entanto, tiveram

que ser modificadas antes mesmo do início dos preparativos para

o voo, porque Al Shepard sofria de um problema crônico no

ouvido interno que causava episódios de vertigem. Assim,

Slayton transferiu Grissom para a tripulação principal como

comandante, e Gus escolheu John Young como parceiro. Nem

um pouco feliz com a mudança, Tom Stafford se tornou o novo

reserva da Gemini III, sob o comando do veterano do Programa

Mercury, Wally Schirra. Frank Borman foi completamente

afastado da Gemini III e destinado a um voo posterior e indefinido

do Gemini.

“Tenho minhas opiniões acerca de como Deke escolheu as

tripulações”, comenta Armstrong, “e não é fácil explicar. Não

acredito que tenha sido uma questão de modificar e alternar tripulações. A principal preocupação de Deke era ter um

comandante capaz e qualificado em cada voo. Seu objetivo

secundário era pôr as pessoas em outras vagas, para que elas

obtivessem o treinamento, a preparação ou a experiência

adequada para depois ocupar uma vaga mais importante na

tarefa seguinte.”

Dentro das tripulações, “tentávamos dividir as

responsabilidades de maneira que todos tivessem cargas

equivalentes. Procurávamos garantir que cada um soubesse

como realizar todas as tarefas caso precisasse, mas dividíamos

as responsabilidades de modo que cada um estudasse sobre sua

área com mais profundidade. O cargo do comandante se

destacava principalmente porque ele era responsável pela

tomada de decisões, assim como o capitão de um navio ou o

comandante de um avião comercial. Ele era o responsável pela

aeronave.

“Acho que a ideia principal, acima de todas, era escolher para

o cargo de comandante a pessoa certa, com a experiência certa,

que lhe desse segurança. Deke sempre dizia, e acho que estava

absolutamente correto, que tinha que trabalhar com a ideia de

que todos os astronautas tinham sido bem-sucedidos no

processo, eram qualificados para voar, capazes de voar e

deveriam aceitar qualquer tarefa atribuída a eles.

“Isso posto, Deke disse e escreveu na própria autobiografia

que, mesmo sendo tudo verdade, ele ainda queria ter os

melhores nas vagas mais apropriadas para eles. Como uma

razão técnica adicional e menos importante. Deke sentia uma

obrigação para com seus colegas do Programa Mercury. Ele

sempre colocava Gus, Al e Wally, principalmente, como seu

pessoal de primeira linha — e fazia isso de maneira adequada.

Eles eram a primeira turma de astronautas; passaram pelos

exames mais rigorosos e deveriam poder escolher primeiro.”

A prática habitual de Slayton era solicitar a opinião do

comandante a respeito dos possíveis membros de sua tripulação.

“Uma regra que tínhamos”, comenta Armstrong, “era que um

colega não poderia estar em dois voos ao mesmo tempo. O

período de treinamento e preparação era bastante extensivo, então Deke precisava de uma tripulação principal e uma reserva

plenamente comprometidas por um longo período, durante o qual

elas não poderiam ser requisitadas para nenhum outro serviço.

No momento em que houvesse três voos com tripulações

escolhidas, de doze a dezoito pessoas estariam ocupadas,

dentre as poucas disponíveis. Então ele tentava planejar as

coisas com antecedência. Ele considerava todos os voos

importantes, mas os voos iniciais de cada programa — os

primeiros voos do Gemini, os primeiros voos do Apollo — se

destacavam. Era muito importante não atropelar ninguém, porque

uma falha logo no início de um programa de voo o

comprometeria por inteiro.”

Neil era o único dos New Nine que tinha obrigações

administrativas formais dentro do Departamento de Astronautas.

Nesse departamento, Joseph S. Algranti cuidava das operações

das aeronaves, Warren North se ocupava das operações das

tripulações, e Slayton atuava como coordenador das atividades

dos astronautas. Como auxiliar de Deke estava Al Shepard,

afastado dos voos por causa de suas vertigens e designado

chefe dos astronautas. Abaixo de Shepard na organização

estava Gus Grissom, no comando do grupo do Programa Gemini,

e Gordon Cooper, responsável pelo grupo do Programa Apollo.

