O Túmulo Sob as Colinas

Belinda Bauer · Capítulo 35 de 45

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O Túmulo Sob as Colinas

Capítulo 35

 

O sábado alvoreceu tão calmo e envolto em nevoeiro que qualquer som era abafado.

Steven estava acordado. Estava acordado havia horas.

Sentia-se enjoado. Sentia-se feliz. Sentia borboletas no estômago, assim como alfinetadas nos joelhos que faziam suas pernas pularem com a vontade de correr. Correr trilha acima até Blacklands, para assegurar sua reivindicação em relação ao corpo de seu falecido tio Billy.

Sentiu enjoo de novo, dessa vez bastante forte para fazê-lo ir até o banheiro, inclinar-se sobre o vaso sanitário e tentar vomitar. Nada. Ele cuspiu no vaso, mas não deu a descarga para não acordar ninguém.

Vestiu as roupas favoritas. Suas melhores meias estavam estragadas, embora ele não tivesse conseguido se decidir se as jogava fora. Exceto isso, usava suas peças favoritas. A calça Levi’s que sua mãe conseguira num bazar de caridade, ainda azul-escura por falta de uso e o corte perfeito para seus quadris; a camisa vermelha, que fora um presente de aniversário dois anos atrás, com o número 8 nas costas, onde lia-se acima seu próprio sobrenome em letras brancas. A avó comprara a camisa e Lettie pagara para a inscrição do número e do nome quando foram a Barnstaple. Foram 10 libras pelo número e 2 por cada letra. Ela brincara que tinham sorte de ele não se chamar Lambinovski. Todos riram, até mesmo Davey, que não sabia por que todos estavam rindo.

Ao se vestir com uma cueca limpa e tudo mais, Steven ficou um pouco envergonhado de admitir, até mesmo para si mesmo, que aquelas eram as roupas com as quais ele queria que sua foto aparecesse nos jornais quando revelasse sua descoberta.

Era assim que queria ser lembrado para a posteridade.

Olhou pela janela. O nevoeiro estava baixo, mas ele podia ver que, atrás dele, o sol brilhava. Pelo meio da manhã a penumbra já teria se desvanecido. Provavelmente. Era a charneca; nunca se sabia. Amarrou as mangas de seu novo anoraque em torno da cintura. A peça fora comprada numa feirinha onde os objetos eram expostos por seus proprietários no porta-malas dos carros.

No andar inferior, ele fez um sanduíche de geleia de amora, deixando tudo muito limpo antes de sair. Pôs o sanduíche e sua garrafa d’água nos bolsos do anoraque, sentindo o peso deles na parte de cima das coxas.

Do lado de fora, no jardim, a atmosfera estava pesada, branca e estática. Ele ouviu o chuveiro do Sr. Randall e, cantando algo baixinho, desafinada, escutou também a Sra. Hocking ensaiar alguma coisa, aparentemente mais perto do que ele sabia que ela estava; o som amortecido pela umidade no ar, mas ainda assim chegando até ele facilmente por cima das sebes, cercas e arbustos de cinco jardins.

Quando pegou a pá, ouviu o som arrastado do metal no chão de concreto, o que pareceu incrivelmente alto naquele ar imóvel.

Steven planejara pegar a pá e ir, mas em vez disso foi até a horta. Atravessar o jardim fez com que se sentisse triste, pensando que tio Jude se fora, mas assim que chegou na horta ele se sentiu melhor. Havia apenas uns poucos dias ele consertara os danos, e tudo ficou como estava. Ainda podia ver as pegadas do tio Jude nas bordas dos canteiros, as marcas que seus dedos haviam feito onde ele comprimira a terra escura de volta ao seu lugar para salvar os frutos. As evidências do tio ainda estavam ali, embora ele não estivesse mais.

Steven percebeu que a prova da traição de Lewis só continuava agora no seu coração. Olhou automaticamente na direção dos fundos da casa de Lewis, para a janela do quarto dele, e viu movimento ali, como se um rosto tivesse rapidamente se retirado atrás do reflexo escuro do vidro. Lewis? Talvez. O nevoeiro tornava tudo duvidoso. Ele continuou observando, mas nada reapareceu. Colocou a pá no ombro com a facilidade de um velho soldado bem treinado, e virou as costas para a horta.

Enquanto atravessava a casa de novo, pôde ouvir a avó se mexendo no andar de cima; a tossezinha que ela tentava esconder atrás dos dedos envelhecidos, o ranger das tábuas debaixo de seus pés pálidos e arrastados. O pensamento de deixá-la assim, do jeito que ela sempre fora desde que ele a conhecera, e ao voltar encontrar uma pessoa nova e maravilhosa o fez desejar que aquilo acabasse de uma vez.

Com cuidado para não bater em nada com a pá, Steven saiu da casa e fechou a porta da frente atrás de si cautelosamente.

Estava quase na escadinha que transpunha a cerca de limite da charneca quando Lewis o alcançou.

O amigo estava quase sem fôlego, e Steven ficou meio sem jeito de falar com ele, de modo que, por diversos segundos, eles ficaram ali, parados, um olhando para o outro em silêncio, um pouco inquietos com o constrangimento do encontro.

Então Lewis olhou para a pá e disse:

— Quer ajuda?

