O Primeiro Homem na Lua

James R. Hansen · Capítulo 30 de 42

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O Primeiro Homem na Lua

Capítulo 22: Rumo ao espaço

CAPÍTULO 22

 

Rumo ao espaço

 

Para Armstrong, Collins, e Aldrin, a ida ao espaço começou no

alojamento da tripulação três horas e meia antes da decolagem,

pouco depois das seis da manhã, quando os técnicos

encaixaram e travaram com um estalo o capacete de cada

astronauta. A partir daquele momento, a tripulação do primeiro

pouso na Lua parou de respirar o ar exterior. Deixou de ouvir

toda voz humana além das que circulavam eletronicamente

através da barreira do traje pressurizado. Só via o mundo através

do visor de proteção do capacete, e só podia cheirar, ouvir, sentir

e saborear coisas que a tecnologia moderna produziu para eles e

introduziu no casulo protetor.

O isolamento era mais familiar para Armstrong do que para

seus companheiros. Como piloto de testes ainda em Edwards,

ele tinha se acostumado ao confinamento dos trajes

pressurizados. Em comparação com os trajes parcialmente

pressurizados e as máscaras que ele tinha usado nos voos a jato

no F-104 ou para ir até a beira do espaço no X-15, o traje da

Apollo era espaçoso e fácil de manobrar.

Ainda assim, quando os tripulantes da Apollo 11 saíram do

Edifício de Operações de Espaçonaves Tripuladas às 6h27 e,

com suas galochas amarelas, dirigiram-se para a van com ar-

condicionado que os transportaria ao longo de treze quilômetros

até a Plataforma de Lançamento 39A, cada fibra de seu corpo

tinha a percepção de que eles tinham deixado o reino normal da

natureza e entrado no ambiente totalmente artificial que os

manteria no espaço.

Ao iniciar a missão, Neil, Mike e Buzz tinham grande confiança

no Saturno, mas nunca se pode ter certeza quanto ao desempenho de um foguete. “Era sem dúvida uma máquina de

altíssimo desempenho”, afirmou Armstrong, “no entanto, não era

perfeita.” O Saturno V veio ao mundo rápido demais. O ritmo

frenético de seu desenvolvimento resultou da estratégia de

“testes simultâneos”, uma nova filosofia de pesquisa e

desenvolvimento da NASA proposta pelo dr. George Mueller,

diretor-adjunto para voos espaciais tripulados. Mueller acelerou o

desenvolvimento do Saturno V fazendo com que ele fosse

testado desde o início com todos os seus três estágios “vivos” e

prontos para sair, em lugar de testá-lo gradualmente, um estágio

de cada vez, para então reunir os três só depois de terem sido

aprovados de forma independente.

Sem os testes simultâneos, o prazo final prometido pelo

presidente Kennedy não teria sido cumprido. Ainda assim, não

era a forma mais segura de garantir o desenvolvimento de um

bom foguete, particularmente em se tratando de um conjunto tão

grande e tão complexo de maquinaria nova — capaz de um

enorme empuxo de 7,5 milhões de libras de empuxo.

No momento em que a tripulação se instalou acima do

poderoso foguete à espera de sua ignição, o tempo de ponderar

os riscos já tinha passado. Além disso, sempre havia a

possibilidade de algo menor dar errado no último minuto em

alguma das centenas de subsistemas do foguete ou da nave, ou

na plataforma de lançamento, e o voo ser cancelado.

O primeiro astronauta a entrar na Columbia na manhã do

lançamento não foi Armstrong, Collins ou Aldrin, mas Fred Haise,

o reserva de Aldrin como piloto do módulo lunar. “Freddo”

precedeu a tripulação na espaçonave em cerca de noventa

minutos para fazer um checklist de 417 passos com o intuito de

assegurar que cada interruptor estava na posição correta. Às

6h54, Haise e o restante da “equipe de inspeção” liberaram a

espaçonave. Armstrong subiu em um elevador os cem metros

que levavam ao nível da espaçonave que o aguardava, segurou

o corrimão superior da cápsula e se lançou através da escotilha.

Antes de subir, Neil recebeu um presentinho de Guenter Wendt,

o comandante da plataforma: era uma lua crescente que Wendt

havia esculpido em isopor e recoberto com papel metalizado. Wendt disse a ele que “é a chave da Lua”, e, sorrindo, Neil lhe

pediu que a guardasse até a volta. Em retribuição, Neil deu a

Wendt um cartão que vinha guardando sob a pulseira do relógio.

Era um ingresso para andar em um “táxi espacial”, e nele estava

escrito: “Válido entre dois planetas quaisquer.”

Dentro do módulo de comando, Armstrong se acomodou no

assento do comandante, na extremidade esquerda. Em cinco

minutos, depois que um técnico conectou cabos e mangueiras a

Neil, o piloto do módulo de comando, Collins, ocupou o assento

da direita, seguido por Aldrin, o piloto do módulo lunar, no meio.

(Aldrin estava no assento central porque havia treinado para essa

posição na Apollo 8. Collins tinha ficado afastado por algum

tempo por causa do esporão no pescoço, então, em vez de

treinar Buzz outra vez para a subida, a NASA o deixou no centro

e treinou Mike para o assento da direita.)

Perto da mão esquerda de Neil ficava a alavanca de abortar.

Um giro na alavanca faria com que a sólida torre de escape do

foguete acoplada ao topo do módulo de comando livrasse a

Apollo 11 de problemas. No Programa Gemini, em vez de uma

torre de escape, a espaçonave tinha assentos ejetores, mas o

propulsor Titan da Gemini utilizava combustíveis hipergólicos que

não queimavam do mesmo modo que os do Saturno, movido a

querosene, hidrogênio e oxigênio. Os assentos ejetores não

seriam capazes de lançar os astronautas a uma distância segura

caso o foguete explodisse. A ascensão do Saturno V foi

especialmente adaptada à experiência de Neil em pesquisa, de

forma que o foguete de propulsão era controlável de dentro da

cabine: “Não era possível pilotar os primeiros modelos do foguete

Saturno de dentro da espaçonave. Se houvesse uma falha no

sistema de inércia da Apollo 9, por exemplo, McDivitt, Scott e

Schweickart teriam de mergulhar no Atlântico ou talvez pousar na

África, com alto risco de lesões físicas. Para o nosso voo,

tínhamos adicionado um sistema de orientação alternativo no

controle do módulo de comando para que, caso houvesse algum

tipo de falha no Saturno, pudéssemos trocar para os sistemas

alternativos e pilotar o foguete de dentro da espaçonave.” Se o piloto automático ficasse desativado, o piloto poderia orientar

manualmente o propulsor para a órbita.

A ascensão da Apollo 11 até a órbita envolvia uma série de

fases distintas, e entre elas havia pequenas diferenças na técnica

de abortar. Armstrong explicou: “Precisávamos de concentração

total para passar por cada fase e estar preparados para fazer a

coisa certa se houvesse algum problema na fase seguinte.” Ele

obteve suas referências mais importantes durante a subida

incandescente, em suas palavras, “conjugando o monitoramento

do indicador de atitude, acompanhando o desempenho do voo

pelo computador e ouvindo as informações recebidas por rádio

sobre a fase em que estava ou na que estava prestes a entrar”.

 

* * *

 

No período que um automóvel levava para tomar certa distância

das imediações do Cabo Kennedy em meio ao trânsito intenso, a

Apollo 11 deu uma volta e meia ao mundo e estava a caminho da

Lua. No gramado da frente da sua casa em Ohio, os pais de Neil

já tinham sido entrevistados por uma pequena horda de

repórteres: “Sr. Armstrong, o que achou do lançamento?” “Sra.