Deke atribuiu a Armstrong o comando de um terceiro grupo,

chamado de operações e treinamento. Assim como Grissom e

Cooper, Armstrong tinha um pequeno número de outros

astronautas trabalhando para ele. “Deke deu-me a tarefa de criar

algo que o ajudasse a descobrir quantas tripulações seriam

necessárias em determinado momento”, lembra Armstrong.

“Então, utilizei uma abordagem muito simples. Peguei as datas

de lançamentos previstos nos programas Gemini e Apollo. Havia

vários tipos de missões do Apollo naquele momento. Então usei

um cronograma apenas de datas de lançamento, e pensei: ‘Se

isso estiver correto, de quantas tripulações vamos precisar?’

Comecei pelo momento do lançamento e voltei as datas

contando os meses necessários para a preparação da equipe. E

nenhum dos membros das tripulações tinha sido nomeado —

eram chamados de A, B, C, D e assim por diante. Situei todos esses voos em uma linha do tempo com diagramas de bloco,

mostrando de quantas pessoas precisaríamos. No final da

página, embaixo de cada mês, incluí o número de astronautas já

escolhidos para algum voo e o de astronautas disponíveis.”

O esquema de Armstrong permitiu que Slayton determinasse

em que momento novos astronautas teriam de ser recrutados

para o programa, culminando em um anúncio veiculado em

Houston, em junho de 1963, informando que a NASA estava

procurando uma nova turma de dez a quinze astronautas. Essa

terceira rodada de seleção definiu a idade-limite em 34 anos, e

não em 35. Os candidatos não precisavam mais ser pilotos de

teste, por causa dos requisitos mais amplos de engenharia e

ciência da missão de pouso lunar do Programa Apollo. No fim

das contas, oito dos quatorze novos astronautas selecionados

em outubro de 1963 eram pilotos de teste. Cinco eram da Força

Aérea: Donn Eisele, Charles Bassett, Michael Collins, Theodore

Freeman e David Scott; dois da Marinha: Alan Bean e Richard

Gordon Jr.; e um do corpo de fuzileiros navais: Clifton Williams.

Os outros seis eram todos pilotos com amplo histórico acadêmico

e muita experiência em voo: Edwin “Buzz” Aldrin Jr.; o piloto de

caça da Força Aérea William Anders; os aviadores da Marinha

Eugene Cernan e Roger Chaffee; e dois civis, o ex-piloto do

corpo de fuzileiros navais Walter Cunningham e o ex-piloto da

Força Aérea Russell Schweickart.

Foi em companhia desses astronautas excepcionais que

Armstrong realmente teria experiências com voos no espaço:

com Dave Scott na Gemini VIII, e com Buzz Aldrin e Mike Collins

na Apollo 11.

 

* * *

 

Em 8 de fevereiro de 1965, Armstrong foi designado pela

primeira vez para uma tripulação, quando Slayton o escolheu

como comandante reserva de Gordon Cooper na Gemini V.

Ainda que o principal objetivo da missão fosse demonstrar

preparo para uma aproximação no espaço, os astronautas pretendiam voar durante oito dias inteiros. Era o dobro do tempo

planejado para o voo da Gemini IV, com Jim McDivitt e Ed White.

Também em posição de reserva como Armstrong estava Elliot

See, que auxiliaria Pete Conrad, ocupante do assento da direita

ao lado de Cooper na tripulação principal. Armstrong conta:

“Como tudo se resumia a vencer os russos e chegar à Lua até o

final da década, a programação era importantíssima.” Neil ficou

“muito feliz por ter sido designado para um voo e bem satisfeito

por ficar na reserva de Gordon Cooper”. Após ter sido escolhido

para a Gemini V, Armstrong continuou o treinamento, que agora

ocupava um terço de sua carga horária no trabalho. Outro terço

de seu tempo “era dedicado ao planejamento, à descoberta de

técnicas e métodos que nos permitiriam determinar as melhores

trajetórias e a sequência de eventos”. A terceira parte de seu

tempo era voltada para testes: “Milhares de horas nos

laboratórios e na espaçonave testando os sistemas, todo tipo de

coisa, vendo se iriam funcionar e procurando conhecê-los bem.

