O Túmulo Sob as Colinas

Belinda Bauer · Capítulo 17 de 45

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O Túmulo Sob as Colinas

Capítulo 17

 

Arnold Avery gostava de pensar nos bancos que construiu como passaportes para sua liberdade.

Desde o primeiro dia de seu encarceramento, Avery tivera um único objetivo em mente: ganhar a liberdade o mais cedo possível, dentro da lei.

A vida não era mais vida. O grito agressivo dos leitores do Daily Mail, por toda parte, era música suave para Arnold Avery. Quando foi preso, vira que a vida não significava vida, e ele se lembrava disso de novo na prisão em Cardiff. Ainda assim, se surpreendeu com a sensação de choque inesperado em suas entranhas quando o juiz realmente anunciou a sentença.

Na época em que foi transferido para Heavitree, porém, ele já decidira ser um prisioneiro-modelo, para poder ser libertado quando ainda tivesse cabelos e dentes que o permitissem falar. E enquanto ainda fosse jovem o bastante para se divertir.

Do jeito que ele achasse mais apropriado.

Enfim...

Os prisioneiros-modelo queriam ser reabilitados, de modo que Avery inscreveu-se em incontáveis aulas, oficinas e cursos no decorrer dos anos. Agora tinha diplomas variados, um de nível secundário em matemática, notas bem altas em inglês, artes e biologia, um conhecimento irregular de psiquiatria e um certificado de competência em primeiros socorros.

E tudo isso estava dando retorno. Dois anos antes sua primeira revisão de liberdade condicional aprovara sua transferência: da prisão de segurança máxima de Heavitree para a de Longmoor, em Dartmoor. Até mesmo ele ficara surpreso. Tinha esperança, mas nunca realmente imaginara que sua devoção aparente ao processo de reabilitação conseguiria o objetivo desejado. Foi chocante, realmente, pensou ele na época. Se não fosse quem era, teria ficado nas nuvens. É claro, uma recomendação de que ele não iria escapar de uma prisão de segurança mais baixa não era a mesma coisa que uma comissão de liberdade condicional aprovar realmente sua libertação depois de vinte anos encarcerado. Mas já era um excelente começo.

Comparada com Heavitree, Longmoor era uma acampamento de férias. A unidade de isolamento fora pintada recentemente, os guardas eram claramente menos opressivos e até as oportunidades para exercer atividades de reintegração eram melhores, de modo que ele fez um curso de bombeiro hidráulico também.

Porém, o que realmente o surpreendeu foi a própria aptidão para a carpintaria.

Avery descobriu que amava tudo que se referia à madeira. O cheiro seco da serragem, a quentura macia da textura, a transformação quase alquímica de tábuas em mesas, tábuas em cadeiras, tábuas em bancos. Mais do que tudo, amava as horas que podia gastar lixando e modelando, fazendo pouco uso do cérebro, o que lhe deixava tempo livre para pensar ao mesmo tempo que ganhava pontos para a sua reabilitação, para a liberdade condicional e para o nirvana.

Nos dois anos que Arnold Avery se dedicara à carpintaria, fizera seis bancos. Seu primeiro foi um de dois lugares, desajeitado, com juntas de cavilha; sua obra mais recente foi um bonito banco de três assentos, 1,8m, com pés chanfrados, encosto recurvado adaptado ao corpo e entalhes no formato rabo de andorinha, quase invisíveis.

Agora, enquanto trabalhava no seu sétimo banco, lixando com paciência, Avery deixou a mente devanear suavemente para Exmoor.

Ele quase podia sentir o cheiro da charneca. O solo rico, úmido e a fragrância das urzes combinada com um leve cheiro de esterco de gado, pôneis e carneiros.

Pensou primeiro em Dundery Beacon, onde todas as suas fantasias se encontravam, antes de se espalharem como gavinhas ósseas pelas colinas ao redor. De lá, ele quase que podia identificar as covas individuais, não por meio dos lascivos desenhos da imprensa, mas por lembranças reais. As lembranças que o haviam sustentado durante todo seu período de aprisionamento e que ainda tinham o poder de alimentar suas fantasias noturnas. Bastava esse pensamento para fazer sua boca encher de saliva, que ele engolia sonoramente.

