Peter Pan

J. M. Barrie · Capítulo 22 de 48

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Peter Pan

XXII. Joey

XXII

 

JOEY

Crianças sábias sempre escolhem uma mãe que foi namoradeira em seus

dias de solteira e por isso teve várias ofertas de casamento antes de escolher

seu afortunado papai. Fazem isso porque cada oferta recusada pela mãe

significa uma outra pantomima para eles. Vejam só, não é possível confiar

em seu pai levando você para a pantomima, mas você pode confiar em

todos os pobres cavalheiros por quem aquela dama derramou uma lágrima

deliciosa em seu adorável lencinho de cambraia. É lindo (mas terrivelmente

emocionante) vê-los na Noite das caixas reunindo os bebês de seus antigos

amores. Alguns batem em apenas uma porta e trazem um carro de aluguel,

mas outros vão de rua em rua em ônibus particulares, e até usam narizes

falsos para combinar com os sofrimentos que sentem ao verem você crescer

mais e mais parecido com sua doce e cruel mamãe.

Então levei David para a pantomima, e espero que vocês entendam

meu raciocínio, pois eu não entendo. Ele tinha bastante expectativa, parava

no patamar para olhar dentro do buraco na pequena casa chamada “Pague

Aqui”, que ele pensou ser a casa da Chapeuzinho Vermelho, e perguntou

educadamente se ele poderia vê-la, mas disseram a ele que ela tinha ido

passear no bosque, e aquilo era bem verdade, pois ela estava no bosque

pegando lenha para acender a lareira da casa de sua avó. Ela cantava uma

linda música sobre os meninos e seu jeito elegante, o que deixou David

bastante lisonjeado, mas ela se esqueceu de levar a lenha no final. Outras

partes da peça não foram tão boas, mas David a achou adorável, de verdade.

Contudo, deixou o lugar aos prantos. Soluçou durante todo o caminho

para casa e se eu tentasse confortá-lo ele me atacava.

O palhaço havia causado aquilo, o homem de quem ele esperava coisas

tão justas. Ele perguntou em voz alta ao cavalheiro mediano e engraçado (e

no meio de uma música) se ele achava que ia demorar muito para Joey

entrar, e quando finalmente Joey apareceu, ele gritou “Como vai você,

Joey!” e parecia ter convulsões de tanta alegria.

Joey e seu pai acompanhavam um açougueiro que vendia carnes de

porco, embalando linguiças pelas quais sua família tem uma enorme

fraqueza, e então quando o açougueiro colocou Joey como seu ajudante as

linguiças desapareceram. Mas isso não importava, pois havia uma caixa

bem parecida com uma máquina de fazer sorvete, e você coloca pedaços de

carne de porco em uma ponta e gira a maçaneta e as linguiças saem do

outro lado. Joey gostava bastante de fazer isso, e era possível perceber que as linguiças eram excelentes pela maneira que ele lambia os dedos depois

de tocá-las, mas logo não restavam mais pedaços de carne de porco, e neste

momento o querido e pequeno cachorro terrier irlandês apareceu trotando

pela rua, de maneira que Joey o colocou dentro da máquina e o cachorrinho

saiu do outro lado em forma de linguiça.

Foi esse ato insensível que transformou toda a alegria de David em

tristeza, e nos fez ir embora chorando para casa.

Deus sabe que não tenho a intenção de defender tal ato cruel, mas Joey

me contou depois que é muito difícil distinguir o engraçado do bárbaro. Fui

forçado a admitir a ele que David havia se divertido muito quando ele bateu

nas pernas do policial, e gritava com força “Faz de novo!” sempre que Joey

batia em sua perna e derrubava o homem com um chute e depois o ajudava

a levantar.

— Isso machuca o pobre camarada — disse Joey para mim, que

descobri, com uma agradável surpresa, ser uma pessoa que não queria de

maneira alguma magoar os sentimentos humanos. — E ele não suportaria

fazer isso se não houvesse a risada para encorajá-lo.

Ele afirmou que o cachorro também usava as risadas como motivação.

