O Túmulo Sob as Colinas
Capítulo 10
Avery ficou surpreso. A carta não dizia nada! Não pedia, não pleiteava, não se oferecia para ajudá-lo nas suas audiências de liberdade condicional, a primeira das quais já acontecera sem a sua presença e resultara na sua transferência da prisão de Heavitree para a de Longmoor, de nível mais baixo de segurança.
Leu a carta de novo e uma raiva começou a ferver vagarosamente dentro dele. Sua própria carta fora descuidada e enigmática; ele sabia disso porque levara alguns dias para elaborar o tom preciso que queria transmitir: sem grandes informações para passar pelos censores, e contudo com algo bastante tentador, na esperança de levar um leitor inteligente e decidido a responder. A caixa de entrada de correspondência de Avery ficara vazia por 18 longos anos, e ele quase não tinha coragem de admitir, até mesmo para si próprio, a emoção que lhe acometeu receber uma carta. Ainda mais uma carta tratando de seu assunto preferido. E, o que era o máximo, receber uma carta de alguém ligado, de certa forma, à família de uma de suas crianças.
A primeira carta de SL abrira para Arnold Avery uma caixa de Pandora de lembranças e excitação. Ele começara com WP e examinara aquela lembrança sob todos os aspectos. Isso lhe tomara dias, e foram dias em que ele não estava mais preso à disposição de Sua Majestade, mas de posse de sua vida, quando o nariz cheio de veias azuis de Finlay perdera o poder de o provocar; dias em que receber um copinho de papel cheio de meleca, em vez da mostarda que deveria acompanhar seu hambúrguer, era como água passando pelas costas de um pato. Foram dias em que ele estava livre.
Então, ele voltou ao princípio e saboreou cada uma das crianças novamente, e prolongou seu êxtase até quase um mês.
E agora a carta.
SL prometera ser um correspondente sério, mas era provocador. Como uma mulher! Como uma criança! De fato, ele não ficaria surpreso se SL fosse uma mulher, afinal de contas! Como SL tivera coragem de iniciar uma correspondência e depois enviar aquela carta dizendo praticamente nada? Que se foda, SL!
Enraivecido, ele dobrou a única folha tamanho A5 para picá-la em pedacinhos, então notou algo nas costas da missiva.
Avery cerrou as sobrancelhas e levantou o papel contra a luz, mas isso fez com que a figura desaparecesse. Ele inclinou a página até que pudesse ver o que era. Seu coração saltou no peito.
Arnold Avery bateu com o punho fechado na porta da cela e pediu um lápis.
A folha A5 que SL usara era de boa qualidade. Melhor do que isso: era grossa, quase uma cartolina. Avery tivera lições de arte na escola e achou que aquele papel era usado para aquarelas, com um acabamento ligeiramente texturizado.
Ele levou bastante tempo esfregando as costas da carta com um lápis de ponta rombuda que lhe deram pela portinhola, depois de ele assinar um recibo.
Desenhando num outro pedaço de papel colocado sobre as costas da carta, SL, que agora ele voltara a achar se tratar de um homem devido à esperteza da comunicação, imprimira uma única linha sinuosa, mas de certa forma contínua, que descia pelo papel num grande laço. Dentro da linha estavam as iniciais LD e, um pouco abaixo destas, as iniciais SL.
O único outro símbolo impresso na página, além daquelas iniciais, era um ponto de interrogação.
Avery quase riu. A mensagem era infantil na sua simplicidade. Com uma linha e quatro letras, que não significariam nada para ninguém a não ser para ele, SL estava mostrando para Avery que sabia onde o corpo de Luke Dowberry fora encontrado, e onde ele, SL, se encontrava em relação àquela cova, e estava perguntando de novo onde estava Billy Peters.
Arnold Avery sorriu, feliz. Ele tinha uma correspondência.