Peter Pan
IV. Um Pedaço de Noite
IV
UM PEDAÇO DE NOITE
Chegou uma noite em que o marido estava sozinho naquela rua esperando.
Ele não pode fazer nada por você agora, pequena babá, você deve lutar
sozinha; quando há muitas coisas para se fazer dentro de casa o homem
deve sair. Ah, homem, egoísta, indelicado, grosseiro ao máximo, a hora
daquela mulher vai chegar; vá embora.
Ele se afasta da casa, sempre seu verdadeiro amante, eu acho,
cavalheiresco, corajoso, um garoto até a noite de hoje; mas será que ele já
foi indelicado com ela alguma vez? É o pecado imperdoável agora; existe a
lembrança de alguma indelicadeza andando com ele pela rua nesta noite? E
se não for uma indelicadeza, ainda assim, às vezes ele não poderia ser um
pouco mais gentil?
Podemos estabelecer uma nova regra para a vida a partir desta noite?
A regra seria: sempre tentar ser um pouco mais gentil do que o necessário.
Pobre jovem, ela teria vindo até a janela se fosse capaz, tenho certeza
disso, para sinalizar que aquela grosseria já foi esquecida, para enviar a
você um sorriso tranquilizador até que vocês se encontrem novamente; e, se
não se encontrarem novamente, ela ainda enviaria um sorriso tranquilizador
e trêmulo.
Ah, não, isso foi ontem; agora é tarde demais. Ele vaga pelas ruas
pensando nela nesta noite, mas ela já o esqueceu. Em sua grande hora o
homem não é nada para a mulher; seu amor é trivial agora.
Ele e eu estávamos em lados opostos da rua, um terreno familiar para
nós dois agora, e diversas imagens surgiram à minha frente nas quais Mary
A----- caminhava. Esta era a manhã seguinte à minha entrada em sua casa.
O agente imobiliário havia me prometido retirar o aviso detestável de cima
da porta, mas percebi que assim que a carta anunciando sua intenção
chegasse ela mesma removeria a placa, e quando passei por ali naquela
manhã ela estava em cima de uma cadeira e de um banquinho, batendo com
força na placa com um martelo. Quando a placa caiu, ela a chutou com
crueldade.
Houve as noites em que seu marido saiu para observar o carteiro.
Suponho que ele estava esperando alguma carta que traçaria o grande
destino de um quadro seu. Vigiava o carteiro de porta em porta, como faz
um assassino ou um anjo da guarda; mas sem coragem para perguntar se
havia uma carta para ele, mas quase no instante em que a carta era colocada
na caixa de correios ele a pegava e a abria, e então se a porta fechasse de maneira desesperadora a mulher que até então estava na janela esse tempo
todo colocava a mão no coração. Mas se as notícias fossem boas eles
podiam sair e andar de braços dados na direção do empório de porcos.
Uma última imagem. Nas noites de verão eu os olhava pela janela
aberta, quando ela se sentava ao piano cantando e brincando com ele. Ou
quando ela tocava com uma mão e esticava a outra para que ele a segurasse.
Ela estava tão feliz e era tão romântica. Eu a via como uma pessoa tão
simpática, que sempre ria antes que ele contasse a piada, e tenho certeza de
que seus olhos já se enchiam de lágrimas desde o início de uma história
patética.
E então, rindo e chorando, e assombrada por sussurros, a pequena babá
foi aos poucos se transformando em uma outra mulher, gloriosa, misteriosa.
Acredito que um homem logo se acostuma a grandes mudanças, e não
consigo me lembrar de uma época em que não havia bebês estatelados no
rosto de sua Mary.
Estou tentando imaginar que havia pensamentos na cabeça do jovem
marido do outro lado da rua. “Se a barreira for quebrada nesta noite, eu não
poderei ir com ela? Ela não é tão corajosa quanto você pensa. Quando
falava tão feliz algumas horas atrás, ah, meu Deus, ela enganou até mesmo
você?”
Perguntas simples desta noite: “Por que tudo deveria cair sobre ela?
Que homem é este para ser jogado na rua nesta hora terrível? Você não foi
justa com o homem”.
