O Túmulo Sob as Colinas

Belinda Bauer · Capítulo 39 de 45

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O Túmulo Sob as Colinas

Capítulo 39

 

Steven se encolheu quando Avery pôs uma mão no seu ombro, mas depois se recompôs e achou que tinha se saído bem.

Respondeu à pergunta de Avery com um “Nada”. Depois virou-se para não precisar olhar nos olhos do outro, estranhamente bruxuleantes.

Em vez disso Steven voltou o olhar ansioso, charneca abaixo, para onde sabia que Shipcott se escondia no nevoeiro. Não poder ver nem mesmo a agulha da igreja fez com que se sentisse muito solitário.

Enquanto ficava ali, de pé, as costas ardendo voltadas para o assassino, as peças do quebra-cabeça na sua mente rodopiavam como num turbilhão. Ele reconheceu alguns fragmentos: uma fatia do largo sorriso do tio Billy; um mapa maltraçado; uma ferida na charneca aberta pela lâmina rombuda da pá; na caixa dizia que era filé. Ele escreveu uma boa carta. As peças flutuavam e se dispersavam; ele não sabia por onde começar a arrumá-las. Assim, como todos os bons construtores de quebra-cabeças, ele começou por encontrar um canto.

E esse canto, para sua grande surpresa, foi a raiva.

Ele achara que seu medo envolvia tudo, mas a raiva era uma coisa boa. Ela o fez firmar-se e suplantou o medo por um momento, fazendo com que se sentisse mais forte.

Lewis desaparecera. Estava a salvo. Steven sentiu uma pontada de remorso que as últimas palavras que dissera ao amigo tivessem sido duras, mas expulsou esse sentimento. Ele fizera o que tinha de fazer. Aquela era uma situação crítica e ele se encarregara de salvar Lewis.

Agora tudo que precisava fazer era escapar das garras do psicopata que o havia atraído para a própria pequena armadilha, e que depois, de alguma maneira louca, saída de um pesadelo, fugira magicamente da prisão e voltara para matá-lo.

Era Harry Porter com uma serra elétrica.

Steven riu e estremeceu ao mesmo tempo, sentindo a bile subir pela garganta.

Engoliu em seco e teve uma sensação de fraqueza. Sabia que, se escapar era tudo que queria, então precisava aproveitar a oportunidade. Ele começara aquela coisa; a colocara em movimento. Agora aquela coisa se movimentava rápido demais e estava fora de controle, mas Steven ainda sentia uma necessidade ciumenta, ardente, de manter os acontecimentos sob controle. Todos os pensamentos, as escavações, o planejamento, todas as cartas boas que escrevera. Estava tão perto que o pensamento de largar tudo agora era, ao mesmo tempo, tão inconcebível e atraente que o fazia pensar em línguas e em Chantelle Cox. Seria tão fácil deixar a coisa acontecer, sentir seus dedos entorpecidos se abrirem e libertar o fardo que pegara tão casualmente e que carregara por tanto tempo sem na verdade, em momento algum, segurá-lo com firmeza.

Mas a teimosia que o mantivera molhado, queimado pelo sol e com calos nas mãos na charneca por três longos anos abriu seu caminho para a linha de frente, pisoteando o pânico que o cegava. Steven sentiu que aquele impulso sobrepujava todos os instintos que possuía.

Agora que eram apenas ele e o assassino, sozinhos, um fio de pensamento separou-se e pulsou mais fortemente do que qualquer outro. Ele tentara por muito tempo. Chegara tão longe. Conseguira tanto. Estava tão cansado e queria saber. Precisava saber. Tinha de saber.

E como resultado, em vez de golpeá-lo com a pá e correr para salvar sua vida, ele sorriu para Avery.

— Ele que se foda — disse ele, dando de ombros. — Você tem mais sanduíches?

 

Steven ficou observando o nevoeiro subir pelas urzes na direção deles. Agora estava apenas a 12 ou 15 metros abaixo deles, e chegaria tão preguiçosamente que o movimento era quase imperceptível. Às 10h, surgiria o verão.

