O Túmulo Sob as Colinas
Dedicatória
Para minha mãe, que nos deu tudo e nunca achou que era o
bastante.
1
A charneca de Exmoor gotejava com samambaias sujas, relva áspera e descolorida, tojo espinhento e urzes do ano anterior. Tudo tão escuro que um incêndio parecia ter varrido a paisagem, levando consigo as árvores e deixando a charneca fria e exposta para enfrentar o inverno de forma desprotegida. A garoa dissolvia o horizonte ao redor e mesclava céu e terra num casulo cinzento, em torno da única coisa visível na paisagem: um garoto de 12 anos, metido numa calça preta impermeável, mas sem chapéu, sozinho com uma pá.
Chovera durante três dias, mas as raízes da relva, das urzes e dos tojos contorcidas no solo ainda resistiam aos golpes da pá. A expressão de Steven não mudava; ele enterrava a lâmina na terra de novo, sentindo uma pequena e prazerosa vibração pelo impacto, que subia até suas axilas. Dessa vez, ele deixou um buraco, uma pequena marca humana na grande faixa de terra ao seu redor.
Antes que pudesse fazer o buraco seguinte, a primeira faixa estreita cavada já se enchera d’água e desaparecera.
* * *
Três garotos caminhavam despreocupadamente, enfrentando a chuva do vilarejo de Shipcott, as mãos nos bolsos, os capuzes cobrindo os rostos, os ombros curvados, como se estivessem ansiosos para fugir dali. Mas não tinham lugar algum para ir, de modo que perambulavam, esbarrando uns nos outros, rindo e dizendo palavrões em voz alta, a troco de nada, apenas para que o mundo soubesse que eles existiam e que ainda tinham expectativas.
A rua era estreita e sinuosa. No verão, turistas passeavam e sorriam para os terraços pintados com cenas marinhas, as portas se abrindo diretamente na calçada, as venezianas esquisitas. Mas, por causa da chuva, as casas amarelas, cor-de-rosa e azul-celeste se tornavam um lembrete esmaecido da luz do sol e um refúgio apenas para os que eram jovens demais, velhos demais ou pobres demais para ir embora.
A avó de Steven olhava pela janela com o olhar fixo.
Ela começara a vida como Gloria Manners. Em seguida, tornou-se a esposa de Ron Peters. Depois disso ficou sendo a mãe de Lettie, e então de Lettie e Billy. Decorrido muito tempo, passou a ser conhecida como a Pobre Sra. Peters. Agora, ela era a avó de Steven. Mas, no fundo, sempre seria a Pobre Sra. Peters; nada poderia mudar isso, nem mesmo seus netos.
Acima das meias cortinas, a janela da frente recebia o impacto da chuva. As casas ao longo da rua já haviam acendido as luzes. Os telhados eram tão diferentes quanto os muros. Alguns ainda tinham antigas telhas de porcelana, ásperas com o musgo. Outros, a ardósia plana e cinzenta que refletia o céu aquoso. Por sobre os telhados, a parte mais alta da charneca mal era discernível através do nevoeiro, uma coisa suave e arredondada quando vista à distância. Do calor de um cômodo à frente, com aquecimento central e uma chaleira que começava a assobiar na cozinha, aquele lugar até parecia inocente.
O mais baixo dos garotos bateu na janela com a palma da mão e a avó de Steven recuou, amedrontada.
Os meninos riram e correram, embora ninguém os estivesse perseguindo. Sabiam que dificilmente alguém faria isso.
— Velha intrometida! — gritou um olhando para trás, apesar de ser difícil saber qual deles, pois os capuzes estavam puxados sobre o rosto.
Lettie correu para a sala, sem fôlego e assustada.
— O que foi isso?
Mas a avó de Steven voltara à janela. Ela nem mesmo desviou o olhar para a filha.
— O chá está pronto? — perguntou.
