O Túmulo Sob as Colinas
Capítulo 8
— Porcaria de ovo com tomate. — Lewis olhou furioso para seu sanduíche, depois deu uma olhada para Steven. — O que você trouxe?
Steven descansou o corpo na pá e enxugou o suor do rosto com o braço nu. Ele hesitou, como se fosse dizer uma mentira, mas finalmente viu que isso daria muito trabalho.
— Manteiga de amendoim.
— Manteiga de amendoim! — Lewis se levantou. — Quer trocar?
— Não, não quero.
Lewis sabia que o amigo não queria trocar. Tomate deixava Steven enjoado. Ele sabia disso, e sabia que Steven sabia que ele sabia, mas o pensamento de comer manteiga de amendoim em vez de ovo com tomate o tornava egoísta.
— Ah, droga, você pode pegar do meu. Metade por metade. Não posso fazer coisa mais justa do que essa.
Ele já estava remexendo na mochila Spar de Steven. A loja do Sr. Jacoby costumava ser dele. Agora, com a franquia, era uma loja Spar, e o Sr. Jacoby tinha que usar uma camisa verde de Aertex, com um logotipo com a cabeça de uma flecha no seu grande tórax.
Steven olhou, impotente, para as costas de Lewis.
— Não pegue a metade melhor.
Por dentro, suspirou. Ter Lewis com ele era uma bênção que inspirava sentimentos contraditórios.
Quando estava sozinho, Steven cavava sem parar, comia seus sanduíches, bebia água e cavava ainda mais. Num bom sábado era capaz de cavar cinco buracos. Cada um tinha o comprimento, profundidade e largura de um garoto de 11 anos, embora Steven não fosse imbecil a ponto de achar que isso lhe dava qualquer vantagem. Compreendia que teria a mesma probabilidade de sucesso se cavasse uma série de buracos de 60cm de largura e 120cm de profundidade no formato de elefantes. Mas estava procurando um corpo de um determinado tamanho e forma, e os buracos que cavava eram um constante lembrete disso. Era uma busca exaustiva e em geral solitária, mas uma busca que, estranhamente, lhe trazia satisfação.
Porém, quando Lewis fazia suas ocasionais incursões à charneca, tudo mudava. Certamente ele lhe fazia companhia e havia menos chance de Steven ter de correr para casa perseguido pelos encapuzados, mas havia aspectos negativos.
Para começar, Lewis sempre chegava com as palavras “Quer ajuda?”, mas nunca ajudava, de verdade. Nunca trazia uma pá ou se oferecia para substituir Steven nas escavações.
Mais ainda, a própria presença de Lewis, longe de ajudar no trabalho de Steven, na verdade o retardava. Lewis falava e fazia perguntas que o outro se sentia na obrigação de responder. Apontava para coisas que ele, com a cabeça inclinada sobre a vegetação, nunca teria visto, muito menos teria dado importância. Além disso, Lewis ainda queria discuti-las.
— Merda! Olhe para aquilo!
— O quê?
— Aquilo ali!
E Steven tinha de levantar o olhar e descansar o corpo na pá.
— O que é?
— Não sei. Acho que é uma águia.
— Mais provável que seja um urubu. Há milhões deles por aqui.
— O que você acha que sou? Algum retardado? Eu conheço um urubu, e aquilo não é um urubu.
Steven dava de ombros e voltava para o buraco que cavava. Lewis sentava-se, olhava em torno ou pegava o mapa oficial da região da charneca, com suas cruzes azuis feitas com caneta esferográfica, indicando onde Steven já cavara, espalhadas como uma constelação.
— Esse lugar é ruim para cavar.
— É tão bom quanto qualquer outro.
— Não, não é. — Longo silêncio. — Sabe por quê?
— Por quê?
— Você não pensa como um assassino.
— Ah, é? — Steven estava lutando contra um nó de vegetação, resmungando e torcendo.
— É. Sabe, o que você precisa fazer é pensar: se eu assassinasse mais de uma pessoa, onde enterraria os corpos?
— Mas ele enterrou os cadáveres entre este lugar e Dunkery Beacon.
Lewis ficou em silêncio, mas só por um momento.
