O Túmulo Sob as Colinas

Belinda Bauer · Capítulo 41 de 45

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O Túmulo Sob as Colinas

Capítulo 41

 

Surgiram vozes e, de repente, Steven pôde respirar. Não foi algo dramático; não houve arquejos, apenas um pequeno som sibilante, entrecortado, quando ele começou a viver em vez de morrer. Olhou para cima, para o céu estriado de rosa, imaginando o que acontecera a Avery. Pensou vagamente em levantar e correr de novo, mas a cabeça parecia chumbo e havia um grande peso sobre suas pernas, comprimindo-o contra a charneca.

Se Avery aparecesse e tentasse matá-lo de novo, não havia nada que pudesse fazer para impedir, de tão fraco que estava. Na verdade nem se importava.

O suéter ainda enrolado em seu pescoço estava quente e reconfortante agora, e ele se sentiu enfraquecido e flutuando.

Ainda havia vozes. Perto, mas nem tanto. Não em cima dele. Eram vozes urgentes de homens, o tipo de voz que as pessoas usam nas cenas da TV quando alguma coisa preocupante acontece. Steven não se preocupou em saber o que estavam dizendo, mas ficou intrigado em saber porque não diziam aquelas coisas em cima dele. Talvez pensassem que estava morto. Não os culpava; ele pensara que estava morto. Talvez estivesse mesmo, embora achasse que não sentiria o tojo o alfinetando na parte inferior das costas se fosse o caso. Steven deixou a mente ser arrastada para longe da questão de sua morte. Era cansativo.

— Steven.

Isso era mais real.

Steven deu uma olhada para a direita e viu a mãe curvada sobre ele no seu velho robe azul.

Mamãe, ele queria dizer, mas não conseguia, apenas sentiu os lábios se abrirem rapidamente enquanto tentava, em silêncio. Ela segurava sua mão direita, o que fez Steven se sentir com 5 anos de novo. Tendo a mão segurada por ela, como Davey. Quase sorriu ao pensar nisso. Depois, parou de se importar. Estava cansado. Cansado demais para se importar. Talvez devesse dormir um pouco.

Porém, mais baixo do que as vozes, ele percebeu um ruído na orelha esquerda. Fez um esforço e virou a cabeça ligeiramente, fazendo uma expressão de surpresa. Bem junto de seu rosto, uma roda reforçada girava preguiçosamente contra o céu, alguma coisa caindo dela, mas não era água.

A coisa estava tão fora de contexto que ele sentiu que precisava saber mais. Devagar, por causa da dor e do esforço, virou a cabeça um pouco mais para a esquerda, e viu-se então olhando para um chinelo marrom com um tornozelo grosso dentro dele.

Era sua avó, deitada ali entre as urzes, ao lado dele, o carrinho dela entre os dois.

Lettie tocou de leve no rosto dele, mas todas as vozes estavam sobre a avó. Toda a atividade era dirigida à avó. Alguns homens do vilarejo estavam ao lado dela, um murmurando baixinho no rosto da velha e comprimindo os próprios lábios contra os dela, como um amante demonstrando seu afeto em público, outro apertava compassadamente o tórax da avó com os braços estendidos, um terceiro enrolando a própria jaqueta em torno das pernas dela.

O terceiro homem, o pai de Lewis, estava simplesmente parado ali, o olhar vazio, perplexo, e suas sardas estranhamente escuras contra o fundo de uma palidez doentia do rosto.

Um pouco atrás deles todos, quase escondido pelo nevoeiro espesso, estava Lewis.

Mas os olhos do amigo não encontraram os seus. Em vez disso eles se deslocavam arregalados de horror das pernas de Steven para o rosto do pai, e um choque de pânico fez Steven levantar de repente a cabeça para se certificar de que as pernas ainda estavam ali.

Estavam. Mas nos dois segundos que Steven pôde manter a cabeça levantada, ele tirou uma fotografia mental que ficaria com ele para sempre, por mais que tentasse esquecê-la.

Avery estava deitado de costas, atravessado sobre as pernas de Steven, as mãos frouxamente fechadas ao lado da cabeça.

E do que antes era seu rosto.

Agora havia apenas um coágulo de sangue, cabelo e osso esmigalhado na forma de um rosto. Apenas os olhos lembravam a aparência anterior, fendas verdes, opacas, como as de um gato morto.

A cabeça de Steven reclinou de novo para as urzes enquanto ele sentia sua infância se afastar dele, piscando um adeus na escuridão do passado, e sentiu lágrimas ardentes por subitamente ter se tornado um adulto. Sabia agora o que pingava da roda reforçada, e por que as sardas no rosto do pai de Lewis pareciam tão escuras.

 

* * *

 

Steven ficou olhando o céu avermelhado passar aos solavancos por cima de sua cabeça enquanto os paramédicos o tiravam da charneca.

Ele queria saber como estava a avó, mas falar parecia além de sua capacidade. Tudo que sabia era que, de alguma forma, ela subira a trilha com os homens que o resgataram, e que alguma coisa acontecera com ela por causa disso.

Por causa dele.

O pensamento trouxe lágrimas vermelhas aos seus olhos e tudo pareceu entrar num caleidoscópio.

Achara que morrer era o pior que poderia ter acontecido naquele dia, mas estava enganado. Alguma coisa acontecera com a avó.

Por causa dele. Por causa de seu plano. Por causa de sua armadilha. Por causa de suas cartas bem escritas. Na caixa dizia que era filé. Porque ele se comportara como um menino. Não como um homem, que teria feito tudo diferentemente, de maneira melhor.

Os dois foram colocados na mesma ambulância. A mão da mãe apertou a sua, ela disse que o veria num momento e desapareceu.

Dentro da ambulância, Steven pôde apenas ver que a avó tinha uma máscara de oxigênio no rosto, mas ele também tinha uma, de modo que isso não significava nada. Não lhe dava qualquer pista concreta.

Vovó, disse ele com os lábios, contudo o som ainda não conseguia se esgueirar pela garganta inchada.

Vovó.

Era difícil ver através do sangue nos olhos, de modo que não se preocupou em tentar. Fechou os olhos e perdeu a consciência mais uma vez, sentindo-se nauseado por causa dos sanduíches de tomate que Avery lhe dera.