O Túmulo Sob as Colinas

Belinda Bauer · Capítulo 33 de 45

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O Túmulo Sob as Colinas

Capítulo 33

 

Steven olhou para o teto preto que ele não podia ver, e ouviu o tio Jude e sua mãe discutindo.

Ele não conseguia distinguir as palavras, mas simplesmente o tom de voz dos dois o fazia ficar rígido de tensão, as orelhas ardendo.

Ela estava zangada, Steven não sabia por quê. Sua mente zunia, tentando avaliar o dia da véspera, passando-o em revista para descobrir o momento em que as coisas haviam mudado. Alguma coisa. Alguma coisa. Alguma coisa acontecera. Devia ter acontecido! Porque, na noite anterior, ele ficara deitado exatamente como agora, olhando para a escuridão, e ouvira os dois fazendo sexo. Ele reconheceu os sons por um DVD que ele e Lewis haviam assistido nas últimas férias da escola. Um filme com Angelina Jolie no elenco. Fora debaixo dos lençóis, de modo que não lançara qualquer luz sobre a mecânica de toda aquela coisa de sexo. Ele e Lewis ficaram olhando para a tela, fascinados, os rostos queimando, não ousando falar ou olhar um para o outro enquanto a cena se desenrolava. Quando terminou, Lewis dissera: “Eu teria dado uma nela”, num triunfo de redundância.

Mas o sexo entre o tio Jude e sua mãe fora na véspera. Naquele noite, o que havia era uma discussão. O tio Jude, geralmente quieto, ocasionalmente defensivo; sua mãe, agressiva e fria. Ele sentiu uma ânsia de pura fúria em relação a ela; queria correr até a porta do outro quarto e gritar para ela parar. Parar de brigar, parar de magoar, parar de ser uma... uma... filha da puta!

Seus dedos doíam e ele percebeu que estavam agarrados com toda força na borda de cima do edredom, rígidos e trêmulos como o restante de seu corpo. Exalou o ar e tentou relaxar.

— Tio Jude vai embora?

Steven se sobressaltou.

— Cala a boca, Davey.

— Cala a boca você.

Steven calou realmente a boca, querendo ouvir como a briga terminaria, mas ela já não existia.

— Não quero que o tio Jude vá embora.

A voz de Davey era aguda e tensa, um muco escorria de seu nariz, mas em vez de aquilo deixar Steven com raiva, a observação do irmão inculcou o mesmo sentimento em Steven, de modo que ele ficou em silêncio, mordendo o lábio e fechando os olhos com força até que pôde abri-los e descobrir que já era de manhã.

Em certa hora, durante a noite, o tio Jude tinha ido embora.

Steven desceu preguiçosamente a escada, as pernas pesadas e os pés frios, apesar da estação.

No meio do caminho, viu o retângulo roxo no tapetinho de entrada.

Quando chegou ao fim dos degraus, seus olhos perceberam que era um cartão-postal, e ao pegá-lo confirmou que era um retrato da urze roxa.

Quando virou o cartão, seu coração subiu até a garganta e começou a bater com toda força, fazendo pulsar todo seu pescoço.

Comparada com as comunicações anteriores, havia um banquete de informações no postal de 15 por 10.

Ali estava a borda de Exmoor, reduzida pela familiaridade a uma simples linha. DB estava onde deveria estar. SL estava onde ele mostrara a Avery. Entre eles havia um estranho círculo de pequenas linhas que se irradiavam, como uma vista aérea do corte de cabelo do frei Tuck, envolvendo as iniciais WP e uma única palavra:

 

Steven não conseguiu comer. Ele nunca pensara que aquilo seria possível. Não que estivesse sem fome; o problema era que sua cabeça estava tão cheia de pensamentos que eles transbordavam e batiam com força na sua boca, desciam pela garganta, entravam no seu peito e chegavam à barriga, uma torrente impetuosa de esperanças em redemoinho e medos de gelar o coração que não deixavam espaço para a comida.