Armstrong, o que a senhora sentiu quando viu o foguete

desaparecer no céu?” Viola respondeu: “Não tenho palavras para

agradecer.” Projetando no filho as próprias crenças religiosas,

como sempre fazia, ela afirmou: “Neil acredita que Deus está lá

em cima com os três rapazes. Eu acredito nisso, e Neil também.”

Steve comentou: “É um momento incrível e de muita felicidade.

Ficaremos grudados na televisão durante todo o voo.” A mãe de

Viola, Caroline Korspeter, de 82 anos, comentou diante das

câmeras de TV: “Acho perigoso. Eu disse a Neil para dar uma

olhada e não sair se sentisse que não estava tudo certo. Ele

disse que não sairia.”

De volta a Banana River, Janet Armstrong e seus meninos

ficaram no iate ouvindo as transmissões da espaçonave por uma

caixa de som da NASA até que a multidão se dispersou. Embora

estivessem todos muito aliviados depois do lançamento sem problemas, a pedido de Janet nenhuma garrafa de champanhe

foi aberta a bordo. Ela preferia que a comemoração acontecesse

quando os homens chegassem sãos e salvos. Antes de ir para

casa, Janet teve um rápido encontro com jornalistas. “Não

conseguimos ver o foguete logo no início”, relatou Rick,

timidamente, “e fiquei meio preocupado. De repente, pudemos

vê-lo, e foi lindo.” Janet disse à imprensa: “Foi uma visão incrível.

Fiquei emocionada”, embora o que sentisse antes de mais nada

fosse apenas alívio pelo fato de o lançamento ter transcorrido em

segurança. “Isso também vai passar” era o que Janet pensava na

verdade. Ela quase não tinha dormido na noite anterior. Quando

chegou a sua casa em Houston no fim daquela tarde, a imprensa

esperava no jardim. “Não me sinto parte da história”, disse Janet

de forma sucinta, levando os filhos para dentro. A vigília pela

tripulação tinha acabado de começar. Seriam mais dois dias e

meio até que os astronautas entrassem em órbita lunar, mais um

para que Neil e Buzz fizessem o pouso e mais quatro até que

retornassem à Terra.

Muita coisa ainda podia dar errado.

 

* * *

 

Às 10h58, horário de Houston, duas horas e 26 minutos depois

do lançamento, o controle de missão deu à Apollo 11 o comando

de “executar” a “injeção translunar” (da sigla em inglês TLI,

translunar injection) — deixando de orbitar a Terra e partindo em

direção ao espaço. Os astronautas acionaram o motor do terceiro

estágio do Saturno V, o único ainda acoplado ao módulo de

comando e serviço. Essa combustão, que levou por volta de

cinco minutos e meio, acelerou a Apollo 11 para mais de 39 mil

quilômetros por hora a fim de escapar do campo gravitacional da

Terra.

Embora Armstrong tenha relatado que o passeio foi “uma

beleza”, em particular ele teria preferido que fosse mais suave:

“No primeiro estágio, o barulho do Saturno V foi enorme,

principalmente em baixa altitude, porque ouvíamos o barulho de 7,5 milhões de libras de empuxo e mais o eco daquele barulho

que vinha do solo. Depois de uns trinta segundos, saímos

daquele ruído e o volume diminuiu substancialmente. Mas

naquele meio minuto foi muito difícil ouvir qualquer coisa pelo

rádio. No primeiro estágio, o trecho também foi muito mais

turbulento do que no Titan. Parecia que ele vibrava nos três eixos

ao mesmo tempo.” Com o fim da combustão do primeiro estágio,

o voo ficou bem mais suave e consideravelmente tranquilo, tanto

que os astronautas não sentiam vibração alguma nem ouviam os

motores funcionando. No segundo e no terceiro estágios, a

ascensão do Saturno revelou-se superior a qualquer estágio do

Titan. Mike Collins mais tarde relatou o início turbulento da

ascensão do foguete: “Foi como um principiante nervoso

dirigindo um carro grande em um beco estreito, sacudindo

espasmodicamente o volante para a frente e para trás.” Nos

estágios superiores, o Saturno V se transformou em um “gigante

gentil”, saindo da atmosfera “suave como a brisa, tão tranquilo e

sereno como um foguete em viagem pode ser”.

Durante os três primeiros minutos da viagem, até que a

espaçonave atingisse cem quilômetros de altitude, os

astronautas não conseguiam ver nada pelas janelas. A essa

altitude, a tripulação descartou os foguetes de escape que não

tinham sido necessários e soltou o escudo protetor que cobria o

módulo de comando. Ainda subindo, mas não tão na vertical

após uma manobra de arfagem executada lá pelo terceiro minuto

da ascensão, a tripulação nada via além do que Collins chamou

de “um pedacinho de céu azul que gradualmente desapareceu na

escuridão do espaço”.

A órbita da Terra foi alcançada em doze minutos de voo,

quando a primeira queima do motor único do terceiro estágio do

Saturno empurrou a espaçonave até a velocidade exigida de 28

mil quilômetros por hora. O trio agora tinha uma órbita e meia

para se assegurar de que todos os equipamentos estavam

operando corretamente antes de reativar o motor do terceiro

estágio e se preparar para deixar o campo gravitacional da Terra.

Segundo Armstrong: “Havia dois motivos para percorrermos

uma órbita e meia. Primeiro, isso permitia um pouco mais de flexibilidade quanto ao momento do lançamento, e, segundo, nos

dava a oportunidade de verificar todos os principais sistemas da

espaçonave — do módulo de comando, não do módulo lunar —

antes de sair da órbita da Terra em uma trajetória translunar.

Então a verificação dos sistemas era a principal razão para

estarmos nessa órbita de espera, e a responsabilidade era

dividida entre a tripulação e o pessoal no solo. Esse pessoal

podia observar com mais detalhes o funcionamento dos

sistemas, e a órbita e meia lhe dava tempo suficiente para isso.

Se algo desse errado na espaçonave, teríamos tempo para

decidir se esqueceríamos aquilo tudo e abortaríamos a missão.”

A princípio, a tripulação teve apenas breves momentos para

apreciar a vista espetacular da Terra lá embaixo. O primeiro

nascer do sol deles, com uma hora e dezenove minutos de voo,

desencadeou uma busca desenfreada pela câmera Hasselblad.

Quinze segundos depois, Collins a encontrou flutuando no

anteparo de popa.

Pela primeira vez desde seus voos na Gemini, Armstrong,

Collins e Aldrin experimentaram a maravilha da ausência de

peso. Nesse estado, o fluido do ouvido interno circula livremente.

O enjoo podia ocorrer com mais facilidade na Apollo do que na

Gemini porque a Apollo era mais espaçosa. Os planejadores das

missões dos voos subsequentes ao da Apollo disseram às

tripulações para se movimentarem com cautela e o mais devagar

possível e não mexer muito a cabeça para a frente e para trás

até se acostumarem com as condições de ausência de peso.

Armstrong estava inteiramente a par do problema em potencial.

Com uma hora e dezessete minutos de voo, ele perguntou a

Mike e a Buzz: “Que tal a gravidade zero? Algum de vocês sente

a cabeça estranha ou algo parecido?” Mike respondeu: “Não. Só

parece que estamos viajando de cabeça para baixo.”

Segundo Neil: “Tivemos muita sorte por nenhum dos

tripulantes se sentir enjoado em nenhum momento do voo. Muita

gente com fama de ter um estômago de ferro acabou enjoando

no espaço. Naquela época, ninguém sabia ao certo o que

causava isso. Estavam experimentando várias coisas.” Ele havia

superado sua propensão à náusea na infância, embora às vezes se sentisse enjoado quando fazia acrobacias aéreas.

Curiosamente, porém, o enjoo espacial não tem relação com o

enjoo de movimento na Terra.

