O Túmulo Sob as Colinas
Capítulo 32
O soldado Gary Lumsden, de 16 anos, não gostava do exército, mas, como seu pai antes dele, gostava de armas.
A diferença, pensou Lumsden, era que seu pai nunca possuíra uma arma tão letal quanto o fuzil SA80A2, com seu carregador de trinta projéteis, um alcance de precisão de 365 metros e uma velocidade inicial de quase 1 quilômetro por segundo.
Não que seu pai tivesse se importado muito com qualquer desses detalhes técnicos, é claro, pensou Lumsden: Mason Dingle só iria querer saber se a arma era barata e se podia ser rastreada.
Mas Gary adorava os detalhes técnicos. Certamente desejava que o SA80A2 tivesse um nome mais glamoroso, como Colt.45 ou Uzi. Mas foram os detalhes técnicos que fizeram sua boca salivar durante as 13 semanas de duro treinamento básico, os punhos cerrados ao lado do corpo quando o segundo-tenente Brigstock, no alto de sua arrogância, recém-saído da Academia Militar de Sandhurst, o repreendia como um odioso irmão mais velho.
Pensar no SA80 virou uma obsessão. No treinamento de ordem unida seus olhos se desviavam furtivamente para espiar outros recrutas carregando suas armas, e ele mais sentia do que ouvia os cliques surdos de metal sobre metal, o deslizamento agudo de armamento bem cuidado. Pendurado pelos braços doloridos sobre um fosso de lama na pista de treinamento de assalto, seus ouvidos ficavam conectados aos estalidos rápidos dos tiros disparados no estande próximo. À noite, enquanto o homem no beliche inferior ao seu fazia com que os dois balançassem ao ritmo de um sexo imaginário, a pele de Gary Lumsden se arrepiava, em vez disso, com o pensamento de segurar seu SA80 na mão esquerda enquanto o dedo indicador direito se contraía num gatilho fantasma.
E agora ele finalmente tinha a culminação de todos aqueles detalhes técnicos na arma fria e pesada em suas mãos. O soldado Gary Lumsden precisou se conter para não levantar, girar nos calcanhares e fazer jorrar sobre seus companheiros de pelotão balas de grande calibre à velocidade de 700 tiros por minuto, apenas para ver como a arma se comportaria. Ansiava senti-la esquentar em suas mãos, cuspir fogo de seus dedos, ecoar nos seus ouvidos, cometer um assassinato à distância.
Em vez disso, o soldado Lumsden respirava pela boca à medida que o momento da verdade chegava.
O SA80 se adaptava a ele como um novo membro. Eles haviam sido separados no nascimento e agora a arma fazia parte dele outra vez. Ele a limpara e montara novamente, então a limpara de novo. Conseguia fazer aquilo de olhos vendados. Trate sua arma bem e ela o tratará bem. Por esse raciocínio, a arma do soldado Lumsden deveria descer com ele toda manhã e preparar-lhe bacon e ovos.
Mas agora, finalmente, era a vez da arma provar seu valor.
Controlando sua empolgação, ele fez mira sobre um alvo de papelão que nem mesmo tinha uma forma humana; eram apenas cinco pequenos círculos com uma mosca no centro, numa página. Um alvo de merda.
Ainda assim, ele mirou, relaxou, expirou com suavidade e puxou o gatilho amorosamente. O recuo daquele único tiro atingiu seu ombro, e o papelão se agitou ligeiramente, permitindo que ele visse que atingira o alvo.
— Muito bem, Lumsden!
Ele nem ouviu o tenente falar. O tiro abrira um manancial de prazer tão grande que o fez encolher-se. Precisou morder o lábio para não gemer. Nunca, em um milhão de anos, ele imaginava que sua arma seria tão boa para ele.
Num momento, ele pensou no pai.
O pai de Lumsden compartilhava seu DNA, mas não seu nome. Graças a Deus. A vida já fora bastante dura para os irmãos Lumsden sem o estorvo de carregar um nome como Dingle. Não era de admirar que o velho tivesse pavio curto.
