O Túmulo Sob as Colinas
Capítulo 4
O professor Lovejoy arengava sem parar sobre os romanos, mas a mente de Steven estava longe. Estranhamente, ele pensava não sobre futebol ou o jantar, mas sobre a aula de inglês da Sra. O’Leary.
Escrever cartas. Uma arte antiga.
Ele não tinha computador em casa ou telefone celular, para seu constrangimento, mas Lewis tinha as duas coisas, de modo que Steven sabia como escrever um e-mail e enviar uma mensagem de texto, embora fizesse isso tão devagar que Lewis muitas vezes rosnasse, frustrado, e arrancasse o telefone de suas mãos para terminar de digitar para ele. De certa forma, isso acabava com o intuito de Steven, que era praticar, mas quando ele via a rapidez com que os dedos do amigo deslizavam sobre as teclas, compreendia como era irritante para ele ficar observando seus fracos esforços.
Mas com cartas a coisa era diferente. Ele era bom em escrever, dissera a professora. Suas cartas eram autênticas.
A Sra. O’Leary talvez já tivesse esquecido que Steven escrevera uma boa carta e retomara sua atitude de quase ignorância com relação a presença dele no mundo, mas Steven não esquecera o elogio. Era raro que ganhasse um, e naquele momento estava sentado ali, na aula de história do Sr. Lovejoy, repassando na mente aquela pepita preciosa de elogio, examinando-a de cada lado, observando a luz que emanava dela, como faria um garimpeiro, imaginando quanto valeria.
Quase que por acidente ele tropeçara no seu talento para cartas. Era um talento que jamais escolheria; andar de skate e tocar contrabaixo teriam sido muito melhores. Contudo, ele não era um garoto capaz de descartar uma coisa sem primeiro determinar seu potencial valor.
De repente, lembrou-se de que, quando tinha 10 anos, encontrara um carrinho de bebê, todo retorcido, jogado num acostamento. Tudo nele estava quebrado, como se um carro houvesse passado por cima dele. Tudo, exceto as três rodas. Eram rodas boas, com pneus de borracha bons e raios de metal. Era um desses carrinhos para todo tipo de terreno, como se os pais que os compravam estivessem planejando escalar o Everest com a criança a reboque.
Steven levara as rodas para casa e as guardara. E continuou guardando-as. Até que, um ano mais tarde, o carrinho de compras da avó quebrara quando ela voltava para casa com ele cheio. Aquele carrinho era uma vergonhosa bolsa de tecido xadrez sobre duas estúpidas rodas de metal com bordas de borracha dura, mas ela o possuía havia muito tempo, e quando uma roda quebrava ela ficava chateada. Agora ela teria de comprar um novo carrinho, e eles eram ridiculamente caros, como tudo mais hoje em dia.
Steven trabalhou no carrinho de compras no quintal da casa. A Sra. Randall lhe emprestou umas ferramentas velhas e chegou até mesmo a mostrar-lhe como usar arruelas, para evitar que as rodas, maiores, mais largas e para todo tipo de terreno, encostassem nos lados da bolsa propriamente dita.
Quando Steven apresentou o carrinho reformado para sua avó, ela apertou os lábios, desconfiada, e empurrou-o com vigor para cima e para baixo no chão, como se pudesse fazer as rodas caírem no momento em que batesse com bastante força. Mas Steven fora cuidadoso, mais do que isso até, apertando e reapertando cada porca, de modo que o carrinho permaneceu inteiro.
— Está com uma aparência idiota — disse a avó.
— São rodas para todo tipo de terreno — arriscou Steven. — O carrinho salta sobre pedras, sobre o meio-fio e coisas muito piores.
— Hum. É tudo que preciso: um carrinho de compras de rali.
Petulantemente, ela fez o objeto pular para cima e para baixo mais algumas vezes, o que fez Steven prender a respiração, mas as rodas aguentaram.
— Veremos. — Foi tudo que a avó disse.
E ela viu mesmo. Steven também observou como ficou muito mais fácil para a senhora puxar o carrinho atrás dela. O veículo nunca ficava preso nas pedras e subia e descia com facilidade do meio-fio. Outra senhoras paravam e admiravam a engenhoca e, numa ocasião inesquecível, ele viu a avó tocar num dos pneus com sua bengala com uma inegável sensação de orgulho.
Ela nunca disse obrigado, mas Steven não ligou.
Não sabia por que lembrara do carrinho de compras enquanto tentava pensar sobre suas cartas, mas, de repente, outro pensamento o afastou do primeiro, fazendo-o se endireitar na cadeira um pouco.
Ele mostrara ao tio Jude o carrinho, e o homem examinara o seu trabalho com cuidado, virando-o para cá e para lá, levando a coisa a sério. Enfim, elogiara: “Bom trabalho, Steven”, e o garoto achou que explodira de alegria internamente, embora, por fora, ele apenas balançara a cabeça e ficara calado.
Então, o tio Jude levantara-se e dissera: “Esse é o segredo da vida, sabe.” Steven balançara a cabeça solenemente, como se já soubesse o que o tio iria dizer, mas prestou tanta atenção quanto possível para ouvir o segredo da vida. “Decida o que você quer, e então se esforce para alcançar seu objetivo.” Na ocasião, Steven ficara um pouco desapontado que o segredo da vida, de acordo com o tio, não fosse algo mais espetacular, ou pelo menos misterioso. Mas então ele estava sentado na sala de aula quente, sem ouvir o professor falar dos mosaicos de Kent, e pensou adequadamente no que o tio dissera.
Ele já sabia o que queria.
Agora, precisava apenas descobrir como essa nova arma do seu limitado arsenal poderia ser usada para alcançar seu objetivo.