Convencido de que a nave estava pronta para deixar a órbita

da Terra, o controle de missão deu à Apollo 11 o comando para

executar a TLI cerca de duas horas e quinze minutos depois que

a espaçonave entrou em órbita. Os procedimentos de voo

exigiam que a tripulação, para sua proteção durante a queima,

colocasse outra vez capacetes e luvas; a ideia era ter os

astronautas protegidos em seus trajes pressurizados caso o S-

IVB, o terceiro estágio do Saturno, explodisse. “O problema com

esse raciocínio”, disse Collins, era que “qualquer explosão forte o

bastante para rachar o casco da nossa nave também causaria

múltiplas falhas nos equipamentos, e nunca voltaríamos inteiros.

Mesmo assim, regra é regra, então ficamos ali, com capacetes e

luvas, prontos para sermos propulsionados para outro planeta”.

Com a aproximação do ponto de injeção translunar na metade

da segunda órbita em torno da Terra, uma sequência pré-

programada acionou o motor do terceiro estágio do Saturno pela

última vez, acelerando a Apollo 11 à velocidade de escape. A

queima da TLI levou pouco menos de seis minutos. No momento

da ignição, a espaçonave estava sobre o oceano Pacífico.

Voando em círculos mais de 145 quilômetros abaixo, uma

formação de aeronaves KC-135 — aviões-tanque da Força Aérea

adaptados que carregavam uma grande variedade de

equipamentos eletrônicos — retransmitiam dados de telemetria

da espaçonave para Houston. Os dados indicavam que o

Saturno V tinha cumprido bem sua última função, viajando a uma

velocidade de dez quilômetros por segundo — mais rápido que

uma bala de fuzil.

A viagem começou com muito mais trabalho para Collins do

que para Armstrong ou Aldrin. Como piloto do módulo de

comando, sua função (auxiliado por Neil e Buzz) era separar a

Columbia do S-IVB e virar o módulo de comando e serviço. Mike

então manobraria esse módulo para realizar um acoplamento

com o Eagle, o módulo lunar, que para resistir ao lançamento —

com suas pernas, propulsores e antenas protuberantes em ângulos incomuns e carroceria extremamente frágil — tinha

voado até esse ponto preso firmemente dentro de um sólido

contêiner quadrado ligado ao topo do S-IVB. Tratava-se de uma

manobra crítica no plano de voo. “Se a separação e o

acoplamento não dessem certo”, explicou Aldrin, “voltaríamos à

Terra. Havia também a possibilidade de uma colisão no espaço e

da subsequente descompressão da nossa cabine, por isso ainda

usávamos nossos trajes espaciais enquanto Mike nos separava

do terceiro estágio do Saturno.”

Nem Aldrin nem Armstrong sentiram grande apreensão em

relação à manobra. “Mike fez a manobra de acoplamento”, relata

Neil, “assim como teria que fazer um acoplamento semelhante

com o módulo lunar quando retornássemos da superfície da Lua.

Isso já havia sido feito tanto na Apollo 9 quanto na 10, então eu

estava bem confiante.”

A manobra foi perfeita. Detonadores removeram a seção

superior do imenso contêiner, dando acesso à garagem onde

estava o módulo lunar, na extremidade superior do foguete.

Collins controlava os propulsores do foguete que afastavam o

módulo de comando e serviço cerca de trinta metros do módulo

de pouso. Enquanto virava a espaçonave, ele avançava

suavemente para realizar um acoplamento frontal bem-sucedido.

A Columbia e a Eagle estavam agora acopladas; quando

chegasse a hora, Neil e Buzz poderiam entrar no módulo lunar

através de uma composição interna de túnel e escotilha. Para

completar a manobra de separação, o módulo lunar teria que ser

liberado de seus pontos de montagem, e o conjunto módulo de

comando e serviço/módulo lunar precisaria ser afastado do S-

IVB. Portanto, faltava apenas tirar o S-IVB do caminho. Um

comando enviado da Apollo 11 para o S-IVB fez com que toda a

sobra de combustível fosse descartada, resultando em uma

reação propulsiva que lançaria o foguete em uma longa trajetória

rodopiante até a órbita solar que o manteria fora do caminho da

Apollo 11.

Eram 13h43, horário de Houston, apenas cinco horas e onze

minutos de voo. A Apollo 11 viajava a 3.936 metros por segundo

e estava a 40.744 quilômetros de distância da Terra.

Com as manobras de separação, acoplamento e pós-TLI já

realizadas, os astronautas tiraram seus trajes e vestiram

macacões brancos de duas peças feito de teflon, bem mais

confortáveis. Na ausência de gravidade, algumas coisas eram

mais fáceis de se fazer que dentro de um campo gravitacional,

mas três homens trocando seus trajes espaciais — em um

compartimento com um espaço interno equivalente ao de uma

van pequena — não era uma delas. Tirar os trajes rígidos, dobrá-

los e guardá-los em suas bolsas, depois enfiar as bolsas debaixo

do assento da espaçonave era um processo árduo que, nas

palavras de Aldrin, causava “um bocado de confusão, com partes

e peças flutuando pela cabine enquanto tentávamos manter a

logística sob controle”. Collins comparou a situação à de “três

baleias albinas dentro de um pequeno tanque, batendo no painel

de instrumentos apesar de todo esforço para fazermos tudo

devagar (…) Toda vez que nos apoiávamos na espaçonave,

nosso corpo tendia a rodopiar em alguma direção indesejável e

tínhamos que nos contorcer para voltar à posição inicial”.

Finalmente livres dos trajes, os tripulantes ficaram felizes por

poder remover as geringonças que tinham sido conectadas a

suas partes íntimas. Como os astronautas poderiam precisar

urinar, ou seus intestinos poderiam resolver funcionar antes que

tirassem os trajes, dispositivos para excreção foram conectados

a eles antes de se vestirem. Aldrin lembra nos mínimos detalhes:

“Esfregávamos o traseiro com uma pomada especial e usávamos

o que se chamava, eufemisticamente, de roupa de contenção

fecal.” A fralda modificada reduzia o cheiro de cuecas usadas, e

a pomada impedia que os homens ficassem muito assados.

Urinava-se usando um dispositivo composto de uma espécie de

preservativo unido a um cateter que levava a um saco parecido

com um biquíni preso em volta dos quadris. Para que não

houvesse vazamentos, o cateter do preservativo de borracha

tinha que ficar bem apertado, uma realidade desconfortável para

o genital masculino, motivo de piada entre os membros da

tripulação. Uma vez limpos, de cuecas trocadas e com seus

macacões, ir ao banheiro ficou mais fácil. As fezes eram guardadas em recipientes especiais, e a urina era despejada fora

da espaçonave.

Seguros a caminho da Lua, os astronautas relaxaram pela

primeira vez. Como explica Collins, não havia como se preparar

para a experiência inaudita, no gênero Além da imaginação, de

estar no espaço cislunar, a região entre a Terra e a Lua: “Ao

contrário do passeio de montanha-russa que fizemos orbitando a

Terra, estamos entrando no domínio da câmera lenta onde tempo

e distância parecem fazer mais sentido que velocidade. Para se

ter a sensação de estar viajando rápido, é preciso avistar algo

passando rápido: os postes telefônicos ao longo da estrada,

outro avião cruzando seu caminho. No espaço, os objetos estão

muito distantes uns dos outros para que se possa focar ou

acompanhar, exceto durante uma aproximação ou um pouso, e

nesses casos a abordagem é devagar, bem devagar. Mas, se

não dá para perceber a velocidade pela minha janela, sem

dúvida consigo medir a distância à medida que a Terra fica cada

vez menor. Finalmente, todo o disco terrestre pode ser visto.”

