O Túmulo Sob as Colinas

Belinda Bauer · Capítulo 36 de 45

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O Túmulo Sob as Colinas

Capítulo 36

 

Avery chegara a Shipcott pouco depois das cinco da manhã.

Diferentemente das cidades de Bideford, Barnstaple e South Molton, Shipcott quase não mudara. Não havia novas estradas, minirrotatórias, novos sistemas de mão única. Cacete, essas novidades em Barnstaple lhe custaram quase metade de uma noite cheia de idas e vindas, onde ele voltara repetidamente à praça da cidade, parecendo fazer o mesmo percurso dez vezes, vindo de diferentes direções.

Finalmente ele parara num jornaleiro, metido no suéter verde de forma que escondesse o sangue no braço, comprara o Daily Mirror e pedira orientação.

Depois voltara para o carro e observara a primeira página, debaixo da manchete ASSASSINO DE CRIANÇAS À SOLTA. A foto era dele, embaçada, a mesma que ele vira anexada ao arquivo do Dr. Leaver. O próprio médico tirara a foto na sua primeira sessão, revelando que fora inteligente em se dedicar à psiquiatria de anormais, porque sua habilidade como fotógrafo deixava a desejar.

Não pela primeira vez ele agradeceu a Deus pela incompetência, mas sentiu uma pontada. Será que perdera a oportunidade? Se estava nas primeiras páginas daquele dia, então certamente deveria estar no jornal do dia anterior? Talvez SL já soubesse que ele fugira, ou fora prevenido para não sair de casa.

Sufocou o desespero que o pensamento desencadeara nele e checou o próprio rosto no espelho retrovisor. Ele só se parecia vagamente com a foto na primeira página do Mirror, e, ainda que fosse um sósia, a maioria das pessoas não é observadora. Avery se lembrou disso pelo que acontecera antes, de todas as vezes que poderia ter sido detido se pelo menos as pessoas houvessem mantido os olhos abertos, feito conexões, acreditado em seus instintos.

Ninguém fez isso. Às vezes ele se sentia invisível.

Rodar a esmo em North Devon, numa confusão de estradas novas, fizera o nível de combustível do carro baixar, e ele entrou num posto de gasolina. Enquanto batalhava com crescente ignorância com os botões, mangueiras e escolhas múltiplas, preparara uma história falsa de que era francês. Mas o garoto de olhos remelentos no guichê de pagamento mal olhou para ele, fazendo com que Avery economizasse um sorriso, uma mentira e um péssimo sotaque.

Assim que chegou a Shipcott, soube exatamente para aonde ir.

Passou pela loja do Sr. Jacoby e observou que agora era uma franquia. A globalização chegara a Exmoor, pensou ele, com um pequeno sorriso. A loja ainda não estava aberta, e do lado de fora havia pilhas de jornais para serem separadas e vendidas, quando então os residentes de Shipcott poderiam ter a imagem de seu rosto desfocado nas mãos e se prevenir contra ele.

Atravessou de carro o vilarejo adormecido. Ao entrar numa rua sem saída, ele notou que estava na Barnstaple, e seu coração começou a disparar, ainda que diminuísse muito a marcha, espreitando as casas, com as suas diversas variações cor de pêssego distorcidas pelo brilho das lâmpadas de sódio na madrugada cinzenta e monótona.

Número 109... 110... 111.

Avery parou o carro sem se preocupar em se aproximar do meio-fio, e ficou olhando para a casa onde morava SL.

Muitos anos atrás ele jogara pôquer. Na verdade, não sabia o que estava fazendo, e ficava nervoso ao perder e parecer bobo. Mas foi somente quando pegou um par de ases e viu dois outros serem postos na mesa é que começou a tremer. Foi assim que soube que o tremor que agora corria por suas mãos, pelos seus ombros e por suas bochechas, indo até os lábios, era uma coisa boa. Ele tinha uma mão de cartas imbatível.

Com o carro em marcha lenta, Avery ficou olhando para as janelas negras da pequena casa de aspecto ruim, e imaginou SL dormindo lá dentro; imaginou-se subindo sorrateiramente a escada e abrindo a porta de cada quarto, em silêncio, para poder observar os ocupantes, até encontrar SL, deitado descuidadamente e enfraquecido, à sua mercê...

Ele soltou uma lamúria e afastou a imaginação para longe, mais uma vez. Estava perto demais da realidade para desperdiçar esforços com especulações. Se o pior acontecesse e ele tivesse chegado tarde demais, então precisaria voltar ao número 111 da rua Barnstaple e se arriscar. Mas, por ora... O fantasma do descuido que terminara com seu divino passatempo pesava forte sobre Avery e o manteve atrás do volante, quando, de outra forma, ele poderia ter se aventurado chegar até o meio-fio, passar pela calçada estreita, entrar por uma janela destrancada...

Essa perda de controle o perseguira por 18 anos. Ele não iria repetir o erro.

