Peter Pan

J. M. Barrie · Capítulo 2 de 48

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Peter Pan

II. A Pequena Baba

II

 

A PEQUENA BABA

Imagine que, quando entrei na sala de fumantes do clube David

desapareceu no nada, e isso aconteceu um dia, seis anos atrás, às duas da

tarde. Peço um café, cigarros, um conhaque e levo minha cadeira para perto

da janela no exato momento em que a pequena babá vem tropeçando pela

rua. Sempre sinto que telefonei para ela.

Enquanto levanto a cafeteira com cuidado para deixar o líquido cair na

xícara ela está atravessando a rua em direção ao correio; enquanto pego o

torrão de açúcar ela está olhando pela sexta vez para a carta; com a ajuda de

William acendo meu cigarro, e agora ela está relendo o pitoresco endereço.

Eu me encosto na cadeira e a essa hora ela já passou a carta pela abertura.

Brinco com minha bebida e ela tenta ouvir se as autoridades postais vieram

pegar a carta. Olho desconfiado para um sócio que teve a audácia de entrar

na sala de fumantes e seus dois pacotinhos a estão afastando do correio.

Quando olho pela janela de novo ela desapareceu, mas vou telefonar para

ela amanhã às duas em ponto.

Ela deve ter passado muitas vezes pela janela antes que eu a notasse.

Não sei onde ela mora, embora eu ache que seja perto dali. Ela está levando

os pequenos, um garoto e uma garota, que a importunam, para o St. James

Park, deduzo graças aos aros que carregam, e ela deveria parecer bastante

cansada. Sem dúvidas sua patroa exigia muito dela. Os outros criados

deviam ficar furiosos em vê-la se portando como se fosse uma dama.

Percebi que às vezes ela tinha outras cartas para postar, mas que postar

era sempre um processo. Elas passavam pela abertura, todas plebeias, mas

seguiam com pompa como se fossem da realeza. Cheguei até a vê-la

jogando um beijo depois de enviar uma carta.

Então tinha o anel, do qual ela tinha tanta consciência que parecia que

era ele, e não ela, que descia alegremente pela rua. Ela o sentiu através da

luva para ter certeza de que ainda estava ali. Tirou a luva e levou o anel até

os lábios, embora eu não tivesse dúvidas de que era a mais barata das

bugigangas. Ela esticava a mão para enxergá-lo de longe; ela se curvava

para ver como ele ficava perto do chão; considerava seus efeitos à sua

direita e à sua esquerda e olhava para ele com um olho de cada vez. Mesmo

quando você percebia que ela havia decidido pensar em alguma outra coisa,

a pequena bobinha ainda dava mais uma olhada.

Dou a qualquer pessoa três chances de adivinhar por que Mary estava

tão feliz.

Não, não e não. O motivo era simplesmente que um jovem

brutamontes a amava. E então, em vez de chorar por ser praticamente

ninguém no mundo, ela devia, certamente, descer com alegria a Pall Mall,

muito elegante e resoluta com aquele ar insuportável de mulher

comprometida. Em um primeiro momento sua complacência me

incomodou, mas aos poucos se tornou parte da minha vida, às duas horas,

junto com o café, o cigarro e a bebida. Agora vem a tragédia.

Quinta-feira é um ótimo dia. Às quintas ela tem, das duas às três, um

momento só para si. Pense nisso: esta garota, que provavelmente recebe

várias libras por ano, consegue uma hora inteira para si uma vez na semana.

E o que ela faz com esse tempo? Aulas para se tornar uma pessoa mais

realizada? Ela não. É isso o que ela faz: parte para a Pall Mall, usando tudo

o que tem de bonito, incluindo as plumas azuis, e com um ar tão grande de

expectativa em seu rosto que me faz mexer meu café com força. Em dias

comuns ela pelo menos tenta parecer recatada, mas às quintas ela tem confiança para usar a porta de vidro do clube como um espelho no qual ela

se permite ver se gosta de sua imagem atraente do dia.

