O Túmulo Sob as Colinas
Capítulo 23
Arnold Avery nunca pensara em fugir da prisão. Não realmente.
É claro, nos primeiros meses de aprisionamento ele ficara deitado, acordado, e pensara nas coisas que faria se ganhasse a liberdade de novo. Mas o conceito de escapar não era algo importante na sua mente. Presumia que em algum momento ele receberia a liberdade condicional, e que para chegar esse momento cumpriria pelo menos a pena de vinte anos que o juiz recomendara no seu julgamento.
Parecia justo. Apesar de ser um assassino de crianças, Avery era um cidadão obediente às leis, que votava nos Conservadores com “C” maiúsculo, que achava que a maior parte das penas de prisão eram terrivelmente inadequadas e que a libertação antecipada de alguns prisioneiros era uma desgraça.
E então, quando se viu enfrentando um mínimo de vinte anos preso, Avery não se lamuriou e queixou, nem apelou à Corte alegando ter bons antecedentes e ser bom contribuinte. Em vez disso, tomou a decisão consciente de fazer o máximo para assegurar que era um excelente candidato para receber a liberdade condicional, assim que se tornasse qualificado para tanto.
Quando os três homens o estupraram no banheiro, Avery permitiu que os tarados se divertissem à custa de sua humilhação sem nunca se queixar ou revidar.
Quando foram oferecidas aulas de melhoria e reabilitação, Avery se inscreveu e se esforçou pelo menos o mínimo possível para ficar entre os primeiros de cada curso.
Quando o Dr. Leaver mandou que sua vista da charneca fosse bloqueada, deixando-a em permanente semi-escuridão, Avery lhe agradeceu.
E quando foi levantada a questão das outras crianças desaparecidas, Avery jurou por todos os santos que não matara Paul Barrett, William Peters ou Mariel Oxenburg. Elas podiam estar mortas, mas aquelas três crianças tinham o poder de estender o período que ficaria à disposição de Sua Majestade, e ele nunca permitiria que fizessem isso com ele, por maior que fosse a dor dos pais angustiados.
Avery sabia que a liberdade condicional depois de vinte anos estava longe de ser um fato consolidado, mas sabia que daria a si mesmo a melhor chance possível disso acontecer, e estava portanto conformado de esperar mais alguns poucos anos para ver o resultado. Dentro de 12 meses poderia estar inscrito num programa de prisão aberta, em Northumbria, que tinha como objetivo preparar os internos para a liberdade. Tudo estava caminhando exatamente como planejado.
Até que ele descobriu que SL era apenas um menino.
Um menino com o qual ele construíra uma atmosfera de confiança.
Um menino com o qual compartilhava segredos.
Um menino que queria tanto uma coisa dele que podia ser convencido a fazer... Simplesmente qualquer coisa.
E, se não fizesse, então isso também não seria problema.
Mas a coisa teria de ser imediata. Não dali a dois anos, quando talvez lhe fosse concedida a liberdade condicional. Então, o foco do menino na sua busca teria dado lugar a alguma distração sem graça de adolescente na forma de uma missão inteiramente diferente. E certamente não se ele fosse libertado para viver em alguma porcaria de abrigo provisório lá para o norte, longe de sua amada Exmoor.
Arnold Avery passara 18 anos observando e esperando, submetendo-se, cumprindo sua pena... Foram 18 anos sem lembranças frescas de como simplesmente as crianças podiam ser excitantes. Por mais que ele houvesse tentado conservar essas memórias, as antigas tinham inevitavelmente se deteriorado pelo excesso de uso.
