O Túmulo Sob as Colinas

Belinda Bauer · Capítulo 7 de 45

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O Túmulo Sob as Colinas

Capítulo 7

 

Arnold Avery parou de ler, recostou-se no seu catre e olhou para o teto branco enquanto as palavras giravam na sua cabeça como uma fórmula mágica.

Caro.

Sr.

Avery.

Há quanto tempo ele não recebia uma carta endereçada dessa maneira? Dezenove anos? Vinte? Certamente acontecera antes de ele estar cumprindo pena.

Desde que a viatura que o conduzia atravessara os portões da prisão de Heavitree, em Gloucestershire, e ele marchara para sua cela através de um corredor de cusparadas e ódio, recebera cartas que começavam de diversos modos: “Sr. Avery”, de seu desesperançado advogado de segunda categoria; “Caro filho”, de sua desesperançada mãe de segunda categoria. “Seu pedaço de merda do caralho”, com variações do tema, de muitos estranhos de segunda categoria, também desesperançados.

O pensamento lhe deu uma pontada de angústia. “Caro Sr. Avery” fez com que ele pensasse em contas de gás e vendedores de apólices de seguro, e em Lucy Amwell, que se ferrara tentando organizar uma reunião da turma da escola, como se todos eles tivessem sido criados na Califórnia em vez de uma espelunca nevoenta em Wolverhampton. Mas, ainda assim, eram pessoas que queriam ser amáveis com ele, interagir com ele, sem julgar, se lamuriar e fazer caretas com aquele olhar frio de nojo que não conseguiam esconder.

Caro Sr. Avery. Era isso que realmente era! Por que as outras pessoas não conseguiam ver isso? Ele leu a carta de novo.

Se Arnold Avery tivesse um companheiro de cela, este teria ficado muito espantado pela total imobilidade que acometeu de súbito aquele assassino de pequenos e indefesos seres humanos, um homem de compleição franzina. Era uma imobilidade ainda mais evidente do que o estado de sono, como se Avery houvesse entrado rapidamente em coma e o mundo continuasse girando independente dele. Seus olhos de um verde pálido ficaram semicerrados e a respiração tornou-se quase imperceptível. Aquele companheiro de cela também teria notado sua pele, há muito sem ver o sol, ficar toda arrepiada.

Mas, se tivesse acesso ao cérebro de Avery, esse hipotético companheiro de cela talvez ficasse chocado pelo súbito surto de atividade.

As palavras cuidadosamente manuscritas na página haviam explodido no cérebro de Avery como uma bomba. Ele sabia quem era WP, é claro, assim como sabia quem era MO, LD e todos os outros. Eram gatilhos na arma carregada de sua mente, que ele podia usar para disparar correntes de lembranças excitantes, sempre que quisesse. Seu cérebro era um arquivo com informações úteis. Agora, enquanto seu corpo se fechava para o exterior, com o intuito de permitir que sua mente funcionasse de forma mais eficiente, ele se permitia abrir a gaveta marcada com WP e dar uma olhada dentro dela, algo que não fizera durante anos.

WP não era seu favorito. Geralmente ele usava MO ou TD, que haviam sido os melhores. Mas WP não era para ser desprezado e, dentro daquela gaveta mental, Avery acumulava uma riqueza de informações obtida de sua própria experiência, de matérias de jornais e da TV sobre o desaparecimento da criança. Mais tarde, de seu próprio julgamento também — aliás, ele fora deslocado para o pitoresco Tribunal da Coroa, em Cardiff, supostamente para lhe dar uma chance de se defender, o que era risível quando se pensa no assunto.

William Peters, 11 anos. Cabelo louro numa franja sobre os olhos azuis-escuros, bochechas rosadas sobre uma pele clara e, num breve momento, um sorriso que quase engolia suas orelhas, de tão largo que era.

Avery parara na loja daquela porcaria de cidade. Comprara um sanduíche de presunto porque enterrar Luke Dewberry fora um trabalho que lhe dera fome. Por hábito, passara os olhos no jornal local, o Exmoor Bugle.

