O Túmulo Sob as Colinas
Capítulo 19
Steven levou bem mais de uma hora para caminhar até Dunkery Beacon, mesmo que estivesse andando mais depressa por não levar a pá.
A pá.
Agora que parara de cavar, o simples pensamento da palavra “pá” o fazia se encolher com a culpa do fracasso em potencial.
Mas ele caminhava mais depressa sem ela, permitindo que seus braços oscilassem livremente, ganhando ritmo e um ligeiro suor ao batalhar ladeira acima, sempre ladeira acima, na charneca. Ele nem mesmo se preocupara em trazer sanduíches, apenas uma garrafa d’água e uma câmera que se avolumavam nos bolsos do velho anoraque.
A câmera pertencia a Davey e era um objeto barato e descartável de um conjunto de três que ele ganhara no aniversário. A primeira câmera o irmão gastara fotografando pés, tetos e pessoas, todas borradas. A segunda, ele deixara cair no banho enquanto registrava a épica batalha naval de um herói contra uma praga de seres alienígenas sob a forma de bolhas coloridas de sais para banho. Davey percebera tarde demais que as cápsulas coloridas derretiam-se na água quente, deixando apenas uma fina camada branca de óleo, um pedaço de substância gelatinosa que parecia goma de fruta, e ele, Davey, exposto à ira da mãe, sempre racionando itens que considerava um luxo. Em pânico, deixara cair a câmera.
A terceira ficara acumulando poeira no peitoril da janela até a chegada da carta de Avery, quando então Steven furtou-a sem remorso.
Ele precisava da câmera, Davey não.
Dunkery Beacon não era apenas o ponto mais alto de Exmoor, mas também o mais frio, pensou Steven enquanto o vento fazia chicotear seu anoraque barato em torno do corpo, açoitando dolorosamente suas pernas com o zíper metálico. Ele o puxou para cima a fim de evitar se machucar mais.
Como ela era basicamente a única coisa para se olhar, com exceção da paisagem inexistente, Steven examinou rapidamente a placa que comemorava a doação do Beacon, uma área de notável beleza natural, à nação, em 1935. Os nomes dos benfeitores estavam gravados na pedra e ele não pôde evitar soltar um suspiro. Deveriam ver no que a tal beleza se transformara, pensou.
De Exmoor se podia frequentemente ter uma vista do canal Bristol e, às vezes, dos faróis Brecon, levantando-se do outro lado do canal, na terra estrangeira de Gales. Porém, naquele dia, o céu branco com seu relevo de nuvens cinzentas fugitivas deixava o horizonte indistinto e vazio. Ele se virou e olhou de volta para a trilha grosseira que o levara até ali, àquele pequeno trecho plano de cascalho, que fazia as vezes de um estacionamento. Havia dois carros no local. Não era uma coisa incomum, as pessoas gostavam da paisagem, mas felizmente as pessoas também gostavam de caminhar, e ninguém podia apreciar ambas as coisas a menos que saíssem dos carros.
Steven olhou ao redor, mas não viu ninguém. Era espantosa a rapidez com que as pessoas podiam desaparecer nas aparentemente descaracterizadas colinas de Exmoor.
Dunkery Beacon não era inteiramente assim. Aqui e ali haviam saliências de pedras de antigos montículos funerários. Enquanto fazia vagarosamente um círculo, ele tirou do bolso a câmera de plástico azul, imaginando qual seria o melhor ângulo.
Tudo muito rápido, ele sabia, e sentiu-se mal com esse pensamento.
Avery queria o ângulo que mostrasse a melhor vista da área de Dunkery Beacon, onde enterrara os corpos.
Steven não pensara nos corpos enquanto subia até ali, mas então percebeu que estava parado a 500 metros de três das covas rasas.
Yasmin Gregory.
Louise Leverett.
John Elliot.
Com um sentimento constrangedor de voyeurismo, ele esquadrinhou o terreno ao redor para ver se achava qualquer evidência, mesmo depois de tantos anos, das escavações feitas durante a busca pelos corpos das crianças. Os montículos funerários, marcos que denotavam respeito e honra, tornaram-se meros panos de fundo enquanto sua memória trazia à tona três conjuntos de iniciais desenhadas em caneta esferográfica vermelha no tojo batido pelo vento, e seu olhar de assassino fazia covas rasas na relva, cicatrizes nas urzes. Mas seu intelecto de garoto comum voltou a predominar. Já se passara muito tempo. A relva, o tojo e as urzes já teriam crescido agora, recolonizando o solo exposto, suavizando as feridas ásperas, abertas, de pequenas famílias e de toda a nação. Ele sabia que não havia nada para ver, a menos que a pessoa soubesse exatamente em que ponto olhar, e mesmo assim a imaginação teria que suprir as lacunas.
