O Túmulo Sob as Colinas
Capítulo 13
— Steven! O café!
— Estou indo! — As mãos de Steven tremiam quando ele abriu a carta enviada pelo assassino em série.
Steven virou a página com as mãos trêmulas e levantou-a contra a luz. Nada. O papel era de má qualidade e fino, e não havia qualquer impressão nele. Desligou a luz do banheiro, mas também não havia qualquer marca no verso da carta.
Cerrou as sobrancelhas. Que adiantava Avery lhe escrever de volta se ele não ia lhe ajudar? A caligrafia bonita e regular da carta anterior do assassino fora substituída por uma letra irregular, arranhada de forma apressada e descuidada sobre o papel, usando letras maiúsculas de maneira inadequada.
— STEVEN!
— JÁ VOU!
A partir de suas leituras, ele sabia que serial killers gostavam de se divertir jogando: primeiro com as vítimas e depois com a polícia. Apreciavam uma exibição. Até onde ele podia ver, era dessa forma que muitos deles eram apanhados. Se eram apanhados.
Talvez Avery simplesmente gostasse de receber cartas e o estava incitando a continuar escrevendo.
Mas então, certamente ele se esforçaria para atrair seu correspondente a lhe responder novamente?
Steven não conseguiu decifrar se elogiá-lo por “sua grande carta” era ou não um sarcasmo. Ele era o primeiro a admitir que a correspondência não fora lá grande coisa, mas, se Avery lera e entendera as pistas, então talvez pensasse que a carta era realmente muito boa. Talvez aquela coisa sobre o tempo e a maré significassem que Steven estava certo em fazer aquelas perguntas bem naquele momento. Mas, se Avery encontrara a pista, por que não respondera da mesma forma, com um mapa? Ou...
Steven saltou quando a porta do banheiro abriu-se repentinamente. Era sua mãe, o rosto vermelho pelo esforço de subir correndo a escada.
— Que diabo você está fazendo?
— Mãe! Eu estou no banheiro!
Lettie baixou os olhos para ele.
— Com a calça levantada? Há dez minutos que estou dizendo para você descer!
Ela percebeu a carta na mão esquerda dele.
— O que é isso?
Steven ficou ruborizado e dobrou a carta.
— Nada. — Ele olhou para a mãe e viu uma expressão de paciência resoluta surgir-lhe no rosto. Ela não ia deixar aquilo passar.
— Só uma carta.
— De quem?
Steve murchou sob o olhar da mãe.
— Me dá essa carta.
Ela estendeu a mão.
Steven não se mexeu, mas quando Lettie estendeu a mão e tomou a carta das mãos dele, ele não teve coragem de resistir.
Lettie abriu a carta e a leu. Ficou calada por mais tempo do que possivelmente levara para lê-la, e Steven levantou o olhar para ela, apreensivo. Lettie olhava para a carta como se ela contivesse instruções ocultas de como ela deveria reagir. Virou o papel um breve momento e Steven agradeceu que AA não tivesse desenhado um mapa no verso.
Depois do que pareceram séculos, Lettie de repente devolveu-lhe a carta.
— Desça imediatamente.
Steven ficou atônito. Seguiu-a pela escada, entrando na cozinha, onde uma tigela de cereal com leite o esperava.
A avó dobrou os braços e fuzilou-o com o olhar.
— Então, onde ele estava?
— Na privada.
Ela bufou, como se soubesse o que os garotos da idade dele faziam no banheiro, e isso tinha muito pouco a ver com o que qualquer pessoa decente estaria fazendo lá. Steven olhou para ela e ficou ruborizado ao simples pensamento de que a avó bufasse de novo, confirmando suas mais baixas expectativas.
— Ah, deixa ele pra lá, mamãe.
Steven ficou tão surpreendido que mordeu com força, dolorosamente, a concha da colher. Davey levantou o olhar de seu cereal, mas foi imediatamente intimidado a voltar a comê-lo pela carranca da avó.
O café da manhã decorreu em silêncio. Steven lavou sua tigela e colher e partiu para a escola com a carta do assassino no bolso.
Os garotos encapuzados alcançaram-no no portão da escola. Surgiram de repente, do nada, torcendo os braços de Steven para trás do seu corpo e empurrando sua cabeça para baixo, de modo que ele tropeçou e quase caiu. Vagamente ele ouviu Chantelle Cross dizendo “Deixe ele em paz”, o que aumentava a humilhação da agressão.
— Pegue o dinheiro do almoço dele.
— Eu não tenho dinheiro para o almoço. Eu trago sanduíches.
— O que, pateta? — Um deles puxou a cabeça dele pelo cabelo, para que pudessem ouvi-lo, e outro lhe deu tapas, como se fosse um calouro de academia de polícia.
— Eu trago sanduíches — repetiu.
