O Primeiro Homem na Lua
Capítulo 14: Gemini VIII
CAPÍTULO 14
Gemini VIII
Cabo Kennedy, Flórida. 9h41 EST, quarta-feira, 16 de março de
1966. Aqui é o Controle de Lançamento da Gemini. Estamos a
114 minutos do lançamento da Gemini VIII do Pad 19 e a
dezenove minutos da decolagem do Atlas/Agena no Pad 14. Os
principais pilotos para a missão, astronautas Neil Armstrong e
David Scott, adentraram a espaçonave Gemini VIII às 9h38.
Agora, estão acoplando (...)
Três anos e meio após o início de sua carreira como astronauta,
Neil Armstrong, aos 35 anos, enfim entrou em uma espaçonave,
acima do foguete Titan II completamente abastecido, pronto para
seu primeiro lançamento espacial. Valeu a pena esperar pela
Gemini VIII, que faria o 14o voo do programa espacial tripulado
dos Estados Unidos. Uma aproximação no espaço só tinha
ocorrido uma vez, quatro meses antes, e era algo que os russos
nunca tinham conseguido fazer. Foi em dezembro de 1965,
quando os astronautas Wally Schirra e Tom Stafford, na Gemini
VI, movidos pela ação da inércia de sua órbita, pararam a alguns
metros da Gemini VII, com Frank Borman e Jim Lovell a bordo.
Agora, a Gemini VIII deveria realizar não só uma aproximação
como também o primeiro acoplamento no espaço, conectando-se
ao veículo-alvo não tripulado Agena da Gemini (da sigla em
inglês GATV, Gemini Agena Target Vehicle), projetado
especialmente para o programa.
A missão Gemini VIII também levava o piloto Dave Scott, de
33 anos, nascido no Texas, para realizar uma atividade
extraveicular ainda mais complexa do que a realizada por Ed
White na primeira caminhada espacial dos Estados Unidos com a Gemini IV, em junho de 1965. Também prometendo manter a
tripulação ocupada durante seu voo programado de setenta
horas e 55 órbitas, os experimentos a bordo contemplavam
fotografias de luz zodiacal, amadurecimento de ovos de rã,
fotografias sinópticas de superfície, emulsão nuclear e
espectrofotografia de nuvem atmosférica. “Na mitologia grega
antiga, Gemini aludia aos gêmeos Castor e Pólux”, explicou
Armstrong. Ele e Scott criaram um adesivo para a Gemini VIII
“com um raio de luz que emanava de Castor e Pólux, passando
por um prisma e refletindo o espectro completo do voo espacial”.
O principal objetivo da Gemini VIII era a preparação para o pouso
na Lua. No verão de 1962, quando a NASA concluiu que o
método de encontro em órbita lunar (da sigla em inglês LOR,
Lunar Orbit Rendezvous) era a única maneira de chegar à Lua
até o fim da década, tornou-se absolutamente essencial aprender
a realizar esse tipo de aproximação e acoplamento com outra
espaçonave.
Era tarefa de Armstrong, como comandante, realizar essas
manobras críticas pela primeira vez.
Desenvolvido originalmente pela Lockheed para a Força
Aérea, o Agena era um foguete de dois estágios que se mostrou
tão confiável que os responsáveis pelo planejamento das
missões da NASA, logo no início de 1961, pensaram em usá-lo
como veículo-alvo em um experimento de aproximação, ideia que
floresceu no Programa Gemini. O Agena ganhou um novo
propósito e precisava de um sistema de comunicação de dados
de três vias, um transponder e outros instrumentos de
rastreamento, um sistema de estabilização de atitude e um anel
de acoplamento. O mais complicado de tudo era que o Agena
precisava também de um motor reiniciável com capacidade para
cinco ciclos de iniciação e parada no espaço, permitindo que o
par de naves espaciais acopladas fosse manobrado em qualquer
direção. Apenas onze dias antes do lançamento da missão de
Armstrong, um Agena modificado foi certificado para lançamento.
Um pequeno problema pré-lançamento no interior da
espaçonave quase custou a Neil e Dave sua chance de perseguir
o Agena, que começava a riscar o espaço: “Logo depois que Dave e eu passamos pela escotilha e nos sentamos, um dos
caras da equipe de preparação de voo encontrou um pouco de
epóxi no mecanismo de fixação do arnês de Dave. Para nós, era
muito complicado fazer qualquer coisa a respeito disso, de tão
limitados que estávamos em nossos assentos, mas Pete Conrad,
nosso comandante reserva, e o chefe da plataforma de
lançamento, Guenter Wendt, conseguiram soltar o gancho depois
de suar um pouco.”
Janet ficou em casa, em Houston, nervosa, com os dois filhos
pequenos, vendo o lançamento pela televisão. Neil conseguiu
reservar um hotel para os pais, que foram levados com outros
VIPs para as arquibancadas do Cabo Kennedy em um ônibus da
NASA. June e Dean, com seus cônjuges, também estavam
presentes. Neil tentava compensar a ansiedade e a expectativa
pensando que “na maioria das vezes, em um avião, quando você
vai voar, você voa. Mas, em uma espaçonave, muitas vezes você
vai para a plataforma de lançamento e fica lá sentado durante
horas, até que sai da espaçonave e volta para o alojamento.
Acontecia com tanta frequência que era uma surpresa quando o
lançamento de fato acontecia. Realmente não esperávamos” até
sentir os parafusos de ancoragem do foguete se soltando para a
separação.
“O Atlas/Agena saiu na hora marcada”, lembrou Armstrong, “o
que foi um ótimo sinal. Então saímos nós, com nosso Titan,
também na hora certa, outro bom sinal, pois prenunciava que a
aproximação programada seria exatamente como tínhamos
ensaiado.”