A foto de SL fora uma supernova iluminando os recessos poeirentos de sua mente. Penetrara na sua lógica e nas boas intenções como um raio laser em uma lente de aumento. Agora seu cérebro estava constantemente desperto e alimentado por uma desesperada carência e por possibilidades. Assim como Steven pusera o olho na fresta da porta e vira um futuro de verões e skates, Avery também vira que seu futuro, seu futuro imediato, podia ser, da mesma forma, preenchido com imensos prazeres. Alguma coisa química fora liberada no cérebro de Avery, algo que afiara sua luxúria e embotara seus sentidos mais à flor da pele. A mesma mudança química o fizera abusar de um menino enquanto esperava a chegada da polícia a pedido de outro menino. Tudo em que ele conseguia pensar era em SL. Sabia onde morava. Tinha uma vaga ideia da aparência dele. Podia guiá-lo, tentá-lo, orientá-lo.
Desorientá-lo.
À sua vontade.
A perspectiva de controle era deliciosa. A recompensa, preciosa. O menino estava ali, à sua disposição.
De repente, todo o tempo do mundo pareceu tempo demais para Avery.
Tudo poderia acontecer!
SL poderia se mudar; poderia morrer; poderia simplesmente perder o interesse. Avery precisava escrever para ele. Tinha de dar-lhe esperanças de que o cadáver que ele procurava estava a um palmo de distância. Tinha de mantê-lo fisgado.
Ele se ressentia da súbita mudança que o tornara tão necessitado e que criara uma ferida no seu recém-descoberto poder. Mas ele conhecia um meio seguro de recuperá-lo. Se precisasse ceder um pouco de poder agora, para conseguir controle completo e prazer sublime mais tarde, então isso era uma troca que ele estava preparado para fazer.
De modo que foi com uma sumária percepção — e imediata rejeição — de arrependimento que Arnold Avery concluiu que precisava fugir da prisão.
E precisava fazer isso rápido.
Esse súbito senso de urgência o teria tornado um homem descuidado, imprudente e estúpido.
Mas transformou Avery no Superman.
Ele acordara de sua hibernação, rejuvenescido e atrevido, com todos os sentidos mais alertas.
Sabia que era inteligente e que não usava essa inteligência havia muito tempo. As cartas de SL haviam estimulado seu QI adormecido, mas agora que estava bem acordado ele podia sentir os neurônios faiscando como motores potentes e a inteligência percorrendo seu corpo como conhaque numa noite fria.
Agora, todo dia continha uma oportunidade que ele não queria perder. Compreendia a necessidade da cautela e do planejamento, mas também reconhecia que era preciso explorar vias inesperadas. Era um ataque duplo do intelecto, e ele se sentia vivo com o desafio.
Assim que passou a se preocupar, Avery começou a observar as coisas numa interminável corrente de informações que fluíam por sua mente. Cada pequena parcela dessas informações era acessada, catalogada e armazenada para exame futuro.
Ele sempre soubera que o guarda Ryan Finlay era um idiota do caralho, mas agora seus olhos claros e calmos viam que Finlay era um idiota do caralho com um grande molho de chaves às quais ele dava muito pouca atenção.
As chaves ficavam penduradas no cinto de Finlay e deviam ser mantidas em segurança, fora da vista dos presos, na pequena bolsa de couro daquele cinto. As autoridades sabiam que até mesmo um simples olhar para uma chave podia causar uma impressão indelével na mente criminosa, de um modo que a honestidade e a moral nunca haviam conseguido. Em poucas horas um prisioneiro podia fabricar uma chave usando as capas duras arrancadas de livros encadernados ou as extremidades das caixas de cereal; não seriam duráveis, mas teriam apenas de funcionar uma vez.
Por essa razão, os guardas deviam mantê-las escondidas o tempo todo. Na realidade, destrancar uma porta, colocar as chaves na bolsinha de couro, andar 3 metros e precisar tirá-las de novo para destrancar a segunda porta era algo que não estimulava a obediência às regras.
Finlay não seguia as regras. Avery achava que, a seu modo pequeno e gordo, o guarda se considerava acima dessas insignificantes regrinhas, assim como ele próprio. Exceto, é claro, que para Finlay quebrar as regras significava lidar com as chaves de modo rápido e descuidado. Quando ele, Avery, quebrava as regras, isso significava tirar a vida de uma criança indefesa por estrangulamento.
