O Túmulo Sob as Colinas
Capítulo 42
Steven estava deitado na cama do tio Billy, observando a avó tricotar.
Ele fora colocado ali para poder repousar sem ser incomodado por Davey, e também para que o irmão menor pudesse dormir sem que os pesadelos que faziam Steven se debater e chorar o acordassem, deixando-o mal-humorado o dia seguinte inteiro.
As cortinas estavam abertas, tornando tudo estranhamente claro, até mesmo agora, quando a chuva batia na janela, tocada por pequenas rajadas de vento fora de época.
Visto da cama, o quarto parecia inteiramente diferente. Com seus pés levantando a ponta do edredom azul do tio Billy, o ambiente subitamente parecia um quarto normal de menino, como se um feitiço houvesse sido quebrado. Steven se sentiu estranhamente em paz naquele lugar.
A estação espacial do Lego fora metida debaixo da cama, para permitir a passagem regular de pés que lhe traziam livros, sopa quentinha e sucos energéticos.
A foto de Billy fora empurrada para o fundo da mesinha de cabeceira, que agora tinha uma coleção de coisas relacionadas a Steven: meia dúzia de vidros de pílulas, um copo com um canudinho curvo, uma caixa de chocolate que Davey tentava diligentemente abrir e uma boa quantidade de postais desejando-lhe melhoras.
Agora havia também outra coisa no quarto relacionada a Steven, mas de cuja existência só ele sabia. À noite, depois que a mãe, a avó e Davey tivessem todos ido para seus quartos dormir, Steven rolava cuidadosamente para um lado e usava a ponta de um compasso para gravar profundamente seu nome na parede atrás da cama. Ele sabia que não estava fazendo uma coisa correta, de certa forma, e que Lettie ficaria zangada quando descobrisse. Mas, por outro lado, ele não queria se aventurar fora daquela casa, ou de qualquer outra casa, de novo sem deixar alguma pista de que existira e compreendera a natureza transitória da vida.
Todo mundo deveria deixar sua marca.
Steven permitiu que a mente derivasse para sua mais recente correspondência, escrita num cartão mostrando um vaso de flores, uma pá e luvas de jardinagem.
Ele quisera muito escrever “Com amor”, mas por fim não fez isso. Não queria assustar tio Jude. Não queria assustar a si próprio.
Agora que Lettie já despachara o cartão para ele e era tarde demais, ele ficou desejando ter escrito realmente “Com amor”.
Mas aquilo teria de bastar. Teria de ser bom o bastante.
Ele suspirou e afastou os olhos do céu.
A avó tricotava devagar na cadeira perto da ponta da cama. Os dedos dela eram retorcidos e nodosos, e ela parava o trabalho frequentemente para flexioná-los. Steven lançou um olhar rápido para ela, mas não disse nada.
Ela insistira. Estava dando nova costura nas melhores meias dele. Antes mesmo de receber alta do hospital ela exigira que Lettie lhe trouxesse as meias, e com muita dificuldade desmanchou a antiga costura nas bases rasgadas, até que, quando voltou para casa, com novas pílulas para a angina, as meias eram apenas tubos cobrindo os tornozelos, com uma franja de pequenos laços nas extremidades.
“De que cor você quer?”, perguntara ela.
Steven se recostara no travesseiro de Billy, pensando, e vira o lenço do Manchester City sobre sua cabeça.
“Azul-celeste”, respondera ele.
Steven estava deitado no sofá na hora em que a avó passava as meias. Ela não deixou que ele a ajudasse com a tábua de passar, armando-a no recesso da janela, onde ela mesma costumava ficar parada. Então, colocava o papel pardo amarrotado de uma sacola por sobre as meias, para evitar que a lã ficasse brilhante.
Do outro lado da rua, Steven podia avistar os encapuzados agrupados, mãos nos bolsos, ombros caídos e os capuzes escondendo seus rostos da forte luz do sol que voltara a brilhar em Exmoor. Eles iam e vinham em silêncio, olhando para a casa, mas não se aproximavam. Steven achava que eles provavelmente nunca o fariam de novo.
As coisas haviam mudado.
Lewis contara a ele como todos haviam subido a colina. Os homens correndo, Lettie os acompanhando, em pânico, no seu roupão de banho e tênis meio amarrados, a avó bamboleando e ofegando atrás, o carrinho de compras batendo nas urzes, mantendo-a de pé quando ela já deveria ter caído umas dez vezes, agarrando o forte bíceps de Lewis a ponto de machucá-lo.
