O Túmulo Sob as Colinas

Belinda Bauer · Capítulo 2 de 45

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O Túmulo Sob as Colinas

Capítulo 2

 

Um ano depois do desaparecimento de Billy, um motorista de uma van de um serviço de entregas de Exeter foi preso por outro motivo, em outro lugar.

A princípio, a polícia apenas interrogou Arnold Avery depois que um garoto chamado Mason Dingle acusou-o de assédio sexual.

Não era a primeira vez que Arnold Avery expunha seus órgãos genitais para uma criança, embora, é claro, não fora isso que ele contara a princípio à polícia. Contudo, ao atrair Mason Dingle, de 15 anos, para sua van sob o pretexto de pedir orientação, Avery havia, involuntariamente, encontrado sua nêmesis.

O próprio Mason não era desconhecido da polícia. Sua pequena estatura e feições de menino de coro de igreja eram simplesmente uma mentira afortunada, que escondia o verdadeiro rosto do terror da área de Lapwing, em Plymouth. Pichações, extorsões por dinheiro, arrombamentos e invasões de propriedades, tudo isso estava no sangue de Mason, e a polícia sabia que era apenas uma questão de tempo antes que o jovem Dingle seguisse os irmãos na tradição da família: uma vida de contínuas detenções.

Mas, antes que chegasse lá — o que de fato aconteceu —, Mason Dingle ajudou a capturar o homem que os tabloides mais tarde apelidaram de o Estrangulador da Van.

É claro, a polícia nem mesmo sabia que havia um assassino de crianças desse porte à solta. Crianças desapareciam o tempo todo, e algumas apareciam mortas. Mas isso acontecia por todo o país e, na década de 1980, as forças policiais não tinham recursos para comparar relatórios, a não ser nos casos de assassinato de grande repercussão. Apesar de toda a propaganda orwelliana do governo a respeito de melhorias de equipamento, maiores efetivos e banco de dados, as taxas de detenções efetuadas permaneciam mais ou menos no mesmo nível das que teriam sido conseguidas espetando periodicamente um alfinete no quadro dos suspeitos usuais.

E, de qualquer maneira, até Mason Dingle aparecer, nenhuma das vítimas de Arnold Avery fora encontrada, e o próprio Avery nunca havia sido preso ou nem sequer multado por excesso de velocidade, de modo que todos os bancos de dados do mundo não teriam seu nome enviado para as mesas dos policiais investigadores.

Portanto, quando viu Mason Dingle sozinho, rabiscando algo sem dúvida pornográfico no assento plástico de um balanço no depredado playground de Lapwing, Avery estacionou sua van branca, aprontou-se e assobiou para chamar a atenção do garoto, confiante na ineficiência da polícia de Devon & Cornwall ou de qualquer outra força policial.

Mason levantou o olhar, e o coração de Avery acelerou ao ver aquele rosto doce. Ele acenou para o garoto e Mason se aproximou da van.

— Você pode me ajudar?

Mason Dingle levantou as sobrancelhas, fazendo que sim. Tudo nele, Avery via agora, era como se pertencesse a um homem pequeno. Ali estava um garoto com irmãos mais velhos, se é que algum dia já havia visto um deles. A postura relaxada, sua tipicamente masculina falta de disposição para ajudar, o cigarro preso atrás de sua pequena e tenra orelha, ao lado das têmporas raspadas. Mas seu rosto, ah, o rosto de um anjo!

Mason inclinou-se para a janela da van, olhando para longe, como se quase não tivesse tempo para aquilo no seu dia atarefado.

— Tudo bem, parceiro?

— Tudo bem — respondeu Avery. — Você pode me mostrar neste mapa onde fica o estacionamento comercial?

— Siga em frente e dobre à esquerda, parceiro.

— Você pode me mostrar neste mapa?

Mason suspirou, depois meteu a cabeça dentro da van e olhou para o mapa aberto no colo de Avery.

— Você pode apontar para mim?

Durante um segundo, Mason Dingle não assimilou o que estava vendo. Depois, recuou um pouco a cabeça, batendo-a na armação da porta. Avery já vira essa reação antes. Agora, aconteceria uma de duas coisas: ou o garoto começaria a ruborizar e a gaguejar, afastando-se rapidamente, ou começaria a ruborizar e a gaguejar, sentindo-se obrigado — porque Avery era um adulto que lhe fizera uma pergunta — a apontar para a área no mapa, de modo que sua mão ficaria a poucos centímetros do pênis dele. Quando isso acontecia, as coisas podiam seguir qualquer caminho, e às vezes isso acontecia. Avery preferia a segunda reação, porque prolongava o encontro, mas a primeira também era boa: ver o medo, a confusão e o sentimento de culpa na expressão dos garotos, afinal, no fim das contas todos queriam aquilo. Ele próprio era apenas mais honesto quanto ao assunto.