Dartmoor era bem diferente. Aquela charneca era cinzenta, endurecida e resistente à escavação por causa do granito que fazia calombos debaixo do solo e que frequentemente irrompia na fina pele da terra, apontando sinistramente para o céu baixo.

A própria prisão era uma extensão da pedra: cinzenta, inexpressiva, feia.

Havia poucas urzes em Dartmoor, apenas tojos espinhentos e relva amarela cortada como ovelhas tosquiadas. Não havia uma beleza suave ou uma névoa arroxeada.

Dartmoor não era Exmoor, mas ainda assim Avery gostaria de observar a mudança das estações de sua janela estreita.

Sua vista, porém, fora bloqueada por ordem do psiquiatra da prisão. O Dr. Leaver acreditava, de acordo com uma teoria própria, que até mesmo o contato visual com as charnecas seria contraproducente para suas tentativas de purificar a psique de Avery.

A bile lhe subia à garganta juntamente com o ódio e a fúria que ele agora reservava exclusivamente ao Dr. Leaver e ao Sr. Finlay.

Espantava-o pensar que Leaver não compreendesse que aquilo era Dartmoor e que o lugar não continha qualquer coisa que o atraísse, a não ser um passageiro interesse estético. O fato de ambos os locais serem charnecas, aparentemente, era razão suficiente para Leaver, um homem cadavérico com os seus 50 anos, decretar o bloqueio da janela mesmo nos meses de verão, o que deixava Avery deprimido e desanimado.

A verdade era que Leaver estava parcialmente certo e isso era uma terrível armadilha psicológica para Avery. Embora o psiquiatra estivesse enganado em pensar que o prisioneiro dava um valor excessivo à vista da charneca, Avery só poderia convencê-lo disso revelando-lhe a verdadeira importância que dava a qualquer ideia, vista ou simples menção à charneca de Exmoor, a prima menor, mais gentil e bonita de Dartmoor, na costa norte da península.

Se Leaver, ou qualquer outra pessoa, tivesse a mínima ideia de que a simples menção da palavra “Exmoor” proporcionava a Avery uma ereção que durava um dia inteiro, seus já escassos privilégios teriam sido suspensos mais depressa do que Guy Fawkes com o pescoço envolvido por uma corda.

Ele nunca matara um adulto, mas sabia que poderia matar o psiquiatra. O ego monstruoso do homem era alimentado pelo poder que detinha sobre os internos que tratava. Avery não tinha empatia, mas reconheceu o próprio senso de superioridade em Leaver cinco minutos depois de começar sua primeira sessão. Era como olhar o próprio reflexo em um espelho.

Ele sabia que o médico era inteligente. Sabia que Leaver gostava de mostrar isso, especialmente em um ambiente onde tinha todo o direito de se sentir assim. Afinal de contas, qualquer prisioneiro que fosse mais inteligente do que Leaver tinha, pelo menos, que reconhecer que eles haviam sido muito estúpidos em deixar que fossem pegos.

Avery não fazia objeções com relação aos alardes de intelectualidade do médico. Um homem que tivesse um talento deveria usá-lo; um atleta jogando futebol, um malabarista fazendo malabarismos, um homem inteligente mostrando ser mais inteligente que os outros. Era uma coisa darwiniana.

Na presença de Leaver, Avery era um homem inteligente que tinha lampejos de conexão intelectual que o colocavam em um patamar acima do prisioneiro brigão de bar e arrombador de pouca habilidade. Inteligente o bastante para despertar o interesse de Leaver, mas nunca inteligente demais a ponto de alertá-lo ou ameaçar seu ego.

Ele pedia aconselhamento ao médico e sempre acatava as decisões dele, mesmo que isso produzisse um efeito adverso para si próprio. O bloqueio de sua janela era um exemplo. Quando Leaver sugerira que aquilo poderia ajudá-lo, Avery controlou seu impulso de rasgar a garganta do homem com os dentes; em vez disso, comprimiu os lábios e balançou a cabeça vagarosamente, como se estivesse examinando a ideia de cada ângulo possível, com as melhores intenções. Depois, suspirara para mostrar que era uma necessidade lamentável, mas, de qualquer forma, uma necessidade.