Steven saiu da charneca com seu anoraque no ombro e a camiseta ensopada soltando vapor pelo recente esforço despendido. A trilha aberta entre as urzes por gerações de andarilhos estava pesada de lama. Ele parou, a pá enferrujada pendurada no outro ombro como um fuzil, e olhou para baixo, na direção do vilarejo. As lâmpadas da rua já estavam acesas, e Steven sentiu-se como um anjo ou um alienígena, observando, ali do alto, as residências escurecendo, isolado das pequeninas vidas sendo vividas lá embaixo. Ele se esquivou por instinto quando viu os três garotos encapuzados correndo pela rua úmida.
Escondeu a pá atrás de uma pedra, perto dos degraus escorregadios que permitiam ultrapassar a cerca. A ferramenta estava enferrujada, mas mesmo assim alguém poderia furtá-la e ele não queria levá-la para a própria casa. Fazer isso daria margem a perguntas que ele não podia, nem ousava, responder.
Desceu a estreita passagem ao lado da casa. Agora já sentia o corpo esfriando e estremeceu aos tirar os tênis para lavá-los debaixo da torneira do jardim. Haviam sido brancos um dia, com detalhes azuis. Sua mãe ficaria furiosa se os visse naquele estado. Esfregou-os com os polegares e espremeu a lama deles, até que ficaram apenas sujos, então, sacudiu-os com força. A ação fez espirrar água enlameada na lateral da casa, mas a chuva lavou a sujeira rapidamente. As meias cinzentas usadas na escola estavam pesadas e encharcadas. Tirou-as; os pés de um branco pálido chocante.
— Você está ensopado.
Sua mãe o espreitava da porta dos fundos, o rosto tenso e os olhos azul-escuros sombrios como um mar do norte. A chuva batia no chapéu de palha que ela empurrara sobre o rabo de cavalo pequeno e funcional. Ela jogou a cabeça para trás para mantê-la seca.
— Eu fui pego pela chuva.
— Onde você estava?
— Com Lewis.
Aquilo não era, realmente, uma mentira. Ele estivera com Lewis logo depois da escola.
— O que você estava fazendo?
— Nada. Apenas...Você sabe.
Da cozinha, ele ouviu a avó dizer:
— Ele devia vir direto da escola para casa!
A mãe de Steven lançou um olhar severo para o filho encharcado.
— Esses tênis estavam novos no Natal.
— Desculpe, mamãe. — Ele fez um ar de arrependido. Aquilo quase sempre funcionava.
Ela suspirou.
— O chá está pronto.
Steven comeu o mais depressa que ousava e o máximo que podia. Lettie estava parada junto à pia, fumando e deixando cair as cinzas pelo ralo. Na antiga casa, antes que viessem morar com a avó, sua mãe geralmente sentava-se à mesa com ele e Davey. Ela costumava comer e conversar com ele. Agora, a boca de Lettie estava sempre cerrada, até mesmo quando fumava um cigarro.
Davey chupou o ketchup de suas batatas fritas e depois, cuidadosamente, empurrou cada uma para o lado do prato.
A avó cortou pequenos pedaços de seu peixe empanado, examinando todos eles com um olhar desconfiado antes de comê-los.
— Há alguma coisa errada com o peixe, mamãe? — Lettie deu um peteleco na cinza do cigarro com força exagerada. Steven olhou para ela, nervoso.
— Espinhas.
— É filé. Está escrito na caixa. Filé de linguado.
— Eles sempre deixam alguma espinha passar. Todo cuidado é pouco.
Houve um longo silêncio durante o qual Steven ouvia o som do próprio alimento dentro da cabeça.
— Coma as batatas, Davey.
Davey fez uma careta.
— Estão todas molhadas.
— Você devia ter pensado nisso antes de chupar as batatas, não é? Não é?
Enquanto ela repetia a pergunta, Steven parou de mastigar, mas o garfo da avó raspava o prato.
Lettie foi rapidamente para o lado de Davey e apanhou uma batata molhada.
— Coma!