“O Titan II fez uma viagem bem suave”, contou Neil, “muito
mais do que a primeira fase do Saturno V no Programa Apollo. O
lançamento foi muito claro. Soubemos que estávamos a caminho
assim que o foguete apagou. O nível de g subiu muito no
primeiro estágio do Titan — algo como sete g. De início, tudo o
que se vê é o céu azul — depois, quando o foguete saiu da
trajetória vertical, ficamos de cabeça para baixo, com os pés
voltados para o céu, e conseguimos ver o horizonte descendo no
topo da janela. Era uma vista espetacular porque estávamos
passando acima do Caribe e conseguíamos ver todos aqueles verdes e azuis e, às vezes, uma ilha aqui e ali. Seria agradável
aproveitar a vista, mas estávamos muito preocupados em manter
o motor em funcionamento.”
Comunicações de voz intermitentes com a Gemini VIII eram
feitas por poucos minutos a cada vez enquanto a espaçonave
orbitava a Terra em sua trajetória para leste. Entre a cabine de
comando e Houston havia uma rede de rastreamento mundial
com estações em Ascension, uma ilha britânica no Atlântico sul;
em Antananarivo, na República de Madagascar, ao largo da
costa leste da África; em Carnarvon, no oeste da Austrália; em
Kauai, uma ilha no extremo norte do Havaí; e em Guaymas, no
México, no golfo da Califórnia. Só depois de sobrevoar o Havaí
eles tentaram dar uma olhada na paisagem. Armstrong
conseguiu distinguir Molokai, Maui e a grande ilha do Havaí. Os
dois começaram a procurar o litoral do Texas, esperando ver
Houston e localizar suas casas. Mas a missão era perseguir o
Agena, que estava a dois mil quilômetros da Gemini VIII, em uma
órbita mais alta.
A primeira tarefa de Armstrong seria alinhar a plataforma
inercial da espaçonave, uma base fixa que media ângulos — e,
por conseguinte, direções — no vácuo, onde todas as direções
eram relativas. A plataforma inercial consistia em três giroscópios
formando ângulos retos entre si. À medida que a espaçonave se
movia em relação aos giroscópios, a unidade de medição inercial
alimentava o computador de bordo com ângulos de arfagem,
rolagem e guinada, rastreando o Agena através de um radar.
Três acelerômetros montados junto com os giroscópios mediam a
reação da espaçonave em relação aos disparos do propulsor.
Um disparo de cinco segundos dos propulsores dianteiros da
Gemini VIII diminuiria a velocidade da espaçonave para uma
posição em que sua inclinação orbital — o ângulo entre o plano
de sua órbita e o do equador — combinaria exatamente com a do
Agena. Esse momento crítico chegou uma hora e trinta minutos
depois do início da missão.
“Um requisito fundamental para a aproximação”, explicou
Armstrong, era “levar a órbita da espaçonave para o mesmo
plano da órbita do alvo, porque, se você errar o alinhamento, mesmo que por poucos graus, a espaçonave não vai ter
combustível suficiente para chegar ao alvo da aproximação.
Então, o plano era iniciar com uma diferença de alguns décimos
de grau em relação à órbita do alvo. Isso se consegue fazendo o
lançamento na hora exata, para que a espaçonave fique no
mesmo plano que o veículo-alvo.” Mas, por mais sincronizados
que sejam os dois lançamentos, os ângulos de inclinação das
órbitas das duas espaçonaves ficariam levemente oblíquos. No
caso da Gemini VIII, havia uma diferença de 0,5 grau entre sua
inclinação e a inclinação do Agena que precisava ser
compensada.
Até mesmo em circunstâncias ideais, perseguir um alvo no
espaço requer uma pilotagem excepcionalmente competente.
Sem passar muito tempo no simulador, é improvável que
qualquer astronauta estivesse de fato pronto para realizar uma
aproximação no espaço. Um computador de navegação era
necessário para registrar a localização das duas aeronaves,
definir o melhor arco de transferência dentro da órbita do Agena
e, durante as fases finais da aproximação, resolver problemas
matemáticos precisos com base na conexão com o Agena visto
pelo radar. Construído para a NASA pela Divisão Federal de
Sistemas da IBM em Oswego, Nova York, o computador de
navegação da Gemini foi um dos primeiros do mundo a utilizar
eletrônica digital de estado sólido com o propósito de auxiliar
orientação, navegação e controle em tempo real de uma máquina
voadora. “Era um computador minúsculo”, relatou Armstrong.
Com meio metro de comprimento e 22 quilos, o computador
cabia dentro do painel frontal da espaçonave. Dentro dessa
unidade compacta, pequenos ímãs em formato de rosquinha
continham a memória central do computador, que armazenava
159.744 bits de informações binárias; ou menos de vinte mil
bytes. Para aumentar um pouco essa capacidade, havia uma
unidade de fita que os astronautas poderiam usar para instalar
programas alternados. A Gemini VIII foi a primeira missão
espacial que se beneficiou do sistema de fita alternativa. Até
mesmo com o que era considerado na época a tecnologia
computacional mais recente, era forçoso que os responsáveis pela missão reduzissem ao máximo a complexidade da
aproximação.
Modelos matemáticos, simulações e experiências de voo
anteriores da Gemini determinavam que a diferença de altitude
ideal entre as duas naves espaciais era de 24 quilômetros, e que
o ângulo de transferência ideal — a distância angular que a
espaçonave Gemini devia percorrer em sua subida para a órbita
do Agena — era de 130 graus. Como explicou Armstrong: “O que
nossos planejadores de missão descobriram foi um caminho de
aproximação que nos permitia chegar até o Agena quando ele
parecia uma grande estrela fixa no meio do céu e as coisas não
se moviam para todo lado. Essa técnica nos deu a vantagem de
uma aproximação muito mais fácil até nosso veículo-alvo, porque
não tínhamos o céu em movimento. Com o alvo congelado no
céu de estrelas, conseguíamos saber que estávamos no caminho
certo. Ele automaticamente nos diria algo importante se o alvo
começasse a se mover; e nos avisaria que tínhamos um
componente de velocidade que precisávamos eliminar.” Em
relação às melhores condições de iluminação, descobriu-se que
o Sol deveria estar atrás da Gemini durante a fase de frenagem
para a aproximação. A partir dessas determinações, os
planejadores da missão trabalharam de trás para a frente a fim
de projetar os horários de lançamento, as trajetórias de ascensão
e os parâmetros orbitais de modo a configurar as condições
ideais da fase terminal de aproximação da Gemini, que levaria ao
acoplamento.