Leaver sorrira e fizera uma anotação que Avery sabia que o traria para mais perto da vida real, que o esperava além daqueles muros.

Os bancos foram um outro degrau na escada para a liberdade. Mas eram também uma coisa prazerosa de se fazer. E tinham a imensa atração adicional das plaquetas com os nomes...

Avery bateu na madeira com as mãos secas e pegou uma plaqueta de metal brilhante, com um orifício para parafuso em cada canto.

— Posso pegar uma chave de fenda, seu guarda?

Andy Ralph lançou um olhar desconfiado, como se ele já não houvesse usado aquela ferramenta milhares de vezes antes, sem sair por ali desembestado, e entregou a Avery a chave de fenda modelo Phillips.

— De ponta chata, guarda Ralph.

Ralph pegou de volta a chave Phillips e lhe deu a de cabeça achatada, olhando-o ainda mais desconfiado.

Avery o ignorou. Idiota.

Olhou para a plaqueta na sua mão e sorriu ao se lembrar da cena do que fora a sua mais poderosa incursão de poder desde seu encarceramento... Até as cartas de SL.

— Ouvi dizer que você está fazendo bancos, Arnold.

— Estou sim, Dr. Leaver.

— Está gostando?

— É bom. Eu gosto do trabalho. É muito gratificante.

— Bom, bom. — Leaver balançou a cabeça sabiamente, como se fosse o próprio responsável pelo aumento do quociente de satisfação do prisioneiro.

— A questão é que... — começou Avery, depois parou e lambeu os lábios de maneira nervosa.

— O que é? — disse Leaver, subitamente interessado.

— Eu estava pensando.

— Em quê?

Avery se arrumou na cadeira e estalou os dedos, a figura de um homem se debatendo num grande dilema. Leaver fitou-o calmamente. Tinha todo tempo do mundo.

— Eu estava pensando... — Avery baixou o tom de voz para quase um sussurro e começou a encarar os próprios sapatos pretos gastos, enquanto continuava, hesitante: — Eu estava pensando que talvez pudesse pôr uma pequena plaqueta de metal nos bancos. Não naquele primeiro que ficou uma porcaria, mas em alguns dos outros. Os bons.

— Sim?

Avery passou um palito de fósforo debaixo das unhas, embora elas já estivessem limpas.

— Com nomes nelas.

Sua voz desapareceu num murmúrio. Ele não ousou levantar os olhos para o psiquiatra, que agora se inclinara para a frente do seu assento, tentando dar a impressão de que participava de uma conspiração. Avery conhecia aquela jogada.

— Nomes?

— Os... Nomes...

Avery pôde apenas balançar a cabeça, mudo, olhando para o próprio colo e esperando que Leaver estivesse imaginando que os olhos do assassino estavam cheios de lágrimas e que entendera o que Avery tentava dizer.

Leaver colocou o corpo ereto de novo, fazendo barulho com a tampa de sua caneta Parker.

Avery passou a manga pelo rosto abaixado, sabendo que aquilo ajudava a criar a impressão de um homem mergulhado num inferno pessoal, e Leaver caiu no engodo, engolindo o anzol com linha e tudo.

O retardado de merda.

 

Avery aparafusou a plaqueta de metal no melhor banco construído por ele até então e se afastou um pouco para admirar o trabalho.

Em memória de Luke Dewberry, de 10 anos.

Ah, seus bancos eram efetivamente seu passaporte de saída dali. Mas eram também passaportes para um prazer antes inimaginável, enquanto estivesse preso àquele buraco infernal e cruel.

Agora seus bancos ornamentavam o pátio e caminhos que já evidenciavam o trabalho dos prisioneiros, com seus infalíveis canteiros de flores e cerquinhas bem arrumadas. E toda vez que tinha permissão de sair para se exercitar, Avery ia direto para um deles.

Outros prisioneiros também faziam bancos e começavam agora a pôr pequenas placas neles, a maioria com nomes de seus filhos, amantes ou mães.