Pobre garoto, sua esposa se esqueceu dele e de seu amor ilusório. Se
ela viver, voltará para ele, mas se morrer morrerá triunfante e serena. Vida e
morte, a criança e a mãe sempre se encontram quando uma se aproxima do
porto e a outra zarpa. Trocam um lindo “está tudo bem” e continuam seu
caminho.
Mas e depois?
Os únicos fantasmas, acredito, que vagam para este mundo, são as
jovens mãe, que voltam para ver como suas crianças estão. Não existe
nenhuma outra motivação tão grande para trazer de volta os que partiram.
Elas planam no quarto conhecido quando a noite e o dia, seus carcereiros,
estão a postos, e sussurram: “Como você está, minha criança?”. Mas
sempre, a menos que um rosto estranho a assuste, elas sussurram tão
baixinho que a criança pode não ouvir. Elas se inclinam sobre a criança para
ver se ela está dormindo bem e colocam seu braço embaixo do cobertor, e então abrem as gavetas para olhar as roupas que estão lá dentro. Elas
adoram fazer essas coisas.
O mais triste em relação aos fantasmas é que eles talvez não conheçam
seus filhos. Esperam que eles estejam exatamente como eram quando
partiram, e ficam facilmente perdidos, e procuram pela criança de quarto
em quarto, e detestam o garoto desconhecido que ele se tornou. Almas
pobres, passionais, podem até mesmo causar algum mal à criança. São estes
os fantasmas que saem vagando em casas antigas, e tolas histórias
assombradas são inventadas para explicar o que é tão patético e simples. Sei
da história de um homem que, depois perambular bastante, voltou para sua
primeira casa para passar as noites ali, e, às vezes, de sua cadeira ao lado da
lareira ele via a porta se abrir suavemente e o rosto de uma mulher aparecia.
Ela sempre olhava para ele com uma expressão vingativa e então
desaparecia. Coisas estranhas aconteceram nesta casa. Janelas eram abertas
durante a noite. As cortinas de sua cama pegavam fogo. Um degrau da
escada estava solto. A cobertura de um antigo poço em um corredor por
onde ele passava foi removida de maneira ardilosa. E quando ele adoeceu o
remédio errado foi colocado em um vidro ao lado de sua cama, e ele
morreu. Como poderia a linda e jovem mãe saber que este intruso grisalho
era a criança a quem ela procurava?
Todas as nossas ideias sobre fantasmas estão erradas. Não é nada tão
mesquinho quanto testamentos ou violência que os traz de volta, e não
temos tanto medo deles quanto eles têm de nós.
Uma por uma as lamparinas da rua foram se apagando, mas uma delas
ainda queimava na pequena janela do outro lado da rua. Não sei como
aconteceu, se eu fui na direção dele primeiro ou se ele veio em minha
direção mas, depois de passar um longo tempo como eco dos passos um do
outro, estávamos juntos agora. Posso não ter tido nenhum desejo de enganá-
lo, mas era necessário algum motivo para a minha vigília, e eu posso ter
dito algo que ele interpretou mal, pois acima de minhas palavras ele sempre
tentava ouvir outros sons. Mas acontece que ele tinha concebido a ideia de
que eu era um rejeitado por motivos semelhantes aos dele, e deixei esse erro
passar, parecia não importar por ser um erro tão pequeno e por nos juntar
tão naturalmente. Conversamos sobre muitas coisas, tais como ambições
mundanas. Há muito tempo a ambição tem sido uma memória antiga para
mim, de algum dia glorioso que vivi em minha primavera, uma coisa tão do
passado que preciso embarcar em uma viagem para revisitá-lo para que possa olhar para o campo em que tal cena aconteceu. Mas ele havia sido
ambicioso ontem.
Mencionei a ambição mundana.
— Bom Deus! — disse ele, com um arrepio.
Havia um relógio por perto que batia a cada quarto de hora, e já havia
passado da uma hora e das duas também. Que hora era agora? Duas e vinte.
E agora? Ainda é duas e vinte.
Perguntei a ele sobre seus parentes e nem ele nem ela tinha alguém.