Desde o momento do primeiro disparo da espaçonave, depois
de 1h34min do início da missão, até o ponto em que a
espaçonave começou sua fase terminal, passaram-se
aproximadamente 2h15min. Armstrong e Scott, então, decidiram
fazer uma refeição. Dentro do pacote com a etiqueta Dia
1/Refeição B havia um frango congelado e um recipiente com
molho. Mas uma ligação do CapCom (comunicador da
espaçonave) Jim Lovell de Houston, transmitida pela estação de
rastreamento em Antígua, nas Índias Ocidentais Britânicas, pediu
que a tripulação se preparasse para o próximo disparo — um
ajuste de fase, ou um leve reposicionamento no plano, que requeria outro alinhamento de plataforma. Armstrong e Scott
usaram velcro para grudar o alimento empacotado no teto da
espaçonave até que o disparo fosse feito. Quando recuperaram a
comida meia hora depois, os astronautas encontraram os
recipientes com partes ainda secas. Armstrong tentou um pacote
de brownies, mas o farelo flutuou por toda a cabine.
A manobra seguinte, um disparo para mudança de plano,
ocorreu enquanto sobrevoavam o oceano Pacífico, pouco antes
de completarem uma segunda órbita, com 2h45min50. Ativando
os propulsores da popa, Armstrong provocou uma mudança de
velocidade horizontal de oito metros por segundo, o que fez a
Gemini VIII embicar para baixo, talvez sem precisão.
02:46:27 Armstrong: Acho que exageramos um pouco.
Quando a espaçonave sobrevoava o México, a intuição de Neil
se confirmou. Lovell pediu que ele aumentasse a velocidade em
sessenta centímetros por segundo, realizando outro disparo bem
curto. Os dois homens conseguiram colocar a espaçonave no
plano e em uma órbita logo abaixo do Agena, aproximando-se
dele. Quando entraram na mesma órbita que o Agena, fizeram
alguns cálculos de variação e índice de variação no computador,
com os gráficos e também com o solo. Depois de alguns ajustes,
eles “esperavam poder chegar ao alvo quando este apresentasse
movimento zero em relação às estrelas e a espaçonave
estivesse a um ritmo razoável para desacelerar rumo à
aproximação final usando a menor quantidade possível de
combustível”.
A fase final não podia ser iniciada até que a Gemini VIII
estabelecesse a conexão com o Agena pelo radar sólido. O
comandante Armstrong manteve uma variação em índices
constantes para não ultrapassar o alvo por conta de uma
aproximação rápida demais. Com 3h08min48, Armstrong notou:
“Estamos com uma conexão intermitente com o radar.” Trinta e
cinco minutos depois, com a espaçonave sobrevoando a África,
Neil informou uma conexão por radar sólido. Em seguida, Armstrong precisou realizar outro disparo. O arco de
transferência no qual a Gemini VIII estivera se movimentando
nas últimas horas para alcançar o Agena tinha sido elíptico, o
caminho determinado pelo campo gravitacional de um corpo.
Armstrong embicou a espaçonave para baixo e ativou os
propulsores da popa. O disparo resultou em uma mudança de
velocidade de dezoito metros por segundo, o que arredondou a
órbita da Gemini VIII e a situou mais precisamente no plano do
Agena.
Demorou um pouco para que a tripulação pudesse ver o alvo.
Armstrong explica: “Sabíamos que em algum ponto o veríamos.
Mas tínhamos de estar muito perto. De acordo com o plano da
missão, deveríamos ficar no escuro ao longo de 130 graus do
arco de transferência — ou pelo menos de 125 graus. Então,
depois de mais ou menos dezesseis quilômetros, o alvo ficaria à
luz do dia. A essa altura, ele ficou iluminado como uma árvore de
Natal. Pudemos vê-lo no céu escuro como um farol gigante.
Quando isso aconteceu, o fundo estrelado se tornou menos
importante, porque já estávamos em uma boa trajetória e
conseguiríamos fazer os ajustes finais visualmente.” Pouco
depois, Scott relatou por rádio que a tripulação estava vendo um
objeto a 120 quilômetros de distância que brilhava à luz do Sol.
Supuseram que fosse o Agena. Com o alvo localizado a dez
graus acima da Gemini VIII, Armstrong precisava alinhar a
plataforma inercial mais uma vez, a fim de prepará-la para uma
de suas últimas manobras de translação. Nessa manobra, Neil
ergueria o nariz da espaçonave em trinta graus e inclinaria o
veículo mais ou menos dezessete graus para a esquerda.
Quando essa manobra fosse concluída com sucesso, ele teria
tempo de dar mais uma olhada no Agena.
Alguns minutos depois, o Agena sumiu de vista enquanto
entrava no crepúsculo e reapareceu brevemente para os
astronautas quando as luzes de aquisição do veículo-alvo
piscaram, acionadas por um comando na Gemini VIII. “Uma vez
que concluímos nosso arco de transferência”, explica Armstrong,
“tivemos de fazer os ajustes finais que nos situariam exatamente
na mesma posição e na mesma velocidade que o Agena para que estivéssemos voando em formação. A partir daí, fizemos o
que era chamado de ‘manutenção de estação’, ou seja, ficamos a
cerca de cinquenta metros de distância. Voamos em torno do
alvo, sem nos afastarmos dele. Tínhamos de ficar na mesma
órbita que o Agena porque, se nos afastássemos ainda que
pouco, os erros se propagariam. Então, tivemos de voar
essencialmente em formação.”