Avery arrumara um segundo saco de plástico para Steven sentar-se, e eles estavam tão próximos que seus quadris e ombros se tocavam. Ele podia sentir o calor do homem passando pelo tecido da calça e da camisa cheia de sangue. Aquilo o fez ter vontade de se afastar, mas desistiu.

Agora Steven olhava para o último pedaço do sanduíche de Avery, e sabia que, se não falasse logo, sua oportunidade teria ido embora.

— Você mora por aqui?

— Não. E você?

— Sim. Ali em baixo, em Shipcott. Lá adiante. — Ele acenou com a mão vagamente, para o nevoeiro preguiçoso.

Avery deu um grunhido, mostrando desinteresse, depois olhou diretamente para Steven.

— Eu ouvi dizer que há corpos enterrados aqui em cima.

Um choque de pura eletricidade percorreu o corpo de Steven. Seu coração bateu mais rápido e ele sentiu alfinetadas e estalidos por toda a pele.

Avery sorriu.

— Você está bem?

— Estou — disse Steven. — Corpos. Que horror.

Ele se concentrou em uma porção de tomate que caía pela extremidade da crosta, e gastou algum tempo enfiando um pouco na boca, lambendo os dedos e mastigando sem sentir o gosto da massa aquosa. Esperava que o coração parasse de bater acelerado no peito, mas isso não aconteceu.

Era isso que ele queria. Aquilo pelo que esperara. E não precisou nem mesmo pedir. Corpos. Ficou agitado e aterrorizado em medida igual.

— É sim — disse Avery. — Eu ouvi dizer que um maluco matou diversas pessoas, crianças, e enterrou os corpos por aqui.

— Ah, é. Eu ouvi falar nisso. — Ele queria que o coração parasse de martelar em seu peito, apavorado que Avery pudesse ouvir.

— Ele estrangulou as crianças.

Steven balançou a cabeça, tentando permanecer calmo.

Avery abaixou a voz.

— Estuprou as crianças, também. Até mesmo os garotos.

Steven tentou limpar a garganta. Restos de tomate haviam ficado presos ali.

— Todos os corpos foram encontrados?

— Não.

Steven sentiu que ia desmaiar. Não era “Eu acho que não”, nem “Não tenho certeza.”

Era “Não”.

Apenas “Não”.

— Ainda há uns poucos por aí, acho — disse Avery.

Uns poucos.

Paul Barrett. Mariel Oxenburg. William Peters.

— Ah, é? — disse Steven. — Onde?

Assim que fez a pergunta Steven sentiu-se tonto de expectativa.

Avery lançou o olhar na direção de Dunkery Beacon.

— Por que você se importa com isso?

O tempo diminuiu sua marcha, entrando num estranho vórtex que sugava Steven enquanto os motivos pelos quais ele se importava com aquilo quase o esmagavam. A roda da fortuna girava e a pressão de lama congelada sufocava os ossos solitários de um garotinho.

— Eu não me importo — disse ele, e sua voz saiu desafinada de sua garganta tensa. — Estou só interessado em... Quero dizer... Se você fosse enterrar um corpo por aqui, onde seria?

Ele tentara parecer despreocupado, mas sua pergunta soou horrivelmente alta e desesperada para os próprios ouvidos enquanto pairavam sobre eles no ar estático da manhã. Sentiu-se enjoado por ter perguntado aquilo. Enjoado e frágil.

Avery virou-se para olhá-lo com atenção e Steven cruzou olhares com ele, esperando que o homem não pudesse ver através de suas pupilas o escuro poço de medo palpitante que se encontrava atrás delas.

O silêncio se prolongou em torno deles, até que Steven pôde jurar ter ouvido o silêncio estalar sob pressão.

Então Avery contentou-se em dar de ombros.

— Por aí. Por ali. Quem sabe? — Ele deu um pequeno sorriso para Steven e remexeu na bolsa. — Você quer alguma coisa para beber?

Steven queria matá-lo.