Jornais locais eram uma rica fonte de informação para um homem como ele. Eram cheios de fotos de crianças. Crianças vestidas como piratas em eventos de caridade; crianças que haviam ganhado medalhas de prata em competições nacionais de clarinete; crianças que haviam sido escolhidas para as seleções sub-13 anos, embora tivessem apenas 11; times inteiros de crianças em uniformes de futebol, críquete ou de corrida, cada uma com seu nome convenientemente impresso na legenda abaixo. Às vezes, ele telefonava para elas, fingindo ser um outro repórter querendo a história para outro jornal. Era muito fácil. Pais orgulhosos ficavam contentíssimos em explorar o sucesso insignificante de seus filhos e lhe entregavam o telefone. Apenas raramente eles arracavam o aparelho do ouvido do filho a tempo, alertados pela expressão chocada e confusa no rosto jovem.

Em algumas ocasiões, ele se aproveitava apenas do nome e dos detalhes de uma criança para iniciar uma conversa, escolhendo suas vítimas de modo aleatório em parques e playgrounds. “Quantos anos você tem? Você deve conhecer meu sobrinho, Grant? Aquele que acabou de ganhar um prêmio por ter salvado uma vida, sabe? É, ele mesmo. Sou tio dele, tio Mac.” Pronto, estava dada a partida.

Enfim.

Ele acabara de voltar para sua van com o sanduíche quando avistou William Peters — Billy, como sua mãe o chamou mais tarde nos jornais — entrando na loja. Avery apenas vira Billy de relance, mas valia a pena esperar até que ele saísse, pensou. Comeu o sanduíche de presunto enquanto fazia isso. Ele não comprara o Exmoor Bugle achando que era perto demais de onde morava. Não vivia em Exmoor, mas era ali que acabara de enterrar um corpo, de modo que fez uma anotação mental para evitar crianças locais. Mas havia alguma coisa em Billy...

O garoto demorou um pouco e, quando saiu, Avery teve certeza.

Agora, passado todos esses anos, ainda conseguia recapturar parte da emoção daquele momento quando identificava um alvo. O modo como tinha a ereção, sua boca cheia de saliva, a ponto de ter que engoli-la para não babar como um retardado.

Billy era um garoto meio magro, mas possuía uma vivacidade de criança pequena muito cativante. Ele foi se afastando da van de Avery, alegre e sem perceber que acabara de escolher a última refeição de sua curta vida, um saco de doces. Avery sorriu ao ver a criança descer a rua, mastigando as gulodices, chutando para a sarjeta uma garrafa de plástico de leite. Ele gostava de crianças cheias de confiança; era muito mais provável que uma criança confiante estivesse propensa a ajudar, inclinar-se pela janela somente um pouquinho mais...

Ele engrenou a marcha da van e seguiu pela rua, puxando o mapa para cima das pernas...

Avery estremeceu.

— Um fantasma passou por sua sepultura?

O guarda Ryan Finlay olhava para Avery com malícia pela janelinha, seu nariz de beberrão invadindo o espaço do prisioneiro; os olhos azuis aquosos indo de lá para cá. O assassino dentro da cela sentiu um nó de ódio por dentro.

— Sr. Finlay. Como vai você?

— Bastante bem, Arnold.

Avery odiou-o ainda mais.

Arnold.

Como se fossem velhos amigos. Como se, numa certa noite, em breve, Ryan Finlay pudesse lhe dar o braço no fim do expediente e dizer: “Vamos lá, rapaz, vamos tomar uns tragos na sala dos guardas.” Como se Avery pudesse apreciar uma diversão desse tipo, bebericando aquela mistura de cerveja escura e clara, cercado por uma floresta de guardas de pescoço grosso e cabeça dura, conversando sobre como era trabalhoso trancar e destrancar portas e conduzir a carneirada dócil entre os pavimentos.

— Alguma coisa interessante? — Finlay indicou a carta nas mãos de Avery com a cabeça. Naquele instante, ele sabia que o guarda já lera a correspondência, que ficara desapontado por não poder passar sua caneta preta grossa sobre qualquer coisa escrita, e que a pergunta era uma tentativa desajeitada de extrair informações sobre o que, de alguma forma, estava contido ali.

— É apenas uma carta, Sr. Finlay.

— Faz tempo que você não recebe uma, não é?

— É mesmo.

— Bem, isso é bacana.

— Não é?

Finlay demorou um pouco, pensando na próxima linha de ataque desajeitada.

— Notícias de casa?

— Sim.