Bem acima do navio de rastreamento, posicionado perto da
ilha de Antígua, no Caribe, a tripulação da Gemini VIII se
preparou para acionar os freios da espaçonave a fim de não
chegar perto do Agena rápido demais e passar direto por ele.
Com cuidado, Armstrong lidou com a frenagem, ativando
intermitentemente os propulsores da popa em disparos curtos,
enquanto David Scott analisava a variação e o índice da Gemini
VIII. Dois minutos e 21 segundos depois, surgia o brilho das
luzes do Agena. Mais à frente, ao ritmo de 150 centímetros por
segundo, a Gemini VIII avançava para o Agena. A empolgação
de Armstrong era evidente:
05:53:08 Armstrong: Não acredito!
05:53:10 Scott: Eu também não. Trabalho incrível, treinador!
05:53:13 Armstrong: Muito bom, parceiro!
05:53:16 Scott: Você conseguiu, garoto! Você fez um ótimo
trabalho!
05:53:17 Armstrong: Isso é um trabalho de equipe.
Dois minutos depois, o CapCom Lovell, que havia ficado quieto
para não incomodar Armstrong e Scott durante a frase crítica de
frenagem, entrou em contato e pediu uma atualização sobre o
encontro.
05:56:23 Armstrong: Houston. Aqui é a Gemini VIII. Estamos
fazendo a manutenção da estação no Agena em
aproximadamente cinquenta metros.
Com a velocidade dos dois veículos equiparada, foi realizada a
aproximação — apenas a segunda na breve história da era
espacial.
A manutenção orbital da estação não foi problema para
Armstrong. “Era muito fácil voar perto. Voamos em torno do
veículo e tiramos fotos dele de diferentes perspectivas, em
diferentes iluminações.” Armstrong sempre usava a palavra “nós”
quando pilotava qualquer aeronave ou espaçonave, mas os
requisitos da missão Gemini eram sérios demais para ele dividir
as responsabilidades de pilotagem com Scott, pelo menos não
ainda. Neil planejava deixar Scott pilotar a espaçonave algum
tempo depois, após a conclusão do acoplamento ou da atividade
extraveicular de Scott. Armstrong e Scott mantiveram a estação
de aproximação durante a maior parte do “dia”, sabendo que o
plano era proceder com o acoplamento antes de começar a
próxima “noite”, quando as condições de acoplamento estariam
bem longe do nível ideal. Na órbita em que se encontravam, a luz
do dia durava em torno de 45 minutos.
A aproximação começou a oeste do Havaí. A localização da
Gemini VIII à luz do dia mostrou-a nas proximidades da USS
Rose Knot Victor, que rastreava a espaçonave ao largo da costa
nordeste da América do Sul no momento em que Armstrong
estava diminuindo a velocidade da espaçonave para realizar o
acoplamento na velocidade de aproximação praticamente
imperceptível de sete centímetros por segundo.
06:33:40 CapCom: Ok, Gemini VIII. Parece bom aqui debaixo.
Estamos demostrando CONE RÍGIDO. Tudo parece bem
para o acoplamento.
06:33:52 Armstrong: Houston, estamos acoplados! Sim, é mesmo
tranquilo.
A comemoração explodiu no controle da missão durante alguns
segundos de loucura. O CapCom parabenizou os homens e
informou que o Agena estava estável, sem oscilações
perceptíveis.
Durante os primeiros minutos do acoplamento, tanto a
tripulação quanto os controladores de voo se concentraram no
desempenho do Agena, depois dos complicados problemas que
tinham tido com ele. Houston teve dificuldade para verificar se o
Agena estava recebendo e armazenando os comandos
transmitidos para a manobra de guinada a ser realizada. O
comando também se perguntava por que o medidor de
velocidade do Agena parecia não estar funcionando. Esses dois
mistérios indicavam um mau funcionamento do sistema de
controle de atitude do Agena. O CapCom disse a Armstrong que
se o sistema de controle não funcionasse, deveria ser desligado
e o controle seria feito a partir da espaçonave. Seis minutos
depois desse aviso, a estação de rastreamento de Antananarivo
perdeu o sinal da espaçonave, que entrou em uma zona morta.
Pelos 21 minutos seguintes, não houve nenhuma comunicação
com a Gemini VIII, agora em voo acoplado, tendo o Agena como
uma espaçonave integrada.
Então, chegaram palavras assustadoras vindas da Gemini VIII:
07:17:15 Scott: Estamos com problemas sérios aqui. Nós (...)
estamos rolando para lá e para cá. Estamos desacoplados
do Agena.
Armstrong relembrou a sequência de eventos que levaram à
emergência durante o voo, a primeira possivelmente fatal do
programa espacial americano: “A noite começou pouco depois do
acoplamento. Não se vê muita coisa à noite. Víamos as estrelas
acima, e abaixo dava para ver as luzes de alguma cidade, ou
áreas de relâmpagos em tempestades, mas não dava para ver
muita coisa. Dave notou no indicador da esfera — e chamou
minha atenção para o fato — que não estávamos no nível de voo
em que deveríamos estar, mas em um ângulo de inclinação de
trinta graus.”
Enquanto a espaçonave voava em condições noturnas, os
astronautas levantaram as luzes da cabine de comando até onde
alcançavam, tornando quase impossível a detecção de qualquer mudança na linha do horizonte, a menos que estivessem olhando
diretamente para os instrumentos: “Fiz algumas tentativas de
reduzir o ângulo de inclinação, sobretudo ativando queimas
curtas do Sistema de Manobras de Órbita e Atitude (da sigla em
inglês OAMS, Orbit Attitude and Maneuvering System). Então, o
ângulo começou a mudar mais uma vez, e pedi a Dave que
desligasse os controles do Agena. Dave estava com todos os
controles do Agena no seu lado do painel na espaçonave.”