Ele ficou subitamente de pé. Pegou a pá para ir embora, mas Avery agarrou o cabo da ferramenta com força e levantou o olhar para ele, o rosto agora frio e ameaçador.

— Vou precisar disso — disse Avery, a voz baixa.

E quando olhou nos olhos de um verde leitoso do homem, Steven percebeu que perdera a batalha para manter fechado o livro de sua mente. Os lábios de rubi de Avery se abriram num sorriso branco e cruel enquanto ele lia os sentimentos do menino como revelados num cartaz.

Steven soltou um grito como se tivesse tocado em alguma coisa escura e pegajosa.

Ele soltou a pá, fazendo com que ela ricochetasse com força contra o braço ferido de Avery.

Então ele se virou e correu.

Quando alcançou a trilha, ouviu Avery correndo atrás dele, perto, perto demais. Ele deveria ter tentado escapar antes, quando tinha uma boa vantagem! Então sentiu uma dor aguda nas costas e caiu no chão, sem ar nos pulmões.

Sentiu Avery agarrando-o pelas costas de sua melhor camiseta e o levantando como um cachorrinho levado; seus pés se debatiam, procurando apoio, e ele cambaleou, quase ereto, para então desabar de lado, os joelhos contra as pernas do homem.

Ainda segurando-o pela camisa, Avery inclinou-se para pegar a pá, e o cérebro de Steven informou-o remotamente que aquilo era o que o havia golpeado nas costas. A pá do tio Jude. Abatido pela própria arma no momento exato em que caíra na própria armadilha.

Porque ele fora apenas um garoto idiota, não um atirador de elite, não um policial, nem mesmo um adulto. Ele brincara de ser adulto e era assim que terminava. Ele, morto na charneca, usando sua melhor camiseta vermelha com LAMB escrito nas costas. E os jornais relatando não seu triunfo, mas a morte de um patético, solitário e fraco garotinho. Uma morte que o reduziria a iniciais num mapa e uma velha foto tremida num jornal amarelado. Nem mesmo uma fotografia boa, ele apostava. Provavelmente aquela tirada na escola, que sua mãe tinha em cima da lareira e em que ele parecia um refugiado. Não a foto com a roupa que ele vestira para aquela manhã, quando ainda achava que poderia ser um herói.

Medo, vergonha e náusea se misturavam dentro dele, e ele afrouxou o corpo contra a calça fria de Avery.

Avery afastou-o de si e deu-lhe um tapa.

— Você sabe quem eu sou?

Steven balançou a cabeça, mudo, para os calçados pretos de sola de borracha.

— Bom.

Levantou Steven com força, colocando-o de pé, e o garoto foi sendo meio empurrado, meio arrastado, de volta para o montículo enquanto Avery estremecia e amaldiçoava a dor que voltara a seu braço. No meio do caminho, Steven começou a soluçar. Ele desejou nunca ter sabido a respeito de Arnold Avery. Saber era pior do que não saber. Saber o que Avery fizera aos outros. Saber que faria o mesmo com ele. A coisa nem mesmo parecia possível, mas ele lera aquilo nos jornais, portanto devia ser verdade. Estava prestes a descobrir. O pensamento trouxe novas lágrimas de medo.

— Cale a boca — disse Avery. — Abaixe-se.

Steven continuou de pé, os braços frouxos, a cabeça baixa, o corpo tremendo com os soluços.

— Eu disse para abaixar.

Avery sacudiu-o de novo e apontou para um trecho de urzes brancas onde estivera sentado quando Steven ainda tinha uma alternativa; ainda tinha uma chance de escapar.

— Abaixe. De joelhos.

Steven balançou a cabeça, uma expressão idiota no rosto, mas não se abaixou.

Avery inclinou-se para a frente e pôs os lábios perto do ouvido do garoto, fazendo-o estremecer.

— Abaixe-se ou vou forçar você a fazer isso.

— Está bem.

