O Túmulo Sob as Colinas

Belinda Bauer · Capítulo 9 de 45

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O Túmulo Sob as Colinas

Capítulo 9

 

A primavera dera uma trégua e a rua Barnstaple na chuva era algo para o qual mesmo o urbanista mais talentoso não encontrava solução.

Um vento furioso lançava chuva nos rostos e levantava um milhão de ondulações na superfície ampla e amarronzada de lama do rio Taw.

Até mesmo as lojas de cadeias importantes na rua principal pareciam sitiadas pelo tempo, amontoadas na proteção dos maltratados prédios vitorianos acima delas. A Marks & Spencer era o lar temporário das modas do ano. A sua porta, um enraivecido bêbado perneta gritava:

— Que se foda o Big Issue, esse jornal dos desempregados.

Cestas penduradas pingavam tristemente em cima de fregueses molhados, as pétalas das prímulas e dos amores-perfeitos coladas contra as próprias folhas, ou suspensas, as corolas pesadas d’água.

Steven sabia como as flores se sentiam. A chuva colava o cabelo na testa e escorria para dentro da gola. A avó não concordava com bonés e ele não admitia aquele ridículo chapéu de pescador amarelo, impermeável, que Davey usava por ser novo demais para recusar. De vez em quando ele tentava se meter debaixo do guarda-chuva de Lettie, sem que parecesse muito óbvio.

A avó usava um lenço de plástico transparente que ela amarrava abaixo do queixo. Era o tipo de coisa que a maioria das pessoas utilizavam alguma poucas vezes e depois jogava fora ou perdia, mas ela tinha o lenço pelo mesmo tempo de vida de Steven, pelo menos. Ele sabia que, quando chegassem em casa, ela colocaria a peça sobre um radiador para secar, depois a dobraria como se fosse um leque, numa faixa do tamanho de uma régua. Por fim, enrolaria o lenço e colocaria um elástico em torno dele, para mantê-lo bem-arrumado na bolsa.

Quando os tênis de Steven precisaram ser postos lá fora com as latas de lixo, depois de dois anos de constantes trabalhos forçados, ela ficou uma semana amargurada porque o garoto não retirara os cadarços “em perfeito estado”.

Lettie remexeu na bolsa e tirou uma lista, cerrando as sobrancelhas quando as pessoas passavam por ela e a empurravam.

— Muito bem — disse ela. — Tenho de ir ao açougue, ao mercado e ao Banbury’s.

O Tiverton era mais fácil e mais perto, mas a rua Barnstaple tinha o Banbury’s.

— O que você precisa comprar no Banbury’s? — perguntou a avó, com ar desconfiado.

— Roupas íntimas. — Steven ouviu o tom áspero na voz da mãe, que ela se esforçava para atenuar.

— O que há de errado com as atuais?

— Eu realmente não quero discutir isso aqui, mamãe! — Ela sorriu com a boca, mas não com os olhos. Quanto mais suave era sua voz, mais fina ela soava; portanto, mais propensa a estalar.

A avó deu de ombros para mostrar que não se importava se Lettie queria gastar dinheiro com roupas íntimas.

Lettie colocou a lista de compras de lado e virou-se para Steven.

— Você leva Davey para gastar o dinheiro dele de aniversário, e nós todos nos encontramos ao meio-dia e meia.

Os olhos de Davey brilharam.

— Na loja de bolos?

— É, na loja de bolos.

Atrás de Lettie, a avó decidiu afinal dar sua opinião e disse, em voz bem alta:

— Até parece que alguém vai ver suas calcinhas.

Lettie, olhando os garotos, nem se virou, mas Steven viu os lábios dela se estreitarem através dos dentes. A empolgação de Davey virou ansiedade no instante em que ele olhou para a mãe e depois para a avó, não entendendo as palavras, mas o seu efeito.

Lettie agarrou o anoraque de Steven pela gola e fechou o zíper na maior rapidez possível, acertando seu queixo com a mão.

— Juro, Steven, que você merece pegar um resfriado! — Ele não respondeu. — Agora leve Davey para ele gastar o dinheiro. E não deixe que ele desperdice, entendeu?

Steven sabia que ficaria amarrado a Davey. Maldita avó! Se pelo menos ela tivesse mantido a boca fechada, sua mãe certamente deixaria que ela tomasse conta do garoto e ele poderia ir à biblioteca. Agora tinha Davey a reboque.