Deixou o vilarejo para trás rapidamente e seguiu até o acesso a uma fazenda, a cerca de 100 metros da estrada. A vegetação estava tão alta que ele passou por ali três vezes antes de reconhecer o túnel escuro por baixo da sebe e entrar nele. O carro saltava e rangia avançando pela relva e pelo chão esburacado, e a pintura gemia em protesto por estar sendo estragada por sarças e ameixeiras-bravas.

Quando não pôde mais progredir, Avery saltou do veículo com a bolsa de novos suprimentos, colocou nela uma garrafa d’água e diversos sanduíches de queijo com tomate, e então seguiu a pé para a charneca.

Ele foi imediatamente tomado por uma sobrecarga sensorial composta da doce fragrância das urzes molhadas de orvalho e pela lembrança do suave peso de um menino nos braços. A lembrança, surgida de duas frentes, o deixou momentaneamente tonto de excitação, e ele precisou parar e se curvar, com as mãos no joelho, até que a respiração voltasse ao normal.

Precisava manter-se focado. Avery não tinha ilusões quanto ao seu futuro. Ele sabia que não poderia continuar fugindo por muito tempo, especialmente depois do que planejara. Embora tivesse se esforçado e esperado tanto tempo pela liberdade legítima, ele não tinha experiência da vida de um fugitivo, e também não tinha desejo de se tornar um. Depois do evento, sua vida realmente terminaria. Seu único objetivo agora era continuar no controle ao menos para fazer com que a efêmera liberdade houvesse valido a pena.

Aos poucos, ele sentiu aquele ímpeto se esvair e o autocontrole voltar. Sabia que devia ficar atento; somente a emoção de estar na charneca já era quase avassaladora. Associada à lembrança dessa trilha coberta de vegetação e as possibilidades que o esperavam, o puro esforço que fazia para se manter calmo fez com que suasse. Seu braço latejava e doía onde o misterioso sulco abrira a carne e ele sentia-se um pouco zonzo, mas ignorou aquilo. Achou que o ferimento estava pior do que realmente aparentava e não se importou de estar enganado; aquilo não ia pará-lo. Nada iria.

Começou a subir a encosta de novo. Seus pensamentos se chocavam com o ruído no vidro enfumaçado de sua mente, desesperados para se libertar e partir correndo como cachorrinhos inquietos. Foi preciso respirar fundo e começar a contar para trás a partir de mil.

982... 981... 980... 979...

Parou e começou a contar de novo, do início.

Assim, concentrado em manter a contagem certa, Avery conseguiu permanecer controlado durante todo o trajeto até Blacklands.

Encontrou o montículo com facilidade.

Havia nevoeiro no vale abaixo, escondendo Shipcott, mas ali em cima o ar estava claro e logo o sol surgiria.

Os últimos vestígios da noite haviam se esvaído e deixado um céu pálido, limpo, no qual o sol surgia preguiçosamente no horizonte.

Ele subiu no montículo e olhou para baixo.

A excitação tomou conta dele e Avery cerrou os punhos até os nós dos dedos ficarem brancos, então os roçou nas próprias coxas para permanecer são por mais algum tempo.

Não estava certo se conseguiria fazê-lo.

Gemeu e mordeu o lábio. Sua respiração estava entrecortada no peito e o coração batia descompassado nos ouvidos e nas cavidades sinodais.

Bem ali. Ele estava bem ali. Um lugar que pensara que nunca mais veria de novo. Tudo tinha valido a pena. Se eles o derrubassem agora e o arrastassem para fora da charneca num leito de fogo, ainda assim teria valido a pena, só para ficar ali parado e sentir o cheiro úmido das urzes e a terra molhada debaixo delas.

Sentiu o gosto do sangue que vazava de seu lábio até a boca. Ele não sabia como evitar que sua cabeça explodisse de vontade, mas sabia que precisava fazer isso. Queria que aquela sensação perdurasse o máximo possível; sabia que poderia ser ainda melhor se tivesse muita, muita sorte.

Mas naquele momento ele tinha de manter uma tampa naqueles sentimentos. Precisava dominá-los.

Fechou os olhos com força para apagar os estímulos visuais que o sufocavam.

Não estrague tudo.

Não estrague tudo.

Não estrague tudo.

Gemendo, suando e tremendo com o esforço, Avery foi vagarosamente readquirindo o domínio sobre Exmoor e o próprio corpo.

Seus gemidos diminuíram, e ele parou de arquejar a cada expiração; seus punhos se distenderam, deixando cortes em forma de meia-lua nas palmas, como pequenos estigmas.

Sentiu o ar da aurora enchendo seu corpo a ponto de explodir de vida e autocontrole. O sol o fez tremer de expectativa, enquanto a primeira cotovia lhe dava as boas-vindas.

Quando finalmente abriu os olhos, ele se sentiu como Deus.

Calmo. Paciente. Controlado.

Poderoso. Vingativo.

Estendeu uma sacola plástica num trecho de urzes brancas molhadas e se sentou suavemente, sentindo a charneca o abraçar como uma antiga amante.

Uma hora mais tarde, quando os meninos surgiram à sua frente, no nevoeiro, os olhos de Avery se embaçaram com a pura beleza daquela visão.

Eram como anjos emergindo de uma nuvem, para que ele pudesse dar as boas-vindas a eles no céu.