Mas, mesmo assim, ele não se moveu. Não podia. Não ia se abaixar. Não devia se abaixar. Ficar de pé era melhor. Abaixar-se era pior. Quanto mais baixo estivesse, menos chance teria. Ele preferia ficar de pé. Esses pensamentos eram simples e claros na cabeça de Steven. Se abaixasse, tinha certeza de nunca mais levantaria.

— Abaixe, já falei!

— Está bem. — Ele parou de soluçar com um ligeiro arroto que levou bile com gosto de tomate à garganta.

Mas mesmo assim ele não se mexeu. Talvez se ele continuasse simplesmente concordando em se abaixar, mas nunca fizesse isso de fato, Avery poderia ficar cansado de pedir.

Avery realmente ficou cansado. Steven só ouviu um pequeno resmungo de aviso antes de a pá girar e bater na parte de trás dos joelhos, fazendo-o enrolar-se como uma bola, segurando as pernas de dor.

— Seu merdinha! — Avery agarrou o próprio braço e fez uma careta, agora com sangue fresco escorrendo.

Então, mais uma vez, Avery o fez levantar-se pela nuca, colocando-o cuidadosamente sobre seus joelhos.

— Agora fique quieto. Está entendendo?

Steven balançou a cabeça e mexeu o corpo, mas ficou onde estava. Podia sentir alguma coisa escorrer de leve pelas costas e achou que devia ser suor ou sangue no ponto em que a pá o alcançara quando ele tentava correr. Mal pensara no suor quando sentiu o rosto ficar oleoso, suor brotando nele. Mexeu-se de novo; queria permanecer deitado nas urzes onde o chão estava frio e ele não iria se sentir tão tonto. Mas ajoelhar-se era ruim e continuar deitado seria ficar ainda mais baixo, o que portanto era ainda pior. Ele precisava tentar aguentar como estava, embora tivesse medo de examinar o que estava tentando aguentar. Mas precisava aguentar e fazer com que Avery se movesse o mais lentamente possível para matá-lo. Não porque achasse que poderia evitar esse destino inteiramente, mas porque retardar a própria morte lhe parecia a coisa sensata a fazer.

A própria morte.

Ele ia morrer. Não havia mais nada a perder, nem mesmo sua vida; era uma conclusão antiga. O pensamento lhe trouxe uma espécie de liberdade perversa.

— Você matou meu tio Billy?

— O que você acha?

Steven levantou os olhos para Avery, surpreso. Não esperava que pedissem sua opinião.

— Acho que foi você.

— Quer saber como?

Steven não queria. Sentiu náuseas com o pensamento, agora. Mas era um outro retardamento.

— Quero.

Avery ficou de pé diante de Steven e tocou o cabelo dele com uma mão, um movimento quase gentil.

— Ele acabara de sair da loja. Eu pedi orientação. Eu tinha um mapa...

Ele parou de falar, Steven levantou o olhar e viu o brilho de uma lembrança querida nos olhos de Avery.

— Eu tinha um mapa. Pedi a ele para me mostrar no mapa. E ele se inclinou para dentro, pela janela, e eu... Simplesmente... Agarrei seu tio...

Steven soltou um grito quando a mão de Avery apertou seu tufo de cabelo.

— Foi tão fácil. Tão fácil, porra. E ele estava com tanto medo. Eu tive de dar-lhe uma porrada na mesma hora para fazer com que parasse de gritar. Você devia ver a cara dele quando bati nele! Como se nunca houvesse apanhado antes! Foi muito divertido.

Ele sorriu para Steven e depois desviou o olhar novamente, por sobre a charneca de sua lembrança.

— Eu brinquei com ele, sabe? Primeiro brinquei com todos eles. Antes de matar. Da mesma forma que vou brincar com você.