Mas Avery não tinha interesse em sentar nos outros bancos. Ele deleitava-se com a plaqueta Em memória de Milly Lewis-Crupp; apertava, com o polegar que deixara sujo para aquela ocasião, a plaqueta John Elliot, de 7 anos. Numa memorável tarde, ele se esfregara diretamente contra o encosto de um banco enquanto olhava fixamente para as palavras no metal: Em memória de Louise Leverett.

Ao mesmo tempo, uma grande parte dele saboreava a deliciosa ironia. Avery era inteligente demais para mostrar a Leaver como era inteligente.

Ou como tinha raiva.

Ou como ficava desesperado esperando receber notícias de SL.

A despeito de seu recém-descoberto controle e paciência, Avery não podia evitar o pensamento se fizera a coisa certa ao não responder à última carta exigente de SL.

Durante as duas primeiras semanas após o lacônico recebimento “WP?”, ele gostou de saber que SL esperava por algo que ele, Arnold Avery, não lhe estava dando. Isso trouxera satisfação e sensação de poder a Avery, que ficara energizado com a experiência.

As duas semanas seguintes foram mais difíceis. Embora sua autossatisfação continuasse até certo ponto, também sentia falta de ficar esperando uma resposta de SL para uma carta que ele poderia ter enviado, mas não o fizera. Precisava lembrar a si próprio que estava agindo da maneira certa. Contudo, sua força de vontade vacilava, e ele começou a pensar se SL não desistira. As pessoas não tinham poder estático, era essa a sua preocupação. Ele tinha esse poder, mas era uma exceção. SL ficara impaciente, de modo que talvez também estivesse com raiva, frustrado ou apenas cansado do jogo. O pensamento de que SL poderia não perceber que ele agora deveria fazer uma concessão para acalmar Avery o deixava apavorado.

A primeira comunicação de SL havia inaugurado os quatro meses mais interessantes de todo o encarceramento de Avery, e não estava disposto a aceitar o final da correspondência. Cada carta fora um lembrete de seus tempos áureos, e todo mundo gosta de ser lembrado de seu melhor momento, raciocinou ele.

A quinta semana da moratória unilateral de Avery trouxe desânimo. SL era durão. O assassino passava horas acordado durante as noites, preocupado. Ele tinha amarga saudade das noites que haviam se tornado oásis de prazer desde que a primeira carta de SL lhe permitira examinar suas lembranças com detalhes frescos, de uma maneira que pensava ter perdido há muito tempo. Mas agora ele estava ali deitado, acordado, incapaz de recuperar aqueles sentimentos mais baixos, em vez de se afligir com coisas muito práticas como a falta de confiabilidade do serviço postal, ou o pensamento de que SL talvez tivesse imaginado a correspondência como um ardil doentio, na intenção de produzir nele, Avery, o sofrimento que ele agora experimentava.

Foi esse último pensamento que finalmente fez surgir em Avery a raiva que o mantinha forte. A raiva era um sentimento ao qual ele raramente se entregara desde sua prisão. Sabia que era contraproducente para a vida dentro daqueles muros, que requeria resignação antes de tudo.

Resignação tinha sido sua constante companhia durante anos, nunca deixando que sua raiva contra Finlay ou Leaver irrompesse na superfície, embora ele pudesse senti-la fervendo nas entranhas sempre que via um dos dois.

Agora, na cela mergulhada em escuridão, que nem mesmo permitia a entrada da claridade da lua crescente, Avery adicionou SL a sua curta, mas profunda, lista de odiados, e resolveu que seu antigo correspondente não receberia nada da parte dele. Nem uma palavra, nem um símbolo, nem um pedaço de papel higiênico cuidadosamente dobrado, sujo de merda, até que ele pedisse desculpas.

 

Fazia cinco semanas e quatro dias da última carta de SL, quando ele recebeu a seguinte.

 

Avery sorriu. Fora mais uma concessão do que um pedido de desculpas, mas servia. SL aprendera a lição e percebera que não estava no controle da situação, e que Avery deveria, dali em diante, ser tratado com a devida consideração. Com aquela única palavra, ele reconhecera o poder de Avery.

Então, o condenado sentou-se e ficou pensando em qual a melhor maneira de usar aquele poder.