O Túmulo Sob as Colinas
Capítulo 29
Devido ao distúrbio na cozinha, ao fato de Ryan Finlay ter sido levado às pressas para o hospital — e dali para o necrotério —, e também ao portão da cerca que Avery trancara ao sair, demoraram quase um hora para descobrir que ele estava desaparecido, e não porque havia sido espancado ao entrar numa cela errada, ou escondido em outro lugar para se proteger. Passaram-se ainda mais uns vinte minutos antes que um guarda visse os bancos com plaquetas de Toby e Yasmin e alguém percebesse que Arnold Avery pulara o muro.
Desde que fora promovido ao cargo de vice-diretor da Prisão Aberta de Newport, em South Wales, o diretor do presídio de Longmoor perdera quatro prisioneiros. Quatro em quatro anos. Não era um número espantosamente alto. Longmoor era uma prisão de treinamento; uns poucos prisioneiros selecionados chegavam inclusive a trabalhar fora dos muros, em serviços de limpeza ou em fazendas, como parte de seus programas de reabilitação. Em duas ocasiões, como resultado do baixo efetivo de guardas, alguns homens simplesmente se esconderam atrás de máquinas ou saíram andando na direção do nevoeiro espesso. Todos os quatro foram recapturados nas estradas antes que qualquer motorista lhes desse carona.
No entanto, quatro fugas em quatro anos representava um padrão infeliz. Era como se pudesse haver cinco fugas em cinco anos, seis em seis anos, e assim por diante, e isso trazia palpitações ao diretor.
Desse modo, quando a fuga de Avery foi descoberta, todos os guardas disponíveis foram imediatamente despachados para as estradas, e bloqueios de tráfego foram montados para revistar os veículos que saíam da área. Presumiu-se que, como os outros antes dele, aquele fugitivo em particular se encaminharia para a estrada mais próxima e faria sinal para um carro parar, pedindo carona, ou roubaria o veículo. Fazer alguma coisa diferente era estúpido e perigoso, até mesmo no verão.
Tendo assumido esse ponto de vista, o diretor pensou em outra coisa: os fugitivos exerciam má influência na equipe de segurança, o que diminuía seu moral.
O diretor era um homem bom e queria manter o máximo de autoridade possível.
Se pelo menos Avery fosse recapturado dentro das próximas horas. Se pelo menos o fato de um conhecido ex-assassino de crianças ter ultrapassado o muro fosse mantido longe da imprensa até ele estar de novo preso dentro daqueles mesmos muros...
O diretor era um homem bom.
Mas fez uma escolha ruim.
Não chamou a polícia.
A primeira meia hora de liberdade de Arnold Avery, depois de 18 anos na prisão, foram os piores trinta minutos de sua vida.
Assim que se ergueu da queda de 3 metros de altura, ele entrou em pânico.
Esse sentimento o agarrou pela garganta e apertou-a; ele saiu correndo cegamente pela charneca, o terror fazia com que gemesse cada vez que parava para recuperar o fôlego, fôlego de alguém fora de forma. Suas pernas queimavam, sentia punhaladas nos pulmões, tudo isso a 400 metros do muro da prisão. Anos sentado em sua cela, pensando, não ajudaram em nada seu tônus muscular.
Cambaleou, arfou e gemeu até que sua própria autodisposição finalmente expulsou o pânico e forçou-o a parar, readquirir o controle e avaliar a situação.
Seu pânico não tinha razão de existir. Por mais que olhasse para trás, ele não viu sinais de perseguição. A própria prisão se dissolvera atrás dele como um sonho ruim.
Construída numa grande depressão natural do terreno, o presídio de Longmoor era uma monstruosidade de pedra do tamanho de um vilarejo, mal sendo avistada pelos milhares de excursionistas e turistas que enchiam a charneca todo verão. Num minuto estavam caminhando tendo como companhia apenas uma relva amarela baixa e pálidos afloramentos de granito; no minuto seguinte estavam olhando para um grande círculo cinza-escuro dentro de uma cratera, muitas vezes com tetos e chaminés pontiagudos atravessando o nevoeiro, como se toda a prisão estivesse afundando num lago de leite sujo.
Naquele momento, sem a vista da prisão e apenas a charneca ensolarada em torno de si, Avery sentiu o pânico se esvair e espalhar com a ajuda da brisa revigorante. Naquele lugar ele percebeu a súbita e hilariante empolgação de estar livre.
Teve um quase irresistível desejo de estender os braços e sair rodopiando vertiginosamente pelas encostas.
