O Túmulo Sob as Colinas

Belinda Bauer · Capítulo 12 de 45

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O Túmulo Sob as Colinas

Capítulo 12

 

As urzes da colina haviam sido encharcadas pela chuva, e agora, curvadas, pingavam soturnamente na relva molhada enquanto Steven cavava.

Ele cavou dois buracos, depois comeu um sanduíche de queijo e cavou mais.

Desde aquilo que ele passara a chamar de “incidente com a mandíbula do carneiro”, a atividade de escavar perdera parte do seu apelo. Aquela enorme expectativa e a decepção subsequente colocara em evidência a inutilidade de sua missão. Agora, cada choque nos seus cotovelos, cada dor nas costas, cada lasca de madeira na palma da mão pareciam mais desgastantes.

Na raiz de seu novo e péssimo estado de ânimo estava uma incômoda insatisfação que o afastava de Lewis e o deixava impaciente com Davey. Até mesmo ali na charneca, onde o trabalho extremamente duro expulsava tudo de sua mente a não ser um certo tipo indistinto de exaustão, ele ficava insatisfeito e mal-humorado, embora não houvesse ninguém ali para ver seu mau humor, a não ser a pá e a interminável charneca debaixo de seus pés.

Não tivera mais notícias de Avery. Fazia quase duas semanas desde que enviara a carta com os símbolos no verso. Seria possível que houvesse sido cuidadoso demais? Tão cuidadoso que o próprio Avery não conseguira perceber a mensagem secreta? Será que o assassino do tio Billy simplesmente lera as palavras sem sentido na frente do papel e jogara a carta numa lata de lixo? Ou, se tivesse visto o mapa, será que entendera o que significava? Na mente criminosa de Steven, ele achara que dera bastante material para Avery ficar tentado a responder, mas talvez ele não tivesse decifrado o código. Ou talvez apenas não quisesse responder. Talvez não quisesse fazer as vezes de rato no jogo em que Steven era o gato provocador. Conforme se arrastavam os dias sem que chegasse uma resposta da prisão de Longmoor, Steven não conseguia evitar uma sensação aflita de fracasso. Desejava poder contar a Lewis os seus medos, mas sabia que isso era algo que devia manter em segredo. Ninguém mais entenderia o que ele fizera. De fato, Steven podia se ver arrastado para conversas constrangedoras se revelasse alguma coisa de sua correspondência.

Ele tomara precauções para ter certeza de ser sempre o primeiro a pegar as cartas. Elas chegavam cedo, por volta das sete da manhã, e Steven começara a acertar seu despertador para 15 minutos antes daquela hora, de modo que estivesse no alto da escada quando Frank Tithecott entrasse no caminho para sua casa. A última coisa que precisava era sua mãe ou avó pegando uma correspondência endereçada a ele. Steven nunca recebera nada particular pela caixa do correio, nem mesmo um cartão de Natal, e imaginava as perguntas que seriam feitas. Mas os momentos de espera desperdiçados, com os dedos dos pés congelando no alto da escada, ficavam para trás quando comparados com o crescente desapontamento.

Começou a cavar outro buraco, mas fizera apenas um pequeno corte no terreno fibroso quando jogou a pá no chão e, desconsoladamente, deitou-se ao lado dela.

Quase que instantaneamente a umidade começou a se infiltrar pelo tecido não impermeável de sua calça. A terra fria puxava-o para baixo e a vegetação úmida se curvava sobre ele, formando uma mortalha que pingava água. O suor resultante do esforço secou rapidamente, e ele começou a tremer.

Um mar de névoa estendeu-se silenciosamente por sobre a terra, num cobertor úmido cheirando a algas podres.

Steven sentiu-se afundando debaixo daquela vastidão cega. A imagem da galáxia lhe veio novamente à mente. Ele era um átomo de um micróbio de uma partícula de um grão de poeira na ponta de um alfinete no meio do nada. Momentos antes estivera de pé, forte e emanando calor. Agora, poucos segundos depois, era um cadáver insepulto, flutuando sem rumo no espaço. Avery tinha razão. Aquilo tudo não significava nada.