 

* * *

 

Davey ganhara 3 libras como presente de aniversário. Steven se agitou, impaciente enquanto o irmão pegava um por um os dinossauros de borracha em uma caixa e olhava. No fim das contas, ele decidiu não comprar nenhum. Adiantou-se até a caixa seguinte, que estava cheia de pequenas bolas claras, com brinquedos ainda mais baratos dentro delas. Depois de uma longa e cuidadosa deliberação, escolheu um jogo de pedrinhas cor-de-rosa; custou 75 centavos.

Steven pegou a mão de Davey e correu com ele para a biblioteca, mas o irmão retardou o passo propositada e desajeitadamente quando passaram diante de uma loja de doces, e mais uma vez Steven teve de esperá-lo enquanto olhava para cada barrinha, cada embrulhinho e dentro de cada vidro, até que finalmente ele surgiu com uma porção de docinhos recheados de gelatina e barrinhas de chocolate. Ele tentou parar de novo na loja da esquina que vendia carrinhos de controle remoto, mas Steven puxou-o com força para seguirem em frente.

 

Sem o sol para penetrar pelas janelas altas e sujas, a biblioteca estava fria e mergulhada numa penumbra.

O bibliotecário, um jovem com brinco na orelha, cabelo cortado em zigue-zague e raspado dos lados, e uma etiqueta de identificação onde se lia “Oliver”, conduziu Steven com ar desconfiado para o que ele chamava pomposamente de “os arquivos”. Eles ficavam num recesso atrás da seção de livros de referência e fora da vista do rapaz.

— Que ano?

— Junho, década de 90.

— 1890 ou 1990?

Steven fez uma expressão intrigada. Nunca lhe ocorrera que eles teriam jornais de tanto tempo atrás.

— 1990.

Oliver suspirou e olhou para cima, para os enormes livros nas prateleiras mais altas, acendendo uma luz fluorescente pulsante e olhando outra vez.

Em seguida, olhou intensamente para Steven e Davey, como se tentando descobrir algo errado neles, algo que lhe daria uma desculpa para não ajudá-los.

— Ele não pode comer aqui na biblioteca.

— Eu sei — disse Steven. — Ele não vai comer.

Oliver bufou e estendeu a mão para os doces. Davey recuou instintivamente a mão.

— Eu não vou deixar esses chocolates espalhados nos meus arquivos.

Davey olhou para Steven, pedindo orientação.

— Entregue os doces, Davey. Ele vai guardar tudo para você, em segurança.

Relutantemente, Davey entregou os doces.

Oliver chutou um tamborete pelo chão, fazendo ruído, e subiu nele, puxando para baixo um grande volume encadernado, que logo depois ele deixou cair na mesa com um som petulante.

— Não pode comer, não pode recortar nem dobrar ou lamber as páginas.

Steven piscou: por que lamberia as páginas?

— Entendeu?

— Entendi.

Steven sentou-se na única cadeira e Davey, no chão, abrindo o brinquedo que comprara. Oliver ficou por ali, na porta, mas Steven ignorou-o até ele ir embora, e depois abriu o enorme livro.

O Western Morning News costumava ser maior, muito maior. Era estranho ver o mesmo título naquela edição enorme. Steven se sentiu como um duende lendo um livro humano, enquanto virava as páginas cuidadosamente. Ele deu uma pequena risada ao pensar nisso e Davey levantou o olhar para ele.

— Qual é a graça?

— Nada.

A internet servira, mas as informações obtidas nela eram fragmentadas. O caso de Avery era anterior à internet, e Steven teve a sensação frustrante de que havia muita coisa que a rede não lhe dizia. Mas, pelo menos, a internet não tinha cheiro de meias velhas.

Davey lutava para abrir a esfera de plástico, a língua na bochecha, concentrado.

— Você quer que eu faça isso para você?

— Eu consigo.

O papel era amarelado e fino demais. Em lugares em que as bordas irregulares estavam rasgadas, Steven se levantava para poder manusear o volume de forma mais eficaz.

“VIOLENTADA, TORTURADA, ASSASSINADA.” A manchete pôs fim à busca de Steven.

Havia uma foto de Arnold Avery, a primeira que Steven via. Por instinto, ele se aproximou da página, não querendo perder um único detalhe. A foto também ficaria muito bem-situada na página de esportes: um jovem que fizera dois gols no jogo contra os Exmoor Colts ou que conquistara três arcos no críquete para os Blacklanders.