Diferentemente dos que o haviam precedido na fuga, ele não tinha a intenção de fazer sinal para um carro parar, ou tampouco se aproximar de uma estrada, se pudesse evitar.
Teria pensado em furtar um carro, mas era um serial killer, não um ladrão de carros comum, e não tinha ideia de como fazer uma ligação direta num veículo, ou sequer como invadi-lo sem ter que bater com um tijolo no vidro da janela.
Pela primeira vez em 18 anos, Avery se arrependeu de ter se isolado dos outros prisioneiros. Ele poderia ter aprendido muito. Tarde demais agora.
Torceu para que nunca precisasse de um carro. Mas sabia que no instante em que começara a correr, o relógio passara a marcar o tempo. Logo o seu rosto estaria nas telas da TV. No dia seguinte, pela manhã, estaria na primeira página de todos os tabloides.
Avery usava a camisa de listras azuis e brancas fornecida pela prisão e calça jeans azul-escuro. Desejou ter conservado o suéter porque, embora fosse verão, o sol ainda não havia aquecido o ar. Sabia que esse desejo seria ainda maior quando caísse a noite.
Passou por dois carneiros pastando no gramado vasto e imaculado da charneca. Nenhum dos dois se dignou a lançar-lhe um olhar.
Agora ele caminhava devagar, sem saber para onde, apenas reorganizando seus pensamentos enquanto seguia adiante.
Sua garganta já estava relaxada e fria o bastante para ele poder apreciar adequadamente o ar claro, fresco, que não cheirava ao jantar de hoje ou às meias de ontem. Era uma sensação intoxicante e ele chegou a ficar tonto ao inspirar fundo para dentro dos pulmões aquele ar, sentindo-o pressionar as pontas dos dedos, como que substituindo a atmosfera estagnada da prisão.
Por não ter sentido uma ânsia de escapar até receber a foto que SL lhe enviara, Avery tinha apenas uma vaga ideia do que o esperava. Sabia, por exemplo, que o sul e o leste de Dartmoor eram coalhados de pequenos vilarejos, alguns com pouco mais de um punhado de casas em torno de uma agência de correios ou uma parada de ônibus coberta. Também sabia que o norte e o oeste da charneca tinham uma população ainda menor. Além disso, ele só sabia que em algum lugar, entre ele e a borda norte de Dartmoor, havia quilômetros de um terreno desolado e difícil, intercalando rochas e lodaçais. Juntando isso ao tempo imprevisível, não era de admirar que outros fugitivos preferissem as estradas, a despeito da maior probabilidade de serem apanhados, ao considerarem a menor probabilidade de morrerem.
Mas agora que ultrapassara o muro, Avery não tinha nada a perder e tudo a ganhar evitando ser recapturado.
Tudo mudara. Se fosse novamente preso agora, ele perderia os 18 anos de bônus conquistados por ter sido um prisioneiro modelo. Sua chance de liberdade condicional era agora precisamente zero, e ele apodreceria na prisão por mais 25 ou 30 anos talvez, retornando a algum lugar como a prisão de Heavitree, onde passara os primeiros 16 anos de sua sentença afogado no medo e na imundice.
Ele preferia morrer a voltar para lá.
Avery percebeu com um pequeno sobressalto que aquilo era verdade, e depois o sobressalto transformou-se numa acalentadora certeza. Havia algo de estimulante em ter ficado com apenas uma opção. Isso colocava a mente em foco.
— Que manhã linda!
Ele se virou e viu um homem de meia-idade, acompanhado por uma mulher que Avery presumiu que fosse a esposa, a apenas uns poucos metros de distância. Ambos carregavam bastões de caminhada, mochilas para passar o dia e invólucros com mapas. Os dois usavam shorts cáquis sobre as pernas enrugadas, as dele magras e peludas, as delas teimosamente gorduchas.
Graças a Deus parara aquela corrida desesperada. Eles certamente teriam notado.
— Sim. — Ele assentiu com a cabeça, concordando plenamente.
— Vai fazer calor.
— Sim — disse ele de novo, sentindo que deveria fazer uma contribuição maior à conversação, mas sem saber o que dizer.
— Nós estamos indo para Great Mis.
Avery notou que agora os olhos do homem o examinavam da cabeça às botinas fornecidas pela prisão, procurando algum indício de que ele era um excursionista e começando a suspeitar ao não encontrar nada nesse sentido. Avery ficou momentaneamente contente por ter jogado fora o suéter; o cinza-escuro com a reveladora faixa azul na bainha o denunciaria num instante.
— E você? — perguntou o homem, mostrando interesse.