Os olhos de Steven ficaram superaquecidos e, sem qualquer aviso, ele começou a chorar. A princípio chorava apenas com os olhos, mas logo seu corpo seguiu o impulso e ele começou a soluçar e berrar como um bebê abandonado esticado ali entre a vegetação da charneca, o peito subindo, descendo e coçando, os músculos do estômago tensos com o esforço, as mãos frias e brancas curvadas em punhos frouxos, virados para cima, inertes.

Durante alguns minutos ele ficou ali deitado, chorando, não compreendendo que sentimento era aquele ou de onde viera, sua única emoção coerente sendo uma preocupação vaga, alienada, sobre se tinha ficado maluco.

Seu choro diminuiu e parou, os olhos quentes foram resfriados pela neblina que caía rodopiando silenciosamente do céu branco. Ele piscou e achou que o esforço estava quase além de suas forças. Um cansaço vazava de seu coração e percorria todas as partes do corpo, como chumbo, comprimindo-o contra a charneca. Por fim, não sobrou nada a fazer a não ser ficar deitado ali, esperando instruções.

Dentro de sua completa imobilidade física, a mente de Steven retornou a ele, um pouquinho de cada vez, depois de viajar para bem longe. Inicialmente, ele sentiu muita pena de si mesmo. Desejou que sua mãe viesse, o encontrasse e o envolvesse em uma felpuda toalha branca, carregando-o para casa e alimentando-o com caldo e pudim de chocolate. Um pequeno resto de soluço escapou dele quando se conscientizou de que isso não iria acontecer. Uma outra facada, mais fria, no seu coração disse-lhe que essa lembrança-desejo provavelmente nunca acontecera. Ele não tinha recordação de toalhas felpudas, de caldo ou de sua mãe o envolvendo em braços seguros e quentes quando estava molhado e frio. Tinha muitas lembranças de ela arrancando com rudeza suas meias molhadas, de ela gritando sobre a sujeira na cesta de roupas, usando uma das toalhas para secar seu cabelo com aspereza. Toalhas já finas, que eram penduradas à noite, mas sempre estavam úmidas pela manhã. Isso o levou a pensar no tapete manchado do banheiro, que hospedava no inverno grandes fungos avermelhados atrás da privada, como se o exterior estivesse vagarosamente se infiltrando dentro da casa, enchendo-a de coisas frias e rastejantes. Davey chorou quando viu os fungos pela primeira vez e molhou a cama, não querendo ir ao banheiro. Mas agora, como todas as outras lembranças, ele os ignorava. Às vezes, os dois irmãos chegavam mesmo a brincar sobre os cogumelos e o mofo, mas, com maior frequência, ao chegar da casa imaculadamente limpa de Lewis, o cheiro da umidade do próprio lar o atingia em cheio quando ele abria a porta da frente. Conseguia não sentir o odor nas próprias roupas, mas, em comparação com os cheiros de flor de sabão em pó emanando dos colegas de classe, ele tinha a desconfortável sensação de que carregava aquele fedor de pobreza com ele, como uma estrela amarela.

Nunca tivera a sensação de estar limpo. Não quando saía da charneca coberto de lama, nem quando saía dos banhos de água morna que compartilhava com Davey, nem quando se levantava da cama que dividia com o irmão e vestia a camisa da escola, a mesma do dia anterior.

O que acontecera com ele? Steven sentia a mente girar, confusa. Como aquilo acontecera? Aonde ele fora? Em algum lugar, de alguma forma, o garotinho que costumava ser desaparecera e fora substituído por aquela nova versão dele. O novo Steven não assistia à Luta do Dia ou fazia fila no Golfinho Azul para comprar 50 centavos de pedacinhos de maria-mole. Ele não queria Steven Gerrard no seu livro de recortes de astros do futebol mais do que a própria vida. O novo Steven estava ali fora, toda tarde, até o cair da noite, a terra colando no suor, comendo sanduíches bolorentos, cavando com dificuldade o solo com uma pá enferrujada e procurando a morte.

Havia três anos que essa tinha sido sua vida. Três anos! Ele se sentia como um homem que acabou de ouvir sua sentença. O pensamento daquele tempo desperdiçado se desenrolando atrás dele era muito chocante, como se eles ainda fossem acontecer. O que acontecera a ele? Aonde fora?