Tudo era relativo.
Arnold observara agora que Finlay não só detestava ter as chaves chocalhando contra seu quadril de tamanho considerável, mas que também gostava de soltá-las inteiramente do cinto e girá-las nos dedos, enquanto ia de lá para cá nos corredores, seus passos ecoando. Como Finlay era a antítese da postura atlética e da coordenação motora, às vezes ele deixava as chaves caírem, e, quando isso acontecia, levava um século para pegá-las, suspirando e gemendo para se inclinar até o chão e depois voltar à postura ereta. Uma vez de pé, ele piscava meio aturdido por alguns segundos, pois o esforço de curvar-se lhe tirara todo o sentido de orientação.
Avery ficou atento a cada movimento. Observava o guarda chegar ao bloco de celas; o observava ir embora; observava cada chave que ele escolhia do grande molho preso ao anel. A chave do bloco era grande, comprida e de um modelo antigo. Quase primitiva. As chaves que ele usava para destrancar as celas eram do tipo Yale. Isso era mais difícil. Além delas e da mais simples, do bloco, Avery contou sete outras chaves no molho de Finlay. Ele não sabia o que elas abriam, mas tinha o pressentimento de que sete chaves seriam mais do que suficiente para levar um homem para fora dos muros da prisão, ou algo bem perto disso.
O criminoso era bem esperto para achar que bastava pegar as chaves e fugir, mas isso era algo para ele ponderar; informação catalogada.
Os muros da prisão de Longmoor, de apenas 3 metros de altura, aproximadamente, eram os mais baixos do país. Entretanto, qualquer homem que conseguisse transpor a cerca, escalar o muro e não quebrar os tornozelos quando caísse do outro lado se defrontaria com um obstáculo muito mais difícil. A própria charneca de Dartmoor.
Por mais de um século, as autoridades prisionais haviam se fiado na grande extensão da vegetação para manter os prisioneiros dentro dos muros. Nas poucas ocasiões em que houve fugas, os guardas se preocupavam apenas em patrulhar as estradas, confiantes que elas eram o único caminho possível para a liberdade. Os prisioneiros que tentavam atravessar a charneca estavam condenados a enfrentar os caprichos do tipo de cativeiro próprio de Dartmoor: seu inclemente e imprevisível microclima. Até mesmo no verão, se um ataque cardíaco não exaurisse os fugitivos naquela paisagem sem árvores, o tempo podia fazer uma espetacular reviravolta e estender um lençol de nevoeiro úmido e frio sobre a área em minutos, congelando seus ossos enquanto tropeçavam cegamente entre rochas de granito do tamanho de construções, através do argiloso terreno escorregadio e caindo em súbitos e aderentes pântanos, que provocavam o homem desprevenido com miragens de relvas vigorosas, crescendo quase hidroponicamente por toda a superfície.
A charneca era, quase sempre, a vencedora no jogo da fuga.
Agora, com o efetivo de prisioneiros aumentando exponencialmente e a exigência intrometida do público para uma maior eficiência no serviço, uma robusta cerca de elos de arame fora erguida a 3 metros, para dentro, dos muros de pedra. O aramado também tinha apenas 3 metros de altura, mas recebera como elemento dissuador uma serpentina de arame farpado, afiada como navalha. Havia quatro portões trancados na cerca de arame, como se houvesse necessidade de sair e ir pegar uma bola de futebol chutada para fora ou algo assim.
O muro sozinho teria sido sedutor. Ele e a cerca de arame farpado, porém, eram uma perspectiva desencorajadora.