O garoto que segurava seu cabelo deu uma sacudida. Steven cerrou os dentes. Sentiu sua mochila tendo o zíper aberto e desequilibrou-se enquanto eles remexiam o conteúdo. Sentiu-se como um antílope sendo derrubado por cães selvagens, ao mesmo tempo em que a matilha começava a comê-lo vivo. Livros, papéis, canetas, tudo derrubado a seus pés enquanto rasgavam aquela coisa ainda com ele, ainda parte dele. Sentiu náuseas.
Subitamente, a lancheira estava debaixo de seu queixo, a tampa aberta para trás. Ele podia sentir o cheiro da pasta de atum e seus olhos arderam de indignação.
— Não tem bolo?
Todos riram, mas Steven ficou calado.
— Está com fome?
— Não!
— Ele está com fome.
Uma mão suja pegou um sanduíche e enfiou-o na boca de Steven. Ele tentou desviar a cabeça e manter a boca fechada, mas uma dor aguda na perna fez com que ele gritasse, e o sanduíche encheu sua boca como uma esponja com gosto de peixe, expandindo-se, sufocando-o.
Steven tossiu.
— Que porra, inferno!
O garoto com as mãos sujas limpou o pão molhado do rosto enquanto os outros dois gargalhavam.
— Não é nada engraçado, porra!
Ele jogou a caixa do almoço no rosto de Steven, a maçã batendo num olho, o outro sanduíche de pasta de atum forçando caminho por dentro do nariz e esmagando os lábios com as bordas da vasilha, uma Tupperware falsa, com uma dor surpreendente.
De repente, a lancheira caiu no chão e os três desapareceram, misturando-se com uma corrente de crianças com seus agasalhos pretos e vermelhos, enquanto a vaga figura de uma professora se dirigia para Steven.
Ele se encolheu enquanto o sangue voltava aos braços.
— Você está bem?
O sangue salgado escorria dentro da boca de Steven, vindo do lábio rachado.
— Estou, professora.
A Sra. O’Leary olhou para Steven. Ela sabia que ele era de uma das suas turmas, mas não conseguia de forma alguma recordar o nome dele. O garoto parecia um idiota. Estava com o rosto vermelho, grandes marcas roxas produzidas no corpo pelo pote de almoço. Metade de um sanduíche ainda estava grudado na sua testa e as bochechas estavam besuntadas de manteiga. Começava a aparecer uma mancha roxa em volta de um olho e ele cheirava a peixe. Foi isso que a fez lembrar-se dele. Ele era o garoto que cheirava a mofo. Qualquer simpatia que ela poderia ter por ele até aquele momento foi substituída por um certo nojo. Mofo e peixe. Ela falou com rispidez:
— Pegue suas coisas, Simon. Já tocou o sinal.
— Sim, professora.
Ela não o reconhecera.
Aquilo o atingiu bem fundo.
Ele era o garoto que escrevia cartas autênticas! Minha avó engasgou com o seu filé! O Nintendo que você mandou foi o melhor presente que já recebi! Ganhei um troféu por ser o jogador de futebol mais educado!
Steven imaginou, momentaneamente, se a professora O’Leary se lembraria dele se lhe dissesse que escrevera para um serial killer pedindo que o ajudasse a encontrar o cadáver de seu tio, morto ainda criança. Engoliu as palavras, tremendamente infeliz. Ela só se lembraria dele como um mentiroso de imaginação macabra. Ou pior: ela acreditaria e o mandaria parar com a correspondência. Era uma situação em que nunca poderia ganhar.
— Vamos, apresse-se, a campainha já tocou.
— Sim, professora.
Ela ficou parada perto de Steven, impaciente, enquanto ele pegava seus livros e papéis no asfalto sujo e molhado. Steven ficou contente de ver que os sanduíches haviam se desintegrado quase que inteiramente, evitando-lhe a vergonha de ter de reunir os pedaços. A maçã, que deixara seu olho roxo, rolara para a sarjeta, onde ficou para apodrecer.
Ele levou alguns minutos até encontrar a tampa da lancheira, que fora parar debaixo de um carro. Levantou-se de novo, os joelhos enlameados, vendo então a professora segurando a carta de Arnold Avery. Ele ficou gelado.
Obrigado por Sua Grande carta.
Steven permaneceu calado. O que poderia dizer? Ele ficou vendo o rosto dela esquadrinhar o pedaço úmido de papel, um pequeno cerrar de sobrancelhas aparecendo sobre os olhos.
A mente da professora girou lentamente, como os anéis de um cadeado de segredo enferrujado, e finalmente se encaixaram. Ela olhou para ele e Steven sentiu seu estômago contrair.
— Então você também escreve grandes cartas nas horas de lazer?
Por uma fração de segundo ele pensou ter ouvido mal. Mas não tinha. Sentiu o calor chegando à gola da camisa e subindo pelo rosto.
— Sim, professora.
