O Túmulo Sob as Colinas

Belinda Bauer · Capítulo 38 de 45

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O Túmulo Sob as Colinas

Capítulo 38

 

O sanduíche era de queijo e tomate. Steven fez uma careta à primeira mordida, mas engoliu, de qualquer jeito, pois não queria provocar Avery.

As defesas de Lewis estavam abaixadas, agora que ele estava comendo de novo. Contou a Avery coisas sobre a charneca, inventando o que não sabia, e o assassino balançava a cabeça, ouvindo e fazendo perguntas pertinentes.

Steven estava apenas levemente consciente do orgulho de Lewis prendendo a atenção de Avery. Uma parte dele se sentia mal com a facilidade com que Avery fez Lewis relaxar e se abrir para ele.

Entretanto, a maior parte dele, todas as partes importantes, ferviam com um milhão de imagens-relâmpago, marcas feitas por uma caneta esferográfica num mapa, o brilho singular dos dentes de carneiro; a estação espacial do jogo Lego no quarto azul em penumbra; o cheiro da terra, o gosto da terra na sua boca; os dentes balançando na mandíbula do carneiro; correndo pela charneca com o coração disparado; as pernas chutando o ar através da janela aberta de uma van; sua avó esperando. Sempre esperando.

E foi com essa imagem que finalmente cessou o louco rodopio de sua mente. Sua avó esperando por Billy, e por ele. Quisera tanto pôr um fim àquela infelicidade, mas só iria piorar as coisas. Arnold Avery iria matá-lo, então sua avó ficaria esperando pelos dois garotos toda a vida, e sua mãe se tornaria sua avó na janela, esperando como a avó fizera, mesmo depois que ela já estivesse morta.

E Davey? O que aconteceria com ele? Davey não estava acostumado a ser ignorado, mas acabaria ignorado, e não teria ninguém mais no mundo para amá-lo. Todas as pessoas que o amavam teriam desaparecido, ou algo assim.

Steven se sentiu enjoado.

Ele tinha fodido tudo. Fodido. Tinha fodido tudo. Ele era uma porra de um imbecil. Porra.

Fodido não era uma palavra forte e ruim o bastante para o que ele era, mas serviria, por enquanto. O que o levara a pensar que poderia fazer aquilo? Fora tão imbecil que merecia ser assassinado, mas se sentia mal pela avó, pela mãe, por Davey e Lewis.

Depois ele se lembrou de por que estava ali. Porque começara aquilo, em primeiro lugar. E porque não poderia largar aquilo agora.

Ele estremeceu diante do horror daquela verdade.

— Está com frio?

Steven teve um sobressalto quando Avery falou, então percebeu que estava tremendo.

— É.

Ele também continuava apertando o sanduíche com tanta força que os dedos haviam penetrado no pão, e ele podia sentir o odiado tomate escorrendo como lodo pelo dedos.

— Quer um agasalho?

Avery tirou seu suéter verde-claro e Steven notou que a cor do agasalho combinava com os olhos estranhos e límpidos do assassino. Os últimos olhos que o tio Billy vira em sua vida.

Sua garganta apertou e ele fez uma outra tentativa, antes de dizer, em voz espremida:

— Não.

Avery encarou-o friamente, e Steven olhou para seu sanduíche desfeito, sentindo as bochechas queimarem sob o escrutínio do olhar do sujeito.

Com o canto dos olhos, viu a mão direita de Avery soltar do suéter e se mover em sua direção. Observou a pele se arrepiar no próprio braço, e depois o toque suave do dedo do homem no seu rosto.

— Você está com manteiga no rosto.

O estômago de Steven revirou e ele soltou um pequeno arroto, lembrando-se de que comera tomates.

Lembrou-se do short de terça-feira de Yasmin Gregory.

Lembrou-se de que Avery odiava o que o jornal se referia vagamente como “fluidos corporais”.

As mãos tremendo, e já ligeiramente enjoado, Steven se compôs e conseguiu dar outra mordida no sanduíche.

Avery retirou a mão e lambeu o resto de manteiga de seu indicador com uma língua rápida e rosada.

— O que aconteceu com o seu braço?

Lewis olhava para o sangue na manga rasgada de Avery, que ele deixara à vista ao tirar o suéter. Avery olhou para o braço e sentiu uma outra pontada de ódio por si mesmo. Ele fora tão descuidado! O que estava pensando? Ser lembrado do seu braço também o fez se sentir confuso e cansado. Não perdera muito sangue, mas o braço latejava mais do que no dia anterior. Talvez estivesse infeccionado. Era azar, muito azar. Logo naquele momento, quando queria, precisava, estar no melhor de sua forma física e mental para o jogo. E agora o garoto sardento olhava para o ferimento, por enquanto apenas curioso, mas Avery sabia que a curiosidade era um micropasso para a suspeita, o medo e a fuga.