Muitos testes eram realizados às duas da manhã. Fazíamos um

revezamento para descansar. Nós quatro passamos muito tempo

juntos, trabalhando nos detalhes. Eu não diria que nunca

fazíamos piadas ou falávamos sobre coisas externas ao projeto,

mas sempre estávamos 98% dedicados ao trabalho que

tínhamos de executar.”

A preparação para o cargo de reserva na Gemini V não

impediu que Armstrong assumisse uma função de apoio na

Gemini III, voo realizado por Gus Grissom e John Young na

espaçonave Molly Brown. Para a Gemini III, a primeira missão

tripulada do Programa Gemini, Neil passou uma semana de

trabalho na estação de rastreamento da rede mundial de satélites

em Kauai, Havaí. Conhecida como estação “primária”, Kauai, a

mais setentrional das principais ilhas Havaianas, transmitia

comandos verbais à espaçonave Gemini, que se encontrava em

órbita. Estações “secundárias”, como a estação de rastreamento

situada na ilha Grande Bahama, no mar do Caribe, lidavam

apenas com informações de radar e telemetria.

Na opinião de alguns funcionários da NASA, essas tarefas

eram, até certo ponto, um modo que Slayton tinha encontrado para dar um pouco de descanso e descontração a seus

astronautas. Para o voo da Gemini III, Neil viajou ao Havaí uma

semana antes do lançamento para ajudar nas simulações de

rastreamento e comunicação. O objetivo da Gemini III era

demonstrar que uma espaçonave era capaz de mudar de órbita

disparando seus propulsores de manobra, um requisito

fundamental nas manobras de aproximação, que, por sua vez,

seriam essenciais para o pouso na Lua. De modo específico, a

Gemini III pretendia demonstrar a capacidade de se deslocar no

espaço com eficácia ao executar cuidadosamente três “queimas”

ou disparos programados dos motores de seus foguetes. Os

únicos problemas reais no voo apareceram na reta final. A

espaçonave pousou cerca de oitenta quilômetros antes do alvo, e

o solavanco de abertura do paraquedas jogou os astronautas de

encontro ao painel de instrumentos, quebrando a estrutura de

proteção facial do capacete de Grissom. Durante o período de 21

semanas entre os lançamentos da Gemini III e Gemini V, Neil

passou 26 dias na planta da McDonnell em St. Louis, onde a

espaçonave Gemini V estava sendo testada e preparada para o

voo. Outros vinte e poucos dias foram passados na Flórida, no

Centro Espacial Kennedy. Entre esses compromissos, ele fez

viagens para a Califórnia, Carolina do Norte, Virgínia,

Massachusetts, Colorado e Texas.

Armstrong e os outros membros da tripulação da GT-5

viajaram, durante esse período de quase cinco meses, mais de

cem mil quilômetros. Alguns dos voos foram feitos em aviões

comerciais, mas os astronautas pilotaram uma quantidade

significativa deles. Isso os ajudou a manter a prática como

pilotos.

Os astronautas do Original Seven aprenderam muito sobre

navegação astronômica no planetário Morehead, no campus da

Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill. Para o

Programa Mercury, o brilhante diretor do planetário Tony Jenzano

projetou e construiu versões do simulador de voos Link, que

imitavam a vista que se tinha de dentro das cápsulas espaciais.

Sentados em duas cadeiras de barbeiro dentro de uma

“espaçonave” feita de compensado, tecido, espuma de borracha e papel, os astronautas controlavam a movimentação de uma

projeção de estrelas que simulava a rolagem e a arfagem de uma

espaçonave. As cadeiras se inclinavam levemente para simular a

ação de um propulsor de foguete que provocava uma guinada

para a esquerda e para a direita.

Armstrong fez inúmeras visitas ao planetário Morehead, a

última em 21 de fevereiro de 1969, cinco meses antes do

lançamento da Apollo 11. Nenhum astronauta do Mercury, do

Gemini ou do Apollo passou mais tempo estudando as estrelas

em Morehead do que Armstrong. Neil dizia que aquele período

em Morehead ajudou os astronautas do Programa Gemini a

reconhecerem estrelas e constelações, o que é primordial para

navegação computadorizada e experimentos relacionados à

astronomia. Os voos do Programa Apollo, então com a

computação aperfeiçoada, exigiam que os membros de

tripulação tivessem “uma boa representação visual” para usar

sextantes em suas observações e navegação computadorizada

em relação às 36 estrelas usadas como base para o sistema de

navegação astronômica da NASA.