Parte de Steven queria gritar “Não!”, em voz bem alta e com entusiasmo. Mas quando abriu a boca, ele disse:

— Eu achei que você não gostava de cavar.

Lewis ficou muito vermelho e o rubor se espalhou até a ponta de suas orelhas, descendo pelo pescoço de sua camiseta. Para Steven, aquilo foi uma confirmação e uma desculpa, e ele aceitou ambas com um dar de ombros.

— Trouxe alguma coisa para comermos?

Lewis balançou a cabeça ansioso e tirou um invólucro do bolso do impermeável. Estava dobrado em torno de algo quadrado que provavelmente era um sanduíche. Steven não perguntou o que tinha ali dentro e Lewis não disse espontaneamente; ambos entenderam que teriam de se ajeitar com aquilo também.

— Então tudo bem.

Steven subiu os degraus, que estavam escorregadios com o nevoeiro, e Lewis foi atrás.

A promessa da madrugada não se cumpriu quando os meninos subiram a colina na direção da charneca. Eles avançaram um pouco, 50 metros acima do vilarejo, que logo os envolveu de novo, com um brisa ligeira que trazia mais névoa do oceano encobrindo o sol.

A situação não era muito ruim. Steven calculou que podiam avistar de 7 a 10 metros na frente deles. Era possível adivinhar que, além do nevoeiro, o próprio ar estava quente. Aquela vinha sendo uma estação de clima suave, o que era incomum, e as urzes e os tojos floresciam em vagarosos turbilhões de roxo e amarelo.

Na bifurcação, Steven virou para a esquerda, atrás das casas, em vez de seguir para a direita, como de costume, e Lewis falou pela primeira vez desde que começaram a caminhar na charneca:

— Para aonde você está indo?

— Blacklands.

— Por quê?

— Para cavar.

— Eu...

Lewis mordeu o lábio com um guincho, mas a palavra “avisei” ficou no ar úmido. Não importava. Steven gostou da força de vontade que fora necessária a Lewis para engolir aquela provocação. Eles caminharam em silêncio enquanto o céu ia ficando mais claro, e os pássaros, hesitantes, finalmente começaram a entoar seu coro matutino.

Quando se aproximaram de Blacklands, Steven viu o cartão-postal mais uma vez na sua mente. Ele o trazia no bolso de trás da calça, mas não queria tirá-lo de lá na frente do amigo e ter de explicar as coisas.

Das lições de geografia ele sabia o que significava o símbolo do corte de cabelo do frei Tuck. Marcava o início da elevação do terreno. E também sabia exatamente onde aquela elevação ficava. Era bem parecida com os montículos funerários em Dunkery Beacon, só que mais próxima de casa. Esse pensamento fez com que Steven parasse e olhasse para trás, na direção de Shipcott. O vilarejo estava invisível, ainda encoberto pelo nevoeiro, abaixo e atrás deles.

Uns 15 minutos depois, eles chegaram à protuberância do terreno em Blacklands, e Steven parou novamente e olhou para baixo, pela charneca, para onde situava-se o vilarejo.

— Por que você está sempre parando?

Steven não respondeu a Lewis. Olhou por cima deles, para a protuberância, lembrou-se do mapa, a posição das iniciais que ele desejara tão desesperadamente ver.

Começou a subir a elevação, fazendo um zigue-zague pelas urzes. Lewis foi atrás dele. As flores estavam empapadas de orvalho e as calças dos meninos ficaram encharcadas em segundos.

Lewis tremia de frio. Steven parou e se orientou.

Perto. Estava perto.

Mal podia acreditar que, depois de anos de escavações aleatórias, ele estava prestes a se dedicar à tarefa com um objetivo verdadeiro, seguindo informações concretas. É claro, ainda havia uma grande área do terreno a cobrir, provavelmente uns 2 mil metros quadrados, mas comparados com toda a extensão de Exmoor, 2 mil metros quadrados eram uma cabeça de alfinete. Era o lugar. Por ali. Arnold Avery enterrara o tio que ele nunca conhecera, e agora ele ia começar a tarefa de encontrá-lo de verdade. Para Steven, não importava quanto tempo levaria para isso. Nada o impediria de devolver o tio Billy a sua família.

Longe de se sentir empolgado e triunfante, o pensamento sobre ter êxito subitamente lhe trouxe uma imensa tristeza. Mais uma vez ele olhou para baixo, para o mar de nevoeiro, e sabia que, num dia claro, poderia avistar sua casa dali. O tio Billy fora enterrado à vista do próprio quintal. Sua mãe, que ficara observando na TV o pessoal esquadrinhado quilômetros de urzes e tojos com o coração partido, podia ter olhado pela janela do quarto dos fundos e visto a cova rasa onde o filho fora enterrado.

Steven estremeceu e deu as costas para Shipcott.

— Está com frio? — Lewis olhava para ele atentamente.

— Não.

— Então, onde vamos cavar?

— Aqui, acho.

Steven caminhou num pequeno círculo para escolher um lugar, então parou, atônito.

De um trecho coberto de urzes brancas, a menos de 7 metros de distância, acima deles, um homem os observava.

Steven encolheu-se, surpreso.

Antes que a surpresa se desvanecesse, ele sentiu os intestinos se soltarem em choque quando reconheceu Arnold Avery.