O Túmulo Sob as Colinas
Capítulo 14
Lettie Lamb limpava a grande casa enquanto pensava no seu filho mais velho pela primeira vez em muito tempo.
É claro, ela pensava nele quase todo dia. Por que ele ainda não se levantara? Será que fizera o dever de casa? Onde estava a gravata dele? Mas fazia dias, semanas, talvez até mesmo meses, pensou ela com preocupação exagerada, envergonhada, que ela não pensava nele.
E, quase ao mesmo tempo que esse pensamento lhe ocorreu, ela tentou dominá-lo. Não podia pensar em Steven sem pensar em Davey, e não conseguia pensar em Davey sem o sentimento de culpa por saber que ele era seu favorito, e que nunca poderia sentir essa culpa sem pensar na mãe, a pobre Sra. Peters, e como ela amara tanto Billy.
Essa era uma rota bem desgastada, um túnel do tempo ligando as pessoas, de modo que, quando ela pensava em Steven, acabava pensando em Billy. Os dois eram tão intimamente relacionados na sua mente prática que se tornavam quase a mesma pessoa. Steven e Billy, Billy e Steven. O fato de que Steven estava, em termos de idade, tão perto de Billy quando ele desaparecera só servia para aumentar seus pecados. E, embora amasse o filho, ela precisava se lembrar desse fato constantemente, quando seu ressentimento e culpa por causa do irmão eram tão simbolicamente ligados ao próprio filho.
Lettie esfregou uma mancha d’água redonda sobre a mesa do corredor. Deu mostras de impaciência, como se aquele fosse seu precioso mogno.
Não era culpa dela. Todo mundo tinha um favorito, não? Era algo natural. E Davey seria o favorito de qualquer outra mãe. Era tão bonitinho e alegre, e dizia coisas engraçadas sem intenção de fazer graça. Por que ela deveria se sentir mal com esse sentimento? Como poderia evitá-lo? Steven não ajudava, com sua natureza reservada e seu cenho sempre fechado marcando o meio da testa lisa. Parecia permanentemente preocupado. Como se tivesse algo com que se preocupar!
Lettie sentiu aquela familiar pontada de raiva de Steven. Aquele merdinha insolente achava que carregava os problemas do mundo nos ombros! Era ela quem tinha de manter todos juntos; era ela quem esfregava os assoalhos de outras mulheres, de modo que Steven pudesse comprar seus doces no Golfinho Azul; era ela que tinha sido deixada para trás para criar dois filhos sozinha, não era? Não ele! Esses eram os dias mais felizes da vida dele, pelo amor de Deus!
A mancha redonda não saía. Honestamente, quanto mais as pessoas tinham, menos se preocupavam. Ela entrou na cozinha e abriu o armário onde guardava os alimentos. Estava abarrotado de comidas extremamente exóticas, algo além de sua compreensão. Tudo do Marks & Spencer. Ela mal reconhecia aquilo como alimento; na sua cabeça não havia conexão entre o que os Harrison mantinham na despensa e as refeições baratas, monótonas, que apareciam na mesa de Lettie.
“Sirva-se”, dizia sempre a dona da casa. É claro, ela não se referia aos cogumelos selvagens, aos pasteizinhos ou à galinha a crème fraîche, com milho tenro e ervilhas doces. Ela se referia aos lanchinhos e biscoitos que mantinha no que chamava de armário das crianças. Lettie passara longos minutos procurando alguma coisa para comer naquele último armário, mas nunca reuniu coragem bastante para abrir os invólucros dos biscoitos de chocolate que mais pareciam um presente ou para rasgar o alumínio que envolvia os apetitosos aperitivos de queijo cheddar e salgadinhos apimentados. Em vez disso, ela pegava biscoitos recheados e os comia sobre a pia, para não deixar cair migalhas no chão.
Mas ela vira uma variedade de nozes na despensa: vidros com castanhas-do-pará, nozes comuns, amêndoas e nozes da Austrália. As castanhas-do-pará eram de qualidade tão boa que ela não conseguia nem mesmo achar uma quebrada; tinha que cortar uma ao meio.
Esfregou a metade da castanha na mancha redonda da mesinha, observando como ela ficava mais clara.
A carta que Steven recebera. Era por isso que estivera pensando nele. Ela sentia-se um pouco mal sobre o fato de ter lido a correspondência quando obviamente era tão particular, mas que se dane, chamara-o aos gritos durante 15 minutos! Será que ele não tinha ouvidos? As orelhas de Steven se projetavam em ângulos esquisitos, sempre vermelhas nas pontas, não como as de Davey, que eram aveludadas, bonitinhas.
A carta era curiosa. Ela queria perguntar a ele quem a enviara, mas no último segundo não fizera isso. Alguma parte pequena, adormecida, de sua mente lhe lembrara que quando tinha 12 anos ela conseguira que Neil Winstone escrevesse “Seu cabelo é bonito” nas costas de seu livro de exercícios de inglês, de modo que acabara contendo a língua.
Steven parecia jovem demais, alienado demais, infeliz demais — cacete!, para ter uma namorada. Mas era óbvio que ele escrevera pelo menos uma carta antes. Obrigado por sua grande carta. Lettie ficou imaginando o que seria considerado uma grande carta naqueles dias de mensagens de texto e e-mails. Mais do que duas linhas? Ortografia correta? Ou declarações de um amor eterno?
Ela não estava feliz com o filho. Era apenas mais uma coisa para se preocupar: quanto tempo demoraria para que a mãe de alguma vagabunda de 14 anos viesse bater à sua porta exigindo um teste de paternidade? Lettie franziu as sobrancelhas, vendo um futuro no qual ela e a mãe da garota se revezariam tomando conta do bebê enquanto a vagabunda tentasse em vão conseguir um diploma de curso secundário. Um futuro onde ela, Lettie Lamb, era uma avó com 34 anos. Subitamente, sentiu-se fraca e precisou se apoiar na mesa do corredor. Sentia um vórtex sugando-a na direção da morte, antes que tivesse tempo de viver uma vida adequada.
Quando fora a sua chance? Quando ela tivera uma chance? Como aquele merdinha tinha coragem de arruinar sua vida? De novo.
E então a culpa e a autocomiseração se uniram.
Seus olhos queimavam e ela enfiou com força o dorso das mãos sobre eles antes que as lágrimas estragassem sua maquiagem. Ainda tinha duas outras casas para limpar antes de pegar Davey na escola; não podia chegar em casa com a cara daquele jeito, arrastando todo mundo com ela para o buraco.
Respirou com força e esperou que aquela sensação maluca de tontura passasse.
Ainda segurava as duas metades da castanha-do-pará nas mãos. Arrebatada por um súbito sentimento de desafio, comeu ambas.