Davey balançou a cabeça e seu lábio inferior começou a tremer.
Com uma má vontade reprimida, a avó murmurou:
— Deixar comida. Hoje em dia as crianças nem sequer imaginam a sorte que têm.
Lettie inclinou o corpo e deu um forte tapa na coxa nua de Davey, abaixo da linha do short. Steven observou a marca branca da mão dela na pele do irmão logo ficar vermelha. Ele amava Davey, mas ver alguma outra pessoa que não ele próprio se meter em problemas sempre lhe dava uma pequena emoção. Naquele momento, ao ver a mãe arrancar o irmão da cozinha e fazê-lo subir as escadas, chorando até não poder mais, Steven sentiu como se tivesse, de certo modo, recebido uma honra. A honra de ter sido poupado da irritação contida da mãe. Só Deus sabe com que frequência ela descarregava em cima dele o ressentimento contra a avó. Mas isso era mais uma prova daquilo que Steven vinha esperando que acontecesse já há algum tempo: que Davey enfim tivesse 5 anos e fosse velho o suficiente para sofrer seu quinhão de punições. Não era uma reserva profunda, ou perigosa, mas caramba! Sua mãe tinha pavio curto e, aos olhos de Steven, uma punição compartilhada era uma punição pela metade. Talvez até mesmo uma punição evitada por completo.
Sua avó ainda não parara realmente de comer, embora cada porção que colocava na boca parecesse um campo minado.
E, apesar de os soluços de Davey já soarem abafados agora, Steven procurou contato visual com a avó. Por fim, ela olhou para ele, dando-lhe uma chance de revirar os olhos, como se o fardo do garoto travesso mais novo fosse compartilhado e isso os deixasse mais unidos.
— Você não é melhor do que ele — disse ela, e voltou a comer o peixe.
Steven corou. Ele sabia que era melhor! Se apenas pudesse provar isso à avó, tudo seria diferente; ele simplesmente sabia disso.
É claro, aquilo era culpa de Billy, como de costume.
Steven conteve a respiração. Podia ouvir a mãe lavando a louça, o ruído característico dos pratos e talheres enquanto a avó os enxugava, o raspar musical mais alto dos pratos saindo do suporte. Então, ele abriu, devagar, a porta do quarto de Billy. Cheirava a coisas antigas e doces, como uma laranja deixada sob a cama. Steven sentiu a porta fechar-se suavemente às suas costas.
As cortinas estavam cerradas, como sempre. Elas combinavam com a colcha quadriculada em tons claros e escuros de azul que contrastavam com o tapete marrom trançado. No chão, uma estação espacial Lego construída pela metade, e, desde a última vez que Steven estivera ali, uma pequena aranha tecera uma teia no que parecia uma rústica estação de atracação. Agora, o bicho estava lá, esperando capturar moscas satélites vindas do espaço exterior do lúgubre quarto.
Pregado à parede por cima da cama, um desbotado lenço de pescoço, branco e azul-celeste — as cores do Manchester City —, e Steven sentiu a familiar pontada de piedade e raiva de Billy, ainda um fracassado, mesmo depois de morto.
Steven se esgueirava para aquele quarto de vez em quando, como se Billy pudesse viajar através dos anos e sussurrar segredos e soluções ao ouvido do sobrinho, que já vivera para ver um aniversário a mais do que ele próprio, Billy, conseguira.
Havia muito tempo que Steven perdera a esperança de encontrar pistas de sua vida real.
A princípio, ele imaginara que o tio Billy poderia ter deixado alguma prova de uma premonição da própria morte. Um livro, Famous Five, com a ponta de uma página-chave dobrada; as iniciais “AA” rabiscadas no tampo de madeira da mesinha de cabeceira. O Lego espalhado para mostrar os pontos cardeais e um “X” indicando um lugar. Alguma coisa que, depois do acontecido, um garoto observador pudesse descobrir e decifrar.