Mas ele não conseguiu convencer David a rir, cuja mãe, pai e babá

juntos não conseguiram confortá-lo, embora tenham jurado para ele que o

cachorro ainda estava vivo, no que ele teria acreditado se não tivesse visto

as linguiças. Foi para perguntar se algo podia ser feito para melhorar aquela

situação que enviei meu cartão para o palhaço, e o resultado de nossa

conversa foi que ele convidou a mim e a David para tomar um chá com ele

na próxima quinta-feira em seus aposentos.

— Não vou rir — disse David, ainda fiel à lembrança do cachorrinho

—, não vou rir nem uma vez.

E David fechou a boca com força quando nos aproximamos da casa no

Soho onde ficavam os aposentos de Joey, mas ele também segurou minha

mão, como alguém que sabia que seria difícil não rir.

A casa era bastante comum, mas havia uma loja de linguiças bastante

conveniente do lado oposto (acredito que Joey seja responsável por isso) e

vimos um policial na rua olhando para o outro lado, da maneira como

fazem antes de você passar por eles. Uma mulher usando o mesmo tipo de

roupas que pessoas de outras casas usam nos disse para subir até o segundo

andar, e ela sorriu para David parecendo que já ouvira falar sobre ele; então subimos, David resmungando com os dentes cerrados “não vou rir” e logo

que batemos na porta uma voz gritou:

— Aqui estamos nós de novo!

Com isso um arrepio tomou conta de David, como se ele temesse ter se

envolvido em uma missão impossível. Entramos, porém, e pensamos que a

voz certamente tinha vindo de seu quarto, pois não encontramos ninguém

ali. Olhei perplexo para David, e ele rapidamente colocou uma mão na

boca.

Era um cômodo engraçado, é claro, mas não tão engraçado quanto se

espera; havia coisas divertidas nele, mas elas não faziam nada engraçado,

era possível ver que aquelas coisas estavam ali só esperando por Joey.

Havia cadeiras acolchoadas com aparência agradável no meio da sala, e

uma mesa e um sofá de crina de cavalo. Nós nos sentamos com cuidado no

sofá mas nada nos aconteceu.

A maior peça de mobília era um enorme tronco de vime que tinha uma

meia bem colorida pendurada em um buraco, e percebi que Joey era o

homem mais engraçado da terra. David tentou puxar a meia do buraco, mas

ela era tão comprida que nunca chegava ao fim, e quando ela se mostrou ter

seis vezes a largura da sala ele cobriu a boca de novo.

— Eu não estou rindo — disse ele para mim, de maneira um tanto

feroz.

Ele até conseguiu não rir (embora tenha engolido o riso) quando viu na

beira da lareira uma foto de Joey usando roupas comuns, as peças de

vestuário que ele usava antes de se tornar um palhaço. Vocês não imaginam

como ele parecia engraçado usando aquelas roupas. Mas David não riu.

De repente Joey estava ao nosso lado. Não poderia ter sido mais

repentino, embora ele tenha saído de debaixo da mesa, e usava suas roupas

de pantomima (ele nos contou mais tarde que eram as únicas roupas que ele

tinha) e seu rosto vermelho e branco era tão engraçado que David fez

barulhos gorgolejantes, que eram sua risada tentando forçar passagem.

Apresentei David, que ofereceu sua mão de maneira formal, mas Joey,

em vez de apertá-la, colocou a língua para fora e começou a balançá-la e

isso era tão engraçado que David precisou mais uma vez se proteger

colocando a mão sobre a boca. Joey pensou que ele estava com dor de

dente, então expliquei o que aquilo realmente queria dizer e então Joey

disse:

— Ah, logo vou fazê-lo rir.

E então a seguinte conversa se estabeleceu entre eles:

— Não, não vai — disse David, obstinado.

— Sim, eu vou.

— Não, não vai.

— Sim, eu vou.

— Não vai, não vai, não vai.

— Vou, vou, vou.

— Cala a boca.

— Cala a boca, você.

Neste momento Joey estava em uma situação assustadora (porque ele

viu que estava extraindo o pior dele), e disse que estava com a risada de

David guardada em seu bolso, e David o desafiou a mostrá-la, e Joey

procurou em seus bolsos e tirou deles os artigos mais inesperados, incluindo

um pato e um monte de cenouras; e era possível ver pelas suas maneiras

que a alma simples pensava que estas eram coisas que todos os garotos

carregavam soltas em seus bolsos.

