O Túmulo Sob as Colinas
Capítulo 22
O tio Jude voltou.
Num dia eles eram apenas quatro e no dia seguinte, cinco.
Steven estava no seu quarto lutando com 3x-5y e todas as suas intrigantes variações quando ouviu um ruído na entrada e a voz do tio perguntar:
— Como vai a horta?
Steven olhou em volta com uma expressão de surpresa que rapidamente tentou esconder. Não era legal parecer feliz demais ao ver alguém.
— Os tomates estão uma porcaria — disse ele, indiferente —, mas as batatas estão ótimas.
— Bem, qualquer idiota pode cultivar batatas. Veja os irlandeses. — Ele sorriu.
— Você é irlandês!
— É por isso que eu sei.
Ele entrou no quarto, mexendo nas coisas de Davey, o sorriso sempre no rosto, e Steven percebeu que o tio não tentava esconder como estava feliz em vê-lo, e ficou com vergonha de não ter feito isso. Balançou as pernas para fora da cama e lançou os braços em torno da cintura do tio, sentindo as mãos daquele homem grande nas suas costas dando-lhe pequenas pancadinhas, dizendo “oi” depois de tanto tempo.
Um súbito impulso de contar tudo ao tio Jude apossou-se dele como uma loucura.
Deixar o tio assumir as decisões; deixar o tio visitar Arnold Avery na prisão e conseguir a localização do corpo; deixar o tio desenterrar Billy e ficar com a glória. Steven não se importava mais, só queria acabar com aquela provação.
Ele abriu a boca...
— Estou vendo que o carrinho de sua avó ainda está firme.
Steven balançou a cabeça, subitamente inseguro da própria voz.
— Vi sua avó andando com ele por aí. Toda satisfeita.
Steven hesitou e depois balançou a cabeça. Ele não queria estragar aquele assunto tão bom. Sabia que o tio Jude não estava apenas querendo ser simpático. A avó amava o carrinho e o levava consigo mesmo quando não ia fazer compras. Seus quadris já fraquejavam e agora o robusto carrinho era também um meio de ela se apoiar, naquele andar estranho, bamboleante.
— Estou vendo como você está alto.
— É mesmo. Todas as minhas calças estão muito curtas.
— Eu ouvi dizer que calças pescando siri são a última moda.
Steven bufou e eles se separaram.
— Por onde você andou? — Ele tentou evitar o tom acusatório da voz, mas mesmo assim ela saiu queixosa.
— Por aí.
— Por que não veio nos visitar?
Mais uma vez Steven ficou com vontade de morder a língua. O tio Jude não era seu pai. Por que ele deveria vir visitá-los se não estava mais saindo com sua mãe?
Mas o tio Jude apenas abriu as mãos e suspirou.
— Você sabe como são as coisas, Steven. Relacionamentos.
Steven sentiu uma pequena onda de orgulho com o fato do tio ter dito aquilo para ele, como se soubesse como funcionavam os relacionamentos. Aliado à lembrança ainda fresca de que sua mãe acreditava que ele sabia como funcionava o sexo, aquilo o fez sentir-se tanto um adulto como uma farsa.
— Acho que sei — disse ele.
A pergunta que ele estava desesperado para fazer ficou presa na garganta. Sentiu-se agradecido por isso ter acontecido.
Perguntar ao tio Jude quanto tempo ele iria demorar-se com eles seria apenas desafiar o destino.
A avó conservou os lábios serrados durante o jantar, lançando olhares desaprovadores para as unhas do tio Jude, mas Lettie parecia uma mocinha, tendo soltado o rabo de cavalo que mantinha sempre preso, e Davey tagarelava sem parar, bombardeando o tio Jude com perguntas, dando opiniões e declarações parcialmente verdadeiras que arrancaram risadas de todos.
— Tio Jude, eu vou plantar uma árvore de salsichas!
— Por que não tenho barba?
— Tio Jude? Você sabia que as arames farpados são feitos de porcos-espinhos?
Steven soltou um suspiro silencioso. Não era de admirar que o favorito de sua mãe fosse Davey, ele era tão divertido.
Permanecendo em silêncio, Steven obteve a informação de que sua mãe esbarrara no tio Jude na loja Jacob’s e que o convidara para tomar um chá, embora houvesse uma disputa a respeito de quem convidara quem.
Isso não fazia diferença. O tio Jude estava de volta à mesa da cozinha, e como ele melhorava o humor da avó, trocava ironias com Lettie e brincava com Davey, Steven sentiu uma inusitada sensação de otimismo cair sobre seus ombros.
Pediu licença logo depois de comer os feijões assados e correu como um louco para a charneca, com seus tênis novos e baratos, para onde deixara a pá seis semanas antes.
A ferramenta estava lá. Era a mesma.
Retornou com o passo apressado, segurando-a com a mão pálida, e deu a volta pelos fundos da casa. Exatamente como o tio Jude, sua pá voltara para casa.
Ele passou em revista o terreno do quintal e, na sua mente de menino, viu onde deveria plantar os tomates e as alfaces, que podiam ser plantadas em vasos e colocadas no alto para evitar as lesmas. As batatas ocupariam a maior parte do terreno, mas havia espaço para uns poucos pés de morango, para que a mãe se sentisse chique quando chegasse a época de Wimbledon. O Sr. Randall cultivara melões no ano anterior. Ele lhes dera um, e mesmo sendo meio sem gosto e ressequido, Steven ficou espantado que algo tão exótico pudesse nascer no quase infértil solo inglês. Talvez ele pudesse cultivar melões, aqueles com a polpa laranja.
Agarrou a pá com mais força na mão e pensou em cavar a terra para fazer nascer a vida, em vez de procurar a morte.
De repente, do nada, ficou contente de sua mãe ter comprado tênis novos na Banbury’s. Esperava, de coração, que dessa vez eles bastariam.
Steven encostou a pá enferrujada na parede dos fundos e sorriu para si mesmo.
Era esse o gosto da normalidade, e era uma coisa boa.