Essa visão cósmica da “Espaçonave Terra” mexia

profundamente com todos os astronautas lunares. “Era um

panorama que ia mudando aos poucos: passava de algo que era

apenas o horizonte para um grande arco, para um arco maior

ainda, e outro ainda maior, e finalmente para uma esfera inteira”,

descreve Armstrong. “E dependendo de quais fossem os

requisitos de atitude de voo em determinado momento, talvez

não desse para ver tudo isso o tempo todo. Mas sem dúvida

vimos a Terra se tornar uma esfera. Foi um evento

impressionante, deixar o planeta e perceber que não havia uma

razão lógica que garantisse nossa volta a ele em algum

momento. Foi um compromisso com a excelência, quanto ao que

precisava ser feito para retornar.”

Ao olhar a “Terra Inteira”, Armstrong se divertiu com seus

conhecimentos de geografia. Com três horas e 53 minutos de

voo, ele transmitiu por rádio: “Pode ser do seu interesse saber

que pela janela do lado esquerdo posso observar neste exato

momento toda a América do Norte continental, o Alasca, em cima o polo e embaixo a península de Yucatán, Cuba, a parte norte da

América do Sul, e aí a janela acaba.”

Para garantir que os dutos da espaçonave não congelassem

de um lado enquanto do outro o calor intenso provocasse

aumento da pressão do tanque, a Apollo 11 iniciou uma lenta

rotação para assegurar que os raios solares fossem absorvidos

da maneira mais uniforme possível por todos os lados da

espaçonave. “Éramos como frangos em um espeto de

churrasco”, explicou Collins. “Se parássemos em uma posição

por muito tempo, poderiam acontecer coisas ruins de todo tipo.”

Visualmente, a rotação proporcionava um panorama incrível, com

vistas deslumbrantes do Sol, da Lua e da Terra aparecendo pelas

janelas da espaçonave a cada dois minutos. Para ajudar no

passeio turístico havia um aparelho de visualização simples

chamado monóculo — metade de um binóculo. Usando-o como

uma lente de aumento, os astronautas se revezavam olhando de

perto as diferentes características de seu planeta natal.

Uma das lendas referentes aos voos espaciais diz que há

apenas duas obras humanas na Terra que podem ser vistas do

espaço — a Muralha da China e a gigantesca barragem de Fort

Peck em Montana. “Eu questionaria ambas”, declara Neil. No

espaço cislunar, “podíamos ver os continentes; podíamos ver a

Groenlândia. A Groenlândia se destaca assim mesmo como

aparece no globo das bibliotecas: toda branca. Não conseguimos

ver a Antártica porque havia nuvens sobre ela. A África estava

bem exposta, e vimos o sol refletindo em um lago. Mas não creio

que, pelo menos aos meus olhos, haja qualquer obra construída

pelo homem que possa ser vista.”

Neil não pôde deixar de refletir sobre o quanto a Terra parecia

frágil, vista a olho nu ou com o monóculo: “Não sei por que se

tem essa impressão, mas ela é tão pequena! É muito colorida,

você sabe. Vê-se um oceano e uma camada gasosa, um pedaço

— só um pedacinho — da atmosfera em volta dela, e comparada

a todos os outros corpos celestes, que em muitos casos são bem

maiores e assustadores, não parece que possa opor uma boa

defesa contra um ataque celeste.” Buzz e Mike se sentiram da

mesma forma; Buzz pensou em como era louco o globo ser política e culturalmente dividido: “Do espaço ela tem um aspecto

quase bondoso. Intelectualmente seria possível perceber que

havia guerras em curso na Terra, mas emocionalmente era

impossível entender essas coisas. Vinha e voltava o pensamento

de que as guerras em geral são travadas por território ou

consistem em disputas por fronteiras; do espaço, as fronteiras

arbitrárias estabelecidas na Terra não podem ser vistas.”

Em seguida, os astronautas tiveram de comer. Precisavam

consumir água o suficiente e de 1.700 a 2.500 calorias por dia. Já

antes de sua primeira refeição completa — programada para o

meio da tarde do primeiro dia, depois do arremesso do S-IVB e

de tirarem os trajes —, a tripulação tinha comido sanduíches de

patê em tubo. A despensa de lanches continha cubos proteicos

de amendoim, balas de caramelo, bacon em fatias e frutas secas.

Pela primeira vez em um voo espacial lunar dos Estados

Unidos, a lista de bebidas incluía não apenas suco e água, mas

boas doses de café. O suco não era Tang. Para o fornecimento

de água gelada e quente, havia dois tubos flexíveis de dois

metros de comprimento, conectados a torneiras. Na extremidade

de cada um, havia uma sonda do tipo pistola com um botão de

pressão. Se o astronauta quisesse água gelada, segurava a

sonda na boca, apertava o botão, e saía um pequeno volume de

água. Se estivesse preparando comida, era só colocar a pistola

de água quente em um saco plástico e esguichar três vezes

dentro dele. Depois de massagear o material reidratado até

adquirir forma comestível, o astronauta sugava o alimento

através de um tubo. Infelizmente, o dispositivo projetado para

ventilar o hidrogênio da água não funcionou bem. Entrava uma

quantidade indesejada de gás na comida, deixando os

astronautas inchados e cheios de gases intestinais. Aldrin brinca

que a coisa ficou tão feia que “poderíamos ter desligado nossos

propulsores de controle de atitude e feito o trabalho nós

mesmos!”.

A comida acabou sendo apetitosa, apesar de sem graça. Um

jantar de peru com caldo e molho era misturado com água

quente e comido com colher. Os alimentos não desidratados

eram comidos como estavam, inclusive presunto e batatas. Às vezes os três tripulantes faziam a mesma refeição — como no

segundo dia, quando comeram cachorro-quente, purê de maçã,

pudim de chocolate e uma bebida cítrica. Outras vezes,

escolhiam pratos diferentes. A comida favorita de Neil era

espaguete à bolonhesa, batatas gratinadas, cubos de bolo de

abacaxi e ponche de uva.

Com onze horas de voo, a tripulação estava pronta para seu

primeiro período de sono. Na verdade, às 19h52 CDT, duas

horas antes do horário programado, Houston desejou boa-noite à

tripulação cansada e encerrou contato. O sono tinha chegado

bem mais cedo para os astronautas. Com apenas duas horas de

voo, antes do início dos preparativos para a TLI, Neil bocejou e

disse aos companheiros: “Nossa, quase caí no sono agora”, ao

que Collins replicou: “Eu também. Vou descansar um pouco.”

Nas nove horas seguintes, eles lutaram contra a sonolência

esporádica até que chegou a hora de dormir.

Neil e Buzz dormiram em redes de malha leves, bem

parecidas com sacos de dormir, que foram esticadas e presas

debaixo dos assentos da direita e da esquerda — o do meio

continuava dobrado sobre os trajes espaciais da tripulação. “Isso

impedia que nossos braços flutuassem e que inadvertidamente

esbarrassem nos controles”, explica Neil. O homem de plantão —

Collins na primeira noite da viagem — não dormia em uma rede,

mas cochilava no assento da esquerda, com um cinto de

segurança que impedia que saísse flutuando e um fone de

ouvido preso na orelha para o caso de Houston chamar durante a

“noite”. “Era uma sensação estranha, mas agradável, cochilar

sem nenhum ponto de pressão sobre nenhuma parte do corpo”,

relata Collins. Era como ficar “suspenso pelo toque leve de uma

teia de aranha — só flutuando e caindo em todo o caminho para

a Lua”. Buzz experimentou a sensação, mas Neil não, já que

sempre dormia na rede.

Com os níveis de adrenalina ainda bastante altos por conta da

excitação da decolagem e da TLI, os homens dormiram apenas

cinco horas e meia naquela primeira noite. Quando o CapCom

Bruce McCandless da Equipe Verde do controle de missão

entrou em contato para acordar a tripulação, às 7h48 CDT, todos os três já estavam alertas. Enquanto os astronautas repassavam

o “checklist pós-sono”, acompanhando as atualizações no plano

de voo, McCandless deu a eles um pequeno resumo das notícias

da manhã, muitas delas a respeito da repercussão entusiasmada

do lançamento.

