O Túmulo Sob as Colinas

Belinda Bauer · Capítulo 37 de 45

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O Túmulo Sob as Colinas

Capítulo 37

 

— Oi — disse Lewis.

— Oi — disse Arnold Avery, assassino em série.

Steven ficou calado. O que ele poderia dizer? Ei, Lewis, não fale com ele; ele assassinou o meu tio Billy...

Qualquer coisa que Steven dissesse naquele momento exigiria tanta explicação e suscitaria tantas perguntas da parte de Lewis que ele não poderia pensar direito. E alguma coisa lhe disse que aquele era um ponto na sua vida em que pensar direito seria decisivo.

Ele quase se denunciara, mas desviara o olhar para as urzes bem a tempo, antes que Avery pudesse perceber o choque que lhe causara ter reconhecido aquele rosto.

Agora, enquanto ele olhava para a charneca com olhos que não viam nada a não ser manchetes de jornal anunciando a morte de crianças, a mente de Steven rodopiava em círculos, sem direção, se sobrepondo uns aos outros. Um diagrama Venn de confusão. Como aquilo poderia ter acontecido? Era impossível. Arnold Avery estava na prisão, não ali. Ali era onde Steven deveria estar, não Avery. Correram por sua mente possibilidades muito mais loucas do que uma simples fuga: um sonho, uma alucinação induzida por drogas, uma troca de corpos hollywoodiana, um reality show de TV que avaliava a reação de meninos encontrando seu pior pesadelo. Foi preciso meio segundo, que ele sentiu ser metade de uma vida, antes que a ideia da fuga chegasse desconfortavelmente até ele. Era a pior das alternativas.

Gradualmente a descarga alucinada de adrenalina baixou a níveis controláveis. Sua respiração ainda era entrecortada, mas pelo menos ele não estava a ponto de borrar-se. Deu uma olhada para Avery. Definitivamente era ele. Steven se questionou cuidadosamente a respeito disso, querendo ter se enganado, mas ele tinha certeza. Achou que o contexto e a ocasião o haviam sugestionado a reconhecer o criminoso, embora Avery fosse a última pessoa que esperava ver.

Mas ele tinha uma vantagem: Avery não conhecia Steven e portanto não tinha razão para supor que Steven o conhecia. Se quisesse manter essa vantagem, deveria proceder normalmente.

Com um arrepio e inspirando fundo, Steven forçou a cabeça para trás e piscou para a dura realidade do homem que vinha preenchendo sua vida havia tanto tempo, bem ali, sentado acima deles num tapete de urzes brancas pouco comuns, os antebraços descansando despreocupadamente nos joelhos, a calça jeans saindo de suas botas de trabalho pretas, o bastante para Steven ver suas meias azuis de algodão barato.

Ele olhou para as meias de Avery e teve uma estranha sensação de espanto.

Meias eram coisas tão normais. Tão cotidianas. Como alguém que usava meias de manhã poderia ser um assassino compulsivo? Meias não eram uma coisa dura nem perigosa. Meias eram engraçadas; luvas para os pés, era isso que eram. Elas deixavam os dedos dos pés arredondados e podiam ser transformadas em marionetes cômicas. Certamente alguém que usava meias não podia com certeza ser uma ameaça para ele ou para qualquer outra pessoa, não?

Steven percebeu que os outros dois olhavam para ele enquanto ele olhava para as meias. Lewis parecia intrigado e Avery fez uma expressão divertida para ele, como se compartilhassem um segredo.

O que era verdade, é claro.

Steven não terminou o pensamento; era aterrorizante demais.

O silêncio era uma coisa física entre eles. Avery estava acostumado ao silêncio, e Steven estava relutante em quebrar aquela quietude até que lhe viesse à cabeça algo para dizer.

De modo que foi responsabilidade de Lewis tomar a frente, como sempre.

— Dia bonito. — A eterna frase favorita dos excursionistas.

Avery balançou a cabeça vagarosamente.

— Até agora.

Steven estremeceu e Lewis franziu o rosto para ele, como se Steven estivesse, de certa forma, estragando tudo.

— Nós estamos cavando — apresentou-se Lewis, esticando o maxilar para mostrar a pá de Steven.

— Ah, é? — perguntou Avery friamente. — Para quê?

Lewis se metera num beco sem saída. Num dia qualquer teria contado ao estranho, Steven sabia. Teria dado com a língua nos dentes para depois observar a reação do estranho. Se fosse espanto, Lewis assumiria o crédito pela operação conjunta; se fosse nojo, ele reviraria os olhos e apontaria Steven com o polegar.

Mas como aquela era a primeira vez que eles estavam juntos de novo, e como uma mudança estranha, tácita, acontecera no relacionamento dos dois, Lewis parecia não ter certeza se deveria revelar a verdadeira missão deles.

 

Lewis olhou para Steven e ficou surpreso ao ver que o amigo estava mais pálido do que de costume. Ele parecia enjoado. Mas ainda assim foi Steven quem assumiu a conversa.

— Orquídeas.

Avery fez uma cara de espanto de novo. Dessa vez Lewis quase juntou-se a ele. Steven ignorou a reação do amigo.

— Vamos vender as orquídeas no centro de jardinagem.

Avery olhou para ele com atenção.

— Isso não é ilegal?

— É.

Lewis lançou um olhar preocupado para Steven e depois para o homem, mas ele não pareceu ficar perturbado com a revelação.

Na verdade, o homem deu de ombros e quase sorriu, apenas as pontas dos dentes proeminentes surgindo rapidamente antes de serem recapturados pelos lábios avermelhados.

— Ah, bem — disse ele.