Steven se contorceu quando o puxão no cabelo ficou mais forte novamente. Ele suprimiu um gemido de dor; não queria que Avery se lembrasse que estava ali, ajoelhado diante do assassino; quanto mais lembrasse do tio Billy e das outras crianças, mais tempo permaneceria vivo. Mas era uma tarefa difícil. A dor que sentia na cabeça era mais do que um simples desconforto, e ele ainda tremia e sentia náuseas. Porém precisava fazer aquilo. Precisava ficar parado e calado, alimentando esperanças de se livrar daquela situação. Só havia uma alternativa, e Steven a rejeitava. Não queria descobrir o que significava “brincar com”, nem como era ser torturado e morto enquanto chorava, chamando a mãe. Bastou esse pensamento para fazer com que as lágrimas rolassem dos seus olhos mais uma vez. Dessa vez ele não chorava por vergonha ou medo, na verdade chorava por sua mãe, baixinho... De um modo que não desviaria a atenção de Avery de suas lembranças.

— Ele queria isso. Sabe de uma coisa? Seu tio Billy era um putinho como você. Deu pra notar.

Uma onda de pura raiva borbulhou em Steven, em defesa de um menino do qual jamais gostara, mesmo não o tendo conhecido. Todas as suas boas intenções de se manter invisível desapareceram num instante.

— Você é um mentiroso!

Avery sacudiu-o pelo cabelo, fazendo com que Steven gritasse de dor.

— Eu o quê?

— Você é uma... porra de um mentiroso!

As lágrimas escorriam espessas, rápidas, mas agora eram lágrimas de fúria, e a fúria o fazia mais forte. Sabia que estava sendo estúpido em desafiar Avery, mas não se importava mais com isso, o que liberava suas emoções. Levantou as mãos para tentar controlar o aperto do assassino no seu cabelo, então Avery bateu nelas com força, afastando-as, mas ele continuou tentando se livrar daquele nó apertado de dor. A tração no seu cabelo fez Steven pensar no modo como puxava e torcia as cortinas verdes da sala onde ele e Davey esperavam o Frankenstein chegar e descobri-los. Bem, ele tentara ser amigo do Frankenstein e a coisa não dera certo. A dor no cabelo sendo puxado era agora muito maior, assim como o martelar do seu coração no fundo da boca, tão grande que parecia impossível. Era como se aquele órgão vital estivesse sendo empurrado garganta cima, pela pura força do terror que explodira na sua barriga.

Ele agitou freneticamente as mãos e atingiu Avery na ferida sangrenta infligida pelo filho de Mason Dingle. Avery gritou e, por um glorioso momento, largou o cabelo de Steven. Ele quase caiu ao se ver livre.

Então o soco pegou-o desprevenido, tirando-lhe a última porção de ar dos pulmões e a última porção de vontade de resistir.

Ele ficou deitado ali, perdido, consciente apenas de que seu rosto encostava nas urzes úmidas e frias, e então, vindo de longe, ele sentiu seu corpo sendo colocado com rudeza de costas, flácido como um peixe.

Mãos seguraram sua calça.

Uma onda de inconsciência fez seu estômago se contorcer, de modo que ele se dobrou para cima e vomitou violentamente sobre si próprio e sobre Arnold Avery.

Na fração de segundo de silêncio que se seguiu, ele observou um pedaço culpado de tomate na manga de Avery, antes que o homem se afastasse dele com um grito de nojo, espanando o vômito das mãos e se esfregando com o suéter verde-claro.

— Seu merdinha! Seu filho da puta imundo! Vou matar você, porra!

Mas Steven já estava correndo. Correndo antes de sequer perceber que se pusera de pé. Correndo colina abaixo através das urzes molhadas que batiam no seu corpo, tropeçando em tufos de vegetação e raízes, perdendo a trilha! Onde estava a trilha? De qualquer modo ele virou para a direita e foi atravessando um trecho de terreno acidentado. Não ouvia nada a não ser um fraco som de guincho, que ele percebeu ser o ruído que o terror fazia na garganta de um menino correndo para salvar a vida.

Steven lançou um olhar frenético por sobre o ombro; Avery estava acima dele e atrás, porém chegando mais perto. Ele encontrara a trilha e correr nela era mais fácil. Ele era mais rápido; Steven não conseguia correr mais depressa do que aquilo. Não ali, naquele lugar, na espessa vegetação de urzes roxas.

