Peter Pan
I. David e Eu Embarcamos em uma Jornada
I
DAVID E EU EMBARCAMOS EM UMA
JORNADA
A s vezes, o garotinho que me chama de pai me traz um convite enviado
por sua mãe, onde se lê: “Ficarei muito feliz se você vier me ver”. E eu
sempre respondo algo parecido com: “Prezada madame, recuso seu
convite”. E, se David me pergunta por que recuso o convite digo que é
porque não tenho a menor vontade de me encontrar com aquela mulher.
— Venha desta vez, pai — apelou ele há pouco tempo —; é
aniversário dela, e ela tem vinte e seis anos — idade que David considera
ser tão avançada que acho que ele teme que ela não viva por muito tempo
mais.
— Ela tem vinte e seis, David? — respondi. — Diga a ela que eu disse
que ela aparenta ser mais velha.
Naquela noite tive o meu sonho delicioso. Sonhei que eu também tinha
vinte e seis, o que foi há muito tempo, e que peguei um trem que me levava
para um lugar chamado meu lar, cujo paradeiro eu não vejo nem em minhas
horas acordado, e quando desembarquei na estação um querido amor
perdido esperava por mim, e fomos embora juntos. Ela me encontrou sem
demonstrar muita emoção e eu também não estava surpreso em vê-la ali.
Parecia que estávamos casados há anos e passamos aquele dia separados.
Gosto de pensar que dei a ela algumas coisas para carregar.
Se eu mencionasse meu agradável sonho para a mãe de David, a quem
nunca dirigi uma única palavra, ela inclinaria a cabeça e depois a levantaria
bravamente, para sugerir que eu a deixava muito triste, mas também muito
orgulhosa, e talvez quisesse me emprestar seu minúsculo lenço de bolso.
Então, se eu tivesse coragem, faria uma revelação que a deixaria em
choque, pois não é o rosto da mãe de David que vejo em meu sonho.
Você já esteve em uma situação, leitor, de ser perseguido por uma
mulher bonita que acha, sem um pingo de razão, que você está caidinho por
ela? É assim, então, que eu venho sendo perseguido, durante vários anos já,
pela indesejada simpatia da sensível e virtuosa Mary A-----. Quando
passamos na rua, a pobre alma iludida reprime sua alegria, como se fosse
vergonha andar feliz em frente a alguém de quem ela judiou, e nesses
momentos o farfalhar de seu vestido sussurra palavras de conforto em meus
ouvidos, e seus braços parecem asas tão gentis que me fazem desejar ser um
garotinho como David. Também percebo nela uma meticulosidade receosa,
na qual não reparo até ela passar por mim, quando sou tocado por uma leve
sensação de desafio. Olhos que dizem que você não deve, nariz que diz “por que não?” e boca que diz “eu queria que você pudesse”. Esta é a imagem de
Mary A----- quando cruzo com ela na rua.
Um dia ela se atreveu a falar comigo, para que pudesse contar a David
que havíamos conversado. Eu estava em Kensington Gardens e ela me
perguntou as horas, assim como as crianças perguntam e depois se
esquecem quando correm de volta ao encontro de suas babás. Mas eu estava
preparado até mesmo para isso e, levantando meu chapéu, apontei com
minha bengala para um relógio ao longe. Ela deveria ter ficado pasma, mas
quando saí andando atento para ouvir alguma coisa, achei, descontente, que
ouvi a moça rindo.
Sua risada era bastante parecida com a de David, em quem eu podia
fazer cócegas o dia todo só para ouvi-lo rir. Até me atrevo a dizer que ela é
a responsável pela risada dele. Ela vem aumentando as qualidades de
David, modificando-o, moldando-o desde o dia em que o conheceu e, de
fato, bem antes disso, e tudo de maneira tão hábil que ele ainda é chamado
de filho da natureza. Quando você solta a mão de David você o perde de
imediato, como se tivesse atirado uma flecha com seu arco. No momento
em que você coloca seus olhos nele você começa a pensar em pássaros. É
difícil acreditar que ele venha caminhando até Kensington Gardens; ele
sempre parece ter pousado ali: e se eu espalhasse migalhas pelo parque,
opino que ele viria pegá-las. Não era isso o que ele pretendia ser; tudo isso
é efeito da dama de olhar tímido que gosta de ser bastante surpreendida por
isso. Ele faz cem poses galantes em um dia; quando ele cai, o que é
frequente, ele chega ao chão como se fosse um deus grego; como Mary A---
-- desejou. Mas como ela sofre para que ele consiga! Já o vi subindo em
uma árvore enquanto ela ficava lá embaixo em uma angústia indescritível;
ela precisava deixá-lo subir, pois os meninos precisam ser valentes, mas
tenho certeza de que, enquanto ela o observava, ela o imaginava caindo de
cada um dos galhos.