Os neurônios de Avery, recentemente ativados, felizmente reagiram rápido.
— Ah, eu não estou caminhando — respondeu ele num tom que poderia fazer os dois excursionistas se sentirem idiotas de terem pensado tal coisa. — Estou só esticando as pernas. Estou a caminho de meu trabalho em Tavistock, e pensei em aproveitar... — ele fez um gesto abrangente com o braço — ... tudo isso. Meu carro está bem ali depois daquela encosta.
Ambos olharam para a encosta, depois de novo para ele, e Avery lhes deu um sorriso especial. O homem não chegou a sorrir de volta, embora tenha balançado a cabeça aceitando a explicação, mas a esposa se abriu toda num sorriso, olhando para ele com felicidade.
— Ah é, hoje o tempo está muito bom para se ficar enfiado num carro ou num escritório.
Depois eles balançaram a cabeça, achando finalmente um terreno em comum, em todos os sentidos.
A esposa cutucou alegremente o marido com o bastão.
— Vamos então, paizinho.
O homem deu um pequeno sorriso e levantou as sobrancelhas para Avery antes de começar a andar.
— Boa caminhada para vocês — falou Avery vendo os dois se afastarem, e eles se voltaram para acenar para ele.
O fugitivo soltou um suspiro de alívio. O encontro poderia ter sido constrangedor e, o que é mais importante, demorado em excesso.
Ele sabia que o tempo era importantíssimo. Havia coisas que precisava fazer, coisas que preferia não ter de fazer. Desejava apenas se dirigir para o norte e continuar andando, mas a despeito do pânico inicial por estar livre, já imaginara um plano. Agora tinha apenas de segui-lo.
Tinha de dar a si mesmo a melhor chance possível de sucesso. Precisava aproveitar ao máximo seu tempo de fuga.
Precisava enviar um cartão-postal.
Avery caminhou três horas antes de ver o vilarejo, e quando isso aconteceu, estava tremendo. O sol que anunciara sua liberdade era agora um disco fino, pálido, num céu branco e esfumaçado.
Não era exatamente um vilarejo, e ele nunca soube o nome do lugar, porque não se aproximou dele pela estrada. Foi bordejando a charneca por sobre as vinte e tantas casas de formato estranho até que viu a loja, então desceu e passou entre as casas para chegar lá.
A loja era muito pequena, apenas a sala da frente adaptada de um bangalô de dois andares, com paredes salientes e cristal nas janelas. Um cartaz do Western Morning News o fez sentir-se subitamente como se viajasse ao passado. A manchete dizia: CHARLES E CAMILLA VISITAM PRYMOUTH. Coitados, pensou Avery.
Uma estante rotativa em mau estado fora da loja mostrava cartões-postais amarelados. A maior parte era de Dartmoor, com carneiros ou lindos bangalôs de telhados cor-de-rosa, mas havia um compartimento que tinha diversos cartões iguais, mostrando Exmoor coberta por um tapete de urzes arroxeadas. O estômago de Avery contraiu-se com a visão. Ele pegou todos os seis cartões da estante e meteu-os no bolso de trás. Depois pegou outro cartão, mostrando carneiros de Dartmoor, e entrou na loja.
Embora o céu tivesse ficado encoberto, seus olhos ainda precisaram se ajustar à penumbra interna. Havia uma estante de jornais numa parede, prateleiras com mercadorias na outra e um freezer cheio de sorvetes no meio da loja. Avery pôde ver que as prateleiras estavam abarrotadas com uma espantosa variedade de coisas: detergente em spray, papel higiênico, comida para cachorro, barras de chocolate, latas de molho curry, pregos, Band-Aids, Coca-Cola, escovas de limpeza...
Uma olhada para o freezer de sorvetes mostrou que a maior parte dele continha ervilhas congeladas e pedaços de galinha. No canto ele reconheceu um pirulito de marca conhecida, e nada mais.
Havia um pequeno balcão e uma máquina registradora arcaica, mas ninguém para atender, de modo que ele abriu uma garrafa plástica de 1 litro de água e sorveu diversos goles. Havia uma caixa de esmolas em cima do balcão com o letreiro BARCOS SALVA-VIDAS RNLI. No meio de Dartmoor? Quem se importava com aquilo? Ele balançou a caixa rapidamente e quase sorriu; aparentemente, ninguém.
— Tudo bem? — Uma garota alta e magra de uns 15 anos deslizou para dentro da loja e desabou numa cadeira de cozinha atrás do balcão.
— Oi — disse ele. — Você tem cartões-postais de Exmoor?
— Os cartões estão ali fora.