Em vão, Scott enviou um comando ao veículo-alvo na tentativa
de desligar seu sistema de controle de atitude; mexeu nos
interruptores do veículo-alvo e colocou-os em ciclo intermitente;
energizou e desenergizou todo o painel de controle do Agena.
Armstrong conta: “Eu realmente acreditei que não teríamos
nenhum problema com o acoplamento, com base nas simulações
que fizemos”, mas não tinha ocorrido a ninguém uma simulação
na qual Gemini e Agena, acopladas, passassem por
movimentações tão anormais. “Se tivéssemos conseguido treinar
essa situação”, comenta Armstrong, “tenho certeza de que
teríamos compreendido tudo mais rapidamente.”
“Já tínhamos realizado alguns voos no Programa Gemini
àquela altura”, diz Armstrong. “Então, era natural suspeitar que,
se houvesse algum equívoco, ele viria do Agena, que já tinha
passado por alguns problemas em seu desenvolvimento.”
Reforçando a posição anti-Agena, havia o aviso dado por Jim
Lovell minutos antes do acoplamento: a qualquer sinal de
problemas, Armstrong e Scott deveriam se separar do Agena e
assumir o controle da própria espaçonave. Neil disse apenas ao
parceiro: “Vamos soltar e desacoplar”, e Dave concordou
imediatamente.
“Vai”, Armstrong disse para Scott. “Nos soltamos com
sucesso”, explicou Neil anos depois, “mas eu estava um pouco
preocupado porque não queria ter um novo impacto com o Agena
logo em seguida. Então, afastei-me bruscamente, esperando
aumentar a distância entre as duas naves antes que elas se
chocassem. Funcionou muito bem. Tentamos logo recuperar o
controle de nossa própria espaçonave, o que não conseguimos fazer. Ficou óbvio na mesma hora que o problema não era do
Agena. Era nosso.”
O verdadeiro vilão era um dos propulsores do OAMS da
Gemini VIII — especificamente, o propulsor número oito, um
pequeno foguete com 23 libras de empuxo usado para fazer a
rolagem da espaçonave. Tudo indicava que, enquanto Armstrong
usava o OAMS para manobrar o conjunto Gemini-Agena, um
curto-circuito manteve o propulsor aberto.
“Eu não sabia na época”, contou Armstrong, que “você só
ouve o propulsor quando ele dispara; não deveríamos ouvi-lo
enquanto ele funcionava com estabilidade”.
A Gemini VIII girava perigosamente sem controle. Segundo
Armstrong, “a taxa de rotação continuava a aumentar e chegou
ao ponto em que os movimentos se acumularam. Em outras
palavras, o problema não era apenas de alta taxa de rolagem,
mas também de arfagem e guinada”. Em termos de engenharia,
foi o mesmo tipo de problema de acoplamento inercial de
rolagem que afetou o projeto das primeiras aeronaves
supersônicas.
“Nossa espaçonave tornou-se um giroscópio aos tropeços. O
movimento mais rápido era o da taxa de rolagem. Nossos
indicadores de taxa de rolagem só subiam até vinte graus por
segundo e atingiram o máximo, então estávamos sem sombra de
dúvida a mais de vinte graus por segundo em todos os eixos —
ainda que, às vezes, eles caíssem misteriosamente para níveis
mais baixos.” Quando as revoluções ultrapassaram 360 graus
por segundo, “fiquei muito preocupado com a possível perda de
nossa habilidade de distinguir as coisas com precisão”, lembrou
Armstrong. “Quando olhei para os controles do foguete do motor
acima de mim, deu para perceber que as coisas estavam ficando
desfocadas. Achei que, se mantivesse a cabeça em certo ângulo,
conseguiria manter os controles em foco, mas sabia que
teríamos de fazer algo depressa para resolver o problema antes
de perder a visão ou a consciência.”
Armstrong descobriu que suas opções estavam reduzidas a
uma: “Estabilizar a espaçonave para recuperar o controle. A
única maneira de fazer isso seria ativar o outro sistema de controle da espaçonave.” Era o sistema de controle de reentrada
(da sigla em inglês RCS, reentry control system), que ficava no
nariz da espaçonave. Como o RCS tinha dois anéis individuais
que eram acoplados, “seus tanques de combustível não
costumavam ser pressurizados até pouco tempo antes de seu
uso regular. Havia um único interruptor de botão para energizar
válvulas pirotécnicas que permitiam que o gás de alta pressão
pressurizasse os tanques de combustível UMDH. Com os
tanques pressurizados, cada anel redundante (A e B) podia ser
operado individualmente com interruptores elétricos. Uma vez
que acionamos os ignitores, usamos os dois anéis para recuperar
o controle. Então desligamos um deles a fim de poupar
combustível para a fase de entrada. As regras da missão diziam
que, uma vez acionados os ignitores, éramos obrigados a pousar
no primeiro lugar disponível.
“Desligamos os outros sistemas de controle, os da popa, e
estabilizamos a espaçonave apenas com o sistema frontal”,
conta Neil. “Não foi preciso usar uma enorme quantidade do
combustível reservado para a reentrada, mas usamos bastante.”
Com a espaçonave agora estabilizada graças ao disparo do
RCS, Armstrong energizou os propulsores, um por um. Quando
ligou o interruptor do propulsor número oito, a Gemini VIII
imediatamente recomeçou a girar. “Achamos o culpado”,
observou Armstrong, “mas já não tínhamos muito combustível no
sistema traseiro àquela altura.”