A primeira notícia dizia respeito ao voo da nave soviética Luna

15: segundo contaram aos astronautas, uma espaçonave não

tripulada da União Soviética tinha acabado de alcançar a Lua e

começava a circular em torno dela. Em um último esforço

desesperado para roubar as atenções do pouso americano na

Lua, os russos tinham lançado a pequena espaçonave não

tripulada em 13 de julho, três dias antes do lançamento da Apollo

11; o objetivo era não só pousar na Lua, mas colher uma amostra

do solo lunar e retornar à Terra antes da Apollo 11. Os jornais nos

Estados Unidos publicaram que os russos estavam

propositadamente tentando ofuscar os americanos com sua

“sonda misteriosa” e especularam (de maneira vaga) que talvez

também estivessem tentando interferir tecnicamente no voo

americano. As autoridades espaciais dos Estados Unidos temiam

que as operações e as comunicações soviéticas com a Luna 15

pudessem, de fato, interferir na Apollo — isso tinha acontecido

ocasionalmente ao longo dos anos quando os soviéticos

operavam em frequências de rádio iguais às da NASA ou

próximas delas.

Chris Kraft, do Centro de Controle de Missão, telefonou para o

coronel Frank Borman, comandante da Apollo 8 recém-chegado

de uma viagem de nove dias pela União Soviética e o primeiro

astronauta americano a visitar o país. “O melhor a fazer é

perguntar a eles”, disse Borman a Kraft. Então, com a permissão

de Nixon, pela famosa linha direta entre Moscou e Washington

estabelecida pelas duas superpotências para evitar o holocausto

nuclear depois da crise dos mísseis de Cuba de 1962, Borman

enviou uma mensagem para o diretor da Academia de Ciências

da União Soviética, Mstislav V. Keldysh, pedindo os exatos

parâmetros orbitais da sonda russa. Borman recebeu a garantia

de que a órbita da Luna 15 não cruzava a trajetória da Apollo 11.

Na verdade, nada a respeito da Luna 15 atrapalhou a Apollo, e

a missão soviética foi um fracasso retumbante. A Luna 15 caiu na

Lua em 21 de julho, dia seguinte ao pouso bem-sucedido da

Apollo 11.

Só depois de muitos anos veio a confirmação sobre a maior

explosão da história dos foguetes na plataforma de lançamento

do Cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, em 3 de julho de

1969, apenas nove dias antes do lançamento da Luna 15.

Naquele dia, os soviéticos estavam testando o próprio foguete

para a Lua: um gigantesco propulsor chamado N-1. Se o

lançamento de teste não tripulado do N-1 fosse bem-sucedido, os

soviéticos estariam preparados para avançar com seu projeto

lunar tripulado clandestino. Segundos após o lançamento, o

foguete N-1 desabou na plataforma e explodiu — estima-se que

com uma força equivalente a 250 toneladas de TNT. Por sorte

não houve mortos. Só em novembro de 1969 vieram à tona

boatos do acidente soviético na imprensa do Ocidente; até então,

os serviços de informação americanos sabiam do acontecimento

através de fotos de satélites espiões. O desastre com o N-1 foi o

fim do programa lunar soviético. Nem mesmo depois do colapso

da União Soviética, em agosto de 1991, os participantes do

projeto lunar soviético admitiram que ele existiu, para não

mencionar o desastre com o N-1.

 

* * *

 

O evento mais importante do voo do segundo dia ocorreu às

10h17 CDT, quando uma queima de três segundos ajustou o

curso da Apollo 11 e testou o motor do módulo de comando e

serviço, que seria necessário para levar a espaçonave para

dentro e fora da órbita lunar. No momento da pequena correção

de curso, Armstrong e seus companheiros estavam a 174.765

quilômetros da Terra — mais de dois quintos do caminho até a

Lua — e viajavam a uma velocidade de apenas 1.541 metros por

segundo. Ainda sob efeito da gravidade da Terra, a velocidade da

Apollo 11 foi diminuindo até chegar a uma distância de menos de 64 mil quilômetros da Lua — ponto em que a espaçonave reduziu

sua velocidade máxima de aproximadamente quarenta mil

quilômetros por hora para apenas 3,2 mil quilômetros por hora.

Nesse ponto, quando a atração gravitacional da Lua aumentasse,

ela aceleraria outra vez.

Grande parte do tempo dos astronautas durante a metade do

voo foi ocupada com diversas pequenas tarefas necessárias para

manter o módulo de comando e serviço funcionando

corretamente: limpar células de combustível, carregar baterias,

descartar água residual, trocar cilindros de dióxido de carbono,

preparar comida, clorar água para beber e assim por diante.

Collins fez a maior parte da rotina de limpeza para que Armstrong

e Aldrin pudessem se concentrar na revisão dos detalhes do

pouso que estava por vir — repassar os checklists, ensaiar os

procedimentos de pouso. “O plano de voo para a Lua tinha várias

páginas em branco”, relembra Aldrin, “períodos em que não

tínhamos nada para fazer. Ainda assim, não me lembro de ter

ficado ocioso. Tudo precisava ser guardado e lacrado, ou preso

com velcro a um dos muitos painéis. Cada um de nós tinha uma

bolsinha de pano para guardar objetos usados com maior

frequência, como canetas, óculos escuros e, para mim, uma

régua de cálculo. A toda hora um ou dois de nós ficava se

arrastando pelo chão procurando um par de óculos escuros, um

monóculo, um rolo de filme ou uma escova de dentes.”

Durante os períodos de descanso eles relaxavam com um

pouco de música, tocada em um pequeno gravador portátil

levado no voo com o propósito principal de gravar comentários e

observações da tripulação. Neil e Mike pediram que algumas

músicas fossem gravadas no aparelho, a maioria de ritmo suave.

Neil pediu especificamente duas gravações: uma era a Sinfonia

do novo mundo, de Antonín Dvořák, composta em 1895. Neil

tocava essa música quando estava na banda sinfônica de

Purdue, e lhe pareceu apropriada. A outra era Music Out of the

Moon, do compositor dr. Samuel J. Hoffman, que a executava no

teremim, um aparelho incomum que gerava tons eletronicamente;

o som era produzido por um músico ao controlar a distância entre

as mãos e duas varetas de metal que serviam de antenas.

O ponto alto do segundo dia foi a primeira transmissão ao vivo

pela televisão da Apollo 11, programada para começar às sete e

meia da noite EDT. Na verdade, foi a terceira transmissão de TV

do voo; as duas primeiras foram realizadas para verificar as

funções da câmera, a qualidade das imagens internas e externas

e a intensidade do sinal que chegava e saía da estação de

rastreamento de Goldstone na Califórnia. Dessa forma, quaisquer

falhas poderiam ser corrigidas antes que milhões de pessoas no

mundo inteiro sintonizassem seus aparelhos para assistir à

transmissão na noite de quinta-feira.

A primeira imagem difusa que apareceu na tela foi uma

tomada do planeta natal, que Armstrong descreveu como “só um

pouco mais que a metade da Terra”. Em palavras simples mas

encantadoras, Neil destacou “o azul explícito” dos oceanos, “as

formações de grandes nuvens brancas sobre o Pacífico”, “os

marrons do relevo” e “alguns verdes aparecendo ao longo da

costa noroeste dos Estados Unidos e do Canadá”. Explicou que,

à distância em que estavam — 257 mil quilômetros —, a

intensidade das cores não era tão grande quanto a que eles

puderam ver quando orbitavam a Terra, ou mesmo a oitenta mil

quilômetros de distância. Durante 36 minutos, os astronautas

deram um show. Aldrin fez flexões em gravidade zero, e Neil se

pôs de cabeça para baixo. O chef Collins demonstrou como fazer

ensopado de frango viajando a uma velocidade de 1.340 metros

por segundo. A transmissão foi encerrada com as palavras

emocionantes de Neil: “Focalizando o ponto em que podemos ver

a Terra, aqui a Apollo 11 encerra a transmissão.” A tripulação

passou as três horas seguintes realizando tarefas de limpeza e

participando infrutiferamente de um experimento com o

telescópio durante o qual não conseguiram visualizar a luz laser

verde-azulada lançada pelo Observatório McDonald perto de El

Paso. Nenhum deles caiu no sono antes das onze e meia da

noite, desta vez com Aldrin na posição flutuante de “plantão”. O

período de sono foi programado para ser longo, de dez horas. Os

dados do médico aeroespacial indicavam que “a tripulação

dormia relativamente bem durante toda a noite” — tão bem, na

verdade, que o controle de missão deixou que eles dormissem uma hora a mais antes de acordá-los para realizar tarefas como

carregar baterias, descartar águas residuais e verificar as

reservas de combustível e de oxigênio.