— Talvez seja aí que todo mundo esteja enganado. Veja, se eu matasse seis pessoas e escondesse os corpos aqui, talvez depois disso começaria em outro lugar. Mais adiante. Ou lá nas Blacklands. Isso reduziria as chances de alguém encontrar os corpos, entende?
Longo silêncio.
— Steven! Está ouvindo?
— Estou sim.
— Da próxima vez que eu vier ajudar, vou cavar nas Blacklands.
A outra coisa que Lewis fazia era comer os seus sanduíches. Steven tentara mentir sobre o conteúdo do próprio sanduíche, mas Lewis sempre checava e depois comia os sanduíches, de qualquer maneira. E então Steven tinha que comer os sanduíches do amigo imediatamente, quer estivesse com fome ou não, pois, senão, Lewis comeria os dele também e Steven ficaria sem nada.
E Lewis ficava entediado. Era raro o dia em que ele não começava a exigir que voltassem para casa por volta das quatro horas, quando ainda havia umas boas três horas de escavação pela frente.
Steven não se lembrava de ter escavado mais do que três buracos quando Lewis estava com ele. Mesmo assim, quando o amigo dizia que iria aparecer para ajudar, Steven o encorajava. Tê-lo ali fazia com que ele se sentisse menos estranho, como se escavar metade da charneca de Exmoor atrás de um cadáver fosse coisa bem normal, desde que você tivesse companhia.
Então, jogou a pá no chão e abriu a bolsa.
— Você tirou a metade boa!
— Não tirei!
— Tirou! Você tirou a metade com a crosta.
Um ar de inocência espantada passou pelo rosto de Lewis, largo e sardento.
— Você chama aquilo de metade boa? Desculpe, cara.
Steven suspirou. De que adiantava discutir? Ele e Lewis já haviam discutido sobre a metade boa de um sanduíche em pelo menos seis ocasiões. Os dois sabiam muito bem qual era a melhor parte dos lanches, mas diante de uma negativa tão enfática, o que poderia fazer? Será que valia a pena perder um amigo pela metade boa de um sanduíche de manteiga de amendoim?
É claro, Steven sabia que a resposta era “não”, mas sentia vagamente que, em algum ponto no futuro, chegaria o momento em que todas as metades ruins dos sanduíches que tivera de engolir explodiriam e afastariam Lewis numa irreprimível maré de ressentimento.
Ele comeu o próprio lanche sem demorar, depois retirou o tomate da metade do sanduíche de ovo que Lewis deixara para ele — a metade ruim mais uma vez —, e comeu aquela também.
Steven não contara a Lewis sobre a carta. Estava constrangido pelo que fizera, como que se houvesse escrito uma carta para Steven Gerrard, o jogador do Liverpool, pedindo um autógrafo.
É claro, se conseguisse o autógrafo de Steven Gerrard, todos os garotos na escola iam querer ver e tocar (exceto o tio Billy, o torcedor frustrado do Manchester City, pensou Steven, passageiramente). Mas até que tal autógrafo fosse obtido, o pedido e seu autor receberiam uma chuva de escárnio, e até mesmo violência física quase todos os dias.
Não, apenas se e quando afinal surgisse o corpo de William Peters, alguém saberia sobre a carta.
Então Steven admitiria o que fizera, com a certeza de que a mãe e a avó concordariam e agradeceriam pelo fato de que os fins justificam os meios.
* * *
A emoção inicial de Steven ao receber a carta de Arnold Avery foi suplantada pelo desapontamento quando a leu. A princípio.
Entretanto, depois de alguns dias, as duas frases escritas numa nítida caligrafia começaram a assumir um significado mais profundo na mente dele. O próprio fato de — à parte os números da prisão e da cela de Avery, escritos no alto da página — serem apenas duas frases fazia com que fosse necessário se debruçar sobre elas e analisá-las de um modo que uma verborragia vazia de seis páginas nunca teria feito.
Não sei do que você está falando.
Depois de uns poucos dias, Steven decidiu que isso simplesmente não era verdade. Não podia ser verdade!
Ao contrário do que Lewis afirmara, Steven empreendera o máximo de esforço para pensar como um assassino quando escrevera a carta, e ele conhecia mais como assassinos pensam do que a maioria dos garotos de 12 anos.
Depois do incidente do quarto de dormir, quando urinara na calça (coisa sobre a qual, misericordiosamente, nem ele nem Lewis jamais voltaram a falar), a mãe lhe contou o que acontecera com o tio Billy.