De novo, Finlay ficou perdido por um momento. Demorou ao tirar algo que o incomodava da narina esquerda. Avery controlou-se de maneira admirável.

— Então, o que está acontecendo por lá?

Enquanto Finlay futucava o nariz, Avery previra essa pergunta e se preparara totalmente para ela.

— Nada especial. Meu primo. Ele é maníaco por computadores. Tem um velho processador de texto, um Amstrad. Diz que é artigo de colecionador, ou coisa assim. Sempre tentando me sacanear.

— Um nerd, não é?

— Um nerd. É isso aí.

Finlay olhou em volta, agindo de maneira casual.

— Você vai deixar que ele faça isso com você?

Avery deu de ombros. Depois sorriu, enfatizando as palavras:

— Veremos, veremos.

Finlay era guarda de prisão há 24 anos, mas, diante daquele sorriso, suas suspeitas se desvaneceram, e não pôde evitar a sensação de que ele e o prisioneiro, de repente, compartilhavam um segredo que era realmente algo maravilhoso.

 

Finlay interrompera a linha de seus devaneios, mas, na verdade, aquilo era uma coisa boa. Aqueles pensamentos eram bons demais para o dia. Era um trem noturno, embora não tivesse vagão-dormitório. Ele sorriu internamente ao pensar nisso. Voltaria a WP naquela noite; no momento, estava interessado nas possibilidades que aquela estranha cartinha representava. Possibilidades eram a primeira coisa que morria na vida da prisão. Eram cortadas assim que a porta da cela se fechava com um estrondo. E, para a maioria dos prisioneiros, elas nunca seriam recuperadas de modo adequado. Até mesmo homens que cumpriam só penas de meses ou de uns poucos anos descobriam, de repente, que as possibilidades de suas vidas haviam sido confiscadas como cadarços de sapatos. Antes, tinham esperança de empregos em escritórios; agora, só podiam esperar trabalhos braçais ou seguro-desemprego. Os internos viviam de acordo com um conceito de possibilidades inteiramente diferente. Para os condenados à prisão perpétua, elas significavam coisas ainda menores: a possibilidade de batata frita no lugar do purê , costeletas no lugar de carne moída.

Avery não sabia quem era SL, mas, para tornar as coisas mais claras, decidiu pensar em SL como um homem.

SL fora muito cauteloso com aquela carta. Havia sido esperto o bastante para perceber, ou aprender, que as cartas destinadas a pedófilos e assassinos compulsivos, ou as por eles enviadas, não transitavam sem que a caneta atenta do censor passasse sobre seus conteúdos. Assim, escreveu uma mensagem curta e enigmática, e também fora bastante inteligente para saber que simples iniciais significariam algo para Avery.

Mas, é claro, o endereço do remetente era a revelação involuntária. Logo que foi encarcerado, Avery recebera dezenas de cartas remetidas de Shipcott e dos arredores do vilarejo. A maioria delas continha insultos ou pedidos, e essas eram facilmente esquecidas, mas ele tinha uma da irmã de Billy Peters, se não lhe falhava a memória. Como interno, não podia guardar a enorme quantidade de correspondência. A carta em questão era comum, querendo saber o que acontecera a Billy; onde ele estava enterrado. Ela implorara que Avery acabasse com o sofrimento de, no caso, sua mãe. Ele escrevera de volta citando a encantadora coincidência, que Billy lhe implorara que fizesse o mesmo com ele.

Avery duvidava muito que a irmã de Billy tivesse recebido realmente sua carta. Essa convicção era reforçada pelo fato de que, no dia seguinte em que ele a postara na caixa de correio da prisão, ele fora levado para os chuveiros da ala B. Os guardas haviam dito a ele que os chuveiros da ala de segregação estavam tendo seus canos substituídos. A questão do conserto, junto com o vocabulário que a acompanhava, cheio de canos, buracos e desentupidores, parecia divertir muito os guardas enquanto eles o conduziam para a ala B. E, depois de deixá-lo sozinho nos chuveiros, nu, a não ser pela porcaria da toalha minúscula, padrão da instituição, ele compreendeu o porquê.

Ficara no hospital por duas semanas, a primeira delas sempre de bruços.

Ironicamente, havia apenas dois anos que os chuveiros na Unidade de Prisioneiros Vulneráveis, ali na prisão de Longmoor, tinham sido substituídos de verdade. Avery renunciou ao direito do banho durante os 12 dias em que as obras eram realizadas.