Esse pavio curto se traduzia em rápidos socos contra o jovem Gary e seu irmão Mark. Os garotos não se queixavam; nunca haviam conhecido uma realidade diferente. Exatamente da mesma maneira, eles nunca tiveram roupas que não fossem furtadas de lojas, comida na mesa adquirida legalmente, brinquedos que não fossem comprados com dinheiro para o almoço roubado.
Nem mesmo a mãe deles pertencia realmente ao pai: ela era uma das seis mulheres na província de Lapwing que haviam dado à luz a seus filhos, o primeiro deles vindo ao mundo pouco antes de Mason Dingle ter completado 15 anos. Gary e Mark tinham uma meia-irmã com quem não possuíam afinidade alguma, e só conheciam seus meios-irmãos pelo temperamento explosivo e pelos angelicais olhos azuis que todos compartilhavam.
Os oito garotos, com idades entre 6 e 17 anos, rondavam pela região, desconfiados uns dos outros, conscientes da fraca ligação da qual todos se ressentiam. Havia longos períodos de calma instável, pontilhada de fortes, mas de menor importância, erupções de pequena violência. O pai deles transitava entre as famílias, ficando apenas até o ponto em que as coisas paravam de seguir conforme ele queria, e então ele ia em frente, para começar tudo de novo. Não tinha favoritos, mal parecendo reconhecer os garotos, e sua contribuição se limitava a atrair visitas por parte da polícia tarde da noite ou logo pela manhã.
Gary Lumsden foi preso pela primeira vez aos 9 anos, por ter furtado um tubo de pasta de dentes da loja da esquina. Sua mãe o enviara para buscar a pasta, mas não dera qualquer dinheiro, e Gary não esperava que ela fizesse isso. O lojista o segurara com tanto força pela camisa até a chegada da polícia que Gary ficara com marcas vermelhas nas axilas durante dias.
Ele sabia que furtar coisas era errado, mas somente de um modo abstrato. Na escola isso era errado, mas em casa era o único modo que conhecia. O pensamento de ir trabalhar em outro lugar, ganhando dinheiro para comprar as coisas, era algo estranho para ele. Gary não conhecia qualquer experiência de alguém em sua família fazendo tal coisa e pensava ser algo idiota tentar isso. A pasta de dentes estava na loja e tudo que ele tinha de fazer era transferi-la para o banheiro da mãe com o mínimo de estardalhaço.
A polícia chegou e levou-o para casa, em vez da delegacia. O policial conduziu-o da viatura para a porta da frente, segurando-o com tanta força que revelou a Gary que ele gostaria de fazer muito mais do que aquele exercício sem finalidade. Alguma coisa dentro do jovem garoto compreendera que aquilo não era apenas em relação a ele; que o tratamento brutal do policial que o conduzia fora desencadeado por experiências anteriores, das quais Gary não tinha conhecimento. Mas no momento era ele que estava em foco.
Sua mãe fora incapaz de vencer a embriaguez para se mostrar minimamente interessada no policial a sua porta, e depois, além de sua reclamação por ele não ter arranjado a pasta de dentes, o assunto morreu. Considerando que desde os 4 anos Gary vinha diminuindo o já reduzido estoque da loja da esquina, seu primeiro encontro com a polícia parecia um preço ridiculamente pequeno a pagar.
Ocasionalmente Mason Dingle “sumia”, mas sempre voltava e nunca parecia envergonhado, emendado ou mudado com a experiência, e Gary e Mark não tinham dúvida de que um dia seguiriam o ofício do pai.
Até que viram Irmãos de Guerra num DVD pirateado. Então, tudo mudou.
Subitamente eles se transformaram em garotos bons, firmes, corajosos, nobres, mesmo que fosse apenas em suas mentes. Deixaram de ser famosos jogadores de futebol e gângsteres e começaram a ser soldados.
Nem tudo correu bem. A princípio, ser soldado significava trocar os pequenos roubos e furtos nas lojas por ataques barulhentos diretos, usando ameaças, táticas diversionistas e confusão para encobrir suas atividades. Aprenderam que isso se chamava estratégia militar.