E então Steven imaginou, olhando através da ocular suja da câmera para uma parte da charneca que, pelo que ele supunha, continha uma das covas, e depois acionou o obturador. A coisa parecia ter terminado bem rápido e facilmente, considerando a longa caminhada em aclive até ali, de modo que se moveu um pouco para o lado e acionou o obturador de novo, antes de descer de volta do Beacon.
Ao cruzar o estacionamento, Steven lançou um olhar despreocupado para os carros. Algumas vezes as pessoas deixavam os cachorros dentro dos veículos em dias quentes. Steven sonhava em achar um cachorro preso numa situação dessas e ser forçado a quebrar o vidro para resgatar o animal, e depois levá-lo para casa, certo de que salvara o bicho de pessoas idiotas, que não mereciam ter um animal.
Mas aquele dia não estava quente, e a maioria das pessoas que trouxeram cachorros para Exmoor chegou lá com o propósito expresso de passear com eles, não deixá-los no carro. Steven suspirou e percebeu que teria de morar perto de um supermercado para ter uma chance decente de transformar sua fantasia em realidade, embora não houvesse supermercados em Shipcott.
Ele se virou e olhou de volta para o Beacon, marrom e feio debaixo de um céu ameaçador.
O ângulo da luz fazia os antigos montículos funerários se destacarem muito mais vistos dali de baixo. O que parecia plano visto do cume sobressaía em relevo visto do estacionamento. Ali, ele pensou, poderia tirar uma fotografia melhor.
Então, com os dedos dormentes por causa do frio, Steven tirou a câmera do bolso mais uma vez, apontando para cima, para o terreno em aclive, e disparou o obturador.
Depois, se virou e começou a voltar para casa.
Steven já alcançara a bifurcação da trilha que o levaria de volta, descendo até Shipcott, quando viu os encapuzados vindos na sua direção, as cabeças baixas enquanto enfrentavam a dura marcha de subida na íngreme colina, vindos do vilarejo.
Steven estacou. Olhou em torno rapidamente como se uma rocha ou um arbusto pudessem, subitamente, emergir da charneca sem quase nenhum traço marcante, oferecendo-lhe um lugar para se esconder. Ele sabia que não adiantava. Sabia que podia fugir das vistas dos garotos bem ali, entre as urzes que cresceram ao lado da trilha. Ele e Lewis costumavam se esconder dessa forma do cachorro idiota do amigo, Bunny, quando ele ainda era vivo. Esperavam até que Bunny partisse atrás de um coelho e então se lançavam entre os arbustos e assobiavam. Davam risadas abafadas, olhavam furtivamente e sussurravam, ouvindo o cão, um cruzamento de labrador, fuçando na charneca ao seu redor, e sempre levavam um choque quando o animal finalmente os encontrava, com o grande focinho úmido, a língua balançando para fora da boca e os latidos agitados.
Mas essa era a visão de um cachorro.
Steven sabia que se ele deitasse entre as urzes agora, quando os encapuzados chegassem a 3 metros dele, veriam sua forma achatada se destacando entre as flores, como um avestruz estúpido que esconde a cabeça na areia, e então ele seria humilhado, perseguido e espancado.
Durante um momento ele apenas ficou ali, parado, esperando que um dos garotos ofegantes levantasse o olhar para a trilha em frente e o visse, enquanto decidia a melhor forma de correr.
A câmera.
O pensamento simplesmente surgiu na sua mente. Se o pegassem, levariam a câmera. Ou a quebrariam.
Rapidamente ele puxou-a do bolso, escolheu um lugar e deixou-a cair entre as urzes. Tentou gravar a localização no seu cérebro. Duas urzes rosa claro com um tojo entre elas, perto daquela pedra em forma de feijãozinho.
Levantou os olhos para os encapuzados no momento exato em que um deles olhou para cima e o viu, e percebeu que deixar a câmera no chão o fizera perder a vantagem que tanto precisava para se virar e correr.
Num segundo os três estavam em cima dele.
— Lamb — disse o mais alto deles.
Ele não respondeu e os três ficaram momentaneamente indecisos sobre o que fazer com ele.
— Você tem algum dinheiro?
— Não.
Mas, sem ligar para o que ele dissera, as mãos ásperas e rudes, revistaram-no, puxando seus bolsos para fora e jogando a garrafa d’água na trilha rochosa, onde o plástico vazio fez um barulho característico. Acharam 34 centavos no bolso da calça e a carta de Arnold Avery dobrada no bolso de trás.
O menor dos garotos deu um empurrão no peito de Steven, fazendo com que ele recuasse, ainda que estivessem num aclive.