Ou uma tentativa de fuga.

Por dentro ele sorriu com o monte de lembranças de tentativas de fuga, e ganhou mais forças com as lembranças.

— Cortei no arame farpado quando vinha para cá — respondeu ele a Lewis.

Lewis balançou a cabeça vagarosamente. O sanduíche o fizera esquecer que ele se sentira inquieto na presença de Avery, mas agora que sua boca já fizera o trabalho, o cérebro estava retomando o funcionamento normal, e alguma coisa na história do arame farpado não parecia verdadeira. Ainda mais pelo fato de que não havia arame farpado na charneca. As fazendas no entorno usavam esse tipo de cerca, é verdade, mas ele não se lembrava de uma única trilha nos arredores da charneca onde alguém tivesse de passar por algum obstáculo que não fosse uma pedra ou uma escadinha de madeira ao redor da área.

Ele se levantou e limpou as mãos na calça.

— Obrigado, parceiro — disse ele. Depois ele olhou para Steven: — Precisamos ir.

Steven mastigou, odiando cada segundo, e depois engoliu grandes pedaços de pão, os olhos cheios d’água.

— Vá na frente — disse ele.

— Hein?

— Vá na frente — disse ele rapidamente, antes que perdesse a coragem. — Eu vou ficar.

Lewis deu um riso confuso e lançou um olhar para Avery, que estava olhando para Steven com uma expressão singular no rosto.

Steven estava branco e duas manchas vermelhas queimavam nas maçãs do rosto, os olhos fixos no sanduíche. Lewis percebeu que o amigo estava tremendo. Também notou que o sanduíche que Steven estava comendo continha tomate. Enquanto ele observava, Steven deu outra mordida e desajeitadamente enfiou outro pedaço de tomate, que saía do pão, para dentro da boca.

Havia alguma coisa muito errada com o amigo.

— Vamos lá, Steve! — Ele riu de novo, mas o riso soou tão estranho aos próprios ouvidos que cortou a risada no meio, deixando um silêncio tenso no ar.

Lewis ficara concentrado em seu próprio sanduíche, mas agora viu que Avery estava apertando o suéter verde entre as mãos, torcendo e esmagando o tecido, os nós dos dedos brancos de tanta tensão. Sua vaga sensação de inquietação transformou-se em dor de barriga.

— Vamos, seu idiota. Eu tenho de voltar cedo. — Não era verdade, é claro, mas Lewis sentiu subitamente a necessidade esmagadora de estar em casa.

Steven atirou o que sobrara do sanduíche contra Lewis, atingindo-o no peito.

— Vá embora, está bem, porra? Dê o fora!

Os olhos de Lewis se arregalaram de surpresa. Ele deu um passo para trás.

Steven levantou-se, tremendo, e se aproximou dele.

— Eu sei o que você fez na horta.

Lewis corou intensamente.

— Q-quê?

— Você me ouviu. Eu sei o que você fez. Agora se manda, porra!

Steven bateu no peito de Lewis com o cabo da pá, fazendo o amigo tropeçar para trás e cair no montículo. Steven foi atrás dele e bateu de novo. Lewis caiu de lado em cima das urzes, e o pânico explodiu no rosto de Steven. Ele agarrou Lewis pelo ombro, tentando levantá-lo e empurrá-lo ao mesmo tempo. Lewis tropeçou uma vez, duas. Steven berrava em cima dele:

— Eu odeio você, Lewis! Eu odeio você, porra! Se manda! Vai!

Pedacinhos do sanduíche e de saliva voaram da boca furiosa de Steven sobre Lewis. Este se levantou cambaleando e Steven avançou para ele de novo. Dessa vez Lewis partiu, descendo a trilha.

— Você está maluco? — gritou ele para Steven. — Perdeu um parafuso?

Olhou de novo para o homem, como que pedindo apoio.

— Ele está maluco! — gritou Lewis.

Mas o homem não estava olhando para ele. Estava olhando para Steven; os lábios, muito vermelhos, haviam recuado, mostrando os dentes brancos aguçados num esgar de concentração. Mais do que o súbito ataque de Steven, aquela visão fez a barriga de Lewis revirar assustadoramente, e de repente ele sentiu necessidade de ir embora. Precisava ir. Não podia ficar nem mais um segundo. Um medo primitivo assaltou-o; soltou um grito, como que golpeado, virou-se e correu.

Steven ficou olhando o amigo ir embora, sentindo o fio de sua vida se desenrolar e esticar-se trilha abaixo, deixando-o com nada a não ser um peito escuro, vazio, e pedaços da merda do tomate flutuando livremente na sua barriga que dava voltas.