Houve um intervalo no novo jogo deles quando encontraram uma pistola preta e opaca numa caixa em um alpendre. A arma tinha a inscrição FEITA NA CHECOSLOVÁQUIA em um dos lados, com as letras CZ dentro de um círculo em cada uma das extremidades da inscrição. Estava suja e arranhada, mas era a coisa mais linda que cada um deles jamais encontrara. Durante seis horas estonteantes, Mark e Gary Lumsden tomaram um ao outro como refém, deixaram anéis na pele das têmporas comprimindo o cano da arma contra ela, mal contendo a empolgação que a violência despertava.
Então, o pai os surpreendeu brincando com a arma e deu-lhes uma surra que os deixou cheios de marcas pretas e azuis.
Mark não tinha uma ambição sequer, e a surra eliminou qualquer ousadia que ele possuía com respeito à CZ, mas, aos poucos, com a memória recente da pesada pistola em suas pequenas mãos, Gary começou a aspirar ter uma arma.
Uma arma grande.
Uma arma que ele pudesse dizer que era dele. Uma arma que ele nem mesmo tivesse de furtar. Uma arma com a qual pudesse, se possível, atirar em pessoas reais com o mínimo de repreensão.
O Exército britânico o chamava com clamor e ele estava longe de ser surdo.
Pegou panfletos, fez ligações telefônicas gratuitas, soube que uma ficha policial não deixaria que ele fosse recrutado, e limpou sua barra.
Durante sete anos, Gary Lumsden falara e sonhara com pouca coisa que não dissesse respeito a conseguir uma arma. Entrou para a escola preparatória do Exército e era o único garoto que comparecia toda semana, chovesse ou fizesse sol. Um intelecto que não fora exercitado em aulas de inglês ou história começou subitamente a ser ampliado por sinais, regulamentos, ordem-unida, botinas engraxadas e uniformes bem passados. Odiava tudo aquilo, mas cada brilho nos botões, cada meia-volta na marcha, cada insulto lançado por outros garotos invejosos de olhos azuis do seu bairro, cada detalhe o levava alguns segundos mais perto de sua arma.
E tudo que ele sofrera, a dor, o trabalho duro, a humilhação, o medo, a pobreza, tudo teria valido a pena no segundo em que puxasse o gatilho e sentisse a adrenalina de ter a morte em suas mãos.
Embora sua vez de atirar tivesse acabado por ora, Gary Lumsden não se uniu aos colegas à procura de uma posição mais confortável na grama úmida nem se virou para observar seus companheiros dispersos no terreno puxando os próprios gatilhos.
Em vez disso, fez novamente pontaria contra seu alvo e relaxou a respiração. Seu dedo endureceu no gatilho e, com dificuldade, ele o retirou inteiramente, temendo um aperto por reflexo que significaria descarga não autorizada de sua arma e todo o tipo de repreensões caindo sobre sua cabeça quando voltassem para Plymouth.
Ele apurou sua linha de visão com um dos quatro pequenos alvos no cartão, sabendo que podia acertá-lo, esperando, esperando por sua vez para atirar de novo.
Um tiro, um zunido e risos esparsos à sua esquerda indicaram que alguém atirara tão longe do alvo que merecia risadas. Gary Lumsden não se preocupou em tirar os olhos do cartão. Ambos abertos, do modo como haviam lhe ensinado. Ignorando o esquerdo, usando o direito.
Alguma coisa se moveu na visão embaçada de seus olhos. Lumsden focalizou a vista novamente e viu um homem atravessando o estande de tiro, muito adiante dos alvos, talvez a uns 400 metros de distância, indo para o norte.
Ele cerrou as sobrancelhas, levantou a cabeça um pouco e olhou para a esquerda e para a direita para ver se mais alguém avistara o homem. Seu colega mais próximo, soldado Hall, estava a 20 metros à sua direita, olhando para o próprio alvo, de modo que ele estava ligeiramente oblíquo em relação a Lumsden. Hall era negro, o que significava que era alvo dos preconceituosos do pelotão. À sua esquerda, ele podia ver apenas as botinas e os macacões de camuflagem úmidos do soldado Gordon, que tinha cabelo ruivo e que, portanto, sofria nas mãos de quase todo mundo. Nenhum dos dois olhava na direção do homem.