Mesmo assim, Avery amoleceu uma barra de sabão em água quente e a mantinha em seu bolso o tempo todo, sofrendo com o resíduo espumoso que o sabão deixava na calça, dizendo a si mesmo, repetidamente, que sabão não podia ser sujo; na verdade, era a antítese da sujeira, e, portanto, ele podia e devia suportar o constante peso gordurento em sua pessoa. O que faria, se algum dia conseguisse uma impressão da chave no sabão, isso ele não tinha certeza. Atravessaria aquela ponte, se chegasse, e sentia que alguma coisa útil estava do outro lado.
Também pensou nas paredes de sua cela. Eram feitas de pedra, mas a argamassa entre os blocos era naturalmente vulnerável. O inimigo da fuga pelas paredes era o tempo, que ele não tinha muito, e a luz, que ele tinha demais. Embora a cela dele fosse mais escura do que a maioria por causa das tábuas na janela, as luzes elétricas se acendiam às seis e meia da manhã e assim ficavam até às dez e meia da noite. Avery começou a raspar a argamassa em torno de uma pedra debaixo de seu catre por volta das onze horas, usando o cabo de sua escova de dentes.
Três horas depois, ele fizera uma pequena reentrância na argamassa e tinha um cabo de escova de dentes bem afiado. Desistiu da parede, mas manteve a escova de dentes dentro do travesseiro. Aquilo era uma prisão e nada devia ser desperdiçado.
Duas noites mais tarde ele usou o cabo da escova, agora afiado, para afastar a tábua que tapava a janela. A argamassa em torno das barras era mais macia do que a das paredes e, quando o céu começou a clarear, ele expusera cerca de 6cm da base de uma das barras. Era uma alteração que teria sido detectada quase que imediatamente em qualquer cela da prisão. Isto é, qualquer uma que não tivesse a janela tapada por tábuas por ordens expressas do Dr. Leaver. Em dois anos ninguém jamais retirara as tábuas e Avery não via razão para que fizessem isso agora.
Avery não levava grande fé nos seus próprios planos. Compreendia que seu desapontamento era proporcional à enorme brecha entre expectativas e realização. Não gostava de ter esperança, nem mesmo da palavra, que implicava numa espécie de reconhecimento impotente dos caprichos do destino. Preferia chamar de “opções” o que tinha e, quando seu desejo de fugir se transformou numa necessidade imperiosa, ele cuidou para não deixar inexplorada qualquer opção.
Sempre sozinho na cela, quando não era chamado para o banho ou para as refeições, Avery agora começou a ficar recostado na cerca oposta à porta, como fazia a escória dos prisioneiros, para observar a vida na prisão. É claro, a escória fumava enquanto fazia isso e Avery não. Hábito sujo. Ele via os dedos amarelados dos outros presos e estremecia. Só Deus sabia como eram os hábitos dessa gente no banheiro.
Desejava não ter pensado nessas coisas. Fazia sua bile alcançar a garganta. O pensamento de ficar sujo o fazia estremecer, mas as reais funções corporais o deixavam sentindo-se grudento e enjoado, e a sensação de náusea, com a implícita ameaça de vômito, podia forçar cada vez mais a realização das próprias esperanças.
Respirou fundo e focalizou a atenção em Sean Ellis, que era a pessoa mais próxima dele, aquele da esposa fogosa e das fotos furtadas.
Avery olhou para os dedos de Ellis e achou que eram de um tom rosado saudável, de modo que, mais para afastar a própria náusea do que qualquer outra coisa, cumprimentou-o levemente com a cabeça e levantou as sobrancelhas, numa saudação neutra.
— Tudo certo — retornou Ellis.
Aquilo revelou a Avery que ele era novo o bastante em Longmoor para não saber o que Avery fizera, ou mau o bastante para não dar importância a isso. Avery tinha esperança de que fosse a segunda opção; estava farto de ver criminosos comuns, imbecis, olharem para ele como se ele fosse o cocô do cavalo do bandido. Não queria a amizade deles, tampouco necessitava delas. Porém, mesmo depois de 18 anos, ainda ficava sinceramente incerto do motivo pelo qual alguns assassinos angariavam o respeito dos outros prisioneiros, enquanto ele era vilanizado. Isso alimentava seu sentimento de ter sido trapaceado no que lhe era devido: espanto e deferência pelos seus crimes, pelo menos.