Enquanto voavam juntos nos T-38s e cruzavam o país, em

preparação para o voo na Gemini VIII em março de 1966, tanto

Armstrong quanto Dave Scott testavam regularmente o

conhecimento um do outro sobre as estrelas. “Voávamos a uma

altitude de doze mil metros com todas as luzes da cabine

apagadas”, lembra Neil. “Tínhamos uma vista maravilhosa do

céu, e era uma ótima oportunidade para praticar.” Na Apollo 9,

em março de 1969, Scott realizou um trabalho excelente,

mantendo, a partir das estrelas, a orientação a bordo e a

navegação por computadores convenientemente alinhadas.

 

* * *

 

A tripulação da Gemini V, com Cooper, Conrad, Armstrong e See,

e a da Gemini VIII, com Armstrong, Scott e seus reservas (Pete

Conrad e Dick Gordon), acabaram se tornando muito próximas. A

Gemini V foi lançada em 21 de agosto de 1965. O foguete Titan II lançou a espaçonave a partir da plataforma LC-19, segundos

antes das 9h EST, depois de uma espera de dois dias por conta

das condições climáticas no Cabo Canaveral e dos problemas no

transporte do combustível criogênico. Gordon Cooper relembra:

“A nossa espaçonave foi a primeira a ir ao espaço com uma

célula de combustível: um gerador fotoquímico local que produzia

a própria energia. As espaçonaves anteriores dependiam de

baterias, muito pesadas e ineficientes devido à quantidade de

componentes eletrônicos que as naves espaciais mais

avançadas então carregavam. Na Gemini V, por exemplo,

levamos ao espaço o primeiro radar de bordo e o primeiro

computador, e ambos precisavam de uma boa quantidade de

energia elétrica. Provar que conseguíamos voar com uma célula

de combustível era primordial.”

Seguindo os procedimentos da tripulação reserva, Armstrong

e See foram ao Cabo Canaveral para o lançamento e depois

voltaram para o Centro de Espaçonaves Tripuladas. Em sua

terceira órbita, Conrad notou que a pressão do oxigênio na célula

de combustível havia caído de oitocentas para setenta libras por

polegada quadrada, bem no momento em que “liberamos uma

cápsula de aproximação, como mostrava o radar, e estávamos

nos preparando para interceptá-la — era um experimento

projetado para obter informações decisivas sobre uma

aproximação no espaço, nunca testado”. A pressão na célula de

combustível foi recuperada, mas naquele momento a chance de

demonstrar uma aproximação já estava perdida. O voo da

Gemini V terminou uma hora e cinco minutos antes de completar

oito dias, e a nave caiu na água a 144 quilômetros do navio de

resgate, porque alguém em terra havia enviado as coordenadas

de navegação incorretas para o computador de bordo. A missão

acumulou dados impressionantes sobre os efeitos fisiológicos da

ausência de gravidade (demorou dois dias para que o sistema

cardiovascular de Cooper e Conrad se recuperasse), mas os

decepcionantes resultados da aproximação enfatizaram esse

aspecto nos voos seguintes do Programa Gemini.

Em 20 de setembro de 1965, três semanas depois do pouso

desastrado da Gemini V, a NASA anunciou oficialmente a tripulação da Gemini VIII. Armstrong seria o piloto de comando, já

que fizera parte da tripulação reserva na Gemini V. Em lugar de

Elliot See, que esteve com Armstrong na tripulação reserva da

Gemini V, Slayton pôs Neil em dupla com Dave Scott, o primeiro

membro da terceira turma de astronautas a ser escolhido para

um voo. Escolhidos como reserva de Neil e Dave estavam Pete

Conrad, o piloto que acabava de concluir seu trabalho com a

Gemini V, e Dick Gordon, também novato no programa.

Com sua nomeação para comandar a Gemini VIII, em

setembro de 1965, a primeira fase da carreira de Armstrong

como astronauta chegava ao fim. Pelos seis meses seguintes,

até o lançamento da Gemini VIII em 16 de março de 1966,

Armstrong e Scott treinaram quase sem interrupção para seu

primeiro voo espacial, o mais complexo já tentado até aquele

momento no programa espacial americano — e aquele que

quase lhes custou a vida.