O Túmulo Sob as Colinas
Capítulo 11
Quando ele era mais jovem, as coisas boas pareciam acontecer depressa demais para Avery. Elas morriam muito facilmente e muito cedo. Os pássaros que ele atraía para uma mesa com sementes e que prendia com uma rede eram desprezíveis por serem facilmente apanhados. Um ratinho branco de estimação de um amigo ficara ali parado, humilde e confiante, e fora esmagado com um pisão na cabeça. Os esforços desesperados de Lenny, o gato malhado de sua avó, foram inicialmente explosivos, mas se tornaram mais fracos rapidamente enquanto ele o mantinha sob a água, na banheira de um branco brilhante.
Nada disso constituiu um desafio para ele. Nenhum daqueles seres implorou, pediu, mentiu ou ameaçou. Claro, Lenny o arranhara, mas isso poderia ser evitado; o gato seguinte que ele afogou, de nome Bibs, um animal malhado de preto e branco, tentou arranhá-lo loucamente através das luvas de motociclista que ele furtara de uma liquidação de objetos particulares oferecidas aos compradores numa espécie de feira, nas malas abertas dos carros de um estacionamento.
Desde tenra idade, ele lia relatos de crianças levadas de carros e playgrounds e encontradas estranguladas apenas algumas horas depois e ficava confuso com o desperdício. Se alguém corria todo o risco de roubar o prêmio máximo, uma criança, por que assassiná-la logo depois do sequestro? Aquilo não fazia sentido para Avery.
Quando tinha 13 anos, ele trancou um garoto menor do que ele num velho depósito de carvão e manteve-o lá por quase um dia inteiro, com medo de machucá-lo, mas se deliciando com o controle que tinha sobre o outro. Timothy Reed, de 8 anos, rira, a princípio, depois perguntara, depois exigira, depois martelara as portas com os punhos, depois ameaçara contar, depois ameaçara matar, depois ficara muito, muito calado. Depois começara a implorar: a adulação, as promessas, as súplicas desesperadas, as lágrimas. Avery ficara excitadíssimo, tanto por sua própria ousadia quanto pelos patéticos gritos de Timothy. Soltou o garoto antes de escurecer e lhe disse que aquilo fora um teste e que ele fora aprovado. Ele e Timothy eram agora amigos secretos. Apavorado, o garoto, mais novo do que ele, concordou que Arnold era seu amigo secreto e que nunca contaria a ninguém o que acontecera.
E manteve o segredo.
Depois de umas poucas semanas de cautela, Timothy Reed começou a responder aos amistosos olás de Avery. Ele não podia deixar de aceitar os pequenos brinquedos furtados ou os doces obtidos da mesma maneira. Dois meses depois do incidente do depósito de carvão, Timothy ficou observando enquanto Avery torturava um garoto fraco de 9 anos, metido a valentão, levando-o às lágrimas e a um abjeto pedido de desculpas. O valentão espalhou a notícia no playground e Timothy ficou pateticamente agradecido por ter um garoto mais velho, maior, como aliado e protetor.
E, uma vez Timothy tendo-o considerado um herói, Arnold sentiu que chegara a hora de pedir-lhe o tipo de favor que somente um amigo muito próximo, muito secreto, pode conceder.
Arnold Avery abusou sexualmente de Timothy Reed até que as alterações no comportamento do garoto e as más notas na escola desencadearam investigações por parte dos pais e, logo depois, da polícia.
Assim, Arnold aprendeu sua primeira lição: a vantagem dos animais era que eles não podiam contar o que acontecia.
Com 14 anos, ele foi enviado para uma instituição de jovens que haviam praticado abuso sexual, onde cada noite de sua sentença de três meses, e certos dias também, foram gastos em aprender que o verdadeiro poder sexual não está em pedir e conseguir, mas sim em simplesmente ir e pegar. O fato de que estava inicialmente do lado doloroso da equação apenas estimulou o valor disso, sua segunda lição.
Ele voltou para casa, mas nunca chegou lá.
Foram precisos mais sete anos antes que ele matasse Paul Barrett, que tinha uma surpreendente semelhança com Timothy Reed, mas valeu a pena esperar. Ele manteve Paul vivo por 16 horas e depois enterrou-o perto de Dunkery Beacon. Ninguém suspeitou de Avery. Ninguém o interrogou, ninguém lhe deu um segundo olhar quando ele dava voltas e voltas no West Country dirigindo sua van, lendo os jornais locais, telefonando para as casas dos vilarejos, jogando conversa fora com as crianças que moravam ali.
E ninguém encontrou o corpo de Paul Barrett. Quando procuraram, fizeram isso perto da casa do garoto, em Westward Ho!
Então, Dunkery Beacon era um lugar seguro para enterrar um corpo, pensou Avery.
E ele fez bom uso dessa informação.