Peter Pan
XIX. Um Intruso
XIX
UM INTRUSO
David e eu tivemos uma aventura maravilhosa. Aconteceu que ele passou
a noite comigo. Sempre conversávamos sobre essa possibilidade, e
finalmente Mary nos permitiu fazer isso.
A aventura começou com David vindo até mim no inusitado horário
das seis da tarde, trazendo o que parecia ser um pacote de sanduíches, mas
acabei descobrindo que eram os itens que ele precisaria para uma noite
arrumados em um embrulho de papel. Nós dois estávamos tão animados
que, no momento em que nos cumprimentamos, nenhum de nós conseguiu
dizer nada, por isso expressamos nossos sentimentos através de sinais;
assim, David meio que se sentou em um lugar onde não tinha cadeira, o que
é a sua maneira preferida de demonstrar que está feliz, e que eu acho que
ele emprestou dos sapos, e então fizemos aquela expressão facial que
significa “que tremenda aventura!”.
Deveríamos fazer todas as coisas importantes exatamente como são
feitas todas as noites em sua casa, e por isso estou intrigado em saber como
foi tal aventura para David. Mas agora já disse o suficiente para mostrar a
vocês o tamanho da aventura para mim.
Durante algum tempo brincamos com minhas duas medalhas e, com a
delicadeza de uma companhia para dormir, David se absteve na ocasião de
perguntar por que uma delas não tinha a Cruz Vitória. Ele se preocupa
muito por eu nunca ter ganho a Cruz Vitória, pois isso rebaixa sua posição
no Gardens. Ele nunca diz que eu ganhei quando estamos no Gardens, mas
ele briga com qualquer garoto de sua idade que diz que não ganhei. A briga
consiste em um desafiar o outro.
Às seis e vinte e cinco liguei a água quente da banheira, e em segredo
engoli um pequeno copo de conhaque. Disse então: “Seis e meia, hora de
garotos pequenos irem para a cama”. Eu disse aquilo com a voz de alguém
que está livre da companhia dos pais, como se eu já houvesse dito aquilo
várias vezes antes, e teria que dizer várias vezes de novo, e como se não
houvesse nada particularmente delicioso para mim ao me ouvir dizendo
isso. Tentei dizer dessa maneira.
E David foi enganado. Para minha imensa alegria ele bateu seu
pezinho, e foi tão travesso que, em agradecimento, dei a ele mais cinco
minutos para brincar com uma caixa de fósforos. Fósforos, que ele joga no
chão quando acesos, são o melhor presente que vocês podem dar a David; na verdade, acho que seu paraíso particular é um lugar com uma lareira
acesa.
Então coloquei minha mão despreocupadamente em seu ombro, como
alguém um pouco entediado com uma rotina monótona de colocar
garotinhos para dormir e conduzi-los ao quarto das crianças, que
recentemente foram meus aposentos particulares. Havia uma cama extra ali
nesta noite, muito perto da minha cama, mas com formato diferente, e
pouco menos notável era o novo enfeite na beirada da lareira: um copo de
leite, com um biscoito em cima dele, e um chocolate em cima do biscoito.
Era impossível entrar no quarto sem ver o copo de leite imediatamente.
Tentei fazer isso várias vezes, e David viu e assumiu sua posição de sapo,
com uma emoção indescritível, e eu peguei uma lamparina em meu bolso e
a apoiei em um pires na beira da pia.
David observou meus preparativos com uma leviandade desagradável,
mas logo fez uma nobre emenda, oferecendo-me abruptamente seu pé como
se não precisasse mais dele, e eu soube, por intuição, que ele esperava que
eu tirasse suas botas. Eu as tirei com toda a frieza de uma mão velha e então
apoiei-o em meus joelhos e retirei sua blusa. Foi uma experiência
encantadora, mas eu acho que permaneci maravilhosamente calmo até que
de repente cheguei rápido demais a seus bracinhos, o que me deixou muito
agitado.
Não posso continuar despindo David em público.
Logo o quarto de dormir estava escuro, havia apenas o brilho da
lamparina, e muito quieto a não ser quando a porta rangeu e um homem
olhou para a pequena figura na cama. Embora suavemente, abri a porta, um
pouquinho por vez, e seus olhos brilhantes viraram-se para mim de uma
vez, e ele sempre fazia aquela expressão facial que significa “que aventura
tremenda!”.
— Você nunca vai dormir, David? — dizia eu.
— Quando você vai vir para a cama? — ele sempre respondia,
bastante corajoso, mas em um sussurro, como se temesse que ursos e lobos
o pegassem. Quando garotinhos estão na cama não há nada entre eles e
ursos e lobos além da lamparina.
Voltei para minha cadeira para pensar, e finalmente ele adormeceu com
o rosto virado para a parede, mas mesmo depois de ele ter dormido eu
fiquei várias vezes perto da porta, tentando ouvir.
Bastante tempo depois de eu ter ido para a cama um silêncio repentino
tomou conta do ambiente e eu soube que David estava acordado. Fiquei
deitado imóvel e, depois do que pareceu ser um longo tempo de espera, uma
vozinha um pouco distante chamou em um sussurro cauteloso: “Irene!”.
— Você está dormindo comigo hoje, David — disse eu.
— Eu não sabia — gritou ele, um pouco perturbado, mas tentando não
incomodar.
— Você lembra que está comigo? — perguntei.
Depois de um momento de hesitação, ele respondeu:
— Estou quase me lembrando — e então ele acrescentou, bastante
agradecido, como se algum anjo houvesse sussurrado algo para ele — agora
eu me lembro.
Acho que ele estava quase adormecendo de novo quando ele se mexeu
e disse:
— Está acontecendo agora?
— O quê?
— A aventura.
— Sim, David.
Talvez isso o incomodasse, pois pouco a pouco eu precisava perguntar:
— Você não está com medo, não é?
— Não estou? — respondeu ele com educação, e eu sabia que sua mão
estava tateando na escuridão, então estiquei a minha mão e ele segurou um
de meus dedos com força.
— Não estou com medo agora — sussurrou ele.
— E você precisa de mais alguma coisa?
— Preciso? — perguntou ele de novo, com educação. — Você acha
que preciso? — acrescentou ele.
— Do que você precisa, David?
— Eu não ocupo muito espaço — disse a voz distante.
— Ora, David — disse eu, sentando-me —, você quer vir para a minha
cama?
— Mamãe disse que eu não podia querer isso se você não quisesse
primeiro — soltou ele.
— É o que eu quero desde o começo — disse eu, e então, sem maiores
problemas, a pequena criatura levantou-se e se atirou em minha direção.
Durante todo o resto da noite ele ficou deitado em mim, e atravessado em
mim, e às vezes seus pés estavam no pé da cama e às vezes no travesseiro, mas durante o tempo todo ele continuou segurando meu dedo, e
ocasionalmente ele me acordou para dizer que estava dormindo comigo. Eu
não tive uma boa noite. Fiquei deitado pensando.
Pensando naquele garotinho que, no meio de sua brincadeira enquanto
eu o despia, de repente apoiou a cabeça em meus joelhos.
Pensando na mulher que havia cuidado dele e que poderia ser
suficientemente ousada.
Pensando em David na banheira e em como, quando tentei pegá-lo, ele
escorregou dos meus braços como se fosse uma truta.
Pensando em mim em pé na beira da porta aberta ouvindo sua doce
respiração. Eu havia ficado tanto tempo ali que cheguei a me esquecer de
seu nome e o chamei de Timothy.
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