Enquanto isso um tolo de pernas compridas espera por ela do lado de

fora do correio, onde eles se encontram todas as quintas-feiras, um

camarada que usa sempre as mesmas peças de roupas, mas que tem um

rosto que deve sempre o deixar livre da companhia de outros cavalheiros.

Ele é um daqueles ingleses magros e íntegros, que se despe tão bem e,

receio, seja bonito; digo receio, pois seus homens bonitos sempre me

incomodaram, e se eu tivesse vivido na época em que duelos aconteciam

juro que teria desafiado cada um deles. Ele parece não ter ideia de que é um

camarada bonito mas, Senhor, Mary obviamente sabe disso. Concluo que

ele pertence à classe artística, pois ele fica facilmente feliz e deprimido; e

porque leva o polegar esquerdo de maneira curiosa, como se estivesse

carregando uma paleta, imagino que ele seja um pintor. Fico feliz em

imaginar que ele faz pinturas horrorosas e que ninguém as compra. Tenho

certeza de que Mary diz que são esplêndidas, ela é esse tipo de mulher. Daí

o entusiasmo com o qual ele a cumprimenta. O primeiro efeito dela sobre

ele é fazer com que ele dê uma gargalhada. Ele solta uma gargalhada

repentina com o rosto ávido e exultante, então ri de novo, e de novo, e

quando você está agradecendo aos céus pela risada finalmente ter cessado

vem uma gargalhada final, mais alta do que as outras. Eu as considero

estrondos de alegria por Mary ser dele, e eles têm um toque de juventude

que é difícil suportar. Eu poderia perdoá-lo por tudo, menos por sua

juventude, mas ela é tão agressiva que às vezes preciso pedir para William

fechar a janela.

Mais traiçoeira que seu amante é a pequena babá. No momento em que

é vista ela olha para o correio e o vê. Então olha direto para a frente e é

observada. Ele corre até ela glorioso e ela olha para ele, de maneira alegre,

como se ele a tivesse pegado de surpresa. Observe sua mão erguendo-se de

repente até seu coraçãozinho perverso. É neste momento que mexo meu

café com força. Ele olha para ela com tanta euforia que acaba ficando na

frente de todo mundo. E, quando ela pega em seu braço dá um pequeno

apertão nele, e então saem andando, Mary falando a maior parte do tempo.

Eu me pego imaginando como eles serão quando crescerem.

E que diferença absurda esses dois insignificantes fazem um para o

outro. É possível imaginar que eles vão se casar assim que ele arrumar um

pouco de dinheiro.

Embora eu não tenha nenhuma simpatia por esta garota, a quem

Londres importa apenas por ser o lugar onde reside um jovem que a

confunde com alguém, sua felicidade tornou-se parte da minha refeição às

duas da tarde, e quando um dia ela desceu a Pall Mall e não enviou uma

carta eu fiquei bastante indignado. Era como se William tivesse

desobedecido minhas ordens. Seus dois pacotinhos ficaram tão surpresos

quanto eu e apontaram para a abertura questionando-a, e ela sacudiu a

cabeça. Colocou o dedo nos olhos exatamente como faz um bebê triste e

continuou descendo a rua.

No dia seguinte o mesmo aconteceu e fiquei tão furioso que cheguei a

morder a bituca do meu cigarro. Quinta-feira chegou e rezei para que

houvesse um fim a este incômodo, mas não, nenhum dos dois apareceu

naquele solo conhecido. Teriam eles mudado de agência de correio? Não,

pois os olhos dela estavam vermelhos todos os dias, e seu coraçãozinho tolo

estava pesado. O amor havia apagado suas luzes e a pequena babá andava

na escuridão.

Achei que eu poderia reclamar para o comitê.

Ah, seu jovem egoísta e tolo, depois de tudo o que você disse a ela,

não vão fazer as pazes e permitir que eu volte a tomar meu café? Não.