No início, Steven ficara emudecido de horror, mas, com o entusiasmo encorajador de Lewis, ele, aos poucos, foi ficando fascinado. Sua mãe revelara o nome do assassino, Arnold Avery, mas não dissera muito mais sobre ele. Em vez disso, durante mais ou menos todo o ano seguinte, Steven lera sobre assassinos compulsivos. Achou que era melhor fazer isso às escondidas, ocultando livros da biblioteca na sua mochila e lendo-os debaixo dos lençóis, à luz de uma lanterna.
Em muitos momentos nervosos, ouvindo passos rangendo no assoalho, fora do casulo protetor do edredom, aprendeu mais de assassinatos do que qualquer outro garoto de sua idade jamais faria.
Aprendeu acerca de assassinos organizados e assassinos desorganizados, de caçadores de emoções e caçadores de troféus; sobre aqueles que espreitavam a presa e sobre outros que atacavam quando o impulso tomava conta. Leu a respeito de cachorrinhos esmagados e gatos esfolados; sobre importunadores e importunados; sobre voyeurs e incendiários; sobre retalhamento frenético e dissecação clínica.
O frenesi de leitura de Steven teve dois efeitos principais. Para começar, em um único ano, seu nível escolar de capacidade de leitura pulou de 7 para 12 anos. Além disso, ele aprendeu que, apesar da aparentemente natureza louca de seus feitos, os assassinos compulsivos como Arnold Avery eram, na realidade, metódicos. Isso lhe revelou que, se Avery seguisse o padrão, ele se lembraria com detalhes daqueles que matara.
Para começar, cada uma de suas vítimas fora escolhida deliberadamente, e, se Avery não sabia seus nomes quando as assassinou, com certeza deu-se ao trabalho de descobrir isso depois.
Em seus 15 minutos de internet grátis na biblioteca da escola Steven se dedicava à sua busca. Descobrira que havia apenas umas poucas notícias arquivadas sobre o julgamento de Avery, mas, a partir daí, ele verificou que o assassino tirara o nome de Yasmin Gregory do Brackwell & District News. Yasmin presenteara à princesa Ana um buquê de feios lírios laranja. Havia uma fotografia dela fazendo a reverência. O recorte do jornal fora encontrado na casa que Avery compartilhava com a mãe viúva, junto a reportagens sobre o apelo da família para que ela retornasse em segurança. Os papéis foram encontrados pela polícia numa caixa de sapatos, onde era guardada também a calcinha amarela, com a palavra “terça-feira” escrita com glitter na frente. A calcinha fora lavada; segundo a notícia, Avery tinha “nojo de fluidos corporais”.
O jornal também dizia que Yasmin fora mantida viva pelo menos por dois dias. Steven procurou de novo e encontrou uma foto da menina num vestido estampado de florzinhas azuis: uma criança loura, com uma falha nos dentes da frente e o olho preguiçoso. A fotografia havia sido recortada para mostrar a garota sozinha, mas Steven pôde ver que ela estava abraçando um cachorro quando foi fotografada.
Ele estremeceu, embora a pequena biblioteca da escola estivesse opressivamente quente.
Yasmin Gregory, que abraçara um grande cão amarelado. Yasmin Gregory, que provavelmente pensara que ser importunada na escola por causa do problema nos olhos era uma coisa muito ruim. Yasmin Gregory, que saíra de casa com sua calcinha de terça-feira, mas que só fora assassinada na quinta-feira.
Steven desligou rapidamente o computador.
Quanto tempo Avery mantivera o tio Billy vivo?
A bibliotecária surgiu atrás dele.
— Você tem de fechar os programas antes de desligar. Se não consegue mexer no computador do modo adequado, não terá permissão para usar o equipamento de novo.
— Desculpe — disse Steven.
Ele foi para casa devagar, a mente como um redemoinho.
Rompendo cada norma social, evitando sua captura com facilidade sobrenatural e caindo sobre as presas pequenas, vulneráveis e ingênuas, Avery descera como um anjo da morte e eliminara um membro de sua família. Depois, ele não ficara sequer observando ela explodir.