— Você disse que não tinha dinheiro.
Ele deu de ombros. O garoto mais alto desdobrou a carta.
— Se você mandasse uma foto seria bom. O que isso quer dizer?
— Nada.
O garoto alto lançou um olhar penetrante para Steven e para a carta, decidindo se dava ou não importância àquilo. Por fim, simplesmente rasgou a carta em pedacinhos e espalhou-os por cima das urzes. O garoto menor empurrou-o de novo, dessa vez no ombro. Ele podia sentir que os três estavam loucos para que ele revidasse, querendo um desafio que justificasse as próprias ações. Quando Steven não reagiu, o garoto do meio puxou o anoraque de seus ombros, querendo arrancá-lo. Dessa vez ele reagiu, dobrando os cotovelos para prender o anoraque.
— Me dê isso aí, seu imbecil.
Steven não confiou na própria voz. Não queria contar aos encapuzados que, se ele chegasse em casa sem o anoraque, sua mãe iria ficar maluca. Era um casaco velho e não completamente impermeável, mas ele sabia que a peça ainda não estava no fim de sua vida útil, até onde lhe cabia decidir. Não conseguiria dizer a ela que o anoraque fora roubado, pois ela iria se queixar com os pais dos encapuzados, e aí é que sua vida viraria um inferno. Mas o pensamento de ter que dizer a ela que esquecera a peça na charneca ou a perdera na escola subitamente encheu seus olhos de lágrimas quentes, enquanto o garoto do meio puxava com mais força a peça de roupa, satisfeito por Steven estar resistindo.
Steven mordeu o lábio para conter as súplicas enquanto o insistente movimento do encapuzado que puxava o anoraque pelo braço o fez perder o equilíbrio e cair para o lado. Imediatamente o garoto do meio viu uma abertura e o empurrou naquela direção, fazendo-o ajoelhar-se num tojo espinhento. Seu pulso direito torceu ao se prender no punho da roupa, momentaneamente aguentando todo o seu peso enquanto ele caía, e depois não resistiu, libertando-o e o fazendo cair de lado.
Ele sentiu as cerdas espinhentas penetrarem no braço, no rosto e até mesmo através do agasalho e da calça jeans; jogou a cabeça para cima para proteger o rosto, e ouviu os encapuzados rirem.
— Peguem o tênis dele.
A raiva que começara a surgir em Steven quando o garoto pegara seu anoraque fez com que ele, agora, desse pontapés enquanto os garotos tentavam tirar seus tênis. Eram novos, presente do último Natal. Sua mãe ficava zangada quando ele chegava com os calçados enlameados; iria matá-lo se ele chegasse sem eles.
Os garotos agarraram suas pernas que se debatiam e ele curvou o pé, num esforço para conservar o tênis esquerdo, mas ele também foi arrancado.
Suas lágrimas agora eram de impotência furiosa. Queria matar os três; queria puxá-los pelas orelhas e dar uma joelhada naqueles rostos risonhos; queria pegar uma pedra em forma de feijãozinho e bater com ela naquelas bocas que riam até que seus dentes virassem cacos quebrados e ensanguentados.
Em vez disso chorou enquanto os encapuzados tiravam seu tênis direito e iam embora aos risos.
Ele esperou e continuou chorando, encolhendo-se pela dor dos espinhos do tojo que o feriam, mas amedrontado demais para segui-los de perto.
Finalmente Steven se levantou, tomando o caminho de volta pela trilha. Uma de suas meias fora puxada até metade do seu pé. Eram suas meias favoritas; sua avó tricotara para ele no aniversário de dois anos atrás, e ele as conservava para ocasiões especiais, para não gastá-las. De algodão cinza e reforçadas, com a dobra do pé bem-feita, que a avó chamava de calcanhar francês, elas tinham forma própria, como as meias que se vê em desenhos animados. Quando as ganhou elas eram grandes para ele, mas agora já estavam apertadas, porém ainda assim ele as usava em ocasiões especiais. Aquele dia era uma ocasião especial por causa da fotografia de Dunkery Beacon. Agora ele se lembraria da data por outras razões também. Começou a chorar de novo, tornando difícil a tarefa de encontrar a pedra com formato de feijãozinho através das lágrimas, mas conseguiu achá-la, por fim. Depois disso, começou a descer a trilha. Foi uma caminhada lenta e dolorosa. Quando chegou à escadinha da cerca que levava pelos fundos das casas até a rua, as meias já estavam cheias de buracos.
— Como assim, perdeu? — Lettie ainda não estava furiosa, mas já estava chegando lá, e Steven sabia que isso aconteceria em pouco tempo.
— Desculpe.