— É, eu sei. Eu dei uma olhada. Mas não vi nenhum de Exmoor.
Ela olhou para ele com expressão vazia.
— Estamos em Dartmoor.
— Eu sei. Quero um cartão de Exmoor.
Ela olhou para a porta como se o cartão-postal de Exmoor fosse chegar a qualquer minuto.
— Não temos um?
Avery respirou com força. Controle. Paciência. Lições valiosas.
— Não.
A garota deu sinais de impaciência e ficou subitamente de pé. Avery viu que ela usava calça jeans justíssima nas pernas mais finas que ele vira na vida. E umas ridículas sapatilhas de balé. Ela passou por ele com um andar preguiçoso, sem nem lançar-lhe um olhar de volta, e saiu da loja.
Ele ficou observando a garota rodar ruidosamente a estante no seu eixo enferrujado, os olhos azuis ligeiramente saltados, e depois cerrar as sobrancelhas para os cartões, mordiscando um cacho de seu cabelo castanho-claro.
Ela era velha demais para ele. Sua inocência já fora perdida, ou estava bem escondida atrás do tédio e da idiotice. Isso o fez odiar ainda mais a garota parada ali, mão no quadril, olhando para os cartões postais que ele já examinara.
— Não vejo nenhum — disse ela, finalmente.
— De fato — concordou ele.
— Desculpe. — Ela não parecia estar pedindo desculpas. Ele gostaria de fazê-la pedir desculpas, seria muito fácil, mas ele não queria perder tempo.
Avery a seguiu de novo para dentro da loja.
— Você pode ver se tem algum em estoque?
— Acho que não.
— Pode checar para mim?
Ela jogou o cabelo no ar como resposta. Ele precisou reunir toda a força para manter o autocontrole.
— Por favor?
Ela fez um som de irritação com os lábios e desapareceu pela porta interior. Ele a ouviu subindo ou descendo alguns degraus de madeira, um andar surpreendentemente firme para uma garota tão magra. Isso fez ele perceber que ela estava fora de vista.
Ele sorriu, depois se inclinou sobre o balcão e apertou a tecla ABRIR da velha e suja máquina registradora que parecia mais uma caixa de dinheiro elegante. Havia 60 libras em notas de 10. Avery pegou três delas e um punhado de moedas de uma libra. Da última vez em que estivera numa loja ainda existiam notas encardidas, verdes, de 1 libra.
Ele observou um suéter cardigã verde-claro pendurado nas costas de uma cadeira e o enfiou em uma sacola plástica.
Encheu o restante da sacola com bolos, amendoins, alguns sanduíches já prontos de queijo e tomate e água; depois se afastou da porta para ficar fora da vista de quem passasse pela calçada. Pegou um caneta esferográfica mastigada do balcão e escreveu alguma coisa em um dos cartões-postais de Exmoor.
Ele ouviu a garota subindo e descendo os degraus de novo e meteu o cartão de Exmoor no bolso no momento em que ela reaparecia.
— Não temos!
— Ah, bem. Eu vou levar esse aqui, por favor. E um selo de primeira classe.
A garota serviu-o de má vontade e ele pagou pelo cartão com a imagem dos carneiros com uma única moeda de uma libra, colocando o troco na caixa de doações do RNLI.
Fora da loja ele tentou lamber o selo, mas viu que ele já estava com cola, uma novidade à qual precisava se ajustar.
Ao colocar o cartão-postal de Exmoor na caixa de correio, percebeu que a hora de coleta da correspondência seria dali a apenas meia hora. Avery não era louco, ele sabia que isso não significava que Deus estava do seu lado. Mas também sabia que Deus sequer se importava, tanto com um lado quanto com o outro.
Quando se achou a uma distância razoável do vilarejo ele sentou-se na relva tosada pelos carneiros, comeu três tortinhas de cereja e bebeu um terço da água. O açúcar espalhou-se pelo seu sangue e fez com que se sentisse forte e confiante. O sol surgiu e o aqueceu, então ele se deitou de costas e espreguiçou-se como um gato no telhado de uma garagem.
Levantou um quadril, tirou um dos cartões-postais remanescentes do bolso de trás da calça e abriu o zíper.
* * *
Vinte minutos mais tarde, Avery levantou-se e examinou os arredores mais um vez.
Não procurou se orientar da maneira tradicional. Não precisava fazer isso. Sentia uma atração estranha, irresistível em seu peito e não podia fazer nada a não ser segui-la.
Com o sol agora aquecendo suas costas, Arnold Avery, serial killer, apertou o passo e seguiu para o norte.