Lumsden moveu seu SA80 para poder olhar para o homem pela mira telescópica, mas mesmo assim ele estava longe demais para encher seu campo de visão. O homem caminhava, mas não parecia um excursionista. Lumsden podia ver que ele não levava bastão nem mochila. Em vez disso carregava o que parecia um saco plástico! Aparentemente tinha acabado de sair de uma lanchonete! Não usava nem mesmo uma jaqueta impermeável, apenas uma camisa que parecia azul à distância, e calça jeans. Era a pior coisa que um excursionista poderia usar. Quente no sol e fria, pesada e lenta para secar no nevoeiro e na chuva, muito mais frequentes. Isso confirmou a primeira impressão de Lumsden de que ali, na charneca, o homem estava fora de seu ambiente. Para começar, parecia não ter checado os avisos de treinamento de tiro que eram o bê-á-bá de todo excursionista experiente em Dartmoor. Com uma única chamada de seus celulares, os excursionistas podiam descobrir se ia haver treinamento com tiro nos estandes que cobriam o quadrante nordeste da charneca. Aquele homem não devia ter checado. E, se houvesse visto os avisos em vermelho e branco, então ele os ignorara ou estava sendo bastante imbecil para passar por eles, entrando na zona de perigo.
O dedo do soldado Lumsden deslizou suavemente de volta para o gatilho de seu próprio fuzil, seu SA80A2 pessoal.
O cara estava simplesmente pedindo para ser atingido por uma bala perdida. Ou uma bala nem tão perdida.
Lumsden seguiu o progresso do homem com a retícula da mira telescópica, as mãos firmes, a respiração calma.
Se puxasse o gatilho agora, poderia até mesmo atingi-lo, mas a sensação de ter o homem sob sua mira, enquanto o aço frio esquentava debaixo de seu dedo, era quase estonteante.
À sua esquerda, um outro estalido e ele ouviu o soldado Knox dizer “merda” bem alto, mas não estremeceu por um momento sequer.
Cada célula de seu corpo estava focada no andarilho. Cada pequena parcela de seu autocontrole impedia seu dedo de puxar o gatilho do modo que ele queria.
Disparar um tiro sem autorização era uma transgressão séria. Disparar o tiro na direção de uma outra pessoa sem haver uma situação de guerra era um caso de corte marcial. Atirar num civil que saíra para um passeio em Dartmoor quase que certamente significaria prisão. E ele dera duro por muito tempo para não seguir seu pai e Mark ladeira abaixo! Não havia meio de ele estragar tudo agora, não agora, quando ganhara seu fuzil.
Lumsden suspirou para dentro; suspirar para fora faria sua mira hesitar.
Quatrocentos metros. Era esse o alcance de sua arma. O andarilho estava provavelmente além dessa distância. A despeito da facilidade com que mantinha o homem na sua mira, Lumsden sabia que as chances de atingi-lo, se ele fosse atirar, seriam mínimas. Embora o tempo estivesse bom para os padrões de Dartmoor, havia ainda uma pequena brisa a compensar. Depois de 400 metros o tiro começaria a perder impulso, direção, e se tornaria imprevisível.
O homem desapareceu atrás de umas pedras e Lumsden moveu suavemente seu fuzil para esperar que ele aparecesse de novo, sentindo uma nova onda de emoção quando o indivíduo ficou diretamente sob sua mira.
Ele se aproximava de um pequeno rochedo a uns 50 metros a sua frente. Se o alcançasse, Lumsden o perderia.
Uma sensação de urgência fez com que seu dedo encostasse firme no gatilho, e ele teve de fazer um esforço consciente para relaxar. Sua respiração sibilava nos ouvidos; embora o pelotão ainda estivesse atirando nos alvos, os tiros soavam abafados e distantes para ele.
Lumsden admirou o próprio autocontrole. Ele ainda era jovem, mas o treinamento básico eliminara o restante da criança que ainda existia nele, endurecendo-o, modelando-o como adulto. Sabia que já era uma pessoa melhor do que seu pai, seu irmão e qualquer um de seus meios-irmãos.