Ellis certamente era novo na Unidade de Prisioneiros Vulneráveis. Avery imaginava vagamente o que ele teria feito que exigia proteção, mas também sabia que, no final, essa informação viria à tona, por mais que um pedófilo ou um delator tentasse mantê-la em sigilo.
— Cigarro? — ofereceu Avery.
— Não, não fumo. Obrigado.
Avery fez uma rápida avaliação de Ellis. Era um homem alto, de forte compleição, com um nariz achatado de gângster, mas olhos castanhos cautelosos e sobrancelhas incongruentemente espessas. Avery não sabia, ou não se importava, com o fato de que eles foram os últimos olhos que dois caixas bancários haviam visto em suas vidas. Só sabia que, em muitos anos, sua primeira tentativa de falar com um colega de prisão como um semelhante começara bastante bem.
— É um hábito nojento. — Ele deu de ombros. — Só tenho cigarros para ser sociável. — Era verdade. Três dias depois de ver a fotografia de SL, Avery comprou meio maço de cigarros de Andy Ralph, somente para o caso de precisar estabelecer o tipo de conversa que começara naquele momento com Sean Ellis.
Ellis balançou a cabeça e depois voltou sua frágil atenção para o estardalhaço produzido pelo jogo de pingue-pongue acontecendo três pisos abaixo deles, assistido através de uma malha de redes de segurança destinadas a evitar a longa queda de um assassinato ou suicídio.
Sob circunstâncias normais, Avery teria ficado contente com o término rápido do diálogo. Ele não ansiava por companhia ou conversa. Mas agora tinha um propósito, e sabia que precisava se empenhar.
Subitamente, aquilo representou um esforço durante um tempo que pareceu uma eternidade. Avery esquadrinhou o cérebro atrás de uma tirada que não parecesse forçada. Ou que levantasse suspeita. Ou que fosse ambígua. Finalmente, Arnold Avery, assassino compulsivo, aquele estranho, aberração da natureza, avesso a quaisquer regras que não fossem as suas, virou o rosto para as claraboias sujas que deixavam entrar uma parca luz na ala, e observou, como se fosse alguém tomando um transporte para o trabalho:
— Que porra de tempo ruim!
Ellis levantou uma sobrancelha para ele, depois olhou para cima, espantado com a observação.
— Para se estar lá fora — pilheriou Avery, abrindo um sorriso.
Ellis compreendeu a tirada, graças a Deus, e deu uma risada contida.
— Então temos sorte de estar aqui dentro — disse ele, e Avery sorriu um pouco mais, para deixar Ellis se apossar da piada. O grande imbecil.
Ellis era novo no bloco de celas. Talvez soubesse o que fazer com o molde de uma chave feito na barra de sabão. Talvez não. Mas talvez sim.
— Arnold — apresentou-se ele, estendendo a mão direita como se fosse um advogado numa conferência.
— Sean — disse Ellis, sua mão grande e áspera apertando a de Avery, que era menor. Avery não gostou do gesto, que o fez sentir-se pequeno e fraco, mas apesar de tudo deu um sorriso. — A comida daqui é uma merda — acrescentou, fornecendo a Avery uma informação gratuitamente.
A informação dizia que Ellis não estava preso há muito tempo, o que explicava a razão de estar falando com ele, em primeiro lugar, e que Ellis não estivera preso em qualquer outro lugar durante muito tempo. Comida de prisão era sempre uma merda, seja lá onde você estivesse, e isso era simplesmente um fato. Arnold Avery cessara de reclamar mentalmente da comida havia tanto tempo que era uma surpresa para ele que alguém não tivesse esse conhecimento implantado no âmago de seu ser, como a habilidade natural para respirar ou da própria preferência sexual.