Steven ficou decepcionado. Ele esperara... Bem, o que esperara? Sua imagem mental de Avery até aquele momento fora vaga, talvez nem mesmo humana. O assassino fora uma forma escura no nevoeiro da charneca, uma colagem de movimentos e sons abafados, suspenso nas bordas de um pesadelo.

Mas ali estava o verdadeiro Avery, olhando para uma câmera da delegacia, diretamente, sem constrangimentos, a franja de cabelo escuro caído sobre um olho, conforme a moda da época, o nariz ligeiramente arrebitado criando uma expressão amistosa, a boca larga quase fechada e quase sorrindo. Steven notou que os lábios do assassino eram muito vermelhos. Mesmo em uma foto em preto e branco, ele conseguiu perceber aquele detalhe. Estudando-a mais de perto, também pôde ver que a razão pela qual a boca de Avery estava meio aberta era que ele tinha dentes protuberantes; uma pequena mancha branca revelava isso.

Steven tentou ficar perturbado com a foto, mas Avery parecia mais uma vítima do que o autor dos crimes pelos quais fora condenado.

Havia fotos das vítimas de Avery, embora naquele ponto das investigações o News as chamasse de “supostas vítimas”.

O pequeno Toby Dunstan era descrito na legenda como “a mais jovem” delas. Um sorridente garoto de 6 anos, com orelhas de abano e sardas até mesmo nas pálpebras. Steven sorriu. Toby parecia engraçado. Depois ele se lembrou: Toby estava morto.

Havia um desenho na página dois. Era um mapa da charneca de Exmoor. Steven desdobrou um pedaço de papel do bolso e copiou a forma, parecida com a de uma bola sinuosa de rúgbi. As covas das seis crianças que haviam sido encontradas estavam assinaladas com Xs e setas que apontavam para as fotos, uma para cada vítima confirmada. A mesma foto de Toby Dunstan, uma diferente de Yasmin Gregory, e depois Milly Lewis-Crupp, Luke Dewberry, Louise Leverett e Julian Elliot.

Com uma caneta esferográfica, Steven escreveu as iniciais de cada criança dentro da bola de rúgbi. Todas estavam mais ou menos aglomeradas no centro da charneca. Shipcott não estava assinalada, mas Steven pôde ver que os locais das covas apareciam entre o vilarejo e Dunkery Beacon. Três delas se localizavam no lado oeste da própria Beacon.

Ele nunca vira antes a localização exata das covas marcadas e ficou aliviado ao compreender que estivera escavando, todo o tempo, na área geral. É claro, o que tinha menos de 6 centímetros quadrados naquele mapa representava, na realidade, diversos quilômetros de charneca. Mas sentiu um novo ímpeto percorrer seu corpo apenas pela força de ser lembrado de sua busca.

Dobrou com cuidado o pedaço de papel e começou a ler.

O primeiro dia do julgamento, em Cardiff, acontecera em 10 de junho. Rapidamente ele percebeu que o promotor relatara ao tribunal os pontos mais importantes. Era como a Luta do Dia ou aqueles inverossímeis seriados da TV americana que sempre começavam com “Anteriormente, em Plantão Médico...”.

Anteriormente em Arnold Avery, serial killer...

O advogado de acusação, cujo nome era (e provavelmente ainda é) Sr. Pritchard-Quinn, membro do Queen’s Counsel, falou como se Avery fosse culpado de forma indubitável, indiscutível e irrevogável. Não houve lugar na sua fala para “talvez” ou “pode ser”, porque ela era repleta de palavras como “insensível”, “cruel” e “brutal”.

Ele contou aos jurados como Avery se aproximava das crianças e lhes pedia orientação. Depois, ele lhes oferecia carona até suas casas. Se aceitassem, elas estavam mortas. Se não, elas também eram assassinadas, pois de qualquer forma eram puxadas pela cabeça janela adentro.

Steven se encantou com a pura ousadia da tática. Quanta simplicidade! Avery não ficava espreitando, se escondendo, não agarrava e saía correndo, bastava uma criança inclinada bem para dentro da van, um pouco desequilibrada, e uma mão incrivelmente forte e rápida. Ele pensou nos pés do tio Billy debatendo na janela aberta e sentiu o estômago revirar vagarosamente.