Houve um outro silêncio pesado.

— Há algumas por aqui?

— Algumas o quê? — perguntou Lewis.

— Algumas... — Avery limpou a garganta com educação, o punho fechado diante da boca. — Algumas orquídeas.

Lewis lançou um olhar de lado para Steven. Ele colocara os dois naquela enrascada; ele bem que poderia tirá-los dela, porra.

— Não — disse Steven, examinando o solo. — Nós vamos embora.

— Não façam isso.

Ambos os meninos levantaram o olhar para o homem. Lewis achou que era estranho o sujeito dizer aquilo daquela maneira. A maioria das pessoas que você encontra na charneca fica ansiosa para você ir embora, desaparecer, e assim restaurar a ilusão de esplêndido isolamento. Mas aquele homem dissera “Não façam isso” como se ele realmente não quisesse que eles fossem embora.

Lewis não era um menino sensível, mas teve a primeira vaga sensação de que alguma coisa não estava certa.

 

Arnold Avery reconhecera SL imediatamente, ou melhor, a forma dele, pela fotografia.

Agora ali estava SL parado diante dele, o anoraque enrolado na cintura magra, os braços ossudos se projetando para fora de uma camiseta vermelha, o cabelo preto mal cortado em casa, o corpo ligeiramente virado em relação a ele.

Nas costas da camiseta havia a palavra LAMB. O nome do menino era S. Lamb.

Lamb.

Ele teve de se conter para não rir diante do duplo sentido de tudo aquilo — “lamb” significava “cordeiro” em inglês.

Agora S. Lamb e o amigo mais robusto estavam ali, os dois olhando para ele daquele modo estúpido porque ele dissera “Não façam isso”.

Um lampejo de Mason Dingle e uma criança choramingando. Avery ficou furioso consigo mesmo, mas controlou a raiva para não demonstrá-la.

Precisava ter cuidado. Havia dois deles. S. Lamp tinha uma pá pendurada no ombro. Eles eram mais velhos do que a maioria dos outros. Maiores dos que ele se lembrava que as crianças eram. Ele dissera “Não façam isso” e ambos levantaram o olhar para ele, surpresos.

Ele tinha de ter cuidado.

Tinha de sorrir.

Portanto foi o que fez, e viu o espanto na expressão do menino de cara mais redonda relaxar imediatamente. Ele não deixava de ser atraente.

S. Lamb lançou um olhar para Avery, mas ainda parecia contraído e desconfiado. É compreensível, pensou Avery: um homem estranho na charneca; um menino deveria manter a guarda. Ele ficou muito orgulhoso da suspeita de SL e se sentiu um pouco melhor quanto ao modo que fora manipulado por um menino. Pelo menos não era um garoto imbecil.

— Desculpem — disse ele —, meu nome é Tim. — Ele olhou fixamente para o garoto maior até que ele cedeu e disse: — Sou Lewis. Esse é o Steven.

— Prazer em conhecer vocês.

Steven Lamb. Avery ousou dar apenas um rápido olhar e balançar a cabeça para Steven Lamb, já que não queria transmitir telepaticamente as imagens que tinha na cabeça, imagens dos olhos escuros de Steven Lamb saltando das órbitas, aterrorizado; de seus próprios dedos em torno da garganta fina de Steven Lamb enquanto o sangue fervia em ambos como gêiseres, mas por razões diferentes; de um apenas esboçado, mas irônico, mapa de Exmoor com as iniciais SL para sempre ao lado de WP.

— Eu trouxe sanduíches. — Avery ultrapassou o constrangimento para chegar a eles e acrescentou, mais casualmente: — Se quiserem.

Lewis queria.

É claro.

 

* * *

 

Steven ficou observando Lewis diminuir a distância entre ele e Arnold Avery. Prendeu a respiração enquanto Lewis estendia a mão para pegar o sanduíche. Seu grito de alerta ficou preso na garganta quando a mão de Lewis quase tocou a de Avery.

Nada aconteceu, exceto o fato de Lewis pegar o sanduíche. Steven soltou um suspiro de alívio.

Nesse momento Avery olhou para ele, apresentando outro sanduíche.

Pronto, chegara a hora. Era o momento que Steven tinha de decidir. Pegar o sanduíche do assassino ou jogar a pá para o lado, virar-se e correr de volta para casa, charneca abaixo.

Era a rua Barnstaple toda de novo. Sem Lewis, ele poderia ter corrido. Pegar Avery de surpresa e se distanciar dele. O homem estava a 5 metros de distância e sentado. Steven poderia ter aberto uma vantagem de mais de 25 metros antes que Avery se levantasse e começasse a correr. Ele era veloz e não tinha dúvida de que o medo o tornaria ainda mais.

Mas com Lewis? Ele estava comendo o sanduíche do sujeito; se Steven de repente soltasse um grito de alerta e se virasse para fugir, Lewis ficaria confuso. Não correria. E, mesmo que o fizesse, não perceberia que estava correndo para salvar a vida. O próprio ato de correr mostraria a Avery que Steven o reconhecera.

Mesmo que Avery não o alcançasse, com toda certeza pegaria Lewis. E Steven não poderia deixar Lewis nas mãos de um assassino em série.

Steven pulsava de culpa pela própria imbecilidade. Montara uma armadilha para Avery e ele mesmo caíra na armadilha. Agora ele se sentia totalmente responsável pela segurança de Lewis, bem como pela própria.

Não, correr não era uma opção.

Assim, Steven comandou as pernas para que se movessem, forçou as mãos a se estender, ordenou aos lábios que murmurassem “Obrigado” enquanto pegava o sanduíche do homem que agora planejava matá-lo.