Ela sorriu, aliviada por ter conseguido reunir algum interesse pelo garoto; precisava desses pequenos lembretes para achar que não estava desperdiçando sua vida como professora. Estendeu a carta para ele, que a pegou, hesitantemente.
— Corra agora, Simon!
— Sim, professora.
E ele correu.
Geografia.
Steven desenhou um mapa da África do Sul. Transferiu o desenho para seu caderno de exercícios e começou a assinalar as riquezas minerais. Ouro. Diamantes. Platina. Coisas exóticas. Ele bufou baixinho quando pensou nas riquezas naturais de seu país natal: estanho, argila e carvão eram as únicas coisas que jamais valeram a pena cavar naquele pequeno cume de uma montanha marinha chamada Grã-Bretanha.
Estanho, argila, carvão, e corpos. Corpos enterrados na terra, no solo, na relva. Corpos que adormeceram e morreram silenciosamente, corpos retalhados de pictos, celtas, saxões, romanos e Cabeças Redondas mortos pela espada na suave grama inglesa. E quando as indústrias de carvão, estanho e argila morreram, a indústria de corpos assumira seu papel. Agora os corpos de camponeses saxões eram estudados meticulosamente no horário nobre da TV quando emergiam com cuidadoso auxílio da terra. Um rude despertar após séculos de repouso escondido.
Corpos eram tanto uma riqueza mineral da Grã-Bretanha quanto o ouro era para a África. O império em declínio, reduzido a minúsculos alfinetes cor-de-rosa, tornara-se recolhido e introspectivo, cansado das conquistas e derrotado, descobrindo-se agora como um velho que se senta sozinho na sua mansão em ruínas e começa a telefonar para os números de um caderno de endereços muito maltratado, seus pensamentos indo de um curto futuro para um longo e negligenciado passado.
A Grã-Bretanha foi construída em cima desses corpos dos conquistados e dos conquistadores. Steven podia senti-los naquele momento na terra, debaixo das fundações, debaixo da escola, debaixo do chão da sala de aula, debaixo das pernas de sua cadeira e debaixo das solas de borracha de seu tênis.
Tantos corpos e ele queria apenas um. Não parecia pedir muito.
Enquanto comprimia cuidadosamente o grafite na página em branco, ele imaginava quantos desses antigos corpos estavam no solo por causa de serial killers. Quando o programa Time Team, do Canal 4, exumava fêmures e crânios do planeta que os continha, será que estavam contaminando uma cena do crime de 2 mil anos atrás? Será que o garoto saxão ou a garota Tudor eram vítimas? Dois de muitos? Será que os arqueólogos, daqui a cem anos, seriam capazes de fazer a ligação entre seis, oito, dez vítimas e dizer com certeza que elas haviam sido assassinadas? E assassinadas por uma mesma mão?
Arnold Avery fora condenado por seis assassinatos. Havia também o tio Billy. Mais... Quem sabia quantos mais? Quantos permaneciam escondidos em covas rasas? Quantos, no decorrer de toda a história? Será que ele esmagara seus ossos debaixo dos pés quando caminhava para casa? Será que seus crânios, sem olhos, o espreitavam quando ele explorava as velhas minas em Brendon Hills? Steven estremeceu e tirou o mapa do alinhamento. Enquanto cuidadosamente calcava Joanesburgo com Joanesburgo, mais uma vez...
— Ah!
As crianças em torno dele riram entre os dentes, e a Sra. James levantou o olhar dos testes que corrigia.
— Alguma coisa que queira compartilhar conosco?
Mas Steven usara o último fôlego para soltar a exclamação e ainda não conseguira controlar a respiração.
* * *
A linha que Steven copiou era ainda mais retorcida do que deveria ser. Suas mãos tremiam; todo o corpo palpitava numa mistura de empolgação e medo.
Ele empurrou o Atlas de Estradas AA para longe com tanta força que o livro escorregou da velha mesa de fórmica da cozinha e partiu a lombada quando caiu aberto no chão. Steven nem mesmo notou. Não era a primeira ocasião em que ele usava o atlas. Da outra vez, ele copiara o contorno da charneca de Exmoor numa folha de papel usada por artistas para mandar a Arnold Avery. Dessa vez, ele copiara o desenho em papel de decalque. A fronteira fora de novo marcada, assim como Shipcott.
A televisão ficava na sala da frente, mas Steven ainda olhou desconfiado para o corredor antes de abrir a carta de Avery, alisando-a em cima de mesa. Colocou o papel de decalque sobre a carta, com o “S” sobre o ponto que representava Shipcott. Seus ouvidos martelavam. Os pares de letras destacados, YG em “Your Great”, “sua grande” em inglês, e TD em “TiDe”, “maré” em inglês, ficavam ambos a nordeste de Shipcott, na direção de Dunkery Beacon.
Avery estava mostrando a ele as covas de Yasmin Gregory e Toby Dunstan.
Ele decifrara o código.