David a admira muito; ele acha que ela é tão boa que vai ser capaz de
levá-lo para o céu, por mais levado que ele seja. Caso contrário, ele faria
suas estrepolias com menos tranquilidade. Talvez ela tenha descoberto isso;
pois, como ele me disse, ela o avisou há pouco tempo que não é tão
preciosa quanto ele pensa.
— Eu tenho certeza disso — respondi.
— Ela é tão preciosa quanto você pensa? — perguntou ele.
— Deus a ajude — disse eu — se ela não for mais preciosa do que
aquilo.
Deus ajude todas as mães se elas não forem realmente preciosas, pois
seus filhos certamente saberão disso naquela estranha hora curta do dia
quando cada mãe se revela perante seu pequeno filho. Aquele momento
terrível entre seis e sete horas; quando as crianças vão para a cama mais
tarde é porque a revelação deixou de acontecer. Ele entra na noite agora e
fica ali deitado, quieto, madame, com os olhos grandes e misteriosos fixos
em sua mãe. Ele está resumindo seu dia. Nada nessas revelações que os
mantiveram juntos e, ainda assim, separados durante o momento da
brincadeira pode salvá-lo agora; vocês dois não têm idade, nenhuma
experiência de vida separa vocês; é a hora do garoto, e você apareceu para o
julgamento. “Fui uma boa mãe hoje, meu filho?” Você precisa dizer isso, e
não pode esconder nada dele; ele sabe de tudo. Como a sua voz ficou
parecida com a dele, mas um pouco mais trêmula, e as duas tão solenes, tão
diferentes da voz de vocês dois durante o dia.
— Você foi um pouco injusta comigo hoje na questão da maçã, não
foi, mãe?
Fica ali, mulher, ao pé da cama; cruze seus braços e responda a ele.
— Sim, meu filho, eu fui. Pensei…
Mas o que você pensou não vai alterar o veredito.
— Foi justo, mãe, dizer que eu podia ficar na rua até as seis horas, e
então fingir que eram seis horas antes de ser seis horas?
— Não, foi muito injusto. Eu pensei…
— Teria sido mentira se eu dissesse que eram quase seis horas?
— Ah, meu filho, meu filho! Nunca mais contarei uma mentira para
você.
— Não, mãe, por favor, não faça mais isso.
— Meu garoto, eu me saí bem hoje, no geral?
Suponha que ele não conseguisse dizer que sim.
Mas estes são pecados insignificantes, você pode dizer. Seria uma
questão insignificante ser falsa para o acordo que você assinou quando
recebeu o garoto? Existem mães que evitam suas crianças naquela hora,
mas isso não as salvará. Por que tantas mulheres têm medo de serem
deixadas sozinhas com seus pensamentos entre seis e sete da noite? Não
estou perguntando isso para você, Mary. Acredito que quando você fecha a
porta do quarto de David com suavidade existe alegria em seus olhos, e o deslumbramento de alguém que sabe que o Deus para quem os garotinhos
dizem suas preces tem o rosto de suas mães.
Devo mencionar aqui que David acredita muito na oração, e teve sua
primeira briga com um outro jovem cristão que o desafiou e depois rezou
pedindo a vitória, o que David considerou uma vantagem injusta.
— Então, Mary tem vinte e seis anos! Eu diria, David, que ela vai
seguir em frente. Diga a ela que vou lhe dar um beijo de aniversário quando
ela fizer cinquenta e dois.
Ele disse isso a ela, e eu entendo que ela fingiu estar indignada.