— Temos um amigo — começou ele, e então parou.
E então começou a falar de uma história não muito clara sobre uma
carta e uma casa de bonecas e um homem desconhecido que havia
comprado uma de suas gravuras, ou que devia ter comprado, de maneira
curiosamente clandestina. Eu não consegui acompanhar bem a história.
— É ela quem insiste que é sempre a mesma pessoa — disse ele. —
Ela acha que ele vai se apresentar a mim se algo acontecer com ela.
De repente sua voz ficou rouca.
— Ela me disse — contou ele — que se ela morresse e eu o
encontrasse, que deveria transmitir a ele o seu carinho.
Com isso nos separamos, como fizemos em intervalos durante a noite,
para nos juntarmos novamente. Ele tentou me contar sobre algumas coisas
que ela havia pedido que ele fizesse se ela não superasse isso, mas que
coisas eram estas eu não sei, pois elas o engoliram no primeiro passo. Ele se
afastava delas dizendo que aquilo era mau agouro, mas no momento
seguinte parecia superá-las como uma criança faz na escola. Uma criança!
Naquele pequeno período de um ano ela o havia tornado totalmente
dependente dele. Isso é o que acontece com as mulheres: o primeiro ato
deliberado delas é tornar seu marido inútil. Há poucos homens casados e
felizes capazes de pendurar um quadro na parede.
Mas não era nisso que eu estava pensando. Eu desejava não ter
degenerado tanto.
Bom, como vocês sabem, a pequena babá não morreu. Quando faltava
dezoito minutos para as quatro ouvimos o farfalhar das asas de David. Ele
se vangloria disso até hoje, e considera a hora algo muito importante, como
se a primeira coisa que sempre fizesse todos os dias fosse olhar o relógio.
Um cavalheiro envelhecido abrira a janela e acenou parabenizando
meu companheiro, que imediatamente me atacou, me prendeu em uma
parede, hesitou por um segundo com a cabeça abaixada como se estivesse em dúvida sobre me jogar ou não, e então apressou-se em ir embora. Eu
segui devagar. Apertei sua mão, mas nesta hora ele já estava gargalhando de
maneira tão abominável que um desgosto por ele tomou conta de mim, e
com isso um desejo apaixonado de zombar mais uma vez de Mary A-----.
— Ela vai ligar bem pouco para você agora — disse eu para o
camarada. — Eu conheço esse tipo de mulher; sua inteligência (que é o que
a distingue dos brutos) é tão imperfeitamente desenvolvida que ela ficará
louca por aquele garoto pelos próximos três anos. Ela não tem mais tempo
para você, meu caro senhor; o senhor é como um retrato que um dia foi
pintado.
Mas me questiono se ele me ouviu. Voltei para minha casa. Casa!
Como se alguém sozinho pudesse construir um ninho. Com frequência subi
as escadas que levam para meus aposentos solitários e suntuosos e parei
para ouvir a alegria dos criados no andar de baixo. Naquela manhã eu não
consegui descansar. Andei de um cômodo para o outro seguido pelo meu
grande cachorro, e todos os quartos eram iguais, vazios e desoladores. Eu
estava quase terminando um charuto quando achei ter ouvido o barulho de
uma pedrinha batendo na janela, e ao olhar para fora vi o pai de David em
pé lá embaixo. Eu havia dito a ele que morava nessa rua e acho que minhas
luzes o direcionaram até a minha janela.
— Não consegui dormir — gritou ele, rouco — até ter notícias de
você. Está tudo bem?
Por um momento não consegui entendê-lo. Então, respondi:
— Sim, está tudo bem.
— Os dois estão bem? — perguntou ele.
— Os dois — respondi, e o tempo todo eu tentava fechar a janela. Sem
dúvida ele fora trazido por um impulso bondoso, mas eu estava irritado com
ele.
— Menino ou menina? — insistiu o camarada com uma curiosidade
nada agradável.
— Menino — disse eu, bastante furioso.
— Esplêndido — gritou ele, e acho que acrescentou algo mais, mas eu
já fechara a janela, batendo-a.
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