Mudou de curso de novo, tentando retomar a trilha, diminuindo a velocidade no processo. Avery se aproximava. Se pelo menos conseguisse pegar a trilha, ele ia conseguir fugir. Tinha certeza. Porra! Ele fez um ângulo agudo na sua trajetória e achou novamente a trilha, entrou nela e continuou a correr.

Avery estava a apenas 20 metros atrás dele quando Steven entrou numa parede de nevoeiro tão espesso que ele se encolheu. Hesitou momentaneamente, lutou contra o instinto de diminuir a velocidade e mergulhou direto na brancura.

Podia ouvir Avery vindo atrás dele, praguejando em arquejos ofegantes. Parecia perto, mas tudo parece perto dentro de um nevoeiro.

E então ele não ouviu mais nada.

Parou, ofegante, a respiração sibilante, e andou em círculos, os ouvidos doendo no esforço de escutar sobre o martelar do próprio sangue. Nada.

Decidiu continuar correndo, mas então percebeu que parar fora um erro terrível. Antes ele estivera correndo na direção certa simplesmente porque fugia de Avery. Mas agora que parara, perdera todo o senso de direção. Baixou o olhar para os próprios pés e para o terreno em torno dele. As urzes barravam o caminho que ele teria escolhido. Deslocou-se para o lado, em silêncio, e seus pés só encontraram relva e tufos de tojo. Com uma pontada de pânico percebeu que perdera a trilha. Ficou parado um bom tempo, ouvindo o coração pulsar nos ouvidos, tentando não respirar e se denunciar.

Steven inspirou e conteve a respiração ao ouvir um farfalhar. Não conseguia discernir de onde vinha ou a que distância estava. Virou-se. Um som estranhamente familiar, um rangido e uma pancada. Ele se virou para o outro lado.

Foi o movimento errado.

Sua cabeça foi lançada para trás, ele perdeu o apoio dos pés e caiu. Alguma coisa macia em volta do pescoço; um joelho nas costelas expulsou o ar de seus pulmões, então Avery estava em cima dele, encarando-o, diretamente no rosto, os dentes arreganhados e os olhos estreitados em duas fendas brilhantes.

Alguma coisa macia, mas apertada, rodeava seu pescoço; Steven percebeu que estava sendo estrangulado com o suéter verde-claro. Podia sentir o cheiro do próprio vômito em cima do agasalho.

Não conseguia respirar. Sentia que a cabeça estava enorme e prestes a explodir, os pulmões espasmódicos e gritando por ar. Não respirava mais.

Dirigiu seu foco para os olhos de Avery, a centímetros dos seus. Por favor, disse ele mentalmente, mas seus lábios apenas se moveram em silêncio; não havia ar para formar as palavras. Deu pontapés fracos e tentou tirar o homem de cima dele, entretanto teve apenas força para levantar os punhos contra as coxas de Avery, enfiadas na calça jeans, e descansá-los ali, como se os dois fossem velhos amigos, e como se aquilo fosse só um jogo.

Por favor, tentou ele de novo, mas não havia nada ali.

Era assim a sensação de morrer.

Aquilo parecia não acabar nunca, e isso doía mais do que assustava.

O tio Billy sofrera daquela forma. O tio Billy olhara aqueles mesmo olhos brilhantes e sofrera daquela maneira. O tio Billy não deixara pistas, e ele também não, pensou, distante; agora compreendia que não lhe passara pela mente a ideia de que aquele poderia ser o último dia de sua vida; vestira sua camisa favorita para ser assassinado com ela.

A dor no peito era insuportável e sangue saindo espremido dos próprios olhos começou a tornar indistinto o rosto do assassino atrás de uma cortina vermelha enevoada.

Por favor.

Ele não tinha certeza se estava tentando implorar por sua vida ou por sua morte.

Pensou vagamente que qualquer uma das opções seria boa.

E a escuridão o envolveu como uma onda fria e escura.