Quando passo por ela na rua agora ela faz um beicinho. Está claramente se
preparando para o nosso encontro. Ela também disse, eu soube, que eu não
devo pensar muito nela quando ela tiver cinquenta e dois, querendo dizer
que não vai estar tão linda naquela idade. O sexo também se importa muito
pouco com a beleza. Com certeza uma velha senhora espirituosa pode ser a
visão mais linda do mundo. Da minha parte, confesso que são elas, e não as
jovens, que sempre me inquietaram. No momento em que eu estava prestes
a me apaixonar, descobri que preferia a mãe. Na verdade, eu não consigo
ver uma criatura jovem sem considerar, impaciente, como ela estará quando
tiver, digamos, cinquenta e dois. Ah, garotas misteriosas, quando vocês
tiverem cinquenta e dois nós as descobriremos; vocês devem vir à tona,
então. Se a boca ficou caída, a culpa é sua: todas as maldades que sua
juventude escondeu ficaram acumuladas no seu rosto. Mas os pensamentos
bonitos e as maneiras doces e afetuosas, gentilezas esquecidas, ficam ali
também, para florescer no seu crepúsculo como se fossem prímulas.
Não é estranho que, embora eu fale abertamente com David sobre sua
mãe, ele ainda pareça pensar que gosto dela? Como agora, reflito, que tipo
de pessoa rústica é esta, e talvez eu diga para ele com crueldade: “Garoto,
você é incomum, assim como sua mãe”.
E David:
— É por isso que você é tão gentil comigo?
Acho que eu sou gentil com ele, mas se sou não é porque amo sua
mãe, mas porque ele às vezes me chama de pai. Em minha honra, como
soldado, não há nada mais do que isso. Não devo deixar que ele saiba disso,
pois ele teria consciência disso, e quebraria o encanto que nos une. Muitas
vezes sou apenas o Capitão W----- para ele, e pelo melhor dos motivos. Ele
se dirige a mim como pai apenas quando está distraído, e eu nunca me atrevi a pedir que ele usasse o nome. Ele diz “Venha, pai”, com um belo
descuido amaldiçoado. Então, deixe assim, David, por mais um tempo.
Eu gosto de ouvi-lo dizer isso na frente dos outros, como nas lojas.
Quando estamos em alguma loja e ele pergunta ao vendedor quanto ele
vende em um dia, e onde ele guarda o dinheiro, e por que seu cabelo é
vermelho, e se ele gosta de Aquiles, sobre quem David ouviu falar
recentemente e por quem está tão apaixonado que adoraria conhecer. Nesses
momentos os vendedores me aceitam como seu pai, e não consigo explicar
o prazer peculiar que isso me dá. Nestes momentos estou sempre em duas
mentes, fazendo demorar para que o momento possa durar mais um pouco,
e sair logo dali com ele antes que ele diga “ele não é realmente o meu pai”.
Quando David conhecer Aquiles, sei o que vai acontecer. O garotinho
vai segurar na mão do herói, chamá-lo de pai e arrastá-lo para alguma lagoa
redonda.
Um dia, quando David tinha cerca de cinco anos, enviei a ele a
seguinte carta: “Querido David, se você realmente quiser saber como tudo
começou, venha almoçar comigo hoje no clube”.
Mary, que, descobri, abre todas as suas cartas, deu seu consentimento
e, não tenho dúvidas, instruiu que ele prestasse atenção a tudo o que
acontecesse para repetir tudo para ela depois, pois, apesar de sua
curiosidade, ela também não sabia como isso tinha começado. Eu ri,
imaginando que ela esperava algo romântico.
Ele veio até mim preparado como se fosse participar de uma jornada
poderosa e parecendo extraordinariamente solene, como parecem os
garotinhos quando usam um bonito casaco. Usava um cachecol em volta do
pescoço.
— Você pode tirar um pouco dessas roupas — disse eu — quando
chegarmos no verão.
— Vamos chegar no verão? — perguntou ele, devidamente
impressionado.
— Chegaremos em vários verões — respondi. — Pois vamos voltar
bastante, David, para ver como era a sua mãe nos dias antes de você existir.
Chamamos um carro de aluguel.
— Volte seis anos — disse eu para o cocheiro — e pare no Junior Old
Fogies’ Club.
Ele era um camarada estúpido e precisei guiá-lo com meu guarda-
chuva.
As ruas estavam diferentes das ruas daquele dia pela manhã. Por
exemplo, a livraria da esquina agora vendia peixe. Dei a David uma dica do
que estava acontecendo.
— Isso não vai fazer eu ficar menor, não é? — perguntou ele ansioso.
E então, com uma terrível dúvida, ele perguntou:
— Isso não vai me deixar pequeno demais, não é, pai?
O que ele queria saber é se aquilo não ia destruí-lo por completo. Ele
colocou sua mão, nervoso, na minha, e eu a coloquei em meu bolso.
Vocês não podem imaginar como David parecia pequeno quando
passamos pelos portais do clube.
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