Mas não havia nada. Apenas aquele cheiro de história e tristeza amarga e uma foto dos tempos de escola de uma criança magra, loura, com bochechas rosadas, dentes tortos e olhos de um azul-escuro quase se fechando pelo tamanho do sorriso. Passara muito tempo até que Steven percebesse que aquela foto devia ter sido colocada ali muito mais tarde; que nenhum garoto de mente sã tem uma fotografia de si mesmo na mesinha de cabeceira, a menos que o mostre segurando um peixe ou um troféu.
Há 19 anos aquele garoto de 11, provavelmente muito parecido com o próprio Steven, se cansara de seu jogo de fantasia espacial e saíra para brincar em um anoitecer quente de verão, aparentemente — revoltante — sem saber que jamais voltaria para guardar seus brinquedos ou para agitar o lenço do Manchester City diante da TV, numa tarde de sábado, ou até mesmo para fazer sua cama, a qual sua mãe, a avó de Steven, arrumara muito mais tarde.
Algum tempo depois das sete e quinze da noite, quando o Sr. Jacoby, da banca de jornal, lhe vendera um saco de bombons recheados de caramelo, o tio Billy saíra do reino do faz de conta da infância e entrara no reino de um pesadelo vivo. Nos 200 metros que separavam a banca de jornal de sua própria casa — os 200 metros que Steven percorria toda manhã e toda noite no trajeto de ida e volta da escola —, o tio Billy apenas desaparecera.
A avó de Steven esperara até oito e meia antes de mandar Lettie procurar o irmão, e até nove e meia, quando já escurecia, para ir ela mesma lá fora. Nas noites claras de verão, as crianças ficavam brincando até muito depois da hora usual de ir para a cama no inverno. Mas só quando Ted Randall, o vizinho da casa ao lado, disse que talvez ela devesse chamar a polícia foi que o apelido da avó de Steven mudou para sempre: de Mãe de Billy para Pobre Sra. Peters.
Desde então a Pobre Sra. Peters — cujo marido morrera estupidamente seis anos antes ao cair de bicicleta na frente do ônibus de Barnstaple — vivia esperando que Billy voltasse para casa.
No início, ela esperara na porta. Ficara parada ali o dia inteiro, todos os dias, durante um mês, quase não notando quando sua filha Lettie, de 14 anos, passava rente a ela para ir à escola e voltava às três e cinquenta da tarde em ponto para evitar que sua mãe se preocupasse ainda mais. Se é que tal coisa era possível.
Quando o tempo virou, a Pobre Sra. Peters passou a esperar na janela, de onde podia percorrer a rua com o olhar, para cima e para baixo. Ela apurou a visão, como fazem os cachorros, podendo enxergar até mesmo numa tempestade: alerta, olhos abertos e nervosa. Qualquer movimento na rua fazia seu coração saltar tão forte no peito que ela chegava a se encolher. Depois, ocorreu um colapso, quando o Sr. Jacoby, Sally Blunkett ou os gêmeos Tithecott se tornaram tão diferentes, que não havia rasgo de imaginação que os mantivessem parecidos com um garoto de 11 anos, bochechas rosadas, com cabelo louro cortado rente, tênis Nike novos e um saco de bombons recheados de caramelo, pela metade, na mão.
Lettie aprendeu a cozinhar, limpar a casa e ficar no seu quarto, de modo a não precisar observar a mãe vigiando a rua. Ela sempre suspeitara que Billy era o favorito, e então, na ausência dele, a mãe não tinha mais forças para esconder o fato.
Assim, Lettie construiu uma concha de raiva e revolta para proteger seu íntimo, que tinha 14 anos e vivia amedrontado, sentindo saudades do irmão e da mãe em igual medida, como se ambos houvessem sido arrebatados dela naquela noite quente de julho.
Como o tio Billy poderia não saber? Mais uma vez Steven sentiu aquela pontada de raiva ao olhar para o quarto sem pistas, sem vida. Como alguém poderia não saber que algo assim estaria prestes a acontecer com eles?