O pai de Lewis fora o primeiro a chegar perto de Steven e Arnold Avery, mas o relato de Lewis do que acontecera em seguida era fragmentado, o que não era comum. Ele dizia apenas que os homens arrancaram Avery de cima de Steven, mas então seus olhos se desviavam e ele ficava evasivo a respeito do que acontecera em seguida, embora Steven já houvesse ouvido sussurros esparsos que davam conta do pai de Lewis sendo interrogado e liberado pela polícia sem ser indiciado, e de que ele nunca mais teria de pagar por um drinque no Leão Vermelho.
Então as lembranças de Lewis ficavam novamente nítidas, e ele contava como a avó vira Steven deitado ali com o suéter verde-claro enrolado firmemente em torno do pescoço, o sangue correndo de seus olhos como algo saído de um seriado de horror da TV, e como ela primeiro se sentara e caíra por sobre as flores roxas, e como os homens, ao se certificarem de que Steven estava bem, haviam corrido para socorrê-la. E foi nesse contexto que Lewis afirmava que seu pai fora o herói do momento, o que não correspondia à visão de Steven quando ele voltara a si: o homem de pé, manchado de sangue e num aturdimento enquanto outros ajudavam.
Steven não se incomodava com isso. Lewis merecia a metade boa do sanduíche.
Enquanto os braços flácidos da avó se moviam sobre as meias, Steven ficou imaginando onde estavam agora as rodas reforçadas. Seria interessante tê-las de volta. A polícia as retirara da charneca em sacolas, juntamente com o carrinho arrebentado e ensanguentado, sua pá e o suéter verde-claro, além de Arnold Avery.
Inconscientemente, Steven tocou a garganta, que ainda estava inchada e dolorida, o que lhe autorizava a tomar montes de sorvete e gelatina. Ajudado por Lewis, é claro.
Apalpar a garganta com os dedos o fez estremecer, embora o aquecedor a gás estivesse ligado no que vinha sendo um verão quente. Tocar seu corpo daquela forma fez com que ele se sentisse o assassino. A pele tenra debaixo dos dedos, as depressões e cartilagens da própria laringe, a pulsação da veia. A vulnerabilidade latente e frouxa de todo o conjunto. Bastava apertar, bastava comprimir, bastava uma fria intenção e tudo poderia desabar e ser esmagado com facilidade.
Nas últimas duas semanas Steven pensara muito como o assassino. Pensara muito a respeito de Blacklands e muito a respeito do tio Billy.
E muito a respeito daquele pequeno trecho de urzes brancas.
Avery ficara sentado ali, esperando por eles nas urzes brancas.
Ele forçara Steven a subir no montículo e o fizera ajoelhar-se nas urzes brancas.
Abaixe!
Steven estremeceu de novo.
— Está com frio? — A avó lançou-lhe um olhar intenso.
Steven meteu-se um pouco mais debaixo do edredom que ela trouxera da cama de Billy e fez que sim.
A avó colocou o ferro de passar de pé, apoiado na base, sobre a grade de metal, e levantou a sacola de papel pardo.
— Aí está — disse ela.
Steven ergueu o corpo e pegou as meias com ela. Ainda eram sua antigas meias, mas estavam boas como se fossem novas. Melhores do que novas.
Ela ficou observando ele colocar as meias e remexer os dedos vestidos com as cores do Manchester City.
Ele levantou os olhos para ela e subitamente precisou morder o lábio com força para evitar se desmanchar.
Ela viu as lágrimas nos olhos ainda rosados dele e pôs uma mão na cabeça do neto, liberando-o da necessidade de dizer obrigado.
— Vovó?
— Hum?
— Eu acho...
Ele resmungou e começou a falar de novo, a voz ainda entrecortada, quase um murmúrio.
— Eu acho que sei onde o tio Billy está.
A mão na cabeça dele fez um ligeiro movimento, e Steven encolheu-se debaixo dela, numa súbita lembrança aterrorizante, mas não se afastou. Forçou-se cuidadosamente a recuperar a calma e a deixar a mão da avó repousar ali, quente e aconchegante na sua cabeça, sem machucá-lo.
Ele pôde senti-la pensando, como que através da carne que os ligava.
A avó não disse nada por um longuíssimo tempo e, quando o fez, alisou o cabelo dele com suavidade.
— Você vai melhorar logo — disse ela. — Isso é o importante.