O plano de voo preliminar não previa que Aldrin e Armstrong

fizessem a primeira visita de inspeção à Eagle antes que a Apollo

11 entrasse na órbita da Lua, por volta do meio-dia do terceiro

dia, mas Aldrin conseguiu convencer os planejadores de missão

que devia entrar no módulo lunar um dia antes para ter certeza

de que ele não tinha sofrido dano durante o lançamento e o longo

voo. A visita começou um pouco depois das quatro da tarde CDT,

mais ou menos vinte minutos depois de começar a transmissão

de TV que a NASA considerou na época a de melhor qualidade

já feita do espaço. Depois que Collins abriu a escotilha,

Armstrong se espremeu através do túnel de 75 centímetros de

diâmetro e entrou flutuando pela parte superior do módulo lunar,

seguido por Aldrin. Neil e Buzz se lembram do sobe e desce da

visita à Eagle como uma das mais estranhas sensações de toda

a viagem à Lua, arrastando-se do chão para o teto do módulo de

comando e descendo de cabeça para baixo do teto do módulo

lunar acoplado.

Embora Neil tenha sido o primeiro a dar uma olhada no interior

da Eagle, foi Buzz, como piloto do módulo lunar, quem começou

a prepará-lo para a separação da Columbia que ocorreria 45

horas depois. Buzz e Neil tinham levado consigo as câmeras de

filmagem e de TV e enviaram as primeiras imagens de dentro da

Eagle. O controle de missão sabia que a transmissão estava

chegando, mas as redes de TV foram surpreendidas, já que não

esperavam as próximas imagens da Apollo 11 antes da sete e

meia da noite EDT, mesmo horário da noite anterior. Na correria

para fazer as conexões técnicas necessárias, a CBS foi ao ar

com Cronkite e o assistente Wally Schirra às 17h50. As primeiras

imagens — transmitidas ao vivo para os Estados Unidos, Japão,

Europa ocidental e grande parte da América do Sul — mostraram

Aldrin fazendo o inventário dos equipamentos no módulo lunar.

Mais tarde, Buzz mostrou ao público internacional um pouco do

uniforme espacial e do equipamento de suporte à vida que ele e

Neil usariam na Lua.

* * *

 

Nenhum relato do voo da Apollo 11 estaria completo se não

viesse acompanhado das fábulas sobre óvnis que a tripulação

teria visto. De acordo com essas histórias, os astronautas viram

coisas que não conseguiram identificar, desde luzes misteriosas

a formações de espaçonaves. Assim como acontece com muitos

contos fantásticos, essas histórias tinham um fundo de verdade.

A primeira vez que a tripulação da Apollo 11 teria visto um óvni

foi logo no primeiro dia durante o início da queima da TLI, quando

os homens viram clarões pela janela 5. Os astronautas não

disseram nada ao solo sobre os clarões, muito embora, como

recorda Aldrin, eles tenham sido vistos “pelo menos em duas ou

três ocasiões”, e não só durante o voo de ida. O fenômeno dos

clarões era tão incomum que a NASA avisaria as tripulações

futuras sobre ele. E quando a Apollo 12 subiu, seus tripulantes

também viram os clarões. Na verdade, ao voltar, relataram:

“Sabem o que mais? Vimos os clarões de olhos fechados!” No

fim das contas, os clarões são um fenômeno que ocorre

especialmente em condições de escuridão do espaço sideral

dentro do globo ocular humano. Existe um limiar óptico ligado a

um limiar psicológico — a pessoa precisava querer ver os

clarões, senão seria incapaz de observá-los. Os especialistas

explicam que alguns astronautas tem um limiar tão sensível que

veem os clarões mesmo quando voam no espaço próximo,

abaixo do cinturão de radiação de Van Allen.

Uma segunda “visão” aconteceu na noite do terceiro dia — o

dia da primeira visita ao interior do módulo lunar — pouco depois

das nove da noite. Ao que parece, Aldrin foi o primeiro a ver: “Eu

estava distraído, olhando fixo pela janela da Columbia, e vi algo

que me pareceu incomum. Aparentava ser mais brilhante que

qualquer estrela e não era exatamente um ponto de luz como

elas. Além disso, movia-se em relação às estrelas. Chamei a

atenção de Mike e Neil, e nós três ficamos bem curiosos. Com a

ajuda do monóculo, calculamos que, o que quer que fosse,

estaria a apenas 160 quilômetros. Olhando pelo sextante,

percebemos que aquilo ocasionalmente formava um cilindro, mas quando o foco do sextante era ajustado se parecia mais com um

‘L’ iluminado. Havia uma linha reta, talvez uma pequena

protuberância, e depois uma coisa saindo pela lateral. Tinha

determinado formato — todos concordamos nesse ponto —, mas

não conseguimos definir qual era.”

A tripulação, inquieta, se perguntava: “O que vamos dizer a

respeito disso?” Aldrin lembra: “Com toda a certeza não vamos

falar sobre o assunto com o solo, porque só vai servir para

despertar curiosidade, e se vazar, alguém pode dizer que a

NASA deve receber ordens para abandonar a missão, porque

estamos sendo seguidos por alienígenas! Nossa relutância em

tocar no assunto enquanto estava acontecendo era apenas

prudência de nossa parte. Não queríamos fazer nada que desse

aos maníacos por óvnis qualquer munição que fosse, porque

muitos comentários malucos já tinham sido feitos ao longo dos

anos sobre astronautas que viam coisas estranhas.” A princípio,

a tripulação achou que podia estar vendo um pedaço do casco

do Saturno S-IVB, arremessado mais de dois dias antes. Mas,

quando Neil perguntou a Houston sobre isso, a resposta foi que o

S-IVB estava a cerca de onze mil quilômetros deles.

Os astronautas ficaram confusos. O objeto visto a bem menos

de onze mil quilômetros não poderia ser o S-IVB, mas talvez

fosse um dos quatro painéis que cercavam a garagem de

lançamento do módulo lunar. Quando o módulo lunar foi extraído

para o acoplamento frontal, os painéis laterais tinham sido

lançados em diferentes direções. O controle de missão acabou

concluindo que era um dos painéis do Saturno, que teria girado

depois de ejetado do S-IVB. O reflexo do sol nos painéis seria

semelhante a uma piscada.

Na terceira noite, os astronautas da Apollo 11 dormiram mais

inquietos — sabiam que ao acordar, o quarto dia seria diferente.

Deter o movimento rotatório e entrar na órbita da Lua não seria

automático. Se a espaçonave não reduzisse corretamente a

velocidade, passaria pela Lua navegando em um arco gigantesco

e daria a volta, retornando às proximidades da Terra. Ao acordar

os astronautas naquela manhã às 7h32 CDT, o controle de

missão mais uma vez começou o dia lendo as notícias para eles. “Em primeiro lugar, parece que vai ser impossível fugir do fato de

que vocês dominam todas as notícias aqui na Terra”, disse o

CapCom da vez, Bruce McCandless. Até o Pravda na Rússia

publicou a missão na manchete, e chama Neil de ‘O Czar da

Nave’. Acho que talvez estejam falando da missão errada.”