E, para ele, aquela havia sido uma decisão séria.

Arnold Avery odiava se sentir sujo. Odiava a sujeira corporal como se fosse uma peste. Às vezes, apenas ser tocado por outro prisioneiro ou um dos guardas já fazia com que fosse correndo para o banheiro para escovar as roupas e a pele.

Depois de cada assassinato e cada enterro, ele precisava se esfregar com força.

Limpeza era algo próximo à santidade.

O estrangulamento era o mais limpo possível, mas, ainda assim, algumas das vítimas vomitavam, algumas urinavam de terror, e algumas se comportavam ainda pior. Quando isso acontecia, o nojo tomava o lugar de sua paixão e o fazia odiá-las ainda mais por terem arruinado a experiência. Mais de uma vez ele precisou lavá-las com uma mangueira antes de terminar o serviço.

Uma vez mortas, as vítimas lhe causavam repulsa. Até mesmo as impotentes lágrimas que tanto o excitavam enquanto estavam vivas transformavam-se em repugnantes rastros de nojo nos rostos que esfriavam.

Enfim.

Ele não tinha certeza, mas pensou que era bem possível que a carta da irmã de WP tivesse vindo do mesmo endereço: rua Barnstaple 111.

Então, quem era SL? Um vizinho religioso? A mãe de WP? Um primo? Um neto? Um outro filho concebido muito mais tarde num esforço de criar uma nova família para preencher o buraco negro que Billy deixara? Avery meditou por um momento, mas todas as alternativas eram igualmente possíveis, de modo que não perdeu muito tempo pensando no caso.

“Caro Sr. Avery” era bom. “WP” era bom. O apelo para que o ajudasse era amável e ia direto ao ponto.

Mas o que mais impressionou Arnold Avery foi a palavra “sinceramente”.

 

A primeira carta que Steven Lamb escreveu para Arnold Avery lhe fora devolvida tão obliterada por uma grossa caneta Pilot preta que ficara ilegível. O censor desistira depois de três quartos do conteúdo e nem mesmo a passara ao prisioneiro. Simplesmente escrevera a palavra “inaceitável” sobre o último quarto e a mandara de volta a Shipcott.

Steven ficou humilhado. Sentiu-se como uma criancinha que tivesse sido apanhada tentando entrar com um bigode falso num cinema onde exibiam um filme proibido para menores de 18 anos.

Passaram-se dias antes que ele perdoasse a si próprio e recobrasse a confiança para fazer outra tentativa. Ele só tinha 12 anos, pensou; não podia esperar acertar na escrita de uma carta para assassinos em série logo da primeira vez.

No decorrer da semana seguinte, ele compôs a mensagem repetidas vezes na sua mente, cada vez podando, cortando e editando até que decidiu começar pela outra extremidade da escala de informação exigida. Isso resultou em 90 por cento da carta.

O que lhe tomou mais duas semanas foi a luta para ver se escrevia “sinceramente” ou “atenciosamente”.

Embora aquela fosse uma carta pessoal, na qual o nome do destinatário pretendido lhe era conhecido, “sinceramente” ficou entalado em sua garganta. Ele simplesmente não conseguia escrever isso.

No entanto, a Sra. O’Leary argumentaria sobre o uso do “atenciosamente”.

O dilema manteve Steven acordado durante noites e o fez ficar com o olhar vago, perdido no espaço, durante as aulas de história e geografia. Sua preocupação atingiu o ponto máximo quando ele se sentou ao lado de Lewis durante todo o intervalo entre as aulas sem dizer uma palavra sequer. Depois de três tentativas de iniciar uma conversa, Lewis o chamou de “punheteiro” e foi embora.

Steven sabia que precisava decidir por uma ou por outra fórmula.

Foi apenas quando realmente colocou a caneta no papel, usando letras maiúsculas o mais bem-desenhadas possível, que ele foi acossado de súbito por uma onda cerebral para escrever “sinceramente”, em vez de “sinceramente seu”. Isso resolveu todo o problema que o preocupava. Foi sincero no pedido, mas tinha absoluta certeza que não era “seu”.

Despachou a carta cheio de esperança. Dez dias mais tarde, recebeu uma resposta.