Juntamente com esse sentimento de autocomiseração veio uma raiva tão intensa que atingiu-o quase como algo físico. Estendeu um braço, simulando uma tentativa de defesa. A raiva o cegava. Num único movimento violento, Steven caiu de joelhos e passou a arrancar as urzes e a relva, puxando grandes punhados de vegetação, penetrando o solo com as unhas dos dedos, esbofeteando a grama misturada com a terra. Ele golpeava, malhava, chutava e socava enquanto elas respingavam a água da chuva sobre ele. Um som esganiçado que surgia no fundo de sua garganta era interrompido por pequenos sopros-gemidos que o mantinham vivo para aquele propósito: assaltar o próprio planeta.

Quando voltou a ter um pensamento consciente, Steven se viu ajoelhado, prostrado diante da natureza, a testa encostada no solo. Havia pedaços de vegetação nos seus punhos e na sua boca, como se ele houvesse tentado mastigar a terra.

Sentou-se vagarosamente e olhou para a tênue cavidade que sua histeria escavara na charneca. Uns poucos montículos de grama arrancada pela raiz, arbustos das urzes com seus caules quebrados, agora morrendo no solo, outros poucos trechos expostos, lamacentos, rapidamente se enchendo de água. Era nada. Menos do que nada. Um pônei batendo a pata à procura de relva do inverno, uma pequena corça deitada para dormir, ou um carneiro agachado para evacuar teriam deixado uma marca maior do que Steven em toda sua fúria.

Ele se levantou, abalado, debaixo do céu branco. A pá estava ali, onde ele a deixara cair há séculos, a caixa com o almoço e o mapa, jogados a uma distância próxima, artefatos estranhos que não faziam sentido para ele naquele nevoeiro de fim de mundo.

Virou-se para ir embora, mas não tinha ideia de onde estava. Três metros em todas as direções era o máximo de visibilidade para ele, e não havia nada adiante. Alguma coisa lá no fundo da sua mente de garoto comum evitou que ele saísse tropeçando cegamente naquele vazio serpenteante. Ele já ficara preso assim na charneca uma vez antes, envolto pelo nevoeiro e completamente perdido. Aquela brancura se infiltrava nele, até mesmo num dia ensolarado, com céu azul. Há dois anos ele se sentara ao lado de uma sepultura vazia por três horas, mergulhado numa total brancura, antes de o verão emergir e permitir que ele encontrasse o caminho de casa.

A lembrança trouxe Steven de volta para algo parecido com a normalidade e ele teve o bom senso de ficar onde estava.

Sentia frio, mas já sentira mais frio antes. Estava molhado, mas já estivera mais molhado. Não sentia fome, porém. Não estava ferido e, desde que não saísse caminhando como um idiota pelo nevoeiro, as coisas ficariam como estavam.

Lançou um olhar para baixo, na direção da pá, e ela lhe pareceu familiar novamente. Não uma coisa bonita, mas pelo menos era familiar.

A chuva caía de novo agora, e Steven levantou a caixa do almoço e colocou-a sobre a cabeça. A chuva caía amortecida pelas urzes, batia ruidosamente no seu crânio como se ele fosse um telhado de zinco.

Permanecer imóvel o deixaria com mais frio. Relutantemente, ele se inclinou e pegou a pá. Encontrou um lugar onde a primeira camada de terra já fora partida e meteu a ferramenta de novo ali. Foi um esforço meio desanimado, mas o próximo golpe com a pá foi melhor e, no quarto, Steven já voltara ao ritmo normal.

Quando o buraco já atingira a metade do planejado, Steven sabia que iria continuar sua busca, mesmo que o objetivo fosse meramente manter-se aquecido.

Cavar lhe dera um propósito na vida. Era um propósito pequeno, frágil, e não tinha muita probabilidade de terminar em outra coisa senão ir se afunilando até o nada.

Mas ter um propósito já era alguma coisa, não?

Uma vozinha malvada, vinda de algum lugar, importunava-o, dizendo que aquilo não significava nada. Que tudo não significava nada.

Mas Steven ouvia uma outra voz, mais forte. Ela não tinha respostas, apenas uma única pergunta, que o manteve cavando até bem depois que um despercebido sol surgiu no céu invisível.

Se tudo não significava nada, por que ele se importava tanto com aquilo?