Eu me atrevo a dizer que David teria rido no final, se não houvesse

uma linguiça meio comida em um dos bolsos, e ao ver isso ele se lembrou

do cruel destino do pobre cachorro que uivou, e o coração de Joey foi

finalmente tocado, e ele também chorou, mas limpou seus olhos com o

pato.

Foi neste momento emocionante que o outro palhaço entrou, também

vestido da maneira como o havíamos visto da última vez, e trazendo,

infelizmente, uma bandeja cheia de linguiças que rapidamente aumentou a

tristeza geral, pois ele anunciou, com sua voz aguda, que aquilo era o que

sobrara do cachorro.

Então Joey pareceu ter uma grande ideia, e sua animação foi tão

impressionante que ficamos parados olhando para ele. Primeiro, ele contou

as linguiças, e disse que eram muito poucas, e encontrou outras duas na

manga do outro palhaço. Então correu para fora da sala e voltou com a

máquina de fazer linguiças; e o que vocês acham que ele fez? Ele colocou

as linguiças em uma ponta da máquina e girou a alavanca, e então o

cachorro saiu do outro lado.

Vocês podem imaginar a alegria de David?

Ele pegou o pequeno terrier nos braços; e então percebemos que havia

uma linguiça presa em seu rabo. O palhaço disse eles colocaram muita

linguiça na máquina, mas Joey disse que a máquina não tinha funcionado

bem e que ele temia que a linguiça fosse o latido do cachorro, o que deixou

David aflito, pois ele imaginou como deveria ser estranho para um cachorro

ficar com o latido do lado de fora, e estávamos pensando no que deveria ser

feito quando o cachorro encerrou a discussão ao engolir a linguiça.

Depois disso, David teve a hora mais hilária de sua vida, entrando nos

prazeres infantis desta família com tanta emoção como se tivesse sempre

lidado com o truque das linguiças, e derrubando o palhaço repetidas vezes.

Vocês não devem pensar que ele fez isso por maldade, ele o fez para

agradar o velho senhor, que implorou para que ele fizesse aquilo, e sempre

apertava suas mãos e dizia “obrigado” depois que ele o derrubava. São

pessoas bastante simples.

Joey chamava David e eu de “Filho” e pediu para David, que se dirigia

a ele como “Senhor Palhaço”, para chamá-lo de Joey. Ele também nos

contou que o nome do outro palhaço era velho Joey, e o da columbina era

Josy, e do arlequim, Joeykin.

Ficamos tristes ao ouvir que o velho Joey causava uma grande série de

problemas para ele. Isso porque sua memória é muito ruim e ele sempre

esquece se é a cabeça ou se são os pés que te colocam em pé, e

normalmente começa o dia levantando-se pela ponta que sai da cama

primeiro. Assim, ele precisa ser sempre vigiado, e o pior é que você não

pode se atrever a chamar atenção para o erro dele, pois ele é muito sensível

a isso. Joey havia acabado de nos contar isso quando o pobre velho

camarada começou a se virar de ponta-cabeça e ficou apoiado nela, mas

fingimos não perceber e conversamos sobre o tempo até ele chegar até nós.

Josy e Joeykin, de saias e lantejoulas, já estavam conosco neste

momento, pois também tinham sido convidados para o chá. Eles chegaram

dançando, e continuaram dançando durante a maior parte do tempo. Mesmo

no meio do que estavam dizendo começavam a girar; não é que eles

queriam dançar o tempo todo, mas qualquer coisinha já os fazia se mexer,

coisas como sentirem uma corrente de ar; e David achou que ele poderia

assoprá-los pela sala como se fossem pedaços de papel. Era possível ver

pelo comprimento do vestido de Josy que ela era realmente muito jovem, e

no início isso o deixou tímido, como ele sempre fica quando é apresentado formalmente a garotinhas, e começou a chupar o dedo, assim como ela, mas

logo a timidez se afrouxou e os dois se sentaram juntos no sofá, um

segurando a mão do outro.