Nas suas mãos ele detinha o poder de vida ou morte. Gary Lumsden, o menino, teria atirado; Gary Lumsden, o soldado, era mais rígido do que o menino. Ele sentiu uma inusitada onda de orgulho.
O homem continuou andando, a cabeça baixa, atravessando um trecho de terreno iluminado pelo sol, e o soldado continuou mantendo-o sob sua mira, firme e cuidadosa. O rochedo se aproximava, de modo que o tiro fatal estaria perdido, mas ele não estava disposto a dispará-lo, disse a si próprio; precisava continuar no controle, fazer a coisa certa, crescendo e se tornando um homem.
Seu alvo subiu na primeira das grandes rochas cinzentas. Duas mais e ele estaria fora de sua visão, atrás do rochedo maior.
Em menos de dois minutos, o soldado Gary Lumsden detivera o poder de infligir morte instantânea, mas, em vez disso, escolhera deixar que a vida continuasse. Era como ser Deus.
Seus angelicais olhos azuis doíam de calor com o pensamento de quão longe ele já chegara, enquanto observava o homem imbecil estender a mão para alçar o corpo para a rocha seguinte. Tão pequeno, tão vulnerável, sem imaginar como estivera perto...
Todo o corpo do soldado Lumsden pulsava com o conhecimento de que isso significava algo essencial; que ele se lembraria daquele momento para sempre.
E então, num súbito e furtivo triunfo da natureza sobre o treinamento, ele puxou o gatilho.
Arnold Avery abriu os olhos para um céu branco uniforme, as costas molhadas e uma dor aguda no braço esquerdo.
Seu primeiro pensamento, enevoado, foi que um pássaro o atacara. Um pássaro grande. Tudo que ele se lembrava era de ter se debatido no ar fresco de Devonshire ao cair da rocha onde estava de pé.
Voltou a cabeça com dificuldade para um lado, e uma folha de relva dura pinicou sua bochecha. Havia um disco de alguma coisa de branco puro com dois pontos vermelhos ao lado de sua cabeça; ele levou diversos segundos piscando para compreender que aquilo era uma tortinha de cereja, que caíra de sua bolsa de coisas roubadas. Um ponto vermelho na cobertura de glacê era a cereja, o outro era um pingo de sangue.
Avery gemeu quando se sentou e viu a manga esquerda escura e vermelha. Encolheu-se de dor ao movimentar o braço. Doía, mas não estava quebrado.
Ele olhou em torno e não viu nada nem ninguém. Mas então, nada e ninguém podiam vê-lo; ele caíra numa depressão rasa, atrás do rochedo. Não tinha ideia de quanto tempo ficara inconsciente ou do que acontecera com ele. Sua teoria do pássaro era insustentável, ele já sabia, mas não tinha outras. A charneca se estendia em torno dele por quilômetros, parecendo agora amarelo-cinza sob as nuvens carregadas.
Tirou o braço da manga, enxugando o sangue com a bainha da camisa, e viu um vergão vermelho atravessando a parte superior do bíceps, como se alguém houvesse metido o dedo indicador por dentro do seu braço, removendo a pele e deixando um sulco sangrento no lugar.
Parecia que levara um tiro, embora ele soubesse que isso não era possível. Estava na Inglaterra, afinal de contas, e ali os guardas que eram enviados para caçar os fugitivos provavelmente só vinham munidos com pouco mais do que vouchers para cobrir as despesas com gasolina.
Balançou a cabeça para clarear as ideias, e vagarosamente começou a reunir as coisas furtadas. Não havia razão para ficar por ali tentando resolver o mistério do que acontecera com ele. De qualquer modo, ele tinha dúvidas se isso era importante. Se tivesse sido obra de algum guarda armado e superentusiasmado, então ele já estaria preso de novo; se houvesse sido um pássaro, então haveria penas. Não importava. O que importava era continuar andando. Ele tentou achar o sol atrás das nuvens, mas não conseguiu. Ainda não estava começando a escurecer, mas isso não significava nada; era junho, e continuaria claro até depois das dez horas.
Embora não soubesse, Arnold Avery estivera inconsciente tempo o bastante para perder os gritos distantes e indignados da carreira militar do soldado Gary Lumsden chegando a um abrupto, mas quase inevitável fim.