“A lei de Murphy diz que as coisas ruins acontecem nos piores
momentos”, disse Armstrong depois, com um sorriso. “Naquele
caso, estávamos em órbitas que não passavam sobre nenhuma
estação de rastreamento. Estávamos sem contato por rádio
quase o tempo todo, e nos curtos períodos em que tínhamos
contato, os navios tinham limitadas condições de comunicação
com o controle da missão ou de transmitir os dados para
Houston. Quando passamos por cima de uma ou duas estações
de rastreamento e conseguimos comunicar a natureza de nosso
problema para que o Controle da Missão soubesse o que estava
acontecendo, não havia nenhuma forma de nos ajudarem muito
naquele momento.” Finalmente, depois de conseguir interromper o giro rebelde da espaçonave, Armstrong aproveitou a primeira
oportunidade para explicar o que tinha acontecido, e Scott disse
a Houston que não viam o Agena desde o desacoplamento.
Neil lembrava-se de sua decisão de inicializar o sistema de
controle de reentrada: “Eu conhecia as regras da missão. Uma
vez que acionássemos o RCS e a integridade se quebrasse nos
dois anéis RCS, teríamos de pousar — e pousar na primeira
oportunidade. Tive de voltar a meus instintos fundamentais, que
eram ‘salve sua aeronave, salve a tripulação, volte para casa e
fique decepcionado por ter tido que abandonar algumas de suas
metas’”. Houston disse a eles para encerrarem o voo e pousarem
no Pacífico oeste. Um contratorpedeiro estava a cerca de seis
horas de distância, indo em direção à área de mergulho. Neil e
Dave sabiam que os resgates em mar aberto nem sempre eram
rápidos. Mesmo em terra e com comunicações modernas era
difícil encontrar uma coisa tão pequena quanto uma cápsula
espacial. Circulavam na NASA boatos segundo os quais os
russos levavam às vezes 48 horas para encontrar seus
astronautas depois que eles desciam de paraquedas em lugares
como o Cazaquistão ou a Sibéria.
Os dois astronautas tinham muito a fazer com os preparativos
para a reentrada de emergência e o mergulho: “Dave e eu vimos
que provavelmente teríamos várias horas pela frente. Do solo,
nos passaram a hora do local sobre o qual acionaríamos os
retrofoguetes, acima da África, no lado noturno da Terra, então
nos preparamos para essa atividade. Estávamos sobrevoando a
estação de rastreamento de Kano, na Nigéria, quando Houston
começou a fazer a contagem regressiva para a ignição dos
retrofoguetes. Perdemos a comunicação com o solo no meio da
contagem, então eles não ficaram sabendo se os retrofoguetes
tinham funcionado ou não. Mas os retrofoguetes encontravam-se
estáveis, e nossas leituras da mudança de velocidade — ou seja,
o quanto já tínhamos desacelerado — informavam que a
velocidade era adequada para o alvo a que queríamos chegar.
Nosso sistema de orientação parecia estar funcionando bem,
então viramos na direção a Okinawa.”
À medida que a Gemini VIII adentrava a luz do dia, “era como
se estivéssemos pousando a uma velocidade extraordinária”,
lembrou Neil. “Quase conseguíamos ver aquelas montanhas
enormes [Himalaia] surgindo à nossa frente.” O principal
paraquedas da espaçonave abriu na hora certa, orientando-os de
cabeça para cima, e como “havia um espelho que usávamos, um
espelhinho de voo de bolso e, olhando para ele, pude ver a
lateral e descobrir que estávamos, felizmente, sobre a água”.
“Sendo um veterano da Marinha, eu preferiria descer na água do
que na China Vermelha”, lembra Armstrong com um sorriso.
Enquanto eles desciam de paraquedas, Neil foi o primeiro a
ouvir o som de hélices de avião nas proximidades. “Presumimos
que eram aviões dos nossos.”
O mergulho acabou sendo, nas palavras de Neil, “não tão
ruim”. Um avião de resgate C-54 chegou rapidamente e lançou
homens-rãs da Marinha nas águas turbulentas para que
pudessem prender um enorme colar de flutuação em volta da
espaçonave. Não faltava mais nada a não ser aguardar o
contratorpedeiro Leonard Mason. A espera se tornou um
sofrimento enjoativo.
“A Gemini era um barco terrível”, explicou Neil, “uma boa
espaçonave, mas um barco ruim.” Para seu arrependimento, nem
Armstrong nem Scott tomaram seus comprimidos de meclizina,
usados para evitar o enjoo causado pelo movimento. “Ficamos
muito enjoados com o balanço do mar.” Felizmente, não tinham
muita coisa no estômago para pôr para fora.
Depois de mais de duas horas, os homens-rãs, também
enjoados por causa do fedor do escudo térmico queimado da
Gemini VIII, abriram as escotilhas da espaçonave e os
astronautas saíram. Neil aceitou com relutância os apertos de
mão do grupo. “Eu estava muito deprimido naquele momento.
Não tínhamos completado nenhuma das tarefas que queríamos
realizar. Perdemos a chance de Dave fazer todos aqueles
trabalhos maravilhosos de atividade extraveicular. Gastamos
muito dinheiro dos impostos dos cidadãos e não fizemos esse
dinheiro valer a pena. Eu estava triste, e sabia que Dave também estava.” Levou cerca de quatorze horas para que o navio os
levasse a Okinawa.
Após uma boa noite de sono em Okinawa, os astronautas
foram levados de avião para o Havaí. Voltaram para o Centro
Espacial Kennedy em 19 de março, três dias depois do
lançamento. Só em 25 de março Armstrong e Scott voltaram para
casa em Houston. No dia seguinte, a NASA concedeu a primeira
coletiva de imprensa com tripulação após o voo. Nem mesmo os
vários dias que passou conversando sobre questões técnicas
com seus colegas aliviaram a depressão de Neil.
