O Túmulo Sob as Colinas

Belinda Bauer · Capítulo 30 de 45

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O Túmulo Sob as Colinas

Capítulo 30

 

Devido aos remendos na horta, Steven chegou atrasado à escola e não conseguiu ver Lewis antes que o sinal tocasse. Eles não estavam nas mesmas aulas e Lewis, na hora do almoço, não apareceu na porta do ginásio, que era o lugar onde sempre se encontravam.

Steven se protegeu do vento e comeu seu sanduíche sozinho, incerto se esperava Lewis ou se ia procurá-lo. Ambas as opções pareciam patéticas e nenhuma delas lhe deu qualquer pista de como devia proceder quando ele e o amigo se encontrassem face a face.

Sua mãe pusera uma barra de chocolate Mars na sua lancheira — não uma marca genérica de qualidade inferior —, algo que, num dia qualquer, teria entusiasmado Steven. A barra de chocolate significava que sua mãe estava feliz. É claro, era o tio Jude que a estava fazendo feliz, não ele, Steven, mas todos se beneficiariam com os respingos de felicidade. Lewis não apareceu para apreciar o chocolate, e isso o decepcionou um pouco. Ainda assim, Steven comeu a guloseima enquanto olhava pelo lado positivo: se Lewis não tinha aparecido para admirar o chocolate, pelo menos não comeria metade dele.

Mas depois que a doçura caramelada deixou sua boca, a amargura da amizade traída ainda permaneceu.

 

Ele viu Lewis no final do dia, empurrando outras crianças enquanto atravessava correndo a multidão nos portões da escola, olhando em torno nervosamente, como se pudesse estar sendo perseguido. Steven se escondeu atrás das latas de lixo da cantina e ficou ali, olhando para o tênis novo e barato, já rachando e se desfazendo devido a uma combinação de baixa qualidade e de um garoto hiperativo.

Ele sabia que Lewis o estava vigiando, na esperança de não encontrá-lo no caminho para casa. Steven ainda não sabia o que dizer ao amigo, de modo que ele deixou o outro se adiantar bastante e então foi caminhando para casa tão devagar que Lettie apertou os lábios para ele pela primeira vez em dias.

— Você chegou tarde.

— Eu fiquei ajudando o Sr. Edwards a guardar o material do ginásio. A porta estava trancada e ele precisou ir até o escritório pegar a chave.

Steven pensara na mentira durante a interminável caminhada até em casa. Soou tão plausível ao sair de sua boca que os lábios de Lettie se afrouxaram, aceitando a desculpa, mas a avó olhou para ele fixamente e Steven sentiu as orelhas arderem.

Mas ela não disse nada, e o tio Jude desceu a escada assobiando “There is a Green Hill Far Away”, a canção favorita dela, de modo que o chá decorreu sem maiores incidentes, até que o tio Jude disse:

— Você viu a horta?

Steven balançou a cabeça evasivamente, mas não olhou para ele.

— Você tem alguma ideia do que aconteceu?

Ele abanou a cabeça e colocou a manteiga de má qualidade num pedaço de pão, esperando que o silêncio tornasse a mentira, de certa forma, menos pecaminosa.

O tio Jude deu de ombros e suspirou.

— Podemos colocar os feijões de volta no lugar, mas vamos perder muitas cenouras e batatas.

Steven fez que sim.

— Vamos fazer isso depois do chá, se você quiser.

Ele fez que sim com mais vigor. A noite estava calma e quente, e ele achou que reparar os danos era uma coisa atraente. Estava temeroso que o tio Jude perdesse o interesse, que a horta tivesse sido uma coisa de momento e que estava acabada.

— Fico imaginando se o seu amigo não gostaria de ajudar.

— Quem? — disse Steven, desconfiadamente.

— Aquele que ladra mas não morde.

Steven ruborizou quando compreendeu que a piada era sobre Lewis, e teve vontade de rir, mas rapidamente controlou o impulso com um sentimento de culpa, sentindo-se nervoso pela perspectiva de nunca mais ver o melhor amigo de novo.

— Por que você não vai lá perguntar a ele? — O tio Jude o examinava agora com um olhar cuidadoso. Steven viu ele trocar um rápido olhar com a mãe.

Ele sabia. De alguma forma.

Steven olhou para as tirinhas de peixe assado com pedaços de pão à sua frente.

— Acho que ele não vai querer. Cavar não é a dele.

O garoto prendeu a respiração, esperando que o tio Jude discutisse com ele ou o fizesse entregar Lewis. Mas isso não aconteceu.

— Então somos nós dois — falou ele, e Steven o encarou pela primeira vez no dia, sorrindo.