O Sol estava naquele momento bem atrás da Lua, com sua

coroa brilhante contornando-a. A apenas vinte mil quilômetros

dali, a Lua era um enorme corpo escuro que tomava por

completo todas as janelas. A Terra brilhava tanto atrás dos dois

que deixava a superfície lunar tridimensional. Collins depois

escreveria: “A primeira coisa que vem à mente é o contraste

vívido entre a Terra e a Lua. É preciso ver o satélite bem de perto

para apreciar de verdade o planeta. Tenho certeza de que para

um geólogo a Lua é um lugar fascinante, mas essa monótona

pilha de rochas, essa semente de pêssego seca, queimada pelo

sol, não é páreo para a pedra preciosa que ela orbita. Ah, a

Terra, com seus vales verdejantes, suas cascatas enevoadas! Só

quero terminar nosso trabalho e dar o fora daqui.”

 

* * *

 

O passo vital no processo de pouso era uma queima muito

precisa chamada “LOI-1” (Lunar Orbit Insertion), a inserção na

órbita lunar básica. A combustão consistia em acionar o motor do

sistema de propulsão de serviço por pouco menos de seis

minutos, desacelerar a Apollo 11 até uma velocidade que

permitisse que a gravidade da Lua capturasse a espaçonave e a

puxasse para a órbita. Como disse Mike Collins: “Precisamos

reduzir a velocidade em 3.200 quilômetros por hora, ou seja, de

oito mil para 4.800, e faremos isso acionando nosso motor do

sistema de propulsão de serviço durante seis minutos. Estamos

tendo extremo cuidado e dedicando atenção exaustiva a cada

item do checklist.” O computador de bordo e o controle de missão

ofereceram uma grande ajuda com a queima, mas dependia dos

astronautas fazer tudo dar certo: “Bastaria um erro de digitação no nosso computador e, no pior dos casos, a nave faria a volta e

explodiria em uma trajetória rumo ao Sol.”

Parecia que a queima da LOI tinha corrido bem, mas o

controle de missão não podia ter certeza até que o veículo

aparecesse pelo lado de trás da Lua. Vinte e três minutos depois,

Houston se comunicaria com a nave outra vez.

“Não sabemos se está tudo bem com a Apollo 11”, anunciou

Walter Cronkite na cobertura ao vivo da CBS, “porque ela está

atrás da Lua e sem contato com a Terra pela primeira vez. Há

oito minutos eles acionaram o poderoso motor do sistema de

propulsão de serviço para entrar na órbita ao redor da Lua.

Saberemos o que houve em mais ou menos quinze minutos. É

quando eles sairão de trás da Lua, farão contato com a Terra

outra vez e poderão falar. Esperamos que eles tenham entrado

na órbita da Lua com sucesso e que o restante da missão

histórica possa transcorrer tão bem como nos três primeiros

dias.”

Dentro do controle de missão, ouviam-se algumas conversas

isoladas, mas não muitas. A maior parte das pessoas esperava

em silêncio pela “aquisição de sinal”, ou AOS (acquisition of

signal). Na TV, Cronkite carregava no drama, comentando: “Está

tudo calmo no mundo enquanto o mundo espera para saber se a

Apollo 11 entrou com sucesso na órbita da Lua.” A ansiedade

teve fim quando Houston ouviu um sinal fraco e indistinto da

espaçonave no exato momento em que era esperado.

Imediatamente, Neil deu a Houston um relatório atualizado da

queima. Ele explicava uma longa série de números sobre tempo

de queima e residuais 1 quando Houston pediu: “Envie tudo mais

uma vez, por favor.” Neil exclamou: “Foi assim — foi perfeito!”

Vinte minutos antes que a Apollo saísse de trás da Lua e

fizesse novo contato com Houston, os astronautas vibravam por

ter atingido de forma precisa a órbita pretendida:

 

03:03:58:10 Armstrong: Que beleza de queima.

03:03:58:12 Collins: Porra, também achei! 2

03:03:58:37 Armstrong: Muito bem, vamos — Ok, agora temos

algumas coisas para fazer…

03:03:58:48 Aldrin: Ok, vamos lá.

03:03:59:08 Collins: Bom, não sei se estamos ou não a cem

quilômetros, mas pelo menos não batemos naquela filha da

mãe.

03:03:59:11 Aldrin: Olha isso! Olha isso! 314,1 [quilômetros] por

112,8 [quilômetros].

03:03:59:15 Collins: Ótimo, ótimo, ótimo, ótimo! Quer anotar isso

ou não? Anota só para constar: 314 por 112. Arrebentamos.

03:03:59:28 Aldrin: Erramos só por alguns décimos de

quilômetros.

03:03:59:36 Collins: Olá, Lua!

 

Ao longo de todo lado posterior rochoso da Lua, parte nunca

visível para a Terra e densamente marcada por 4,6 bilhões de

anos de bombardeios de meteoros, Aldrin e Collins destacavam

animadamente, uma após outra, as características espetaculares

enquanto Armstrong era mais contido ao expressar o próprio

entusiasmo genuíno:

 

03:04:05:32 Aldrin: Ai, caramba, me dá essa câmera de novo.

Tem uma cratera magnífica e enorme bem ali. Que pena

não termos outras lentes, mas, Deus do céu, que

maravilha. Quer dar uma olhada nisso, Neil?

03:04:05:43 Armstrong: É, estou vendo… Quer colocar as outras

lentes?

03:04:06:07 Collins: Não quer pegar a Terra surgindo? Vai

demorar nove minutos.

03:04:06:11 Aldrin: Quero. Vamos tirar algumas fotos aqui

primeiro.

03:04:06:15 Collins: Bom, não perde aquela primeira…

03:04:06:27 Armstrong: Você vai ter várias chances.

03:04:06:30 Aldrin: Sim, certo.

03:04:06:33 Collins: Muitos nasceres da Terra, eu acho.

03:04:06:37 Armstrong: Sim, vamos. Rapaz, olha aquela…

cratera. Deve dar pra você vê-la bem ali… Que vista

espetacular!

03:04:08:48 Collins: Fantástica. Olha lá atrás da gente. Parece

mesmo uma cratera gigantesca. Olha as montanhas ao

redor dela. Meu Deus, são monstruosas!

03:04:09:58 Armstrong: Está vendo aquela grandona…

03:04:10:01 Collins: Estou, você não vai acreditar no tamanho da

fera ali embaixo. É a maior de todas até agora. Meu Deus,

é gigante! É enorme! É tão grande que nem cabe na janela.

Quer ver isso?! Não é a maior que você já viu na vida, Neil?

Meu Deus, olha o pico dessa montanha no centro! Não é

enorme?

03:04:11:01 Aldrin: É, tem uma filha da mãe bem grande aqui

também.

03:04:11:07 Collins: Dá um tempo, Buzz, não as chame de filhas

da mãe. Dê a elas algum nome científico (…) Caramba, um

geólogo aqui em cima ficaria completamente maluco.

 

Em órbita lunar, a tripulação tentava resolver uma controvérsia

informal que tinha sido levantada nos dois voos circunlunares

anteriores. Para a tripulação da Apollo 8, a superfície da Lua

parecia cinza enquanto para a Apollo 10 ficava mais para

marrom. Assim que tiveram chance, Neil, Mike e Buzz tentaram

resolver a questão. “Cinza cor de gesso de Paris para mim”,

Collins comentou, antes mesmo de entrarem na órbita. “Bem,

tenho de votar com a tripulação da 10”, disse Aldrin logo depois

da LOI. “Para mim parece bronzeada”, sugeriu Armstrong. “Mas

da primeira vez que vi, no outro ângulo do Sol, realmente

pareceu cinza”, Buzz continuou, e seus companheiros

concordaram, apesar de terem especulado sobre a cor da Lua ao

longo de várias órbitas. Afinal, a controvérsia não se resolveu em

favor de ninguém. As condições de iluminação faziam toda a

diferença. A cor da Lua mudava quase que de hora em hora, indo

da cor de carvão, perto da alvorada ou do crepúsculo, para um

bronze rosado ao meio-dia.