Ele sentiu que Avery descia lentamente da pequena elevação atrás dele, as urzes úmidas batendo nos tornozelos, uma faca, uma corda, uma arma sacada.

Teve um estremecimento e virou-se com um soluço.

Avery não se movera.

Por um longo momento eles ficaram olhando um para o outro. Steven enxugou lágrimas de pânico dos olhos com as costas da mão, sentindo como era estranho o desligamento que lhe permitia achar que aquelas lágrimas eram pela briga que tivera com Lewis. Era quase como se sua mente houvesse acalmado um pouco depressa demais e finalmente pudesse examinar suas ações com certo distanciamento. A frieza daquela sensação o apavorou, mas apesar de tudo ele se apegou a ela; era quase como ter uma outra pessoa na sua cabeça, alguém para tomar decisões, e era a única coisa que não deixava que ele se enrolasse numa bola de terror, urinasse e deitasse nas urzes à espera do inevitável.

— Você está bem?

Steven balançou a cabeça, mordendo o lábio. Houve mais silêncio entre os dois.

Avery levantou-se e, cuidadosamente, espanou as folhas dos fundilhos da calça, depois desceu do montículo onde estava.

Steven viu que a calça do homem estava molhada até os joelhos, e isso o deixou consciente de que a própria calça estava assim, fria e endurecida contra as canelas.

As pontas dos nervos se retorciam, pulavam e gritavam para ele se virar e correr.

Mas, em vez disso, ficou ali parado, esperando que o assassino fosse até ele.

Por quê?

A voz interior que o observava exigia uma resposta. Steven não tinha uma resposta, apenas um amontoado de palavras que rumorejavam como peças de um quebra-cabeça no momento em que se abre a caixa. Ele sabia que aquelas peças aleatórias formavam um quadro: um jardim de uma casa de campo, barcos a vela, cachorrinhos numa cesta, mas as peças na sua cabeça eram fragmentos, e algumas estavam viradas para baixo, de forma que seria preciso mais do que uma voz exigente para arrumá-las em algo coerente. Algo útil.

Avery estava tão perto dele agora que Steven precisou levantar o olhar para ver o rosto dele.

— O que foi isso tudo?

A voz dele era bondosa e sua expressão era de simpatia. As feições faziam os movimentos certos, mas os olhos estavam em outro lugar, pensando em outras coisas.

Ele pôs uma mão fria no ombro de Steven.

Lewis não se lembrava de ter corrido; ele só podia se lembrar de que estava na charneca, então, subitamente, não estava mais lá.

Comera a metade melhor de sanduíches demais para ser um garoto atlético, mas a adrenalina encheu seus pulmões e apertou seu coração com mais eficiência do que qualquer condicionamento físico que poderia ter anteriormente ou viria a ter no futuro.

Tomou a esquerda na rua estreita, ainda coberta de nevoeiro, a única de importância que atravessava Shipcott, e ficou imaginando como suas passadas frenéticas batiam forte no chão e ecoavam no desfiladeiro de bangalôs claros e muros baixos.

Ele não sabia por que estava tão amedrontado, de modo que continuava preocupado com a maneira como transmitiria seu medo a qualquer um que pudesse ajudá-lo. Mas sabia que teria de tentar, porque, instintivamente, percebia que aquele não era trabalho para um agente secreto ou um atirador de elite de suas brincadeiras, ou mesmo para um famoso jogador de futebol de sua imaginação.

Aquele era um trabalho para um adulto.

Era bem cedo de uma manhã de sábado, mas o nevoeiro dava ao vilarejo uma sensação morta, estranha, e a rua permanecia incomumente vazia. Ele fez a curva arredondada na esquina e viu o porquê.

Havia um pequeno amontoado de pessoas fora da casa de Steven, que se derramava pela calçada estreita e ia até a rua.

Gente adulta. Graças a Deus.

Lewis quase gritou de alívio.

 

Lettie estava no banheiro quando bateram à porta. A princípio ela estranhou, imaginando quem poderia ser tão cedo assim num sábado. Mas estranhou ainda mais porque não eram realmente batidas usuais; alguém estava esmurrando a porta. Murros que Lettie só vira na TV, onde o marido bêbado chega para se confrontar com o novo amante de sua esposa infiel. Murros como se fosse a polícia.

Aquilo a amedrontou, a enraiveceu e a paralisou, tudo ao mesmo tempo.

Ela desceu a escada correndo e abriu a porta, apenas uma fresta, a mão esquerda segurando o robe fechado, não porque tinha medo de que ele se abrisse, mas para mostrar ao esmurrador o quanto ela desaprovava aquela grosseria.

Era o Sr. Jacoby. Segurando um jornal.