Mas Mason Dingle tomou um terceiro caminho: enquanto se afastava da janela da van, ele girou e arrancou as chaves da ignição.

— Seu filho da puta indecente! — disse ele, sorrindo e levantando as chaves.

Na mesma hora Avery ficou furioso.

— Me dê essas chaves de volta, seu merdinha! — Saiu da van, fechando o zíper da calça com certa dificuldade.

Mason afastou-se dele, dançando e rindo.

— Vá se foder! — gritou o menino e correu.

 

Arnold Avery reavaliou Mason Dingle. As aparências haviam sido enganadoras. Ele tinha o rosto de um anjo, mas, obviamente, era um garoto durão. Portanto, Avery esperava que Mason logo reaparecesse com suas chaves, exigindo dinheiro, ou então algum parente mais velho, homem, em seu lugar, ou até mesmo a polícia.

O pensamento não o amedrontou. Até agora as espertezas aprendidas na rua por Mason funcionaram a favor dele, mas Avery imaginou que elas também poderiam ser usadas contra o próprio garoto. Ninguém acreditava em crianças boas contando essas coisas, muito menos em moleques travessos. Em especial quando o homem acusado de tal obscenidade e perversão ficava apenas ali, sentado, esperando a polícia chegar, em vez de se comportar como se tivesse algo a esconder. Assim sendo, Avery acendeu um cigarro e ficou no playground, onde não poderia ser surpreendido, esperando que Mason Dingle voltasse.

 

No começo, a polícia não estava muito inclinada a levar o garoto a sério. Mas ele conhecia seus direitos e foi insistente, de modo que por fim dois policiais o colocaram numa viatura, alertando-o veementemente a respeito de estarem desperdiçando o tempo deles, e o levaram de volta ao playground, onde encontraram a van branca. Os policiais estavam checando se as chaves que Mason apresentara eram, de fato, do veículo, quando Arnold Avery se aproximou, enraivecido, dizendo que o garoto as furtara e tentara extorqui-lo pelo resgate.

— Ele disse que se eu não lhe desse dinheiro, contaria à polícia que eu tinha tentado fazer coisas indecentes com ele!

A atenção dos policiais se voltou para Mason, e, enquanto o garoto contava a verdade com incríveis detalhes, Avery pôde ver que eles acreditavam, com muito mais convicção, na versão inventada do acontecido.

E assim, tudo parecia estar caminhando bem para Avery até que, com um mau pressentimento, ele viu um garoto pequeno se aproximando com um homem, que parecia um pai rumo à guerra.

Embora tenha mantido a compostura com os dois policiais, por dentro, Avery amaldiçoava a própria estupidez. Tudo que ele tinha de fazer era esperar! Tudo teria ficado bem se ele apenas esperasse! Mas aquilo era um playground, e playgrounds atraem crianças, e mesmo que o corpulento garoto de 8 anos que andava furioso na direção dele não fosse seu tipo, o primeiro garoto demorara tanto a voltar! O que ele deveria fazer?

Então, na análise final, fora tudo culpa de Mason Dingle. E quando Arnold Avery apresentou sua opinião a um policial da divisão de homicídios — depois que meia dúzia de pequenos cadáveres haviam sido descobertos em covas rasas na charneca de Exmoor varrida pela chuva —, em um único golpe o homem quebrou seu nariz com um soco, e seu próprio advogado não fez mais do que dar de ombros.

Tudo desmoronou.

Vagarosa mas inexoravelmente, as conexões foram sendo feitas. Juntaram-se os pontos e Arnold Avery foi acusado de seis assassinatos, e de três outros sequestros de crianças. As acusações de assassinatos se restringiram ao número de cadáveres que eles conseguiram encontrar na charneca, e as de sequestro, aos objetos encontrados na casa e no veículo de Avery, e que puderam ser ligados positivamente às crianças desaparecidas, embora o homem nunca houvesse admitido ser culpado de qualquer um dos crimes. Uma boneca Barbie de um braço só pertencia a Mariel Oxemburg, de 10 anos, de Winchester; um blazer marrom com um emblema de unicórnio no bolso antes servira para aquecer Paul Barrett, da Westward Ho!; e um par de tênis Nike quase novos, encontrado no assento do carona da van branca, havia sido orgulhosamente marcado sob as linguetas com o nome de Billy Peters.