A mente de Steven só podia suportar pequenas nesgas dos crimes de Avery. Ele conseguia pensar nas palavras, mas logo depois disso o conceito do que Avery fizera continuava a lhe escapulir, cruel e ilógico demais para permanecer na sua cabeça por muito tempo. O assassino jogava por regras diferentes, regras que poucos seres humanos sequer sabiam da existência. Regras que pareciam ter emanado de um outro mundo, inteiramente diverso.
Certa vez, de repente, Steven percebeu o mundo em que Avery habitava, e isso o fez morrer de medo.
Um dia, na aula de geografia, a professora mostrara aos alunos uma fotografia da Via Láctea. Quando apontou para o sistema solar dentro da galáxia, Steven sentiu o corpo ser sacudido. Como era pequeno! Minúsculo! Como era incrivelmente insignificante nosso sistema solar! Em algum lugar dentro daquela manchinha de luz havia um ponto representando um planeta, onde eles eram meros micróbios na sua superfície.
Não era de admirar que Arnold Avery fizesse o que fez! Por que não deveria fazer? Que importância tinha aquilo no grande plano das coisas? Será que ele, Steven Lamb, não era um tolo por se importar com o que acontecera a um único micróbio daqueles dentro de um ponto no interior de uma manchinha de luz? Por que as pessoas se preocupavam tanto naquele mundo microbiano? Era Avery que via o grande esquema das coisas; Avery que sabia que o verdadeiro valor da vida humana era precisamente nada. Tirar uma vida era o mesmo que não tirar; a consciência era apenas um obstáculo autoimposto ao prazer; o sofrimento era tão transitório que um milhão de crianças podiam ser torturadas e mortas na menor das piscadelas do olho cósmico.
Aquela sensação passou e Steven sentiu as alfinetadas nas bochechas e ouvidos com o horror que ela trazia. Era como se algo completamente alienígena houvesse por um momento invadido sua mente e tentasse puxá-lo para fora da realidade e colocá-lo à deriva num mar de vazio negro. Ele levantou o olhar e viu que a professora e o restante da turma o olhavam num misto de interesse e desdém. Ele nunca soube o que perdera ou o que fizera para atrair os olhares dos colegas, mas também nunca se importou com isso; estava apenas aliviado por estar de volta.
Mais tarde, lembrar-se desse incidente fez com que Steven percebesse por que estava mantendo a carta em segredo. Aquilo era muito, muito pior do que escrever para um astro do futebol ou da música pop. O que ele estava fazendo era escrever para o bicho-papão, para o Papai Noel, para ET, o Extraterrestre, para alguém que nem mesmo existia neste plano da realidade.
Steven estava escrevendo para o demônio e pedindo misericórdia.
Assim, com suas leituras e pesquisas, além da epifania na aula de geografia, no momento em que escreveu a carta, Steven sentiu que conhecia muito bem Arnold Avery.
Era por isso que ele estava convencido de que Avery sabia com certeza do que ele, Steven, falava. E, se Avery mentira a respeito disso, então será que o “Tenha um bom dia” não era igualmente suspeito? Ao pensar no assunto, Steven ficou convencido de que estava certo sobre isso, também, e começou a pensar no que Avery de fato queria dizer com aquela frase.
Com certeza, as quatro palavras não continham qualquer rejeição direta ao pedido? Ele não estudara semântica nem ouvira essa palavra, mas a carta de Arnold Avery era uma boa introdução ao assunto, e a Sra. O’Leary ficaria impressionada com suas deduções.
Steven morava em Somerset, mas não era um caipira. Possuía um aparelho de DVD em casa e já vira muitos filmes hollywoodianos barulhentos e repletos de tiroteios de gângsteres. Baseado na sua experiência dessa gente estranha em uma terra estranha, ele calculou que uma rejeição direta teria mais ou menos a seguinte forma: “Não escreva para mim de novo, seu merda.” Ou: “Vão se foder, você e sua mãe.” Ele também não sabia o que era ironia, mas sentia algo brotando da página na sua direção. Sabia que aquelas quatro palavras não significavam o que pareciam. Por volta do terceiro dia, “Tenha um bom dia” se transformara, na sua mente, num código para “Você é um garoto corajoso”. No quinto dia, a frase parecia estar dizendo: “Eu admiro a sua tentativa de conseguir essa informação.”
Pelo sétimo dia, ele estava bem convencido de que a frase significava: “Tenha mais sorte da próxima vez...”