A imprensa internacional deu muita atenção à provação
espacial inédita da Gemini VIII. Todas as redes de televisão nos
Estados Unidos interromperam sua programação noturna com
boletins urgentes de notícias (a interrupção de um episódio da
série muito popular Batman pela ABC foi recebida com mais de
mil telefonemas de reclamação dos espectadores). No jornal New
York Daily News da manhã seguinte, uma manchete dizia: “Um
pesadelo no espaço!” Até a sóbria revista Life, que tinha contrato
exclusivo para contar as histórias pessoais dos astronautas,
transformou o evento em um melodrama. A princípio, a revista
chamou sua cobertura de “Nossa corrida desenfreada pelo
espaço — Neil e Dave”, mas Armstrong deu um basta nisso. Ele
ligou para Hank Suydam, repórter da Life enviado para Houston,
que transmitiu a preocupação a seu chefe, Edward Thompson,
editor-chefe da Life:
ACABO DE RECEBER UM TELEFONEMA DE NEIL ARMSTRONG, QUE
ESTAVA MUITO ABORRECIDO COM A CHAMADA DA EDIÇÃO DESTA
SEMANA QUE DIZ “NOSSA CORRIDA DESENFREADA PELO ESPAÇO”. ELE
PEDE QUE AS MANCHETES UTILIZADAS NA MATÉRIA PROPRIAMENTE DITA
NÃO SE CONCENTREM APENAS NA EMERGÊNCIA E NÃO SEJAM
REDIGIDAS NO QUE ELE CONSIDERA UM LINGUAJAR FESTIVO DEMAIS. EU
DISSE A ELE QUE ENTENDEMOS SEU PONTO DE VISTA. NO ENTANTO,
EXPLIQUEI QUE TEMOS DE USAR TÍTULOS QUE PASSEM A ESSÊNCIA DAS
DIVERSAS FASES DA HISTÓRIA. DEI A ELE GARANTIAS DE QUE NÃO
REPETIRÍAMOS A CHAMADA EM QUESTÃO E QUE POSSIVELMENTE
UTILIZARÍAMOS, EM SUA MAIORIA, CITAÇÕES DE SEU PRÓPRIO
RELATÓRIO.
O editor da revista Life atendeu, mas apenas em parte. Baixou
o tom, tirou o crédito dos astronautas e mudou o título para “Alta
tensão com os astronautas”. A Life continuou a publicar artigos
sobre a Gemini VIII em suas duas edições seguintes. Na
segunda, uma nova versão do título que chateou Neil reapareceu
como “Passeio desenfreado no céu termina frenético”. Uma
terceira matéria, intitulada “Um caso de ‘alarme construtivo’”, era
creditada aos astronautas, mas suas declarações tinham sido tão
editadas que Armstrong reclamou de novo. Neil ficou
particularmente aborrecido com o corte de sua citação final:
“Acho que ambos explicaríamos isso de maneira quase idêntica,
então vou falar por nós dois. Estávamos decepcionados por não
termos concluído a missão, mas a parte que fizemos, e aquilo
que vivemos, não trocaríamos por nada.”
Pior que a excitação criada pela mídia foi a crítica que veio
dos colegas astronautas. Gene Cernan declarou: “Não demorou
muito para que alguns colegas do Departamento de Astronautas
começassem a criticar o desempenho de Neil. ‘Ele é um piloto
civil, sabe, e talvez tenha perdido um pouco a calma. Por que fez
isso, ou por que não fez aquilo? Ele não teria entrado em rotação
se tivesse ficado acoplado com o Agena.’ Falhar não era
aceitável em nossa fraternidade supercompetitiva, e, caso
alguém falhasse, o erro podia custar caro. Quem sabe se a
crítica não chegaria aos ouvidos de Deke e influenciaria a
seleção de futuras tripulações em favor das pessoas que
estavam reclamando? Ninguém tinha moleza quando a crítica era
ainda remotamente possível. Ninguém.”
“Todo mundo duvidava de todo mundo”, lembrou o astronauta
Alan Bean, reserva de John Young e Mike Collins na Gemini X
com o companheiro de tripulação Clifton C. Williams na época.
“Não esqueça que você está lidando com pessoas realmente
competitivas. Era quase imperioso encontrar algo de errado no
desempenho do outro cara. Isso fazia parte de como eram as
coisas.”
Buzz Aldrin, que na época se preparava para ser piloto
reserva da Gemini IX, dizia que só depois de tudo ter acontecido
seria possível criticar qualquer coisa que Neil tivesse feito durante aquela emergência. Por outro lado, Aldrin levantou a
seguinte hipótese: “Acho que pode ter havido uma pequena
chance de terem evitado a ativação de um anel do sistema de
reentrada.”
“Eu não ouvi crítica alguma”, afirmou Frank Borman, que,
juntamente com Wally Schirra, acompanhou a tripulação da
Gemini VIII de volta ao Havaí depois de recebê-la em Okinawa
após o resgate. “Eu não teria participado daquela bosta se
tivesse alguma crítica. Acho que Neil e Dave fizeram um bom
trabalho. Acho que ninguém entendeu como eles chegaram perto
do desastre total. Pensando bem, aquilo foi provavelmente tão
perigoso quanto a Apollo 13. Não levou tanto tempo, mas se o
combustível de controle de reação tivesse acabado na tentativa
de interromper o giro, eles teriam morrido.” Schirra tinha a
mesma percepção a respeito do assunto: “Todas as decisões que
Neil e Dave tomaram foram corretas.”
Gene Kranz tinha acabado de substituir John Hodge como
diretor de voo durante uma mudança de turno no controle da
missão quando chegou pelo rádio o relatório urgente de Scott.