Lettie experimentou um segundo de completa desorientação, durante o qual ficou pensando se agora eles tinham um serviço de entrega de jornais, e, se fosse o caso, por que eles haviam encomendado o Daily Mail, e, o que era mais estranho, por que razão o Sr. Jacoby estava fazendo as entregas ele mesmo, em vez de deixar a tarefa para Ronnie Trewell, que parecia ter passado pelo menos dez de seus 14 anos perambulando para cá e para lá com uma sacola que o desequilibrava tanto que, se as calçadas não fossem bem delineadas, ele teria simplesmente ficado andando em círculos o dia inteiro.

— Sr. Jacoby — disse ela em tom neutro, de modo que pudesse sorrir ou fazer uma expressão de desagrado conforme fosse necessário.

Para sua surpresa, o Sr. Jacoby levantou o jornal nas mãos trêmulas, sujas de tinta de impressão, abriu a boca como se fosse contar alguma coisa de grande importância e desabou em lágrimas.

 

Davey estava cercado de pernas. Não era nada novo; quando você tem 5 anos, pernas são sua constante companhia. Quando você tem 5 anos toda a sua experiência de reunião de pessoas consiste em costuras repuxadas, virilhas coçadas, coxas infladas, joelhos gastos, bainhas desfiadas.

Mas aquilo era demais. Ele estava na calçada, fora de casa, tentando permanecer ao lado da mãe enquanto as pessoas se comprimiam todas em volta para ver o Daily Mail. As pernas o cutucavam, batiam nele, o jogavam para lá e para cá.

De vez em quando uma mão se estendia para firmá-lo e pedir desculpas, mas ninguém falava com ele ou o encarava; tudo naquela selva de pernas acontecia na cobertura por cima de sua cabeça. Ele agarrou com força o robe azul de tecido atoalhado puído de Lettie e sentiu as coxas quentes dela debaixo dos nós dos dedos.

Sua mãe não chorava, mas o Sr. Jacoby sim. Davey nunca vira um homem chorar antes; nem mesmo imaginara que tal coisa fosse possível, e achou a cena tão perturbadora que tentou não vê-la nem ouvi-la, mas não pôde deixar de olhar. Aquele homem grande, de camisa verde de boa qualidade, o peito arfante e os braços peludos, chorando. Davey riu nervosamente, esperando que fosse uma brincadeira, mas ninguém se juntou a ele no riso. Ele agarrou-se com mais força à mãe.

As pessoas conversavam coisas de gente adulta, falando emocionadas, mas apenas murmurando, e Davey só podia captar fragmentos das conversas. O fragmento que ele ouvia com mais frequência era:

— Isso vai acabar com a coitada.

Acabar com quem?, pensou Davey, desesperado. O que ia acabar com quem?

— Não podemos manter isso em segredo... Uma hora ela vai ter de saber... Não mostra o jornal para ela... Isso vai matar a coitada.

E assim por diante, o Sr. Jacob vertendo seu choro estranho, sibilante, balbuciante, enquanto o pai de Lewis o consolava com tapinhas no ombro, parecendo enraivecido, mas não com o Sr. Jacoby. Para Davey era como se o Sr. Jacoby fosse uma criancinha pequena que alguém forçara a sair do balanço, e o pai de Lewis estivesse tomando conta dele enquanto tentava descobrir o culpado para passar um bom corretivo.

— Não contar o que a quem?

Todos olharam com ar de culpa para a avó. Davey não a podia ver do meio das pernas, mas sabia que era ela. Ninguém disse nada.

— Não contar o que a quem? — disse a avó de novo, um pouco mais desconfiada.

Davey achou que alguém estava batendo palmas. Um bater de palmas agudo, cada vez mais perto, e de repente o som parou enquanto as pessoas em torno dele abriam espaço para um Lewis de rosto vermelho e olhos arregalados.

Lewis quase não conseguia falar. Ele viu o pai.

— Pai!

— Quieto, Lewis. Estamos conversando.

— Mas, pai!

— Lewis, vá para casa!

O pai afastou o olhar do filho e as pessoas ali reunidas voltaram as costas para o menino e se moveram, empurrando-o para a borda do grupo, como uma ameba expelindo um dejeto.

O Sr. Trewell, pai de Skew Ronnie, segurava um exemplar do Sun, e Lewis viu o rosto na primeira página. Não tinha certeza, mas, de certa forma, reconheceu aquele homem. Os lábios muito vermelhos, o denunciaram. Lewis inspirou com força o ar para dentro dos pulmões exauridos e gritou “PORRA” o mais alto que pôde.

A palavra saiu ricocheteando pelos muros e todos se viraram para encará-lo, enraivecidos. Ele apenas apontou para a foto.

— É ele! É o homem que está na charneca!

Houve um silêncio de aturdimento, a raiva dando lugar à confusão, de modo que ele se aproveitou da vantagem para explicar melhor.

— Com Steven.