O Túmulo Sob as Colinas
Capítulo 28
Steven tirou as meias e, hesitante, calçou os tênis frios, molhados, fora da porta dos fundos.
Eram cinco e meia da manhã e ele se sentia estúpido, como se tivesse 6 anos de novo e estivesse acordando para um Natal que ele sabia que nunca aconteceria.
Steven sorriu para si mesmo. Natal em junho. Ele vinha se sentindo assim todos os dias daquela semana, deslizando para fora da cama por cima de Davey esparramado como uma estrela-do-mar nos lençóis, pisando na tábua que rangia fora do quarto de Billy, agarrando-se ao corrimão para controlar o baque de seus pés nos degraus. Então, tremendo um pouco, em parte por causa da quentura do sono dando lugar a um novo dia frio que afetava sua pele, em parte de empolgação, ele atravessou a cozinha na ponta dos pés rapidamente, a luz do sol distribuindo raios de poeira dourada pela janela.
E tudo por causa dos pequeninos rebentos verdes que haviam começado a aparecer como esmeraldas espargidas na terra escura da horta.
As cenouras surgiram primeiro e a garganta de Steven apertou quando as viu. Quase gritou! As cenouras estúpidas! Ele nem mesmo gostava de cenouras!
Tentou não mostrar sua empolgação enquanto contava ao tio Jude sobre o alimento, mas o tio também ficara empolgado por conta própria, e imediatamente deixara de lado suas fatias de bacon para ir ver a novidade. Steven sentira-se como um homem apresentando seu novo bebê. Gostaria de ter um cigarro naquele momento. Em vez disso, o tio Jude pusera uma mão na nuca dele, o que era ainda melhor.
Depois das cenouras, os feijões surgiram no pé das estacas às quais estavam atados, parecendo tendas indígenas. Naquele exato momento parecia impossível que as pequenas partículas verdes inermes poderiam jamais subir até a altura das tendas. Steven encheu-se de espanto só de pensar que iriam inclusive tentar.
Ficou imaginando o que viria em seguida.
Foram as batatas.
Mas antes disso, três dias depois de as primeiras cenouras aparecerem, Steven chegou da escola e não viu a avó na janela.
O terror se apossou de seu coração, mas tentou não correr pela casa gritando o nome dela.
— Vovó? — chamou ele no pé da escada. Nenhuma resposta. Ele subiu até a metade dos degraus e viu que a porta do banheiro estava meio aberta. Ela não estava lá.
Não havia ninguém em casa.
Steven atravessou a cozinha correndo e parou, atônito.
A avó estava na horta. Examinava os rebentos e mexia na terra aqui e ali com a bengala. Não com crueldade, percebeu Steven, mas do mesmo modo que ela tocara nas rodas de seu carrinho.
O mesmo carrinho que a avó agora segurava firme para se apoiar enquanto rolava e fazia curvas com ele, caminhando na horta cheia de calombos.
Vou fazer uma trilha para ela, pensou Steven, uma trilha bem aplainada.
Em seguida, ele correu de volta para dentro da casa e saiu pela porta da frente, pegando a mochila da escola no caminho.
Um pouco depois ele acenou um “olá” para a avó de lábios cerrados, imóvel na janela, e entrou na casa pela segunda vez em dez minutos.
Essa lembrança cegou Steven até ele estar no meio da horta; então ele parou subitamente.
Os brotos de feijão estavam derrubados.
Ele correu o restante do caminho, reprimindo a inquietação que começara a sentir no estômago.
As estacas que sustentavam as plantinhas não haviam caído. Elas foram arrancadas e espalhadas pelo resto da horta.
Ou o que restava dela.
Alguma coisa grande e pesada pisoteara e remexera a terra preta, macia, dando pontapés nos pequenos frutos que agora jaziam espalhados como corpos num campo de batalha, os brilhantes uniformes verdes expondo os membros nus, magricelos, que nunca deveriam ter sido expostos.
Steven queria que o autor daquilo fosse uma raposa. Ou uma vaca. Ele chegou até a olhar em torno da horta à procura de uma vaca fugida. Um vaca seria ruim, mas não tão ruim quanto o simples fato de que uma pessoa fizera aquilo. Uma pessoa ou várias.
Os encapuzados. Os encapuzados haviam feito aquilo. Na sua mente, Steven pôde imaginá-los pisoteando e rindo enquanto esmagavam os tenros brotinhos debaixo dos pés, os rostos escondidos retorcidos de uma alegria estúpida.
Mas, enquanto tentava se convencer da ideia, Steven sabia que os encapuzados não iam se dar ao trabalho de fazer aquilo, nem o conheciam tão bem a ponto de saber que ele ficaria magoado.
Com o coração despedaçado, Steven sabia que o autor fora Lewis.