Às 11h55, horário de Houston, Armstrong teve chance de

verificar sua aproximação do local de pouso pela primeira vez. “A

Apollo 11 está tendo a primeira visão da aproximação de pouso”,

relatou. “Desta vez estamos sobrevoando a cratera Taruntius, e as imagens e mapas feitos pelas Apollo 8 e 10 nos deram uma

boa ideia do que procurar aqui. Parece muito com o que se vê

nas fotos, com uma diferença: é como comparar um jogo de

futebol ao vivo e pela TV. Nada se compara a estar de verdade

aqui.” Houston respondeu: “Nós concordamos e sem dúvida

gostaríamos de ver ao vivo.”

A primeira transmissão de televisão da Apollo 11 em órbita

lunar começou às 15h56 EDT. Como era um sábado de verão,

muitos americanos sintonizaram a transmissão depois de assistir

ao jogo de beisebol no programa Game of the Week, da NBC:

Baltimore Orioles contra os Boston Red Sox. Havia uma queima

de circularização da órbita programada para às 17h44 EDT, e os

astronautas não estavam com a menor vontade de aparecer na

TV; na verdade, se tivessem escolha, nem fariam aquele

programa.

A transmissão durou 35 minutos. Focando a câmera primeiro

de uma janela lateral e depois da janela da escotilha, conforme a

espaçonave ia de oeste para leste a quase 160 quilômetros

acima da superfície lunar, os astronautas levaram as audiências

de TV de todo o mundo para uma visita guiada ao lado visível da

Lua. Mostraram a trajetória que Neil e Buzz percorreriam no

módulo lunar dali a menos de 24 horas. Neil indicou o “ponto de

PDI”, onde a descida propulsionada teria início, depois Collins e

Aldrin espontaneamente se revezaram nos comentários de todos

os pontos de referência que orientariam a Eagle na descida até o

solo: os picos gêmeos do monte Marilyn, batizado por Jim Lovell

da Apollo 8 em homenagem a sua mulher; a grande cratera

Maskelyne; as pequenas colinas apelidadas de Boothill e Duke

Island, que seriam sobrevoadas com apenas vinte segundos de

descida; os vales denominados Sidewinder (Cascavel-chifruda) e

Diamondback (Cascavel-diamante-ocidental) porque

serpenteavam como cobras do deserto; os Gashes; a Last Ridge;

e por fim o local de pouso no mar da Tranquilidade, que estava

naquele momento praticamente na escuridão.

Era a primeira vez que os próprios astronautas davam uma

olhada no local de pouso, já que na órbita anterior ele tinha

ficado escondido, além do “terminador”, linha sobre a qual os astronautas passaram da luz para a escuridão. Desta vez, o

ponto estava ligeiramente visível, iluminado pelo brilho da Terra.

Todos os que estavam em casa e na espaçonave se esticaram

junto com Neil para olhar de perto. Collins, por sua vez, não

gostava particularmente do que via, embora tenha guardado a

impressão para si: “Acaba de amanhecer no mar da

Tranquilidade, e os raios do Sol estão cortando o local de pouso

em um ângulo bem raso. Nessas condições, as crateras na

superfície projetam sombras longas e irregulares e, a meu ver,

toda a região parece claramente ameaçadora. Não vejo nenhum

lugar liso o bastante para estacionar um carrinho de bebê, menos

ainda um módulo lunar.”

Ao passar pelo terminador, a tripulação apontou de novo a

câmera de TV para o local de pouso através da janela para

mostrar o ponto pela última vez antes de encerrar a transmissão.

“Enquanto a Lua afunda devagar no ocidente”, comentou Collins,

“a Apollo 11 deseja a vocês um bom dia.”

Uma hora e treze minutos mais tarde, a Apollo 11 acionou o

motor SPS pela segunda vez naquela tarde. Mais ainda do que

na primeira queima, a precisão era essencial. “Se a queima

ultrapassasse o tempo certo em meros dois segundos”, explica

Aldrin, “estaríamos em rota de colisão com o outro lado da Lua.”

A concentração era profunda enquanto os astronautas, em

coordenação com o controle de missão, faziam uma série

sistemática de verificação de estrelas, alinhamentos da

plataforma inercial e cálculos de navegação com o computador

de bordo. Collins usava um cronômetro para garantir que a

operação durasse dezessete segundos, nem mais nem menos. A

combustão transcorreu perfeitamente. A órbita da Apollo 11 caiu

de 271,7 por 113,5 quilômetros para 106,3 por 87,5 quilômetros e

se estabilizou em uma elipse quase perfeita. O alto grau de

precisão deixou até o comandante empolgado:

 

03:08:13:47 Armstrong: 106,3 por 87,5 — quero ver bater isso

agora.

03:08:13:52 Collins: Bem na mosca.

03:08:14:00 Aldrin: Estamos mais elípticos agora, né?

03:08:14:05 Collins: É o mais perto que dá para chegar.

 

Com a Apollo 11 agora segura em sua órbita, era hora de

preparar o módulo lunar para seu trabalho. Ativá-lo, completar a

longa lista de verificações de comunicação e pré-ajustar uma

série de interruptores deveria manter Neil e Buzz ocupados

durante três horas, mas eles levaram trinta minutos a menos

graças ao trabalho preparatório que Aldrin realizara no módulo na

véspera. Antes das oito e meia da noite, horário de Houston, a

Eagle estava pronta. Os dois astronautas, que voltaram à

Columbia para sua quarta noite de sono dentro da espaçonave e

a primeira na órbita da Lua, também estavam prontos. O

comandante e seu piloto do módulo lunar organizaram

cuidadosamente todo o equipamento e as vestimentas que

usariam pela manhã. Depois, cobriram as janelas para bloquear

a luz direta do Sol e também o brilho da Lua — muito mais

intenso do que vemos na Terra — e começaram a se acomodar

em seus lugares para dormir. Sabendo que Neil preferia que ele

dormisse antes da tentativa de pouso, Buzz se acomodou, assim

como seu comandante, em uma das redes flutuantes. Apagando

as luzes da cabine, Collins deu o dia por encerrado: “Bem, acho

que hoje correu tudo bastante bem. Se amanhã e depois forem

assim, estaremos a salvo.”

Três minutos depois da meia-noite, o encarregado de relações

públicas de plantão no controle de missão informou à imprensa:

“A tripulação da Apollo 11 está neste momento em seu período

de descanso.” Aldrin teve uma noite de sono agitado; Neil dormiu

profundamente, mas não por muitas horas. A chamada para

despertar chegou de Houston às seis da manhã. Lá pela metade

da manhã, Aldrin e Armstrong teriam de estar dentro do módulo

lunar, prontos para separar a Eagle da Columbia para a viagem

de descida à Lua.

 

1 Executar uma queima cronometrada do motor foguete SPS da Apollo poderia produzir uma aceleração (ou desaceleração) substancial se o desligamento do motor não fosse exato. Era de extrema importância saber qual era o montante das diferenças de velocidade, ou “residuais”, para corrigi-las. As correções se fariam não por novo acionamento do motor principal — o que poderia agravar o problema —, mas sim pelo acionamento breve (os astronautas chamavam de “cutucar”) dos propulsores de manobra de menor potência da espaçonave.

2 Este trecho e os dois que se seguem foram transcritos do gravador de bordo e não foram transmitidos à Terra. Os astronautas tomavam cuidado para não falar palavrões quando sabiam que o que diziam estava sendo transmitido.