— Como é que você pode perder o seu anoraque e seus tênis? E não sabe dizer onde.
— E arruinar as meias — falou a avó, fazendo coro. — Levei semanas para tricotar essas meias, mesmo com a minha artrite. Você não dá valor a nada.
— Eu gostava muito delas! — disse ele, zangado por a avó não pensar assim. Será que ela não vira como ele as guardava para ocasiões especiais? Esse pensamento o fez começar a chorar de novo, e parte de sua mente suspirou, deprimida, ao pensar nisso. Já estava cansado de chorar por aquele dia; mal podia acreditar que ainda havia mais choro dentro dele.
— Steven está chorando, mamãe! — falou Davey, intrigado.
— Vá se foder, Davey — exclamou ele.
— Como você tem coragem de usar essa palavra nesta casa?
Lettie deu-lhe um tapa na nuca, não com força, mas de qualquer maneira aturdindo-o e chocando a todos, o que provocou um terrível e palpitante silêncio.
Sua mãe nunca lhe batia no rosto ou na cabeça. Ocasionalmente, ela lhe acertava nos braços e nas pernas com um cinto, mas a cabeça era território proibido numa compreensão tácita de que apenas bêbados e inquilinos de prédios da prefeitura batiam em seus filhos assim.
Steven queria pedir desculpas. Queria muito fazer isso. Queria que a mãe o abraçasse de novo, do modo que fizera no outro dia. Queria descansar a cabeça no ombro dela e voltar a ser um bebê, sem se preocupar com meias, tênis, anoraque, os encapuzados, a pá, cadáveres ou assassinos compulsivos. Queria se recolher à sua cama, tomar um copo de leite quente com açúcar, e ter alguém cantarolando para ele dormir enquanto recebia cafunés no cabelo.
Ele estava cansado da sua vida.
Mas ela batera na cabeça dele.
Portanto, em vez de pedir desculpas, ele gritou:
— Vá se foder você também! — E depois passou correndo pela mãe, foi para cima e fechou a porta do quarto com tanta força que ela subiu a escada batendo os pés nos degraus, num acesso de fúria.
Ele sabia que se excedera.
Se não tivesse ficado com tanta raiva, Lettie teria visto como ele estava amedrontado, parado junto à cama, os olhos arregalados, as mãos estendidas diante do corpo, em atitude de rendição, incerto se ela ainda tinha algum controle.
— Mamãe, desculpe!
Mas era tarde demais. Ela deu outro tapa na cabeça dele, e depois outro, e bateu nos braços, mãos e orelhas, até que finalmente choveram tapas e socos fracos, com os punhos fechados, nas costas dele, enquanto ele se encolhia por cima da cama, a cabeça entre os cotovelos.
Foi o berreiro histérico de Davey que fez Lettie recobrar o juízo, por fim. Ela pegou o filho favorito nos braços e acalmou-o com suavidade.
— Veja como perturbou Davey! — gritou ela para Steven, a voz aguda com o sentimento de culpa. — Agora desça para o chá.
— Não quero nenhum chá. — A voz dele foi abafada pela colcha.
— Muito bem — disse Lettie, levantando Davey mais alto e colocando-o na cintura. — Então, não tome nada.
Steven ouvi-os saindo e descendo a escada. Ele ouviu a voz de Lettie, baixa e gentil para com Davey, e uma parte dele compreendia que ela estava tentando compensar o que fizera, mesmo que não diretamente com ele, Steven.
Ele fungou, se coçou e começou a sentir as partes do corpo onde o anel da mãe o atingira, na orelha esquerda, no pulso esquerdo e na omoplata, causando um vergão. Levou o dedo à orelha e encontrou um pequeno ponto sangrando. Os ouvidos também zumbiam um pouco e a maçã do rosto direito queimava por um tapa recebido. Ele subiu na cama, virou-se para a parede e encolheu-se um pouco mais, como uma bola. Abraçou-se a si mesmo, subitamente sentindo frio, mas sem querer entrar debaixo das cobertas de novo.
O toque de algo suave no ombro espantou-o. A avó pegara a colcha atrás dele e a estendera sobre ele. Ele cruzou o olhar com o dela rapidamente, mas ela logo se empertigou e virou-se para sair.
— Vovó!
Steven esperava que ela se virasse e olhasse de volta, como acontecia nos filmes, mas ela continuou andando, desaparecendo no corredor.
A voz dele soou áspera com o choro, mas, de qualquer forma, ele falou, como se ela o estivesse ouvindo; como se ela se importasse:
— Eu guardava as meias para ocasiões especiais. Eu gostava muito delas.
Steven pensou ter ouvido a avó fazer uma pausa no alto da escada, mas não teve certeza.