Durante todo esse tempo o arlequim girava parecendo um lindo peixe,

e David pediu para que ele pulasse na parede, algo que ele gosta muito de

fazer, e a princípio ele disse que faria aquilo, e depois disse que era melhor

não fazer, pois na última vez em que fez isso as pessoas na casa ao lado

reclamaram. David precisou concordar que deve ser bastante incômodo

para as pessoas do outro lado da parede, mas ficou triste por isso.

Agora o chá estava pronto, e Josy, que serviu o chá, lembrou-se de

perguntar se tomávamos leite com apenas uma gota de chá nele, exatamente

como sua mãe teria perguntado. Não havia nada para comer, é claro, além

de linguiças, mas havia muitas linguiças! Centenas, pelo menos, cordões de

linguiças, e de vez em quando Joey se levantava e pulava cordas com elas.

David havia sido ensinado a não ser guloso, mesmo que se sentisse guloso,

e ele ficou chocado ao ver a maneira como Joey e o velho Joey e até mesmo

Josy olharam para as linguiças que haviam dado para ele. Logo Josy

desenvolveu sentimentos mais nobres, pois ela e Joeykin de repente se

apaixonaram loucamente um pelo outro do outro lado da mesa, mas não

afetada por esta linda imagem, Joey continuou a colocar linguiças inteiras

em sua boca de uma só vez, e então se abaixou um pouco para se esfregar,

enquanto o velho Joey contava para eles em segredo sobre sua pessoa; e

quando David não estava olhando os dois pegavam mais linguiças, e ainda

assim eles corriam constantemente para o topo da escada e gritavam para o

serviçal trazer mais linguiças.

Era possível ver que Joey (se você o pegasse com a mão no prato)

estava com um pouco de vergonha de si mesmo, e admitiu para nós que

linguiças eram sua paixão.

Ele disse que nunca em sua vida comeu um número suficiente de

linguiças. Elas o deixavam louco desde que ele era um garotinho. Ele nos

contou como, mesmo naqueles dias, sua mãe temera por ele, embora ela

também gostasse de linguiças; e que ele havia comprado uma linguiça com

o primeiro centavo que ganhou, e que pretendia comprar uma linguiça com

o último centavo que ganharia (se elas não pudessem ser adquiridas de

alguma outra maneira), e que ele sempre dormia com um cordão de

linguiças embaixo de seu travesseiro.

Enquanto ele estava nos contando essas coisas, infelizmente, seus

olhos brilharam, primeiro acidentalmente, e depois com vontade, para o

cachorrinho, que estava brincando em cima da máquina de fazer linguiças, e

suas mãos começaram a seguir aquela direção. Neste momento David,

subitamente amedrontado, alcançou o cachorro com um braço e cerrou o

outro punho, e então Joey implorou por seu perdão e caiu no choro, jogando

cada lágrima contra a parede, onde explodiam fazendo um barulho.

David recusou-se a perdoá-lo a menos que ele prometesse nunca olhar

daquela maneira para o cachorro novamente, mas Joey disse que promessas

não significavam nada para ele quando ele estava sem linguiças, e então sua

ação mais sábia seria presentear David com o cachorro. Ah, a alegria de

David quando entendeu que o cachorrinho que salvara agora era seu! Posso

dizer que agora ele tinha pressa em ir embora antes que Joey mudasse de

ideia.

— Só peço — disse Joey com a voz emocionada — que você dê a ele

o meu nome e sempre lhe dê linguiças, filho, nas noites de sábado.

Havia uma dignidade silenciosa sobre Joey no final, que mostrava que

ele poderia ser uma pessoa bastante distinta, não fosse sua paixão fatal.

A última vez em que o vimos foi na rua. Ele mostrou sua língua para

nós daquela maneira atraente e tola, e Josy estava apoiada nas mãos de

Joeykin como se fosse uma borboleta que pousara em uma flor. Não

pudemos exatamente ver o velho Joey, mas vimos seus pés, e então

tememos o pior. Claro que eles não são tudo o que alguém deve ser, mas é

impossível não gostar deles.

 

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