— Faz isso funcionar.

Steven levantou o olhar. Davey trouxera as pedrinhas cor-de-rosa até a mesa. Agora estendia duas delas para Steven, apertando-as juntas.

— O quê?

— Faz isso funcionar.

— O que você quer dizer com isso?

Davey fez uma cara de zangado.

— Elas não ficam grudadas! Não estão ficando grudadas! — Ao mesmo tempo que falava, tentava forçar as pedrinhas uma contra a outra, como se apenas sua força de vontade fosse capaz de derreter a matéria.

— Elas não encaixam. Não foram feitas para isso.

Davey olhou para as pedrinhas com uma insatisfação crescente.

— Olhe! Eu vou mostrar a você.

Steven pegou as pedrinhas do chão e encontrou a pequena bola de borracha vermelha onde ela rolara até a parede. Quicou a bola e pegou uma pedrinha, quicou-a de novo e pegou a outra.

— Está vendo? É assim que funciona.

A contrariedade era visível no rosto de Davey.

— Você quer tentar?

Davey abanou a cabeça devagar, imaginando que gastara uma boa parte do dinheiro do aniversário em algo que não o interessava.

— Não quero isso — disse ele, zangado. — Quero meu chocolate.

— Você vai ter seu chocolate de volta quando sairmos — respondeu Steven.

Ele soube, no momento em que suas palavras saíram de sua boca, que elas eram um convite para Davey. O irmão pegou a deixa e falou imediatamente:

— Eu quero ir embora.

— Num minuto.

— Quero ir agora!

— Num minuto, Davey.

Davey se atirou no chão de azulejos sujo e começou a resmungar em voz alta, balançando os braços e as pernas e espalhando os bonecos pela sala.

— Cale a boca! — Steven tentou calar o irmão, mas era muito tarde.

Oliver surgiu na porta e eles tiveram de sair.

 

A chuva parara e o sol tentava aparecer como podia, mas os carros ainda passavam zunindo, jogando água nos pedestres desavisados.

Steven sabia que estava andando depressa demais para que o irmão o acompanhasse, mas não se importava. Dava solavancos e puxava Davey para fazer com que ele continuasse, ignorando os gemidos do garoto, que corria para acompanhá-lo. Aquele dia fora desperdiçado; eles só iam a Barnstaple três vezes por ano: no Natal, para comprar as roupas da escola em agosto e nos aniversários. O de Steven era em dezembro, de modo que sua viagem correspondente era combinada com a de Natal, mas aquela era a viagem do aniversário de Davey, o primeiro dia de março, portanto decorreriam meses antes que a mãe os levasse de volta, reclamando do tamanho dos pés de Steven e dos rasgões nas camisas que ele usava na escola.

E o que conseguira? Nada. Um mapa tosco e um inimigo na figura de Oliver, que, provavelmente, nunca mais o deixaria voltar aos arquivos, ou talvez sequer permitisse sua entrada na biblioteca. O idiota do Davey com seu brinquedo ridículo!

Conforme apressavam o passo, os rostos de uma multidão de gente fazendo compras começaram a surgir para Steven, como se ele estivesse notando, pela primeira vez, que uma multidão era feita de indivíduos.

Que indivíduos? Fazendeiros? Farmacêuticos? Pervertidos? Assassinos?

Steven sentiu uma súbita e estranha sensação em relação àquelas pessoas que faziam compras em Barnstaple. Arnold Avery teria sido um deles. Teria parecido uma pessoa normal para seus vizinhos, não teria? Os livros que Steven lera escondido debaixo dos lençóis eram cheios de declarações de amigos, até mesmo de parentes, que ficavam atônitos quando seu vizinho, filho, irmão, ou primo “normal” foi revelado como um maníaco homicida. O pensamento de Arnold Avery, ou de alguém como ele andando livremente pelas ruas, fez com que Steven ficasse nervoso. Olhou em torno de si mesmo, cauteloso, e segurou com mais força a mão de Davey.

Um homem de barba grisalha olhava em volta enquanto a esposa namorava alguma coisa na vitrine de uma loja, os olhos baixos e predatórios.

Uma moça vestindo uma saia suja tocava desafinadamente um velho violão e cantava “Um tom mais claro de palidez” numa altura grave, monótona, enquanto seu cachorro vira-lata tremia de frio deitado num cobertor úmido, desanimado demais para sair dali.

