O Túmulo Sob as Colinas
Capítulo 15
SL estava ficando impaciente. Arnold Avery sorriu preguiçosamente e levantou a carta mais uma vez à altura do rosto, deitado no catre cheio de calombos que o acordava dez vezes todas as noites com suas molas afiadas e instáveis.
A carta era de uma simplicidade zen.
SL queria saber o que ele queria saber. Aquilo divertiu Avery. E também lhe trouxe uma informação. SL se achava muito inteligente mantendo sua identidade oculta, mas acabara deixando, desastrosamente, Avery conhecer o tipo de pessoa que ele era, ou pelo menos fazer boas conjecturas a respeito.
Para começar, pensou Avery, SL jamais estivera preso. Se tivesse sido, ele compreenderia que na prisão quase tudo acontece muito, muito devagar. Os dias passam vagarosamente, as noites ainda mais. O tempo entre o café da manhã e o almoço é um século; entre o almoço e o jantar, dez séculos; entre o apagar das luzes e o sono, uma eternidade. Desse modo, as seis ou sete semanas depois da primeira carta, um tempo que obviamente significava tanto para SL, não significava nada para Avery. Para ele, quanto mais se estendesse aquela correspondência mnemônica, melhor.
Ele ficara surpreso e um pouco desapontado pela fraqueza de seu correspondente. Ele pensara em SL como um intelectual do mesmo padrão que ele, Avery, mas agora percebia que era menos que isso, muito menos. Mostrar sua impaciência assim de modo tão descuidado era a marca de alguém que não ponderava apropriadamente as coisas.
Avery sentiu uma pontada ao se lembrar do dia em que ele esperara Mason Dingle voltar com as chaves do carro. Se pelo menos tivesse sido paciente. Se pelo menos a segunda criança não tivesse entrado no parquinho e subido num balanço perto dele. Se pelo menos ele tivesse conseguido se controlar.
De todos os pensamentos a respeito de sua carreira, Mason Dingle era o que o perseguia como uma catapora. Chegava sem ser convidada ou desejada uma, duas vezes por semana, e o fazia sentir-se idiota e fraco.
Agora ele era um homem diferente. Preso na sua tumba ressonante de pedra e ferro, compreendia o significado da paciência. A conversação educada que mantinha com o guarda Finlay só podia ser conseguida por meio de máxima paciência. Ficar parado na fila esperando a comida por quase uma hora, apenas para ver um macaco com um sorriso zombeteiro dizer que tudo que sobrara da lasanha fora uns pedaços queimados no fundo da panela, era algo que requeria paciência e controle.
Mas era tarde demais. A adaga que se torcia nas suas entranhas era que agora, finalmente, quando ele já dominara a paciência e o controle, ele não tinha nada sobre o que pudesse exercer esse domínio.
Era por isso que essa carta petulante, exigente, lhe deu mais prazer do que qualquer outra coisa desde a primeira e cuidadosa missiva de SL. Ela mostrava uma fissura na armadura dele. Uma revelação canhestra de desejo que deu a Avery algo que ele não sentia havia muito tempo. Aquilo lhe deu poder.