— Merda enlatada — concordou ele, sociável, contente de Ellis ter tomado a iniciativa na conversa. — Você tem dinheiro para gastar na cantina?
A cantina vendia biscoitos, chocolate e frutas a preços inflacionados, o que significava que um dia de trabalho podia render uma banana para lá de madura, se você tivesse muita sorte.
— Tenho — respondeu Ellis. — Minha mulher me manda dinheiro vivo. — Ele meteu a mão no bolso de trás da calça, tirando um invólucro de plástico laminado com uma fotografia. Ele a apresentou orgulhosamente, ostensivamente esperando parabéns pela escolha da parceira.
Avery pegou a foto e examinou a Sra. Ellis levantando o olhar de um sofá forrado de algodão, feio, mas caro. Olhos de corça, pele clara. Na casa dos 30 anos. Teria sido uma menina linda 25 anos antes.
Ele ouviu Finlay se aproximando. Aqueles pés chatos, aquelas chaves descuidadas.
— O que vocês estão olhando aí? — disse Finlay, num tom de camaradagem forçada.
— Uma foto da esposa de Sean, Sr. Finlay.
— Então deixe eu dar uma olhada. — O guarda pegou a foto da mão de Avery sem pedir permissão e apertou os olhos para olhar a mulher que agora já fazia parte de suas fantasias mais vívidas.
— Muito bonita, Ellis — elogiou ele, cautelosamente.
— De tirar o chapéu — acrescentou Avery, tentando, mas não conseguindo evitar um toque de ironia na voz.
— Sim, é mesmo — disse Ellis.
Finlay devolveu a foto para Ellis e Avery viu os olhos castanho-escuros do grandalhão se suavizarem como os de um chimpanzé enquanto ele passava o polegar calejado pelo rosto da mulher, antes de colocar a foto de volta no bolso.
— Até mais tarde, parceiro — disse Ellis ao se afastar e seguir pelo corredor, os largos ombros curvados.
— Tchau — disse Avery, embora desprezasse o coloquialismo do diálogo.
Ele não conhecia o amor, mas tinha um faro para descobrir vulnerabilidades, e acrescentou aquela à sua pequena mas crescente coleção de informações que começara a acumular como bugigangas.
Finlay piscou para Avery.
— Fico imaginando quem está fodendo com ela agora...
Avery deu de ombros e Finlay mudou de assunto, olhando-o afetuosamente com olhos que ele imaginava serem astutos.
— Não é do seu feitio puxar conversa, Arnold.
— Queria mudar um pouco de ares, Sr. Finlay.
— Seu psicólogo vai ficar contente. — Finlay riu com a própria piada, e Avery levantou as sobrancelhas em aparente aprovação. — Você já deu ao seu parceiro aquele velho computador? — O imbecil rodou as chaves, sem perceber como realmente era negligente sua atenção à segurança pessoal.
— Ainda não, Sr. Finlay. — Avery deu um brevíssimo sorriso. — Mas quando alguém fica pedindo alguma coisa com insistência, o senhor sabe que, no fim, vai ter que dar o que ele pede.
— Isso é bem verdade, Avery.
As chaves caíram com ruído no chão e ele respirou fundo, como se preparando para mergulhar num arrecife para resgatá-las.
Avery moveu-se rapidamente para pegá-las. Ele viu um lampejo de pânico nos olhos de Finlay um segundo antes de devolvê-las de modo casual e voltar a olhar para baixo, para a rede de segurança, como se a ação tivesse muito pouca importância para ele. A seu lado ele ouviu o guarda pendurar as chaves no cinto. Aquilo não o preocupou. Finlay era um canalha preguiçoso e aquela precaução não duraria.
— Obrigado, Avery.
— O prazer foi meu, Sr. Finlay.