Em retrospecto, segundo Kranz, “teria sido difícil para o
controlador, em uma situação tão dinâmica, identificar que o
problema estava no primeiro anel. Mas talvez ele tivesse
conseguido”. Em vez de culpar a tripulação por qualquer falha,
Kranz colocou a culpa em si mesmo e nos demais diretores e
planejadores de voo de Houston: “Fiquei impressionado para
caramba com Neil, assim como praticamente todo mundo que
teve alguma coisa a ver com o programa.” No balanço que fez
para seus controladores de voo após a missão da Gemini VIII,
Kranz afirmou: “A tripulação reagiu da maneira para a qual foi
treinada, e reagiu errado porque nós os treinamos da maneira
errada. Não conseguimos perceber que, quando duas
espaçonaves estão acopladas, devem ser consideradas uma só
espaçonave, um sistema de energia integrado, um sistema de
controle integrado e uma única estrutura. Nós tivemos sorte,
sorte para caramba, e nunca devemos esquecer a lição dessa
missão.” Em retrospecto, o tratamento de espaçonaves
acopladas como um único sistema foi, na opinião de Kranz, uma das lições mais importantes aprendidas em todo o Programa
Gemini. “Ela teve um efeito profundo em nosso futuro sucesso
como controladores de voo.” Foi uma lição que se mostrou de
valor incalculável quando a segunda emergência potencialmente
fatal ocorreu em 1970, com a Apollo 13.
Em total acordo com Kranz em relação à responsabilidade
pelo ocorrido, Chris Kraft declarou: “Confundimos os astronautas
nessa situação. Acho que Neil e Dave fizeram absolutamente
tudo o que eu teria dito a eles que fizessem. Criticá-los por terem
feito isso? Acho que talvez alguns astronautas tenham dito ‘eu
sou melhor do que eles’. Mas só estão se enganando.”
Ninguém foi um crítico mais rigoroso e honesto de seu
desempenho do que o próprio Armstrong: “Sempre senti que, se
tivesse sido um pouco mais esperto, teria sido capaz de fazer o
diagnóstico correto e encontrado uma solução mais rápida. Mas
não consegui. Fiz o que achei que deveria fazer e reconheço as
consequências. A gente faz o melhor que pode.” Depois de voltar
a Houston, ele descobriu que, um dia ou dois antes do
lançamento, tinha havido um problema com o sistema de controle
ambiental da espaçonave. Por conta disso, os técnicos
removeram o sistema para substituir uma ou duas peças.
Curiosamente, a fiação do sistema de controle danificado fazia
parte do mesmo cabo que operava o que acabou sendo o
foguete defeituoso. “Então acho”, disse Neil, “que em algum
momento do processo os técnicos podem ter feito alguma coisa
que causou um pequeno corte no cabo, o que permitiu o curto-
circuito. Pelo que sei, eles nunca conseguiram isolar o problema.
É claro que a popa da espaçonave — o adaptador — não voltou
para a Terra conosco. Então, se realmente tivesse havido algo na
parte traseira da Gemini VIII, nunca teríamos a chance de saber.”
Com muito mais ênfase que Neil, Dave Scott defendeu a
sabedoria daquilo que ele e seu comandante fizeram no espaço:
“Nunca houve nenhuma dúvida em minha mente de que fizemos
tudo certo. Senão, nem sequer teríamos sobrevivido.” Se a
Gemini VIII tivesse terminado em tragédia, como Neil especulou
mais tarde, “é possível que o acontecido permanecesse para
sempre como um mistério”. Scott concorda: “Eles não teriam sabido o que aconteceu porque não teriam recebido nenhuma
transmissão da espaçonave. Não teriam sabido que era a Gemini
porque nunca teriam recebido informação alguma, já que ela
estava girando rápido demais.” Uma tragédia tão misteriosa “teria
causado um grande problema para o programa. Levaria muito
tempo até que conseguíssemos entender o que aconteceu, se
isso acontecesse um dia”. Sem explicações, teria sido difícil dar
continuidade ao Programa Apollo. Então, se o incêndio da Apollo
também tivesse ocorrido, apenas dez meses depois, matando
mais três astronautas, o apoio nacional ao programa espacial
tripulado teria desaparecido, juntamente com a perspectiva de
um pouso na Lua. Como disse Dave Scott: “Se não tivéssemos
nos recuperado do giro, teria sido o fim.”
Com o desfecho favorável da situação, as repercussões
políticas mais amplas do voo da Gemini VIII foram pequenas. “No
voo, os dois homens agiram basicamente da maneira que
esperávamos”, explicou Mike Collins. “Sem dúvida, não havia
nada que tivesse afetado, após o acidente, as tarefas da
tripulação. Absolutamente nada. E haveria se eles tivessem feito
uma besteira muito grande.” O astronauta Bill Anders, cuja
primeira missão foi o voo histórico da Apollo 8 que circundou a
Lua em dezembro de 1968, concordou: “Neil não só pensou
rápido como certamente não teve medo de fazer coisas que
podiam ter se voltado contra ele.” De acordo com Chris Kraft, a
maneira como o comandante se comportou durante a
emergência deu à NASA “ainda mais confiança nas habilidades
de Neil”.
Duas semanas após o voo, a Equipe de Avaliação de Missão
da Gemini VIII “descartou com toda a certeza” algum erro do
piloto como o fator causador da emergência. Ao revelar o
veredito da equipe, Bob Gilruth comentou: “Na verdade, a
tripulação demonstrou habilidades de pilotagem notáveis ao
superar esse problema tão sério e conseguir pousar a
espaçonave em segurança.” Não havia dúvida de que Armstrong
seria designado para outra tarefa como comandante de missão.
A NASA ofereceu aos dois astronautas a Medalha de Serviço
Distinto. Dave Scott recebeu da Força Aérea a Cruz de Voo Distinto e foi promovido a tenente-coronel. Neil teve um aumento
de 678 dólares em seus vencimentos, elevando seu salário a
21.653 dólares, o que, graças aos seus doze anos no sistema de
serviço civil, fez dele o mais bem pago dos astronautas. Em 21
de março de 1966, apenas dois dias depois de retornar do voo na
Gemini VIII, Armstrong foi escolhido pela NASA como
comandante reserva, em dupla com William Anders, o piloto
reserva, para o voo de aproximação e acoplamento da Gemini XI,
que seria realizado por Pete Conrad e Dick Gordon seis meses
depois.
Seria sua última tarefa em equipe antes da Apollo.