Pequena babá, apelo a você. Garota irritante, fique feliz como nos

velhos tempos durante os cinco minutos do dia em que você é qualquer

coisa para mim, e durante o restante do tempo, da minha parte, você pode

ficar tão infeliz quanto quiser. Mostre um pouco de coragem. Garanto a

você que ele deve ser um péssimo pintor; outro dia eu o vi olhando com

vontade para dentro da janela de um restaurante italiano barato, e no final

ele teve que acabar com suas aspirações com scones de dois centavos.

Você pode fazer melhor do que isso. Vamos lá, Mary.

Tudo em vão. Ela quer ser amada; não consegue viver sem amor desde

a manhã até a noite; nunca soube o quão pouco uma mulher precisa até ter

perdido aquele pouco. Elas são todas assim.

Mas que diabos, madame, se você decidiu ser uma figura amargurada

até morrer, pelo menos faça isso em outra rua.

Ela não só me deprime maliciosamente passando por ali todos os dias

como percebi que todas as quintas-feiras das duas às três ela fica parada lá

longe, olhando sem esperanças para a romântica agência de correios, onde

ela e ele não se encontram mais. Nestes dias de vento ela parece uma folha

soprada sobre os transeuntes.

Não há nada que eu possa fazer além de descontar no William.

Por fim ela conseguiu realizar sua ambição desprezível. Era uma

quinta-feira úmida, e da janela onde eu escrevia cartas vi a alma

desamparada assumir sua posição no topo da rua: em uma explosão de raiva

eu me levantei com a carta que eu havia terminado, decidido a escrever as

outras em meus aposentos. Ela havia me tirado do clube.

Saí da Pall Mall e peguei uma rua lateral, quando fui de encontro a

ninguém menos do que seu falso amante! Foi minha culpa, mas bati nele

brutalmente, como sempre faço quando tropeço em alguém na rua. Então

olhei para ele. Ele estava com os olhos fundos, sujo; não restara nenhuma

gargalhada. Nunca vi um jovem mais miserável; ele nem reagiu ao golpe

que dei nele com o meu guarda-chuva. Mas o importante aqui é que ele

olhava melancólico para a agência de correios e então, em um segundo, vi

que ele ainda adorava a pequena babá. Qualquer que tenha sido a briga

deles, ele estava ansioso por fazer as pazes com ela, e talvez ele tenha

estado lá todas as quintas-feiras enquanto ela estava na esquina da Pall

Mall, cada um olhando para a agência de correios de um lugar diferente.

Mas de onde estavam um não conseguia ver o outro.

Acho que o que fiz foi bastante esperto. Derrubei minha carta, sem ele

perceber, em seus pés, e voltei para o clube. Um cavalheiro que encontra

uma carta no chão sente-se obrigado a postá-la, claro, e presumi que ele

iria, naturalmente, para a agência de correios mais próxima.

Com o chapéu na cabeça fui até a janela da sala de fumantes e lá

cheguei bem no momento de vê-lo postando minha carta do outro lado da

rua. Então olhei para a pequena babá. Eu a vi mais triste do que nunca;

então, de repente, ah, pobre pequena alma, e realmente tem sido muito

ruim.

Ela estava chorando, e ele estava segurando suas duas mãos. Foi uma

cena vergonhosa. O jovem pintor evidentemente ia explodir se não

conseguisse usar seus braços. Ela morreria se não pudesse encostar sua

cabeça no ombro dele. Preciso admitir que ele agiu corretamente: acenou

para um carro de aluguel.

— William — disse eu, feliz —, café, cigarro e conhaque.

Enquanto eu estava sentado ali assistindo aquela velha peça, David

puxou minha camisa para perguntar o que eu olhava com tanta atenção.

Quando contei a ele, o menino correu até a janela, mas chegou lá tarde

demais para ver a dama que se tornaria sua mãe. Mas o que contei a ele sobre os atos dela o interessou bastante, e ele sugeriu um tanto tímido que

tinha algum parentesco com o homem que “tinha aquela gargalhada”. Por

outro lado, ele me irritou por revelar um interesse idiota nas duas crianças, a

quem ele parecia considerar o herói e a heroína da história. Quais eram os

nomes delas? Quantos anos elas tinham? As duas carregavam argolas?