Seu primeiro pensamento ao ver as orientações fornecidas por Avery foi de que sua própria busca se desvanecera de sua mente. A volta do tio Jude, a horta, Lewis, a barra de chocolate de qualidade. Essas coisas, essas coisas normais, haviam expulsado o tio Bill para fora de sua consciência cotidiana e o enfurnado em um canto da mente.

Mas o cartão-postal trouxe o tio Billy explosivamente de volta, numa onda de culpa e novas expectativas.

Num instante, ele se viu recarregado, revigorado, de novo focado no objetivo.

Não se lembrou de ter se lavado, vestido e escovado os dentes, mas isso devia ter acontecido, porque chegou à mesa do café da manhã sem fazer sobrancelhas se erguerem.

Davey estava muito infeliz: sua mãe cortou os sanduíches deles com movimentos rígidos e os lábios apertados, e a avó estava inusitadamente calada sobre a questão da vida amorosa da filha. Mas Steven só percebeu essas coisas de um modo extremamente periférico, nebuloso.

Eu sei onde o tio Billy está enterrado.

Ele quase pensou que gritaria isso em voz alta quando a avó o encarou com um olhar neutro.

— Passe a manteiga para seu irmão.

Steven passou a manteiga e foi assaltado pela súbita certeza de que alguém mais encontraria o tio Billy antes dele.

Agora que tinha o mapa de Avery, a coisa parecia óbvia! Blacklands! É claro! Tão perto que quase a podia ver da janela do próprio quarto!

Até mesmo Lewis descobrira isso. “Da próxima vez que eu aparecer para ajudar, vou cavar em Blacklands.”

O que impediria uma outra pessoa de descobrir isso também?

Alguém que não precisasse ir à escola hoje?

Alguém que se antecipasse a ele na tarefa?

Alguém que abrisse a porta da oportunidade e cuja vida seria transformada pela descoberta, outra pessoa que não ele, que ficaria aprisionado para sempre entre a avó, a mãe e o quarto escuro, estacionário, onde ainda se via a mancha do próprio mijo no carpete. Steven sentiu frio e um vazio nas entranhas, como se tudo dentro dele estivesse descomprimindo na direção da garganta e dos intestinos.

Ele se levantou da mesa, arrastando a cadeira com força.

— Aonde você vai?

— Para a escola.

— Você nem comeu.

— Não estou com fome.

Lettie olhou como se fosse armar um escândalo por causa daquilo. Depois, embrulhou com raiva os sanduíches em papel laminado e jogou-os nas lancheiras, sem qualquer barra de chocolate.

Steven não se importou. Barras de chocolate eram para crianças, e hoje ele se tornaria muito mais que uma criança. Talvez não soubesse como funcionava o sexo ou os relacionamentos, mas, ao cair da noite, esperava que aquelas pessoas formassem de fato uma família unida, e não aquela coisa parcial, rachada, se desmoronando, que o deixava nervoso e triste.

Steven lançou um olhar para os familiares, mas a mãe, o irmão e a avó não perceberam como ele estava prestes a mudar suas vidas.

Virou-se para sair, mas mal tinha dado dois passos antes que sua mãe dissesse, asperamente:

— Espere por seu irmão.

E então, em vez de desenterrar o corpo de um menino assassinado, Steven precisou esperar pelo irmão e levá-lo à escola, e depois ir para as duas aulas de história, em que a professora os fez desenhar um corte transversal das pirâmides, mostrando todos os sombrios e secretos meios que os egípcios empregavam para assegurar que seus ancestrais não fossem descobertos ou perturbados durante milhares de anos.

Steven ainda não aprendera o significado da ironia, mas outra vez ele não teve como deixar de notá-la quando essa mesma ironia se levantou diante dele e lhe esbofeteou a cara.

Durante todo o dia ele sentiu vontade de gritar.