Um jovem caminhou na direção deles. Desalinhado, cabelo amarelo como o de Kurt Cobain, um cavanhaque castanho, jaqueta de ciclista. Sozinho. Será que estar sozinho era ruim? Steven trocou olhares com ele e se arrependeu disso. O jovem parecia desinteressado, mas talvez fosse um truque. Talvez ele passasse andando pelos dois, para deixá-los desprevenidos, e depois voltasse passando os dedos em torno do braço direito de Davey e começasse um cabo de guerra com Steven que, mesmo que implorando aos gritos, nunca poderia ter esperança de vencer, enquanto os transeuntes se desviariam educadamente deles, não querendo se envolver.

— Ai, Stevie! Você está me machucando!

— Desculpe.

Já estavam quase chegando a Banbury’s.

— Aonde é que você vai, Lamb?

Os encapuzados.

O coração de Steven começou a bater forte, depois quase parou; ele era um bom corredor e o medo o tornava ainda melhor. Num sábado, em Barnstaple, ele teria escapado dos encapuzados facilmente. Quer dizer, sem Davey. A raiva que sentia do irmão o assaltou de novo.

— A lugar nenhum. — Steven nem olhou para o rosto deles.

— Nós vamos encontrar mamãe — disse Davey. — Vamos comer bolo.

Os encapuzados riram, e um deles disse, numa voz esganiçada e afetada:

— Vamos encontrar mamãe. Vamos encontrar mamãe.

Davey riu também, e subitamente Steven sentiu sua raiva deixar o irmão e direcionar-se para os sarcásticos garotos encapuzados. Ele não podia enfrentá-los; se ficasse onde estava, seria agredido. Sua única vantagem era a surpresa, naquele exato momento, enquanto Davey estava rindo...

Estimulado pela multidão de compradores, Steven passou rapidamente pelos encapuzados, quase derrubando Davey com um puxão. Os três garotos ficaram momentaneamente aturdidos pela coragem de Steven. Então, partiram em seu encalço.

Davey ficou inicialmente surpreendido com a rapidez do movimento, mas um olhar para o rosto de Steven mostrou que o caso era sério. Por isso, fez o possível para acompanhá-lo. Sua cabeça foi se chocando com cotovelos e quadris enquanto Steven o rebocava sem jeito através da multidão. Os dois batiam nos transeuntes como duas pequenas bolas apavoradas de pinball.

Se estivesse sozinho, Steven teria corrido o mais depressa que conseguisse, mas com Davey a tiracolo ele sabia que precisava aproveitar ao máximo a vantagem, e foi direto para as portas de vidro da loja, a uns meros 7 metros de distância.

Os encapuzados perceberam sua intenção e tentaram cortar o caminho. Eles eram tão rápidos quanto os dois, mas também eram mais violentos e menos dispostos a desviar das pessoas. Davey gritou quando as pessoas se afastaram, mostrando os encapuzados a apenas poucos metros de distância.

Uma mulher com um carrinho de criança atravessou de repente na frente dos três.

— Porra!

Um dos encapuzados caiu sobre o carrinho e os outros dois se distraíram, dando tempo bastante para que Steven e Davey passassem pelas portas de vidro da Banbury’s.

Um segurança gordo, de meia-idade, se virou imediatamente para eles, e Steven fez força para interromper a corrida. Davey olhava para trás, amedrontado, embora não soubesse o porquê.

Do lado de fora, os encapuzados dirigiam insultos contra a mãe enraivecida e partiam na direção das portas.

— Stevie...?

— Psiu!

Steven levantou a mão rapidamente para chamar a atenção do irmão e conduziu-o calmamente em direção aos cabides de bolsas e cintos. O segurança franziu as sobrancelhas, o impulso de entrar em ação agora mais sereno, já que os dois garotos haviam diminuído o passo e começavam a se comportar como fregueses.

As portas de vidro se abriram violentamente e os encapuzados deram de cara com o segurança.

Steven olhou para trás enquanto ele e Davey começavam a subir a escada rolante. Os encapuzados gritavam, raivosos, reafirmando seus direitos, enquanto o segurança os punha para fora.

— Nós vamos pegar você, Lamb.

Fregueses olhavam educadamente ao redor, confusos. Steven ficou ruborizado e continuou olhando para a frente. Davey segurou sua mão com muita força, como se nunca fosse largá-la.