Eram argolas de ferro, ou de madeira? Quem deu as argolas para elas?

— Você não parece entender, meu garoto — disse eu, sarcástico —,

que se eu não tivesse derrubado a carta, nunca existiria um garotinho

chamado David A-----.

Mas, em vez de ficar perplexo com isso, ele perguntou, animado, se eu

queria dizer que ele ainda seria um pássaro voando sobre o Kensington

Gardens.

David sabe que todas as crianças da nossa parte de Londres um dia

foram pássaros do Kensington Gardens; e que o motivo para existirem

grades nas janelas das escolas e altos guarda-fogos nas lareiras é porque

pessoas muito pequenas às vezes se esquecem que não têm mais asas e

tentam sair voando pela janela ou pela chaminé.

Crianças, quando são pássaros, são difíceis de se pegar. David sabe

que muitas pessoas não têm nenhum, e sua alegria em uma tarde de verão é

ir comigo para algum lugar no Gardens onde esses infelizes podem ser

vistos tentando pegar algum pássaro com pequenos pedaços de bolo.

É óbvio para todos os que estudam os pássaros que as aves sabem o

que aconteceria se fossem pegas, e que são um pouco indecisas sobre qual

vida é melhor. Assim, se você deixar um carrinho de bebê vazio embaixo de

uma árvore e ficar olhando de longe vai ver os pássaros chegando lá e

pulando do travesseiro para o cobertor bastante agitados; eles estão

tentando descobrir se a infância combina com eles.

A visão mais linda do Gardens é quando os bebês saem da árvore onde

a babá está sentada e começam a alimentar os pássaros, sem ter um adulto

por perto. É primeiro um pouco para mim e então um pouco para você, e o

tempo todo ouve-se o tagarelar e as risadas dos dois lados. Estão

comparando as notas e chamando os velhos amigos, e assim continuam;

mas o que eles falam eu não sei dizer, pois quando me aproximo todos saem

voando.

A primeira vez em que vi David foi na grama atrás de seu andador. Ele

parecia uma tordoveia, atraído naquele dia quente por uma mangueira que

estava no chão soltando um fiozinho de água, e estava com as costas na água, batendo as pernas. Ele costuma gostar de ouvir essa história, pois já

havia se esquecido dela, e gradualmente tudo voltava para ele, com um

número de outros incidentes que me fugiram da memória, embora eu me

lembre que ele acabou ficando preso na perna por uma corda comprida e

alguns galhos perto do Round Pound. Ele nunca se cansa de ouvir essa

história, mas percebo que agora é ele quem a conta para mim, e quando

chegamos à parte dos galhos ele coça sua perninha como se ainda doesse.

Então, quando David viu sua chance de ser uma tordoveia novamente,

ele me pediu rapidamente:

— Não jogue a carta!

E parecia haver copas de árvores em seus olhos.

— Pense em sua mãe — disse eu, severamente.

Ele disse que voaria com frequência para vê-la. A primeira coisa que

ele fazer seria abraçá-la. Não, primeiro ele pousaria no jarro de água e

beberia um pouco.

— Diga a ela, pai — disse ele, com terrível crueldade — para manter

sempre o jarro cheio de água, pois se eu tiver que me inclinar muito para

beber a água eu posso cair lá dentro e me afogar.

— Eu não devo jogar a carta, David? Pense na sua pobre mãe, sem seu

garoto!

Isso mexeu com ele, mas ele aguentou. Quando ela estivesse

dormindo, disse ele, ele iria pular nos babados de sua camisola e bicar sua

boca.

— E ela acordaria, David, e descobriria que tinha apenas um pássaro e

não um garoto.

Esse choque para Mary era mais do que ele poderia suportar.

— Pode jogar a carta — disse ele, com um suspiro.

Então, joguei a carta, como acho que já mencionei; e foi assim que

tudo começou.

 

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